As letras de Renato Russo dariam, se é que já não deram, maravilhosos tópicos para mestrados e doutorados, dos mais diversos temas, da psicologia à literatura. São infinitos os assuntos abordados em suas músicas e infinitos também as suas interpretações. É impressionante ver as pessoas buscarem os mais variados significados, mesmo que errôneos, em músicas como Meninos e Meninas, Pais e Filhos, Giz e até mesmo na saga de João de Santo Cristo, em Faroeste Caboclo. Na primeira ele assume sua homossexualidade, a segunda fala dos erros cotidianos que tanto distanciam as pessoas. Na terceira, Renato lembra sua infância, enquanto na última, brinca com a carência de heróis nacionais e a migração desordenada do povo, em busca de uma vida melhor na Capital Federal. Basta digitar algo relacionado no Google para encontrar diversas discussões em fóruns e blogs pela internet.
Entre todas essas letras, verdadeiros poemas, talvez a mais intrigante e passível de interpretações seja a música “Índios” (assim mesmo, com aspas), divulgada ao público no álbum “Dois” da Legião Urbana. Nela existem, a cada estrofe, frustrados apelos por impossibilidades que tanto afligem a alma: “Quem me dera/Ao menos uma vez…”
Para entender a música completamente, é preciso primeiro conhecer o contexto no qual ela foi composta, em 1984: Renato Russo acabava de se recuperar de uma tentativa de suicídio na qual havia cortado os pulsos. O motivo ninguém sabe ao certo. O próprio cantor disse ter sido por acidente, não para se “matar nem nada. Foi frescura, estava bêbado”, foi sua explicação. Por acidente ou não, Renato estava depressivo e parecia estar fazendo um balanço de toda a vida, que lhe passava diante dos olhos, e “Índios” parece ter sido a válvula de escape da época: preto no branco tudo o que ele sentia em relação à vida e ao mundo naquele momento. Foi assim que, a cada estrofe, o cantor citou vários e complexos problemas, não só dele, mas de toda a humanidade.
A primeira estrofe da música faz alusão aos próprios índios colonizados: Quantas pessoas nos roubam nossa essência e dizem que, ao nos doarmos, estamos dando uma prova de amizade: o ouro dos antigos índios?
Os índios só são citados novamente na 12ª estrofe, já próximo da conclusão, dessa vez fazendo alusão ao fato da “inocência”, em seu sentido mais amplo, nos tornar alvos de pessoas corruptíveis, o que nos faz facilmente domesticáveis. Mas a inocência não era pra ser algo bom?
O que estas estrofes querem dizer é que somos todos índios nas mãos dos colonizadores: constantemente enganados, comprados e escravizados, tudo em nome do nosso próprio bem.
Mas não é dos índios que quero falar aqui. Então passemos adiante.
A terceira estrofe é uma das mais interessantes: quem de nós consegue explicar o que ninguém consegue entender? E já pararam pra pensar que os fatos do passado teimam em se repetir no futuro? E os versos mais interessantes: “o futuro não é mais/como era antigamente.” Nestes últimos versos, Renato fala de sonhos e planos que, por mais que os realizemos, nunca são como realmente queríamos. Nosso futuro nunca será exatamente da forma como sonhamos ser.
Os sonhos são citados novamente na décima estrofe. Dessa vez um sonho coletivo: a felicidade plena de todo o mundo. Como realmente seria bom para nós, mesmo que não fosse verdade, “acreditar/ que o mundo é perfeito/ e que todas as pessoas/ são felizes.” Seria um alívio para os mais sensíveis corações humanos, pelo menos “por um instante”.
E o culpado de tudo isso, Renato só apresenta nos dois últimos versos da quinta estrofe: “nos deram espelhos/ e vimos o mundo doente.” Eis que o tumor do mundo está em nós mesmos. Basta olharmos para nossa própria face e veremos que não é a ação de terceiros sobre nós, mas também a ação de nós sobre os outros. Não é só o mal que nos causam, mas o mal que causamos!
E isso nos leva ao assunto principal a ser abordado aqui: o porquê da corrupção da inocência, da frustração diante dos sonhos realizados e da ganância e materialismo citados em outras estrofes da música. A culpa que deriva de nós e nos é apresentada no refrão. Afinal, quem é o “você” pelo qual o cantor suplica no refrão de “Índios“?
“Eu quis o perigo/ e até sangrei sozinho./ Entenda!/ Assim pude trazer/ você de volta pra mim.” É este “você” o único capaz de entendê-lo, “do início ao fim”. Outra parte interessante do refrão é quando Renato diz sentir saudades de tudo o que ainda não viu. Ou seja, de um futuro que nunca existiu, a não ser nos sonhos. E o único capaz de curar essa saudade, seria o mesmo “você” citado acima.
Os dois primeiros versos do refrão são fáceis de entender. Renato havia cortado os pulsos e sangrara sozinho em busca de alguém. Alguém que conseguisse curar suas frustrações. Mas quem? A resposta está nas 6ª e 11ª estrofes, respectivamente:
“Quem me dera
Ao menos uma vez
Entender como um só Deus
Ao mesmo tempo é três
Esse mesmo Deus
Foi morto por vocês
Sua maldade, então
Deixaram Deus tão triste.””Quem me dera
Ao menos uma vez
Fazer com que o mundo
Saiba que seu nome
Está em tudo e mesmo assim
Ninguém lhe diz
Ao menos, obrigado.”
Sim, a conclusão é exatamente essa: homossexual, alcólatra e viciado em drogas, depressivo e solitário, mesmo rodeado de sua legião de fãs, Renato Russo, naquele momento quase derradeiro, se apegou a Deus. O Deus Único, Católico ou Protestante, não importa.
Renato pode não ter confessado em entrevistas, mas confessou em sua música o motivo daquela tentativa de se matar. Ele estava só. Aquela solidão que nenhum ser humano é capaz de preencher. Renato Russo se sentia afastado de algo superior que antes dava um sentido maior à sua vida. Talvez essa conclusão seja um bocado pretenciosa, mas é apenas a interpretação deste simples orc perante a mente genial de um Monstro da música. No início, a própria conclusão da música parece ser irônica, mas ao fim ela se mostra bem sólida em seu caminho.
Além de um desabafo, “Índios” é um espelho. Ouvir a música nos faz pensar em nós mesmos. Afinal, os males do mundo estão em nós. Todos temos as mesmas frutrações. Nos doamos e nada ganhamos. E quantas vezes nos doam sem nada darmos em troca. Sonhamos e nunca realizamos, pelo menos não como deveria ser. Nos frustramos, nos frustramos e nos frustramos. Em maior ou menor grau, eis o eptáfio de todo ser humano.
Quanto ao motivo pelo qual a música se chama “Índios”, talvez eu não saiba responder, mas Renato, uma vez indagado sobre isso, respondeu: “Essa música não fala sobre índios. Fala sobre ‘Índios’”. E quem são os índios? E quem somos nós?
*ABAIXO SE ENCONTRAM, PARA MELHOR ENTENDIMENTO DO LEITOR, UM CLIP DA MÚSICA E SUA LETRA:
“Índios”
Quem me dera
Ao menos uma vez
Ter de volta todo o ouro
Que entreguei a quem
Conseguiu me convencer
Que era prova de amizade
Se alguém levasse embora
Até o que eu não tinhaQuem me dera
Ao menos uma vez
Esquecer que acreditei
Que era por brincadeira
Que se cortava sempre
Um pano-de-chão
De linho nobre e pura sedaQuem me dera
Ao menos uma vez
Explicar o que ninguém
Consegue entender
Que o que aconteceu
Ainda está por vir
E o futuro não é mais
Como era antigamente.Quem me dera
Ao menos uma vez
Provar que quem tem mais
Do que precisa ter
Quase sempre se convence
Que não tem o bastante
Fala demais
Por não ter nada a dizer.Quem me dera
Ao menos uma vez
Que o mais simples fosse visto
Como o mais importante
Mas nos deram espelhos
E vimos um mundo doente.Quem me dera
Ao menos uma vez
Entender como um só Deus
Ao mesmo tempo é três
Esse mesmo Deus
Foi morto por vocês
Sua maldade, então
Deixaram Deus tão triste.Eu quis o perigo
E até sangrei sozinho
Entenda!Assim pude trazer
Você de volta pra mim
Quando descobri
Que é sempre só você
Que me entende
Do início ao fim.E é só você que tem
A cura do meu vício
De insistir nessa saudade
Que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.Quem me dera
Ao menos uma vez
Acreditar por um instante
Em tudo que existe
E acreditar
Que o mundo é perfeito
Que todas as pessoas
São felizes…Quem me dera
Ao menos uma vez
Fazer com que o mundo
Saiba que seu nome
Está em tudo e mesmo assim
Ninguém lhe diz
Ao menos, obrigado.Quem me dera
Ao menos uma vez
Como a mais bela tribo
Dos mais belos índios
Não ser atacado
Por ser inocente.Eu quis o perigo
E até sangrei sozinho
Entenda!Assim pude trazer
Você de volta pra mim
Quando descobri
Que é sempre só você
Que me entende
Do início ao fim.E é só você que tem
A cura pro meu vício
De insistir nessa saudade
Que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.Nos deram espelhos
E vimos um mundo doente
Tentei chorar e não consegui.
Snaga é um sonhador, alguém que criou seu próprio mundo e hoje vive boa parte do tempo nele e em função dele. É fanático por cinema, literatura e música de qualidade e, não à toa, faz faculdade de comunicação. Vive para criar e dar vida, afinal "criamos tal como fomos criados".

Oi!!!
Cheguei aqui a partir do blog Leituras & Releituras, da Míriam Fajardo…
Me encantei com tua proposta… os Contos do Covil!
Vou indicar teu espaço para minhas (meus) alun@s do curso normal…
Com certeza, andarei sempre por aqui…
Abraços!
Fiote.. primeiro cumprimento pelos comentários da professora aí acima, agora, viajaste um pouco em índios, embora sua mensagem esteja explícita.
Abço
É oreiudo… sou tarada por legião e vim parar aqui através dos blogs diversos do Edu. Amei a interpretação. É fantástica, é viajada sim, mas tudo em cima da lógica! Parabéns menino!
bjão
Estou trabalhando o processo de colonização das américas com uma das minhas turmas e seu post me inspirou para uma aula. Vou passar o clipe e a letra para os alunos e pedir que eles escrevam um texto contextualizando a música e a história.
Obrigada pela inspiração
Pode ter se empolgado um pouco ao falar o que a música fala para vc… na verdade acho que cada ouvinte, se for um bom ouvinte consegue dela tirar inúmeras interpretações a cada escutada…
Mas não discordo da tua opinião… apenas acho que ela é uma entre as mil existentes…. ela cabe em inúmeros momentos de revolta, de tristeza de libertação… ela fala por si e não precisa de real interpretação… mas toda interpretação é válida…
E tua forma de interpretar me fez parar por aqui e te visitar com frequência.
Sou viciada em legião… sou apaixonada ao extremo… pra mim, é quase hino!
<3
E como ja foi citado a musica fala por si so,reflete cada um que somos. Isso sim e cultura,ETERNAMENTE RENATO RUSSO.
Muito boa toda explicação. Parabéns