As Solidões de Oswaldo Montenegro

SolidõesOswaldo Montenegro é, acima de tudo, um poeta. Seus versos são poéticas, suas melodias são poéticas e suas apresentações musicais idem. Sendo assim, ao se aventurar pelo cinema, o resultado não poderia ser diferente: seus filmes são magistralmente poéticos.

Em seu primeiro longa, Léo e Bia (Brasil, 2010), Montenegro usou da linguagem teatral para narrar uma história de amizade, afeto, comunhão e fidelidade (com forte cunho político, é verdade). Agora, três anos depois, ao lançar sua segunda aventura cinematográfica, o diretor nos apresenta o lado contrário daquele primeiro cenário: a solidão.

Em Solidões (Brasil, 2013), que foi rodado com recursos próprios e co-produzido pelo Canal Brasil, Oswaldo Montenegro cria um emaranhado de histórias paralelas, passadas em lugares diversos do país, mas ligadas pelo sentimento que dá título ao filme. Cada “conto” nos apresenta um personagem distinto, em situações ora comuns, ora inusitadas: a moça que convenientemente perde a memória quando sua vida não mais a agradava; o homem que se encontra consigo mesmo em uma realidade paralela; a jovem apaixonada que aguarda o namorado no bar, ou o garçom cantor que a ampara no seu momento de abandono;  a mulher solitária que é tentada pelo diabo em pessoa – tão solitário quanto ela própria; ou ainda o músico do interior mineiro que vai para o Rio em busca da fama. Todas estas histórias têm como base um texto forte, satírico e, muitas vezes, metafórico, com diálogos significativos e inteligentes, voltados sempre para expor, de forma crua, a solidão diversa e, ao mesmo tempo, comum dos personagens.

Solidões3Contadas de forma fragmentada e unidas sob um mesmo tema, as narrativas formam um mosaico de fantasia, ficção e realidade. Aliás, é praticamente impossível discernir o que é real e o que não é neste longa de Montenegro. De forma apurada, o diretor mescla atuações com entrevistas e cria uma mistura de documentário e dramatização. Tudo isso intercalado com sequências abstratas em linguagem de videoclip, com bailarinos, manequins, performances de dança e tantas outras.

As interpretações não são excelentes, mas não deixam a desejar. Vanessa Giácomo é ao mesmo tempo personagem e narradora e se destaca no elenco, que conta ainda com Pedro Nercessian e os desconhecidos Renato Góes e Mayara Millane, além do próprio Montenegro e sua eterna parceira artística, Madalena Salles.

Solidões4Dentre tudo isso, o que mais pode incomodar o espectador comum, acostumado à narrativa linear e à técnica refinada do cinema blockbuster, pode ser a fotografia e a arte. A Direção de Arte de Solidões foge completamente dos padrões e cria cenários artificiais e minimalistas, com cores vibrantes, quentes. Em Léo e Bia, o cenário único de um galpão vazio reforçava a linguagem teatral do filme, mas em Solidões a composição parece não se encaixar. O que parecia agregar em Léo e Bia, em Solidões parece empobrecer. Por tratar-se de muitos cenários e, principalmente, por contrastar com sequências externas, a artificialidade acaba por causar um impacto deveras negativo. Apesar disso, é chocante em muitos momentos, principalmente ao compor metáforas através dos objetos de cena e maquiagens. A Direção de Fotografia, por sua vez, apesar de inteligente em seu arranjo, brincando com cenas em preto e branco e coloridas, peca em sua parte mais técnica, muitas vezes compondo cenas mal iluminadas ou mesmo granuladas. Mas são apenas incômodos que nada estragam o longa – e talvez até mesmo o enriqueça mais, já que em muitas vezes, principalmente na Direção de Arte, essas composições são claramente intencionais.

Solidões2O maior problema de Solidões, talvez realmente o único, é o áudio. A capitação, mixagem e edição de som chegam a ser amadorísticas. Os cortes do áudio são perceptíveis a todo o momento e, vez por outra, há mesmo uma interrupção brusca na sonorização do filme. As falas dos atores aparecem muitas vezes com o áudio rachado e estourado, a ponto de doer os ouvidos e dispersar o espectador do que está sendo dito. E, sendo Montenegro um músico, acostumado a gravações de áudio, fica difícil entender o motivo desta falha.

De um modo geral, Solidões não é melhor que Léo e Bia – e fica longe de ser tão bom quanto. Entretanto não deixa de ser um belo filme, inteligente, emocionante e, principalmente, envolvente. A poesia de Montenegro, seu roteiro inusitado e calcado na essência do ser humano e a montagem fragmentada fazem de Solidões uma obra única e marcante. “Faça uma lista de grandes amigos,/ quem você mais via há dez anos atrás./ Quantos você ainda vê todo dia?/ Quantos você já não encontra mais?”

Nota: Solidões, que estreou dia 1º de novembro deste ano em 6 capitais do Sul e Sudeste, rodará todo o país, sendo apresentado apenas um dia em cada cidade e contando com a presença do próprio Montenegro, que ministrará um debate após a apresentação. Maiores informações no site oficial do músico: http://www.oswaldomontenegro.com.br

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Somos Tão Jovens – A mitografia de Renato Russo

Somos tão jovensÉ preciso entender que Somos Tão Jovens (Brasil, 2013) não é um filme biográfico, mas mitográfico. O roteiro de Marcos Bernstein não trata Renato Russo como pessoa, mas como ídolo, como mito. Está ali o cantor-herói, erudito e tão imerso em suas próprias composições. Estão ali também todas as lendárias histórias do rock brasiliense, os personagens marcantes e as famosas canções. Enfim, o filme do diretor Antônio Carlos Fontoura não trás nenhuma novidade e é tão leve quantos seus longas anteriores.

A história inicia-se com uma rápida passagem pela epifisiólise de Renato Russo, a doença que, aos 15 anos de idade, o deixou acamado por seis meses e outros doze com dificuldades para andar. E daí conta toda a trajetória do jovem, sua paixão por música, sua conversão ao punk, as influências, os amigos, a formação do Aborto Elétrico, até chegar à famosa Legião Urbana.

Mesmo que o roteiro seja morno, o filme é cheio de pontos fortes e tem muito para ser apreciado. A começar pela ótima escolha de Thiago Mendonça para o papel principal. Ao representar Renato Russo, o ator convence até o fã mais crítico, tanto com seus trejeitos quanto com sua voz ao cantar. A abertura do filme, aliás, chega a confundir o expectador: afinal de contas, quem está cantando? Renato ou Thiago?

Somos tão Jovens2

Outros atores também estão excelentes em seus papéis. Laila Zaid ajuda a conduzir o filme todo e é capaz de salvar muitas cenas, apenas por estar presente. Edu Moraes, apesar de parecer um pouco caricato, incorpora com maestria a personalidade do músico Hebert Viana e imita sua voz com perfeição. A família Manfredini também está impecável, com destaque para a lindíssima Bianca Comparato, que faz uma divertida interpretação de Carmem Teresa, a irmã de Renato. Mas o restante do elenco, apesar de muito bem caracterizados e fisicamente parecidos com seus originais, faz feio a maior parte do filme, com interpretações fracas e caricatas.

A caracterização, aliás, é uma das maiores qualidades de Somos Tão Jovens. É muito fácil reconhecer no elenco a identidade dos personagens reais, em parte pelo trabalho de maquiagem e figurino, em parte pelas tomadas muito bem escolhidas.

Alguns fortes contraste entre luz e sombra e a câmera em constante movimento compõem ótimas sequências de drama. De um modo geral, a Fotografia criada pelo estreante Alexandre Ermel ajuda a enriquecer o longa, situá-lo em sua época (o início da década de 1980) e compor sua história.

O único e maior problema do longa fica mesmo por conta do péssimo roteiro. O experiente Marcos Bernstein – roteirista de Chico Xavier, o tocante O outro Lado da Rua e o premiadíssimo Central do Brasil – erra mão ao manter nivelada a história de Somos Tão Jovens. Não há um ápice no roteiro, as pequenas tramas não se fecham em seu decorrer, não há curva dramática e sequer há um final. O filme termina em aberto, apenas com um letreiro na tela, discorrendo sobre o futuro da Legião Urbana.

Somos tão Jovens3Os diálogos criados por Bernstein não ficam naturais na boca dos personagens e, devido a isso, a vida de Renato Russo parece se tornar artificial. Apesar da brilhante atuação de Thiago Mendonça, aquele não é o Renato homem, mas o cantor mito, que dialoga através de versos, que usa de sua poesia para conversar no dia-a-dia e que se apresenta sempre (e sem dúvidas) como o grande astro que será no futuro – como se já fosse um rock-star desde a mais tenra infância.

Os dramas pessoais são quase totalmente deixados de lado e dão lugar à explicações ilógicas sobre a composição de suas músicas, tentando contextualizar cada um de seus versos mais famosos. Enquanto na cinebiografia de Cazuza, sua música era usada como complemento para o filme, em Somos Tão Jovens, o filme é usado como complemento para as canções.

A homossexualidade de Renato é apresentada de forma quase lúdica e muito pouco explorada. As drogas e o alcoolismo apenas pincelados. Renato Russo, o lendário rock-star, está ali presente, como sempre fora apresentado pela mídia, mas Renato Manfredini Júnior, o homem por detrás do mito, com sua mente conturbada, suas tendências depressivas e sua intimidade, não está presente neste longa. É mais fácil encontrá-lo em sua própria poesia.

Somos tão jovens4

Gangnam Style, Latino e a Educação Brasileira

O mais novo hit da música mundial veio lá do outro lado do mundo, com língua quase impossível de se pronunciar e entender e é cantado por um rapper gordinho em um clipe aparentemente sem noção. Em contrapartida, aqui no Brasil, esta mesma canção foi copiada e deturpada pelo cantor pop/funkeiro Latino.

Na canção original, chamada Gangnam Style (estilo Gangnam), cantada pelo rapper Psy, busca-se “uma mulher elegante que saiba apreciar um convite para um café”, “uma mulher que é sexy, mesmo sem se mostrar muito” e que se interesse por “um cara que tem mais idéias do que músculos”.

A versão “latina”, porém, segue por outro viés. Aproveitando apenas do ritmo, o cantor brasileiro transformou Gangnam Style em Despedida de Solteiro. E os versos – com o perdão da palavra – na mais pura putaria. Deixa-se de lado a mulher ideal para poder aproveitar uma despedida de solteiro, “laçar, puxar, beijar”, ver “as minas todas nuas”, “de bumbum pra lua”.

Comparação das Letras (clique para ampliar)

Mas de onde mesmo é esse tal de Psy? Ah, é verdade, ele é da Coréia do Sul. É só um minúsculo país lá do outro lado do Pacífico, que tem uma irmã siamesa problemática. É só um país que já foi invadido pelos japoneses e ocupado por quatro anos. É só um país que foi espremido entre EUA e URSS, foi dividido em dois e reduzido a quase nada durante a Guerra da Coréia, na década de 1950. Mas é também o país que mais investiu em educação nos últimos 50 anos e que, devido a isso, deixou no passado toda a destruição que sofreu e é hoje uma potência tecnológica, com um dos mais altos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do mundo. Em 2006, no ranking do Programa Internacional de Avaliação dos Alunos, os sul-coreanos ficaram em primeiro lugar na resolução de problemas, terceiro lugar em matemática e décimo primeiro em ciência. O sistema educativo está tecnologicamente avançado e foi o primeiro país do mundo a equipar todas as suas escolas primárias e secundárias com Internet de banda larga. Com esta infraestrutura, a Coréia do Sul tem desenvolvido os primeiros livros didáticos digitais no mundo, que serão distribuídas de forma gratuita aos estudantes do ensino primário e secundário até 2013.

Opa, mas calma lá. Toda essa tempestade por causa de uma música? Não seria demasiado exagero? Não, não seria.

Psy e Latino têm um mesmo nicho de público – os jovens e os adolescentes. Ambos fazem músicas divertidas e agitadas, com coreografias animadas, que servem para embalar qualquer festa. Entretanto, enquanto o sul-coreano conversa com um público consciente e – porque não? – honrado, Latino precisa falar sobre a “realidade” brasileira, ou seja, “vou ser um vagabundo que anda pelas ruas em busca de sexo fácil e faço das mulheres o que eu bem entendo”… mais ou menos por aí

E tudo isso é reflexo da educação e do desenvolvimento cultural e social do público. Enquanto os coreanos aceitam com facilidade um rapper com responsabilidade social, os brasileiros insistem no funk da sacanagem. Uma sociedade bem educada presa por valores que vão além do “puxar, beijar, vou te pegar… eu quero sexo pra galopar”. Um jovem bem educado valoriza a si mesmo e sabe valorizar os demais à sua volta, sem tratar como objeto aqueles que o rodeiam, sem se prestar à orgia como um modo natural de diversão.

Outro fator importante é o comércio cultural. Com cultura desenvolvida e povo educado, não é necessário roubar um ritmo estrangeiro para se fazer sucesso. Quem sabe cria, não copia! Não pega carona no sucesso de outros para fazer sucesso também. Não plagia! E nesse comércio, o balanço brasileiro é sempre negativo, pois foram raros os momentos da História em que exportamos nossa cultura e nossa criatividade, enquanto a importação da cultura estrangeira nunca cessou em nosso país. Quantas paupérrimas  versões de músicas estrangeiras a Jovem Guarda não fez? E o sertanejo romântico, o pop, ou mesmo o rock? Até a MPB tem canções importadas. E o que da nossa cultura é empurrado para o mundo? A Bossa Nova, que nem sequer existe mais? Não, exportamos o “ai, se eu te pego”.

Recentemente, Cristovam Buarque, o político que mais luta pela educação deste país, disse que “o Brasil vive um apagão intelectual”, referindo-se ao resultado do Ideb deste ano, que não chegou aos 4 pontos entre as escolas públicas e não passou dos 6 entre as particulares. Ainda nas palavras dele, nós “avançamos ficando para trás. Coreia do Sul, Índia, China e Irlanda, que há trinta anos atrás estavam em situação pior que o Brasil, hoje estão melhor, pois fizeram o dever de casa.”

Se nossos músicos precisam importar canções estrangeiras para fazer sucesso por aqui, isso nada mais é que um reflexo do restante do país, cuja economia é baseada na reprodução de produtos criados lá fora, desenvolvidos por marcas estrangeiras.

E o nosso dever de casa, quando é que será feito?

O Contexto Social de Gangnam Style

O contexto de Gangnam Style, a história por detrás do clipe e o que diz os versos originais vão muito além de um ritmo divertido e uma sequência de imagens aparentemente aleatórias e coloridas. Gangnam  é um dos bairros mais ricos de Seul, a capital da Coréia do Sul. Porém, para um país baseado em valores de trabalho duro e honra, o bairro, devido à sua história rápida de formação e desenvolvido (pouco mais de 20 anos), é marginalizado pelo restante da cidade. Ali seus moradores enriqueceram da noite para o dia, mas não por seguir os valores tradicionais sul-coreanos de trabalho e sacrifício, mas sim devido à especulação imobiliária, que tornou a região extremamente valorizada, cuja média de preço de um apartamento é de US$ 716 mil e com escolas cerca de quatro vezes mais caras que no restante do país. Parece estranho para nós brasileiros, mas sim, são ricos excluídos do restante da sociedade.

De uma maneira divertida, Psy trabalha com essas questões culturais em seu clipe, que para nós passam totalmente despercebidas e parece que tudo é uma sequência de imagens sem nexo. O rapper, que vem de uma família rica da região de Gangnam, foge do pré-conceito existente sobre os moradores deste distrito. O personagem do videoclipe não frequenta as caras boates locais, nem as academias abarrotas de coreanas esculturais. Tampouco tem o corpo modelado por cirurgiões plásticos. Pelo contrário, ele dança em um ônibus lotado, cheio de velhinhos aposentados; faz seu discurso sentado em um vaso sanitário; é gordinho e nada bonito; frequenta saunas com gangsteres e lugares cheios de lixo. É um riquinho hipócrita querendo parecer pobre? Talvez. Mas mais que isso, é uma paródia – extremamente divertida – de si mesmo. Talvez nada muito digno de admiração, no entanto há ainda a letra da música a ser considerada. Na canção, busca-se a mulher ideal, que queira viver ao lado de “um cara que tem mais ideias do que músculos”. E só por isso já merecia um bocado de respeito.

Atualização de Última Hora

Qual não foi minha surpresa, enquanto pesquisava para escrever este post, descobrir que a canção Despedida de Solteiro de Latino, está sendo boicotada pelo público!

Uma campanha pela internet convoca os internautas a dar o maior número de deslikes (negativações) na música postada no canal oficial do cantor no YouTube. Até o momento já foram mais de 120 mil deslikes. Estou dando risada! Hahaha

Quem quiser aderir à campanha, basta clicar aqui e dar um voto negativo ao vídeo.

Com informações do G1, Terra, O Globo e Wikipédia.

Atualização 2

Acho que isso encerra o assunto! hahaha

A Geração Coca-cola Morreu

“Geração Coca-cola” deveria ser proibida e jamais tocada novamente por qualquer banda! Uma das mais desafiadoras canções de Renato Russo marcou uma geração, mas perdeu seu contexto, ficou desatualizada, deixou de fazer sentido. Ouvi-la e cantá-la hoje em dia é pura hipocrisia!

Composta por volta de 1978-9, “Geração Coca-cola” é destinada a um público em específico: jovens que nasceram na ditadura militar, viram a repressão, sentiram a estagnação e lutaram – em segredo ou não – para pôr fim ao governo tirânico dos generais. Era uma época completamente diferente da atual. O restante do mundo se dividia em dois, em uma guerra não declarada, às portas de uma possível aniquilação da vida sob o inverno nuclear. As pessoas tinham motivos para lutar e transgredir. Havia um “inimigo” em comum a ser combatido, a rebeldia adolescente não era sem causa e o povo não apenas clamava por mudanças… eles agiam!

“Quando nascemos fomos programados a receber o que vocês nos empurraram com os enlatados dos U.S.A, de nove as seis.”

Após a Segunda Guerra Mundial, a influência norte-americana sobre os países capitalistas crescia cada vez mais. A cultura pop estadunidense e sua indústria eram literalmente impostas aos países amigos. A marca Coca-cola, que intitula a canção, já estava presente no Brasil desde 1942, mas só ganhou força nacional no início da década de 1970, tornando-se o ícone máximo do imperialismo norte-americano.

Legra original de Geração Coca-cola

No Brasil, a programação televisiva era dominada pelos seriados americanos. Mesmo o horário citado na letra da canção não foi escolhido aleatoriamente. Os períodos da manhã e da tarde tinham baixa audiência (como têm ainda hoje) e, portanto, era bem mais barato para as emissoras de TV brasileiras retransmitirem programação estrangeira que produzir algo original. O “horário nobre” começava (e ainda começa) às 6h da tarde, quando finalmente uma programação nacional entrava no ar, com telejornais, novelas, musicais e programas de variedades. Das 9h às 18h, no entanto, o que mais se via eram os chamados “enlatados americanos”, em referência aos produtos industrializados importados.

“Desde pequenos nós comemos lixo comercial e industrial, mas agora chegou nossa vez, vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês”.

A economia ia bem, porém quase nada era originalmente brasileiro. Indústria e comércio automotivos e alimentícios eram filiais de empresas estrangeiras, que chegavam ao país apenas com a promessa de empregos, pois levavam para fora todo o lucro e seus royaltys. Impulsionados pela publicidade da TV, os jovens consumiam tudo o que era produzido ou importado e assim, levando adiante a máxima latina panem et circensis, o governo tentava acalmar e manejar as massas.

Show do Aborto Elétrico na UnB (1978)

Entretanto era chegada a hora de revidar e aqui começa a coragem de Renato Russo e companhia ao propor, lá em Brasília, debaixo dos bigodes dos generais, “cuspir de volta o lixo em cima” dos repressores. E, dessa maneira, ele intitula sua própria geração como “filhos da revolução”, “burgueses sem religião”, “futuro da nação”… e o título que marcaria para sempre os jovens setentistas e oitentistas: “Geração Coca-cola”.

“Depois de 20 anos na escola não é difícil aprender todas as manhas do seu jogo sujo. Não é assim que tem que ser?”

Era o momento de mudar, de deixar de ser o “país do futuro” para assumir sua posição no presente. Os jovens começavam a se manifestar abertamente. O próprio movimento das Diretas Já aconteceria dali a 3 anos apenas. Os 20 anos de escola, citados na música, podem fazer referência tanto aos estudos em si, quanto ao tempo de ditadura, que já governava por quase duas décadas. E engana-se quem pensa que o verso final desta estrofe é uma negativa: é uma ofensiva indagação.

O “dever de casa” citado logo a frente faz exata referência a essas mudanças, a esse novo modo de pensar, à experiência adquirida com o tempo.

“Vamos fazer nosso dever de casa e aí então vocês vão ver suas crianças derrubando reis, fazer comédia no cinema com as suas leis.”

As crianças criadas pela ditadura militar haviam crescido, iriam se voltar contra seus criadores e debochar das leis que eles criaram. Iriam fazer comédia no cinema com tudo aquilo que estava prestes a acabar.

Primeiro álbum da Legião (1985)

Eles – toda a juventude da época – eram os filhos da revolução. Eram a Geração Coca-cola. Mudaram o país, venceram seu inimigo, derrubaram o mal que os dominava. E prometeram um país melhor daí por diante.

Mas a Geração Coca-cola morreu.

Se renderam ao tempo, ao sistema, ao modo de vida que antes abominavam.

As pessoas que na época ouviam Aborto Elétrico estão hoje com seus 45 ou 50 anos, muito bem vivos, casados, pais de família, ativos no mercado de trabalho. No entanto diferentes, talvez céticos e endurecidos demais para terminar o que começaram há 30 anos atrás.

Os velhos “inimigos” tornaram-se sombras de um passado remoto e os novos parecem se misturar à multidão de tal maneira, que passam totalmente despercebidos. Tão, mas tão despercebidos que, muito provavelmente, você mesmo que agora lê este texto, pode ser um destes novos repressores… só não percebeu isto ainda.

E diante de tanta estagnação, a geração do século XXI parece ter se acomodado. Diz, mas não faz; reclama, mas não luta; clama, mas não busca. Deixe como estar, que talvez um dia alguém conserte! É assim que todos parecem pensar.

E tudo isto justifica a proposta de se proibir a execução da velha música de Renato Russo. Apesar de parecer atual, ela é apenas uma lembrança. Lembrança de tempos duros e tiranos. Mas apenas uma lembrança. E hipócritas são todos aqueles que hoje a ouvem, vibram e se emocionam.

Curiosidade: Geração Coca-cola foi a canção que abriu as portas das gravadoras para a Legião Urbana, quase 3 anos após o fim do Aborto Elétrico. A música foi apresentada à EMI em uma fita demo, pelos integrantes dos Paralamas do Sucesso e, originalmente, possuía um ritmo bem mais suave. Foi somente a pedido da gravadora que Geração Coca-cola ganhou seu arranjo mais pesado. Relembrando este passado, a Legião tocou a versão original da canção no lendário show do Metropolitan, no Rio de Janeiro, em 1994, que deu origem ao álbum “Como é que se diz eu te amo”.

Apesar de composta para o Aborto Elétrico, Geração Coca-cola só veio a ser gravada oficialmente 1985, no primeiro álbum da Legião Urbana.

Leia também as análises de:

“Índios”

Daniel na Cova dos Leões

*ABAIXO SE ENCONTRAM, PARA MAIOR ENTENDIMENTO DO LEITOR, UM CLIP DA MÚSICA E SUA LETRA:

Quando nascemos fomos programados
A receber o que vocês
Nos empurraram com os enlatados
Dos U.S.A., de nove as seis.

Desde pequenos nós comemos lixo
Comercial e industrial
Mas agora chegou nossa vez
Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês

Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola

Depois de 20 anos na escola
Não é difícil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
Não é assim que tem que ser

Vamos fazer nosso dever de casa
E aí então vocês vão ver
Suas crianças derrubando reis
Fazer comédia no cinema com as suas leis

Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola
Geração Coca-Cola
Geração Coca-Cola
Geração Coca-Cola

Depois de 20 anos na escola
Não é dificil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
Não é assim que tem que ser

Vamos fazer nosso dever de casa
E aí então vocês vão ver
Suas crianças derrubando reis
Fazer comédia no cinema com as suas leis

Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-cola
Geração Coca-cola
Geração Coca-cola
Geração Coca-cola

O Primeiro Ato – Análise de Daniel na Cova dos Leões

Citações de histórias bíblicas são usadas constantemente para ilustrar diversas filosofias ou diversos fatos do quotidiano. Mas seria possível intitular um ato homossexual citando uma passagem da Bíblia como referência, sem que isso se torne apelativo ou monstruoso para os crentes cristãos? “Essa [música] agora, é sobre uma coisa que é muito boa, mas que no momento está sendo meio difícil. É sobre sexo“, disse Renato Russo em 1988, no Maracanãzinho, se referindo à música que cantaria à seguir: “Daniel na Cova dos Leões”.

Com esta música, lançada no álbum “Dois” da Legião Urbana, Renato começava a expor em sua arte a sua própria homossexualidade, mesmo que de forma muito discreta. Tema que, mais tarde, ele abordaria novamente em várias outras canções, de maneira mais aberta, como em “Meninos e Meninas” (“[…]E eu gosto de meninos e meninas/Vai ver que assim mesmo e vai ser assim pra sempre”). Assim, aos poucos, mesmo que a letra não se referisse a si mesmo, Renato ia expondo ao mundo sua preferência sexual, seus tormentos perante o preconceito da sociedade, suas dificuldades e seus aprendizados nesta área que, para ele, era tão complicada.

Para ouvidos desatentos, a letra de “Daniel na Cova dos Leões” narra uma história de amor comum, um casal apaixonado. No entanto, se interpretada com um pouco mais de atenção e contexto, percebe-se que a letra descreve – prudentemente – um ato sexual entre dois homens – muito provavelmente o primeiro, quando ambos ainda estão na fase de descobertas, num processo de aceitação. Mas não só. A canção, de 3 estrofes apenas, pode ser tematicamente dividida no mesmo número. Primeiro o ato em si, depois o carinho e a cumplicidade e, por fim, o medo e as incertezas diante do novo e do desconhecido.

A única menção direta ao homossexualismo é feita no penúltimo verso da segunda estrofe: “Teu corpo é meu espelho e em ti navego”, deixando claro que o casal que protagoniza a canção pertence a um mesmo gênero, com corpos iguais, reflexos um do outro. E como saber se são dois homens ou duas mulheres? A resposta pode ser encontrada logo nos primeiros versos da música: “Aquele gosto amargo do teu corpo/Ficou na minha boca por mais tempo.” Uma alusão a conclusão do sexo oral entre dois homens.

Sim, a música se inicia com um orgasmo e tudo o que se segue após estes dois vesos são prazeres, dúvidas e aceitações.

“Aquele gosto amargo do teu corpo
Ficou na minha boca por mais tempo.
De amargo, então salgado ficou doce,
Assim que o teu cheiro forte e lento
Fez casa nos meus braços e ainda leve,
Forte, cego e tenso, fez saber
Que ainda era muito e muito pouco.”

A partir do terceiro verso, inicía-se uma pequena metáfora, entre o prazer e o desconforto – ou mesmo o nojo –  causado pelo orgasmo oral, que vai ganhando um sabor diferente, um deleite desconhecido, um amargo que vai aos poucos se adocicando. Se reorganizarmos a frase livremente, ela ficaria mais ou menos assim: “Assim que o teu cheiro fez casa nos meus braços, percebi que isto ainda era muito pouco. E o sabor, que era salgado, então ficou doce.” Perde-se toda a beleza, mas ganha-se mais clareza.

A patir da segunda estrofe, dá-se início ao tema seguinte, a cumplicidade pelos sentimentos mútuos: “Faço nosso o meu segredo mais sincero/E desafio o instinto dissonante.” A homossexualidade, que antes era o segredo maior de cada um em separado, passa a ser de ambos e, juntos, eles desafiam o instinto dissonante, o instinto que destoa, que foge do normal: a atração entre dois homens.

Segue-se então para os terceiro e quarto versos desta estrofe: “A insegurança não me ataca quando erro/E o teu momento passa a ser o meu instante”, quando passam à aceitação, e a insgurança não mais existe. O quarto verso, por sua vez, faz menção direta ao orgasmo. O “momento” e o “instante” são o ápce do prazer. E o gozo de um passa a ser o deleite do outro e vice-versa. Afinal todo o casal que se gosta de verdade, se importa um com o outro, seja em que momento for.

Já a última estrofe é uma das mais belas e mais complexas metáforas da música brasileira:

“Mas, tão certo quanto o erro de ser barco
A motor e insistir em usar os remos,
É o mal que a água faz quando se afoga
E o salva-vidas não está lá porque não vemos.”

A maneira mais correta para interpretá-la é inverter os dois primeiros com os dois últimos versos e entender que a sensação de afogamento é tão frustrante quanto à teimosia de usar remos quando se tem um motor à disposição: pode-se ir longe, mas o medo mantém a vida arcaica.

Apesar da insegurança transmitida pela música, Renato foi seguro o bastante ao entitulá-la, dando-lhe o nome de uma das mais famosas passagens do Antigo Testamento Bíblico: “Daniel na Cova dos Leões”, na qual o personagem-título, um temente a Deus e súdito fiel do rei Dário, é vítima de invejosos, enganado, condenado por traição ao rei e jogado na cova dos leões, onde as feras deveriam decidir seu destino – ou seja, comê-lo vivo. No entanto Deus enviou seus anjos para fecharem as bocas dos felinos esfomeados e o inocente Daniel passou a noite em paz, sem temer as garras ou as presas que o circundavam, até ser retirado dali no dia seguinte pelo próprio rei Dário.

Na palavras do próprio Renato, o título da música se refere à “situação da pessoa que está encurralada e tem que provar alguma coisa. É sobre ter que lidar com uma sexualidade que não é aceita. Tem aquelas imagens de ser barco a motor e usar remo […] A imagem é essa: Daniel é inocente e é colocado no meio dos leões, só que os leões não o comem. Ele acalma os leões¹.

Como disse Oscar Wilde em seu prefácio à Dorian Gray, “A Arte reflete o espectador e não a vida”. E não há como negar que a interpretação de qualquer obra de arte – seja ela um quadro, um filme, um livro, uma música etc. – é algo extremamente pessoal e única, ou seja, cada qual tem sua própria visão sobre uma obra artística, baseando-se na sua bagagem cultural, histórica e sentimental. Mesmo assim, o contexto do artista deve-se sempre ser levado em consideração: sua época e sua história. Que muitos interpretem algo à sua maneira, isso é comum e até mesmo correto, mas que as palavras do autor sejam sempre ouvidas: “isso não surgiu com Meninos e meninas. Daniel na Cova dos Leões, do segundo disco, já falava sobre sexo oral”, disse Renato, quando questionado sobre a relação de sua homossexualidade com as músicas da Legião².

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“Índios”

Geração Coca-cola

1 – Letra, Música e Outras Conversas, de Evandro Geraldo Leoni, 1995.

2 – Renato Russo de A a Z, 2000.

*Abaixo se encontram, para maior entendimento do leitor, um clip da música e sua letra:

Daniel na Cova dos Leões

Aquele gosto amargo do teu corpo
Ficou na minha boca por mais tempo.
De amargo, então salgado ficou doce,
Assim que o teu cheiro forte e lento
Fez casa nos meus braços e ainda leve,
Forte, cego e tenso, fez saber
Que ainda era muito e muito pouco.

Faço nosso o meu segredo mais sincero
E desafio o instinto dissonante.
A insegurança não me ataca quando erro
E o teu momento passa a ser o meu instante.
E o teu medo de ter medo de ter medo
Não faz da minha força confusão.
Teu corpo é meu espelho e em ti navego
E eu sei que a tua correnteza não tem direção.

Mas, tão certo quanto o erro de ser barco
A motor e insistir em usar os remos,
É o mal que a água faz quando se afoga
E o salva-vidas não está lá porque não vemos

Coloridos: A Geração Perdida

No começo da década, a moda dos engajados era falar mal do movimento EMO, que começava a se destacar no Brasil, em meados de 2003. Naquela época, já distante do punk dos anos 1970 e 80, o visual da nova tribo urbana chocou o país e foi assunto na TV e nas revistas durante um bom tempo. As roupas escuras e a maquiagem carregada já eram comuns de serem vistas entre os góticos, mas a franja extremamente lisa e, principalmente, as supostas tendências homossexuais fizeram do movimento motivo de chacota. Mas vá lá, eles tinham seu ideal, mesmo que superficialmente herdado da cultura punk. E a música também não era das piores. Pareciam, e isso pode soar estranho, o último suspiro da rebeldia adolescente.

Pois bem, a década de 2000 se estendeu e chegou ao fim, os EMOs foram quase esquecidos, a comodidade tomou conta da nova geração e, agora, tudo o que se vê é um movimento vazio, sem ideais, onde o legal é ser bonitinho, bem arrumado e… só. Já não se usam mais jeans rasgados, nem roupas escuras ou acessórios de metal. Agora o bonito é usar roupas coloridas, em tons ofuscantes, que quase chegam a brilhar no escuro; óculos gigantes e cabelos extremamente lisos, penteados em mechas coladas à face (talvez um resquício da franja dos EMOs). Até aí tudo bem, afinal a moda é viva e está em constante movimento – na época dos Beatles, ser rebelde era usar aquele cabelinho de cuia. O problema verdadeiro está no que pensam estes jovens. Eles são rebeldes? Se sim, contra o que levantam sua rebeldia? Porque não se vê movimento algum exigindo que algo mude, cresça ou evolua. Não se vê nenhum jovem lutando por seus ideais, não se vê nenhum adolescente exigindo um governo melhor, mais igualdade, mais amor, fraternidade, paz, liberdade… O que se vê é apenas um rebanho colorido que ouve o que é imposto pela mídia, sem questionar ou procurar meios de fuga – o que é extremamente assustador, afinal, em tempos de internet livre, qualquer um tem acesso a qualquer coisa, e há muita coisa boa na internet que não ganha espaço por falta de público.

Woodstock - 1969

Talvez a geração mais velha esteja ficando um pouco quadrada, antiquada. Isso é o que se ouve de algumas pessoas, como justificativa à rabugice dos mais velhos diante do novo. Talvez seja mesmo verdade. Afinal, música ruim, bandas e cantores ruins sempre existiram. Basta ver o início da década de 1990, quando o pagode e o axé tomaram conta do país e vingaram por muitos anos. Ou os meados da década de 1980, quando o brega prevalecia nas rádios. Se voltarmos um pouco mais no tempo, teremos ainda o embate entre os “engajados” e os “alienados”, a MPB e o “Ieieiê”. Jovem Guarda, convenhamos, eram os Restarts daquela época. O público ia ao delírio ao ver aquelas imitações mal feitas dos astros estrangeiros. No entanto existia a alternativa que vinha dos Festivais de Música, com Chico, Gil e Caetano; ou dos palcos do rock que ganhavam seu espaço na década de 1980, com Raul, Legião, Engenheiros, Paralamas etc. Até mesmo quem subia no palco pra fazer graça e falar besteira, tinha lá seu quê de genialidade. Basta ver os Mamonas, que misturaram baião nordestino com heavy metal, como na música “Jumento Selestino” por exemplo, que tem um arranjo fantástico, onde guitarra, bateria, triângulo e zabumba se fundem de maneira incrível! E além do mais, eles não queriam fazer bonito pra ninguém. A intenção deles era troçar mesmo! E agora percebam a decadência: há algum tempo existiam “legionários” e “malucos beleza”. Hoje existe a “família Restart”.

Hoje ainda temos todos esses antigos astros que foram citados. Até Roberto Carlos abandonou o Ieieiê e se tornou o rei da música brasileira e não se deve tirar dele esse mérito, afinal ele soube crescer. No entanto todos esses já são velhos, já “escreveram e já fizeram a sua história”, como já disse Julinho Marassi em sua música mais famosa. Ainda estão aí, mas pertencem a outro tempo. Seus legados ainda são grande influência, porém para alguns poucos seguidores fiéis. O grande público ignora seus feitos ou repudia suas revoluções propostas a cada canção que cantavam – talvez nem mesmo seja capaz de interpretar uma letra de Humberto Gessinger ou Renato Russo.

Chico Buarque e Milton Nascimento No Woodstock Mineiro - 1977

Antigamente, como bem ficou provado acima, existiam coisas boas e ruins. O que era ruim se perdeu, mas o bom continua vivo ainda hoje. O que se pergunta aqui é: o que há de bom hoje em dia que não seja resto ou reflexo do passado musical recente do país? Temos Restart, Cine, Fiuk, Luan Santana… E qual é a alternativa? O sertanejo, que não foi citado nesse compêndio, ainda se salva com Victor & Léo. Mas e o rock? Quem se contrapõe a esses coloridos? NXZero? E a MPB? Maria Gadú?

A atual geração estagnou-se em um mundinho supostamente perfeito, de uma classe média inerte e classes pobres trazidas no cabresto do assistencialismo. É mais legal fazer parte da massa do que ser o diferente que luta por seus ideais.

A verdade é que precisamos de uma nova crise. Uma nova revolução. O mar calmo não desperta atração, é apenas uma lagoa gigante. São as ondas que o deixam belo! Foi a repressão da ditadura que gerou os grandes do passado. Será que precisamos de uma nova ditadura ou de um péssimo governo para despertar os gigantes do nosso tempo também?


O Rei da Pilantragem

SimonalWilson Sideral, aquele compositor mineiro? Não, não, é Simonal! Wilson Si-mo-nal!

Pois é, é bem diferente, né? Eu também nunca tinha ouvido falar dele. Pelo menos até ontem. E o que houve ontem? Fui convidado a assistir uma sessão especial de pré-lançamento do filme “Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei” (Brasil, 2009), um documentário da Globo Filmes, dirigido por Micael Langer, Calvito Leal e o casseta Cláudio Manoel, e que estréia nesta sexta-feira, 15, nos cinemas de todo país.

Mesmo ali, na sala de cinema, antes do filme começar, não esperava muita coisa. Pensei que seria algo razoável e que Simonal seria apenas mais um artista que ficou perdido no tempo. No entanto minha surpresa diante do que vi só não foi maior que o talento do cantor!

Para aqueles que não o conhecem, e, muito provavelmente, qualquer um que tenha nascido após a década de 1970 realmente não o conhece, o Simona, como era chamado por alguns amigos, foi o rei dos palcos nos anos 1960 e 70. Ninguém era páreo para ele. E mesmo a Jovem Guarda, liderada por Roberto Carlos, ou a Tropicalha, de Caetano e Gil, foram suplantadas pela “Pilantragem” de Simonal.

Negro e de origem pobre, o cantor conhecia bem a discriminação da época. No entanto sua voz e seu carisma o tiraram da carreira militar, o levaram para os palcos das casas noturnas do Rio e, no auge do sucesso, para a tela da TV, onde teve seu próprio programa, o Show em Si …monal, na TV Record.

Porém tudo acabou repentinamente. Devido a um incidente com a polícia, um caso que nunca foi esclarecido, Simonal passou a ser acusado de informante do DOPS, o departamento do Governo Militar cujo o objetivo era reprimir quaisquer movimentos contrários ao Regime. Desde então Wilson Simonal passou a ser visto com outros olhos e falar em seu caso virou tabu entre os colegas do meio artístico. Até que foi totalmente esquecido, mesmo após o fim da Ditadura Militar. Ainda tentou voltar em meados da década de 1990, porém a lamentosa falta de memória do povo brasileiro já o havia olvidado completamente e Simonal morreu esquecido em 2000.

E é exatamente toda essa história que o documentário tenta resgatar, reconstruindo a carreira de Simonal desde o início e tentando anistiá-lo da acusação de direitista delator.

Simonal01 copyPara tal o filme conta com depoimentos de seus dois filhos, os músicos Wilson Simoninha e Max de Castro, e de ilustres amigos, como Chico Anysio, Castrinho, Pelé, Tony Tornado, entre outros. Além de pesquisadores e até mesmo inimigos de Simonal. Mas principalmente por imagens do próprio cantor, cedidas por emissoras de TV, as quais contam sozinha a história de Wilson Simonal e toda a grandiosidade de seu talento.

Simonal copyPara quem não esperava nada de um documentário brasileiro, eu saí do cinema emocionado e indignado. Emocionado com a voz incomparável e a capacidade ímpar de reger um coro de 30 mil vozes (ou 40, ou 50…). E indignado ao descobrir como um boato pode ser cruel a ponto de destruir um reinado inteiro.

Muito bem feito, “Ninguém Sabe o Duro que Dei” é um filme que merece ser visto por todo o povo brasileiro, pois contém em si um resgate não só de uma vida injustamente esquecida, mas de uma época em que a repressão calou todo um país, menos a voz de Wilson Simonal, o Rei da Pilantragem!

 

Para quem quiser saber mais sobre o filme, saber as salas de exibição ou mesmo assistir aos trailers, acesse os sites: www.moviemobz.com/simonal ou www.simonal.com