Debutando no Livrocast

LivrocastTecnicamente, esta não foi a primeira vez que participei de um dos programas do Livrocast. Desde o episódio #51 que eu já participava das gravações, porém fazia apenas as locuções introdutórias.

Desta vez, no entanto, sou um dos convidados do programa, onde debatemos o livro “A Revolução dos Bichos”, do escritor anglo-indiano George Orwell.

Não deixem de ouvir e dar boas risadas… além de aprender bastante sobre o livro e um pouco da história da Revolução Russa e da implementação do socialismo.

Só clicar neste link para acessar a página do LIVROCAST #53!!!

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A cultura esquecida dos Quilombos

Reportagem produzida originalmente para o jornal Ora-Pro-Nobis,
da Universidade Federal de São João del-Rei.
Por Aléxia Pinheiro, J. V. V. B. Militani (eu) e Viviane Basílio

Como vivem os descendentes de escravos nas comunidades quilombolas próximas a São João del-Rei

QuilomboQuando se fala em Minas Gerais, o imaginário popular evoca a busca pelo ouro e o fascínio das cidades históricas, onde até mesmo os sinos falam. Mas muitos desconhecem a existência de comunidades remanescentes de um povo que participou diretamente da memória cultural do Estado. Escondidos entre as alterosas, – a cerca de 50 km de São João del-Rei – os quilombos Jaguara e Palmital resistem há mais de um século em seus respectivos vilarejos, embora enfrentem uma crise de identidade ligada as suas tradições, que foram perdidas ao longo do tempo.

O reflexo deste esquecimento é a inexistência de manifestações culturais desenvolvidas pelos quilombolas contemporâneos. Somente no Dia da Consciência Negra, os nativos têm contato com os hábitos advindos de seus ancestrais. Nessas ocasiões, os moradores são os responsáveis pelo preparo de comidas típicas enquanto as apresentações afro-brasileiras são feitas por pessoas alheias ao convívio quilombola. “Nós ficamos o dia inteiro cozinhando. Todos comem à vontade. Nosso feijão é nota 10, se existisse nota 1000, era para a gente”, se orgulha uma das moradoras de Palmital. “Capoeira, dança e congado vem de fora”, explica o presidente da Associação de Moradores, João Rosa, sobre o legado africano não ser transmitido internamente em Jaguara.

Outro aspecto que se destaca é a ausência de religiões de matriz africana, como o candomblé. A influência da Igreja Católica na vida espiritual e cotidiana da comunidade é intensa, tanto que todos os entrevistados afirmam que suas terras pertencem à igreja.

Diante desta fragilidade, alianças estão sendo formadas para que esta manifestação cultural afro-brasileira seja valorizada na sociedade e reconstituída na própria mentalidade da população local. De acordo com o professor do curso de História da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), Manuel Jauará, seu primeiro contato com as comunidades foi muito aquém de suas expectativas. “Foi talvez a nossa maior decepção: a grande diferença entre o que a literatura diz sobre os quilombos e o que nos revela a realidade”, afirma.

Quilombo Palmital- João Victor Militani

Palmital: moradores do vilarejo se reúnem ao ar livre, sob a árvore seca. (Foto: J. V. V. B. Militani)

Este episódio, de certa forma, o motivou a desenvolver projetos de extensão junto à universidade, visando a troca de conhecimento e o bem comum dos envolvidos. Em meio ao intercâmbio de experiências, os moradores foram orientados a respeito da importância de serem legitimados pelo Governo Federal e desde 2013 são legalmente reconhecidos como remanescentes de quilombolas pela Fundação Palmares.

Este órgão, vinculado ao Ministério da Cultura, por meio do Departamento de Proteção ao Patrimônio Afro-Brasileiro (DPA) e do Programa Brasil Quilombola, é responsável pelo conjunto de exercícios relacionados à proteção, preservação e promoção das culturas e religiões africanas. Segundo a assessoria de comunicação da entidade, “a proposta do departamento é assisti-los e acompanhar ações de regularização fundiária dos já certificados, propondo atividades que assegurem a sua assistência jurídica”.

Os habitantes ainda podem ser beneficiados com cestas-básicas, melhorias na saúde, educação, moradia, infraestrutura e saneamento. Entretanto, as lideranças da Associação de Moradores de Jaguara e Palmital, estariam desarticuladas e desinformadas, sendo assim, não encaminham solicitações com suas demandas para o DPA, ficando sem acesso a estes amparos sociais.

Quilombo Jaguara-Aléxia Pinheiro

Um dos moradores de Palmital. Ao fundo, a capela: catolicismo é a religião predominante no vilarejo. (Foto: Aléxia PInheiro)

Ainda assim, os quilombolas têm acesso ao programa Bolsa Família e à aposentadoria rural. Para complementar a renda familiar, a líder comunitária do Palmital, que preferiu não se identificar, conta que os moradores da comunidade buscam vender sua mão de obra apenas durante três meses por ano nas fazendas próximas. “A gente trabalha de ano em ano, nas colheitas de café e milho”, declara. Sobre a economia local, Jauará acredita que, por já se sentirem seguros com os programas governamentais, não se empenham para criar uma economia interna autossuficiente. “O governo reconhece a necessidade e a relevância da assistência familiar, mas nesse caso em particular, isso tem impactado no esforço da maioria, e tem feito um afrouxamento do laço de solidariedade e fraternidade que sempre uniu essas comunidades.”

O projeto socioeconômico desenvolvido pelo professor de Economia da UFSJ, Glauco dos Santos, tenta modificar esta situação e apresentar novas fontes de renda a estas comunidades quilombolas. A proposta principal é desenvolver a educação financeira, trabalhar a questão ambiental e desenvolver técnicas de economia. “Estamos tentando trabalhar com estratégias de desenvolvimento local, o que fazer para dar condições de progresso para estas populações vulneráveis, não só em termos de geração de emprego e renda, mas também consciência coletiva”, explica Santos.

Porém algumas destas iniciativas são mal interpretadas por alguns dos moradores, especialmente em Palmital. Dentre as reclamações, as principais se referem à demora em atingir resultados, o hiato entre os projetos e, aparentemente, a falta de continuidade de alguns deles.

Quilombo Jaguara- João Victor Militani

Jaguara: líder comunitário João Rosa (à direita) conta sobre a história do vilarejo. (Foto: J. V. V. B. Militani)

Questionado sobre esta declaração, Santos explica que a Extensão não pode atuar como uma medida assistencialista, pois cabe aos poderes públicos esta função. “A universidade dever prover as condições para que as comunidades, a partir delas mesmas, tenham uma trajetória de emancipação e desenvolvimento”, defende o professor. Já com relação ao tempo, ele admite a demora dos resultados: “Projeto de Extensão é algo que você não consegue mensurar resultados imediatos em termos de ensino e pesquisa.”

Entre estes entraves, está a baixa autoestima dos quilombolas que já se reflete na juventude.  “Elas brincam com pedra, não tem brinquedo e a única boneca que ficou foi a negra”, alude o professor Santos ao relembrar de quando distribuiu doações. Durante a reportagem, as crianças de Jaguara se entusiasmavam ao serem fotografadas. Já em Palmital, fugiam das lentes.

Porém a sensibilização das comunidades começa a surtir efeito de forma gradativa. “Tivemos um longo trabalho até mesmo para convencê-los de que eram descendentes de escravos”, conta Santos. E conclui: “Hoje eles têm mais orgulho e afirmam ‘somos um quilombo!’”.

História

Reproduzindo um antigo costume de se reunirem sob a sombra de um jatobá bicentenário, alguns moradores de Palmital, ao serem questionados, evitaram comentar suas origens.

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Com relutância, moradores de Palmital se reúnem para contar suas histórias. (Foto: J. V. V. B. Militani)

“Quem era o contador de casos, era o meu pai que morreu. Tem o pessoal mais velho que sabe, mas não quiseram vir até aqui e não vão contar”, explica uma das quilombolas que ainda ressalta a amnésia cultural por parte dos mais jovens: “Nem eu, nem os outros não sabemos de nada”.

Embora um pouco mais abertos em relação ao seu passado, os habitantes de Jaguara repetem o mesmo comportamento. “A gente sabe um pouco, os velhos que sabiam mais”, destaca João Rosa. Quando questionado sobre o motivo da tradição oral não ter sido repassada ao longo das gerações, Rosa revela a “falta interesse” por grande parte dos descendentes mais novos.

Apesar da aparente apatia em relação à sua história, esta é frequentemente negociada em troca de benefícios. “A gente está cansado de falar do quilombo e não receber nada em troca”, alega uma moradora que não quis ter a identificação divulgada. Por consequência, foram raros os que se dispuseram a fornecer algumas informações. Rosa foi um dos poucos que aceitou divulgar parte do que sabia, contando que “Jaguara tem esse nome em homenagem à cachorrinha das irmãs que doaram a terra para os escravos”.

Quilombo Jaguara- Aléxia Pinheiro

Jaguara: “os mais jovens desconhecem suas origens” (Foto: Aléxia Pinheiro)

Oficialmente, a história possui variações. Conforme registros do Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (IPHAN), no século XIX surge a fazenda Jaguara na cidade de Nazareno, conhecida anteriormente como Arraial Ribeiro Fundo. Com o falecimento do proprietário da fazenda, as terras ficaram para sua esposa e, posteriormente, metade da fazenda ficou para sua filha Mariana Isabel Cândida da Conceição. A outra foi arrendada ao capitão Antônio Leite Ribeiro, proprietário da fazenda Palmital. Treze anos antes da abolição da escravatura, Mariana concedeu aos seus escravos a liberdade e lhes deu o direito de usufruir da sua propriedade.  Os arquivos referentes à Palmital são escassos.

Infraestrutura

Apesar de culturalmente semelhantes, as duas comunidades são estruturalmente distintas.

Jaguara é marcada por características urbanas, apresenta asfaltamento, quadras esportivas, praças de convivência e pontos comerciais. Enquanto Palmital é predominantemente rural, com ruas de terra e casas esparças.  “Aqui precisa é de tudo, principalmente, calçamento. Eu queria que tivesse uma pracinha e uma quadra para os meninos jogarem bola”, confidencia uma das moradoras, que quis ter seu nome preservado.

Ambos quilombos ficam no município de Nazareno. Frente a estas diferenças, um dos vereadores da cidade, Jovino César Romão, analisa as possíveis causas destes contrastes. Segundo ele, Jaguara é privilegiada por estar próxima da rodovia, ter casas aglomeradas e ser vizinha de outro povoado. Enquanto Palmital é afastada geograficamente e possui o agravante de ser dividida entre os municípios de Nazareno e Conceição da Barra. Sobre este impasse, uma moradora desabafa. “Nós nascemos em Nazareno, batizamos em Nazareno, enterramos em Nazareno, o registro de Palmital está todo lá. Como nós somos de Conceição da Barra?”.

Ao saber das reclamações da comunidade, o vereador se posiciona sobre este problema. “A divisão gera um pouco de dificuldades para os investimentos serem feitos naquela localidade. Para que as melhorias aconteçam naquele povoado, precisa haver um consórcio entre as duas prefeituras”.

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Se quiser ler a versão digital do jornal Ora Pro Nobis, basta clicar aqui.

Tom Zé: excêntrico aos 80

Tom ZéPrestes a completar 80 anos de idade, Tom Zé carrega em sua alma as experiências de uma longa e produtiva vida, mas não abre mão da impulsividade da juventude. Sua obra musical, tão complexa e extravagante, atrai fãs leais e engajados na mesma complexidade, mas não o afasta das polêmicas.

Batizado como Antônio José de Santana Martins, Tom Zé assumiu o nome artístico ainda na Bahia, onde nasceu. Junto com Gilberto Gil e Caetano Veloso, Tom foi um dos pais da Tropicália, numa época em que o país vivia assombrado pela Ditadura Militar. A excentricidade dos músicos baianos acenderam o estopim do movimento que iria marcar a história da música popular brasileira, com canções e atitudes tão desafiadoras contra o regime que dominava o país, que renderia o exílio a alguns deles.

Se Caetano e Gil são hoje senhores respeitáveis, apenas sombras das loucuras do passado, o mesmo não pode se dizer de Tom Zé. O músico nunca abandonou a extravagância da juventude e ainda hoje age, se veste, canta e compõe com a mesma impulsividade dos tempos de juventude.

A mídia, no entanto, por muito tempo o esqueceu. Enquanto os demais tropicalistas sempre estiveram sob os holofotes, mesmo depois do auge da fama, Tom se perdeu em meio ao turbilhão de novos astros e bandas que surgiram após as eleições diretas. Talvez por ter sido o único deles a não ser exilado, Tom tenha perdido a força ao representar a resistência. Ou talvez porque suas músicas não são tão facilmente decifradas pelo público geral.

Tom Zé 2

Tom Zé em ensaio para a revista Bravo (2012)

Contam boatos de que, na última década, ele cortava grama para viver. Em 20 13, foi redescoberto, não pelo talento, mas pela polêmica involuntária. Ao participar de um comercial da Coca-cola, seus fiéis fãs o taxaram de vendido e repercutiram críticas nas redes sociais. Tom Zé voltou a ser assunto e acatou as reclamações. Dizem até que devolveu o dinheiro do cachê.

“Sempre procurei fazer música para essas pessoas que me seguem e sempre estive trabalhando como quem trabalha para elas. Eu sou um empregado que tem um patrão”, comentou o cantor, logo após a polêmica. Como resultado, lançou o álbum “Tribunal do Feicebuqui”, ainda em 2013, onde usa sua música para falar sobre o poder das redes virtuais para condenar ou absolver qualquer um que se transforme no réu da vez em suas discussões.

Tom Zé nunca teve medo de ser contestado, mas também nunca viveu do sensacionalismo. Sua carreira é marcada de polêmicas, mas não por querer aparecer através delas, mas sim por ter sua obra acima destas questões. Uma coisa é verdadeira na carreira deste baiano, que diz ter nascido ainda na Idade Média: as polêmicas não esgotam e nem sobrepõem seu talento. Elas são a parte genial de sua obra.

Este Texto não é Livre – Como o Pensamento de Foucault Pode Explicar as Limitações do Jornalismo

O texto a seguir foi composto
para a avaliação da disciplina
Análise do Discurso e é postado aqui
apenas para registro e curiosidade dos leitores.

FoucaultA partir  do momento em que o jornalista detém para si  a fala do entrevistado, ele detém também o poder do discurso, a capacidade de moldar o discurso alheio de modo a se beneficiar dele em seu próprio discurso. Essa mesma relação de poder, porém, também se dá entre o jornalista e fatores que o impedem de enunciar os acontecimentos com total liberdade e originalidade.

Segundo Foucault, existem fatores Internos e Externos que limitam e conduzem o discurso. A relação de poder, partindo desta análise, foca-se nos sistemas Externos, ou seja, na relação do enunciador com a instituição na qual ele está inserido. Foucault enumera três fatores externos: a “Interdição”, a “Separação” e a “Vontade Verdade; cada qual uma formação complementar de relação do enunciador com o ambiente que o cerca.

A Interdição é o impedimento de se dizer o que quer à quem e/ou onde quiser. A Separação é a necessidade de aprovação do discurso por outrem. Enquanto a Vontade de Verdade diz respeito à relatividade dos valores, que poder ser verdadeiros ou falsos, dependendo do âmbito no qual estão inseridos.

Tendo por base o pensamento de Foucault, é fácil entender as relações de poder que limitam o discurso do jornalista, sendo que este encontra-se naturalmente inserido em instituições que conduzem e moldam seu texto. É fácil citar exemplos que cerceiam o discurso jornalístico, como a linha editorial do veículo, influências econômicas dos anunciantes, empecilhos políticos ou mesmo determinações legais.

Em um exemplo extremo, o jornalista jamais poderia publicar acusações ao veículo do qual faz parte ou aos funcionários que ali trabalham. Nem mesmo se voltar contra empresas que o patrocinam ou ir contra a legislação local.

É, portanto, compreensível que todo e qualquer discurso jornalístico seja limitado a regras implícitas – jogos de poder – que conduzem o jornalista na construção do seu texto e o impedem de expor livremente seu enunciado.

J. R. R. Tolkien: Fantasia e Genealogia

O texto abaixo, de minha própria autoria, foi originalmente publicado no blog do portal MyHeritage.com, o maior portal do genealogia do mundo. 

TolkienApesar de ser professor em Leeds por seis anos e ser eleito a uma cátedra na Universidade de Oxford em 1925, onde ministrava aulas de Inglês Antigo e Medieval, Filologia Germânica, Islandês, Galês e Saxão (entre outros), o escritor britânico J. R. R. Tolkien só se tornou conhecido em seu país e no mundo após as publicações de seus dois mais famosos livros: O Hobbit (1937) e sua obra prima, O Senhor dos Anéis (1954). Neste e em outros mais de 20 livros (a maioria publicado postumamente), Tolkien desenvolveu uma vasta mitologia, com raças variadas: “deuses” e “demônios”, elfos, humanos, anões, hobbits, orcs e animais fantásticos. Suas histórias se desenvolvem desde a gênese do universo até o final das “eras mágicas”, quando apenas os humanos passaram a dominar o mundo.

Mais que uma simples história de fantasia, porém, a mitologia tolkieniana é uma narrativa concisa de um passado remoto de nosso próprio mundo, quando seres míticos ainda habitavam a Terra e os “deuses” ainda agiam abertamente, influenciando os destinos de humanos, elfos e demais raças. Nestes épicos estão narradas grandes batalhas, aventuras perigosas, mistérios e grandes amores. Mais que arriscadas demandas, no entanto, estão presentes nestas histórias grandes exemplos de humildade e simplicidade, amizade e amor, perseverança, coragem e justiça, além de discursos políticos e familiares, bem como uma profunda filosofia, capaz de refletir com exatidão os tão complexos conflitos humanos de nosso tempo.

Mesmo com tantos elementos fantásticos, as narrativas deste filólogo conseguem passar ao leitor uma aura de realidade grande o suficiente para que seja possível acreditar na existência dos fatos, ocorridos naquele período imemorável de nosso passado distante. Metódico ao extremo, Tolkien compôs essa impressão de que suas obras eram “registros históricos” abusando dos detalhes, como mapas minuciosos, idiomas próprios e vivos (suas línguas evoluem no decorrer da história) e mesmo emaranhadas árvores genealógicas de seus personagens, cujas sagas das famílias se desenvolvem por séculos – às vezes milênios. A genealogia é, inclusive, um dos passatempos favoritos dos hobbits – a raça de hominídeos cujo alguns personagens protagonizam seus mais famosos livros. Alguns hobbits, como dito em O Senhor dos Anéis, tinham orgulho de expor suas composições genealógicas, listando seus antepassados, seus filhos, tios e primos de graus variados.

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Bilbo Bolseiro, por exemplo – protagonista de O Hobbit – é descendente de duas das mais tradicionais famílias hobbits (os sensatos Bolseiros e os aventureiros Tûks). Bilbo era filho de Mungo, neto de Bungo e bisneto de Balbo. É também sobrinho-neto de Largo Bolseiro, que, por sua vez, é bisavô de Frodo – protagonista de O Senhor dos Anéis. [vide imagem 1] Mas a família Bolseiro é apenas uma dentre muitas das mais tradicionais, como os Bolger, os Foçadores, os Pés-Soberbos, os Tûks, os Buques e muitas outras. Tendo cada família seus próprios costumes e tradições, bem como diferentes posições sociais, a genealogia ficcional de Tolkien torna-se, portanto, não apenas mero enfeite para os mitos, mas também contexto para criar a personalidade de cada um dos personagens. É baseado nos laços familiares e nas características genéticas que se define (ou se desafia) o destino de cada um deles.

Entretanto, por mais extensas que sejam as árvores genealógicas deste pequeno povo, elas não chegam nem perto da grandiosidade das genealogias dos elfos e humanos. Tendo estas raças surgido no Início do Mundo (sendo as primeiras criações de Eru, o Deus Único), suas genealogias se estendem por milênios, desde os primórdios do Tempo até o desfecho dos mitos, onde as histórias de todos se convergem numa última luta contra o grande Mal que ainda habitava o mundo. Sendo elfos e humanos os senhores dos grandes reinos que dominam o mundo criado por Tolkien, suas respectivas genealogias têm o contexto não só de enriquecer os personagens como também de basear as relações políticas, militares e comerciais, algumas vezes influenciando diretamente até mesmo as decisões dos “deuses”.

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Como um bom inglês que era, Tolkien colocou presente em sua obra uma monarquia de valores nobres e sublimes, tendo o rei como pai do povo. Bons reis eram líderes que tratavam seus súditos com igualdade e justiça, enquanto maus reis condenavam seus reinos à destruição. Em O Senhor dos Anéis, por exemplo, o grande e decadente reino de Gondor é governado há anos por regentes, pois a família do rei, apesar de ainda aguardada com esperanças, havia se perdido em guerras há séculos. O fim da história trás de volta a prosperidade do reino ao ser anunciado o retorno do rei – Aragorn, Filho de Arathorn, cujos antepassados viveram no exílio por gerações. [vide imagem 2]

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Milênios antes do rei retornar a Gondor, uma história de amor foi capaz de mudar o desígnios dos próprios “deuses”. O humano Beren e a elfa Lúthien, ao concretizarem seu amor e gerarem um filho misto, com sangue da raça mortal e da raça imortal correndo em suas veias, obrigaram os Poderes do Mundo a mudarem as leis divinas e até mesmo a geografia do planeta; e seus descendentes, por milênios a fio, foram os grandes líderes de ambas as raças – cujo Aragorn, citado acima, e sua esposa foram os últimos mencionados em toda a obra. [vide imagem 3]

Os exemplos aqui citados são apenas alguns dentre muitos. As árvores genealógicas são extensas e variadas e podem ir além das histórias contadas nas páginas dos livros. O professor e escritor J. R. R. Tolkien era um genealogista da ficção e, apesar de atribuir a seus personagens o gosto pela genealogia, era ele próprio um entusiasta desta arte.

Se vivo, Tolkien completaria 123 anos neste dia 3 de janeiro de 2014. Ele próprio se dizia um hobbit, um sujeito simples e interiorano, avesso às modernidades. Se fosse mesmo verdade, talvez ele estivesse compondo sua própria genealogia nas páginas de sua esplêndida fantasia.

Chapulin – O Maior Herói Latino

Caixa ChapulinCriado, em 1970, pelo dramaturgo e ator mexicano Roberto Gomez Bolaños – eternizado por seu personagem El Chavo – o super-herói Chapulin Colorado possui, de maneira bem humorada, um teor caricato e crítico, totalmente contrário ao estereótipo padrão dos super-heróis lendários da TV, do Cinema e dos Quadrinhos. Fora feito para ser cômico, porém carregava consigo um discreto teor político que refletia aquele momento histórico vivido pelos mexicanos e, de modo geral, por toda a América Latina.

O Polegar Vermelho, como foi traduzido no Brasil, perdia em beleza, força e astúcia, porém ganhava em carisma e humildade. Não possuía uma identidade secreta. Chapulin era Chapulin todo o tempo, com seu uniforme vermelho, estampado com o símbolo universal do amor: um singelo coração amarelo.

A escolha do uniforme vermelho para o personagem Chapulin não fora premeditada. A emissora possuía em seu almoxarifado apenas quatro cores de tecido: preta, branca, azul e vermelha. Para Bolaños, o preto era extremamente negativo e triste, enquanto para os técnicos, o uso de branco e azul eram inadmissíveis – com o equipamento precário, o branco estourava a luz e ofuscava a imagem, enquanto o azul tornava inviável o uso do chromakey. Restava então o vermelho. O inusitado super-herói até então se chamaria El Chapulín Justo (O Gafanhoto Justiceiro, em tradução livre), porém, com o uniforme escarlate, surge o título “Colorado”, que em espanhol significa literalmente “vermelho”.

gafanhoto vermelhoOs chapulíns (palavra de origem nahuatl, o idioma asteca) são insetos comuns no México, usados inclusive na alimentação e dão nome a alguns lugares, como a colina Chapultepec (Colina do Gafanhoto), na região central da Cidade do México. Como Bolaños queria que seu herói fosse estritamente nacional, escolheu o inseto mais famoso do México para caracterizá-lo.

Talvez como uma paródia ao S do Superman americano, Bolaños acrescentou ao uniforme a inicial do personagem, a letra “che”. Em espanhol e em vários idiomas nativo-americanos, CH é considerado uma única letra. A letra “che”, diga-se de passagem, é a inicial de todos os personagens criados por Bolaños (Chabo, Chapatin, Chanfle, Charrito, Chompiras, Chaparron etc), a mesma inicial de seu apelido, Chesperito, o pequeno Shakespeare.

Chapulín Colorado trazia em suas histórias uma forte crítica ao imperialismo norte-americano, fazia piada dos vizinhos ricos e, de maneira caricata, abordava com frequência as influências externas na política latino-americana. O humor parece ingênuo, mas suas esquetes possuem um quê político e uma identidade tal, que transformou o atrapalhado Gafanhoto Vermelho no grande herói de toda a América Latina.

Não à toa, Chapulin possui várias referências à cultura e à história norte-americana, tratando-a sempre de maneira caricata, como em seus episódios sobre o Velho Oeste, a Guerra Civil Americana ou fazendo referência a clássicos filmes de Hollywood.

Enquanto as grandes editoras norte-americanas de quadrinhos – a DC Comics e a Marvel – dão ao público que a ideia de que ser um herói é algo inatingível e extraordinário, Bolaños aponta para o outro lado. A história de Chapulin é diferente de histórias onde os personagens, às vezes, possuem poderes para destruir todo o planeta e uma inteligência descomunal capaz de criar armas e veículos incompreensíveis ao leitor, além de enfrentar inimigos igualmente grandiosos. O pequeno gafanhoto vermelho é mais humilde e pau pra toda obra. Ele surge não apenas para enfrentar vilões, mas também para solucionar problemas cotidianos, como dar conselhos ao garotinho mimado que mente para os pais, resolver a situação de um casal que pode ser despejado por não pagar o aluguel, proteger um hotel da possível invasão de um criminoso, entre outras situações tão comuns para quaisquer cidadãos.

Os episódios em que o personagem Super Sam (interpretado por Ramón Valdez) entra em cena são, com certeza, os que possuem as críticas mais explícitas. Super Sam é uma paródia do ícone estadunidense, o Tio Sam. O personagem usa a roupa do Superman e uma cartola com as cores norte-americanas; tem como arma dois sacos de dinheiro e seu bordão de vitória é chavão de Wall Street: “Time is Money, oh yeah!” A maior curiosidade, porém, é que ele aparece sem ser chamado. Os personagens em perigo esperam por Chapulin e se decepcionam ao ver Super Sam, que está pronto para resolver problemas à sua maneira, unilateralmente, numa explícita referência à política externa dos Estados Unidos.

Chapolin1Enquanto Superman, Capitão América, Homem-Aranha e alguns outros possuem as cores da Revolução Francesa e do Sonho Americano, Chapulin Colorado traz consigo o vermelho da revolução latino-americana, mesmo que seu uniforme tenha sido composto ao acaso da necessidade. Enquanto os heróis da Marvel e DC se distanciam dos reles mortais, tornando-se cada vez mais poderosos, Chapulin Colorado poderia ser qualquer um de nós: um homem comum, cujo maior poder é a honestidade e a boa vontade em ajudar.

A verdade é que o personagem criado por Bolaños foi o último grande herói do mundo. Depois dele, não houveram outros. Homem-Aranha, X-men, Homem de Ferro, Capitão América, Batman e Superman surgiram entre 1938 e 1963. Chapulin foi criado em 1970, possui apenas algumas poucas histórias, compostas há mais de 40 anos, que nunca foram renovadas e que ainda hoje fazem sucesso na TV de dezenas de países. O mundo realmente não contava com sua astúcia!

Leia também o “Adeus, Chespirito…“.

Da Infância à Meninice

manoel de barrosCoração de poeta é sofrido, embriagado, vive sempre marcado, mas aguenta todos os baques da vida. O coração de Manoel de Barros trazia em si toda a sua nostalgia e suportou por quase um século a saudade dos tempos de infância. No entanto não aguentou a ruína da idade e deixou de bater na manhã do dia 13 de novembro de 2014, deixando órfãos as palavras e os versos do poeta mato-grossense.

Durante os 97 anos em que viveu, Manoel nunca envelheceu de verdade. Em sua obra, ele sempre exaltava a infância, as brincadeiras de moleque, a simplicidade da roça… Eram memórias de tempos idos misturadas às fantasias do presente, a invencionice de criança que nunca o abandonou. “Tudo o que não invento é falso”, dizia ele, quebrando o sentido das palavras e contorcendo as mentes daqueles que não viviam em seu mundo particular de poesia. Aliás, brincar com palavras era seu maior prazer: “percebi que servia era pra aquilo, ter orgasmos com as palavras”.

Manoel de Barros, como ele mesmo disse em suas “Memórias Inventadas”, era um escultor de palavras. Aquelas que caiam em suas mãos eram talhadas e lapidadas e ganhavam em seus versos um novo significado, às vezes até mesmo novas letras ou fonemas diferentes.

Usava as palavras para compor um pouco de tudo, sempre de maneira inusitada. Seus versos não falavam de grandes amores ou feitos heroicos. Falavam de latas velhas, carrinho de pau, sapo de brejo, garça, pedra e rio. Se citava os tempos de criança, era como se ainda os vivesse. Se versava sobre a maturidade, era como se nela nunca tivesse chegado. Se fazia rimas na velhice, tratava-a como uma terceira infância.

Manoel-de-BarrosApesar de aparentar inocência ao tratar o mundo sempre sob olhos de garoto, de inocente ele nada tinha. Não temia as palavras proibidas nas casas de família, e falava de punheta como quem falasse de esconde-esconde: apenas mais uma saudosa brincadeira de criança. Sem tabu que o segurasse, sem medo de preconceitos e apelidos. Manoel de Barros se orgulhava em ser o bocó que catava caracóis na beira do rio; prezava os insetos mais que os aviões, prezava mais as tartarugas que os mísseis; era “aparelhado para gostar de passarinhos”.

Sua poesia ganhou prêmios variados. Trezes deles entre os mais importantes do país, incluindo dois Jabutis, por “O Guardador de Águas” e “O Fazedor de Amanhecer”. Entre 1937 e 2013, Manoel publicou 34 livros no Brasil, além de publicações em Portugal, França e Espanha.

Antes de se enveredar pelas palavras, fez parte da Juventude Comunista, seguiu os passos de Luis Carlos Prestes e derramou lágrimas ao vê-lo se dobrar na direção de Vargas. Formou-se em Direito no Rio Janeiro; morou em pensionato; revoltou-se com a poesia e Padre Antônio Vieira; se inspirou com a obra de Arthur Rimbaud. Viveu na Bolívia, Peru e Nova York; fez curso de cinema e pintura; se descobriu poeta ainda na adolescência.

A verdade é que Manoel de Barros nasceu no mato e nunca saiu de lá. Veio ao mundo em dezembro de 1916 e, apesar do sucesso como poeta, nunca se permitiu estar à frente de holofotes, sempre fora recluso, tímido e recatado. Escrevia seus versos na fazenda que herdou dos pais, em Corumbá, onde morava desde 1960. Ganhou a vida criando gado e usou da poesia para se procurar, sem nunca ter se achado – o que, em suas palavras, lhe foi a salvação.

“No meu morrer tem uma dor de árvore.”