Renato Russo: 60 anos do filho da revolução

As favelas e o senado continuam repletos de sujeiras, a constituição continua não sendo respeitada, mas o povo ainda acredita no futuro da nação. As crianças continuam aprendendo a roubar para vencer e o operário da fábrica ainda espera seu dia chegar, sempre em busca de um trabalho honesto em vez de escravidão. A estupidez humana ainda merece ser celebrada, sempre à espera da perfeição.

A poesia punk de Renato Russo, o líder da Legião Urbana, continua atual. Ela não cansa. Ela não morre. O pensamento do roqueiro continua vivo, intenso e ativo. Seu espírito ainda arde no coração de jovens e adultos, mesmo que seu corpo há muito tenha cedido ao cansaço do mundo.

A vida turbulenta do astro da música foi rápida, mas ainda hoje influencia as novas gerações, mesmo 24 anos depois de sua morte. Suas canções ainda estão entre as mais tocadas, mesmo que compostas há três ou quatro décadas. Foram 36 anos de vida, cerca de 20 anos de carreira e apenas dez de sucesso.

Quando fundou a Legião Urbana, em 1982, Renato não dava início apenas a mais uma banda de rock ‘n’ roll, mas um movimento que iria arrastar multidões. “A verdadeira Legião Urbana são vocês”, dizia ele para o público. E ele realmente acreditava nisso.

O grupo era mais que uma banda. Era um projeto muito bem arquitetado. Ao compor, Renato planejava sua revolução pessoal. Do alto do palco, ele colocava em prática os seus planos de combate ao sistema, contra a corrupção, a dor e maldade. A favor do amor e da justiça. Urbana Legio omnia vincit. Legião Urbana a tudo vence. Esse era o lema de seu grande projeto. Se o povo era a verdadeira legião, o povo era invencível, portanto.

Filho da revolução, futuro da nação. Renato acreditava que sua geração, os jovens subjugados pela ditadura militar, fariam a diferença no país do futuro. Antes de fundar a Legião, ainda no final da década de 1970, sob os bigodes dos generais, o adolescente punk questionava a plenos pulmões: que país é esse?

Sob a égide do movimento punk, ele questionou o capitalismo, se rebelou contra o governo ditatorial e compôs os versos ríspidos de sua primeira banda, o Aborto Elétrico. Foi em Brasília, a cidade sem história e sem cultura, que o adolescente rebelde deu início ao grande sonho: ser um rock star. Influenciar pessoas pela música e pela arte.

Ali, na nova capital, ele expôs o tédio, com um T bem grande, de uma geração sem identidade, que buscava viver como em uma propaganda de refrigerantes. Ali ele acusou os policiais de serem assassinos uniformizados, tarados que passam fogo no paí. Brasília foi o palco daqueles que Renato intitulou de Geração Coca-cola.

O grande fã de Bertrand Russell e Jean-Jacque Rousseau nasceu como Renato Manfredini Júnior, em 27 de março de 1960, no Rio de Janeiro. Mudou-se para Brasília aos 13 anos e se consolidou como o maior astro do Planalto Central. Hoje, Renato Russo completaria 60 anos de idade. Suas cinzas descansam sobre o jardim de Burle Marx, mas sua voz ainda ecoa pelo Brasil, seja para atormentar os palácios dos poderosos ou para acalentar os corações dos aflitos.

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Coringa é um filme perigoso

Cuidado: contém spoilers logo na primeira linha.

A câmera gira ao redor do protagonista. De pé sobre o capô de um carro, acima de um mar de pessoas, envolto pelo caos de uma sociedade em ruínas, o palhaço assassino é aclamado pela multidão. Eles o veem como um herói.

Os créditos sobem e o público fica estarrecido na sala de cinema. Não pela cena impactante – afinal, ver um vilão psicopata ser idolatrado pelo povo não é algo comum em filmes desse gênero. O que realmente estarrece e espanta o expectador é o fato de que, no fundo de seu íntimo, ele se identifica com o protagonista. Mesmo que negue conscientemente, algo em seu interior compreende que também ele poderia se tornar um Coringa da vida real.

Esse é o poder oculto por trás de Joker (EUA, 2019), dirigido por Todd Phillips e com a magistral atuação de Joaquim Phoenix: despertar o expectador para as mazelas da sociedade, para a podridão da alma e, principalmente, para as desumanidades do dia a dia.

Arthur Fleck (Joaquim Phoenix) é um artista com um sonho: ele almeja as grandes plateias e se vê em um futuro de fama e sucesso, arrancando gargalhadas de seu público, nos palcos da TV ou nas casas de show. Desde criança sua mãe lhe dizia que sua missão era levar alegria ao povo. De forma carinhosa, ela o chama sempre de ‘Feliz’.

No entanto, Arthur é um palhaço anônimo que trabalha em uma empresa decadente, fazendo anúncios em portas de loja ou animando festas de criança.

Fleck queria ser comediante, mas era apenas um palhaço frustrado.

Ainda no início do longa, uma cena inusitada: o protagonista apanha de um grupo de adolescentes que rouba sua placa de publicidade e zomba de sua condição de palhaço – algo impensável ao se lembrar que aquele é o mais cruel inimigo das histórias em quadrinhos.

As cenas de humilhação e segregação se desenrolam ao longo de todo o roteiro e servem para contextualizar a formação da personalidade de Fleck. Traumas da infância se somam ao drama, em uma trama muito bem amarrada, que envolve a alta classe da cidade – representada aqui por Thomas Wayne (Brett Cullen), pai do ainda infante Bruce Wayne (o futuro Batman).

As promessas de sucesso do capitalismo – que nunca são alcançadas pelo cidadão comum – também são fonte de frustração. Não só isso, mas também as questões de política pública, falta de assistencialismo e a crescente desigualdade social que assolam Gothan City servem de contexto para formação de uma mente doentia, que busca na violência um modo de se fazer notar – talvez até mesmo encare-a como forma de justiça.

“Clube da Luta” (1999) trouxe a violência como válvula de escape.

Os temas não são novidade. Os valores do capitalismo já foram questionados em diversos filmes e a violência como resposta foi muitas vezes encenada. Tyler Durden (Brad Pitt), de Clube da Luta (Fight Club, EUA, 1999) foi o Coringa da virada do milênio. Em uma de suas falas, o personagem diz: “Fomos criados pela televisão para acreditar que um dia seríamos ricos, estrelas do cinema ou astros do rock. Mas não seremos. E estamos aos poucos aprendendo isso. E estamos muito, muito revoltados”.

Coringa não é uma adaptação de quadrinhos propriamente dita. Das HQs foram aproveitadas apenas as características do personagem e sua personalidade. Todo o restante do roteiro foi retirado de outros lugares, transformando o louco de Gothan em um personagem complexo, estruturado e contextualizado.

Taxi Driver, de Martin Scorsese, foi a principal inspiração para o novo Coringa

Phillips bebeu da fonte de Scorsese e buscou em Taxi Driver (EUA, 1976) a loucura do protagonista perante a solidão e exclusão social. Em O Rei da Comédia (The, King of Comedy, EUA, 1981), o diretor encontrou a personalidade do maníaco que deseja o estrelato a todo custo, mesmo que não tenha talento para isso. Por fim, O Homem que Ri (The Man Who Laughs, EUA, 1928) trouxe a inspiração necessária para tirania do povo – não do protagonista. Neste longa com características do expressionismo alemão, Todd Phillips buscou a insanidade social, que transforma um defeito físico em algo bizarro e condena o protagonista – cuja deficiência dos lábios o obriga a rir constantemente – a uma vida de exclusão, cuja única chance de sobrevivência é em um circo de horrores.

Somadas tais inspirações, criou-se um Coringa que não expõe ao público  apenas a loucura pura e doentia de um psicopata, mas os caminhos que levam uma pessoa aparentemente fraca a se tornar um criminoso. E é aí que a obra se torna perigosa. Não pela suposta capacidade de transformar expectadores em assassinos, mas pela competência em despertar a população para o real meio ao qual está inserida.

Coringa não é um herói. Não chega a ser nem mesmo um anti-herói. Ele ainda é o inimigo, o criminoso, o assassino frio e psicótico.

Coringa é o Caos! O personagem representa uma massa desassistida pelo Estado que não encontra voz política e, assim, acaba por capturar a multidão para a violência antissistema.

O perigo do longa não está na ideia de um maníaco ser enaltecido por seus atos violentos, mas sim por mostrar que todos nós somos parte de uma sociedade tão doente e afundada na lama que o maníaco acaba sendo glorificado justamente por ser aquilo que é. E isso não é ficção. É o reflexo do mundo: a arte imitando a vida.

Por mais que se identifique com o personagem, ninguém irá realmente se soltar das amarras do sistema e tornar-se um vilão de quadrinhos (nem mesmo fundar seu próprio Clube da Luta). Só o fato de se perceber em um mundo doente onde maníacos são idolatrados já é algo extremamente perigoso para todos os Thomas Wayne da vida real.

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O Neo-realismo do cinema: Uma análise de “Ele Está de Volta” sob o contexto de Comolli

Por Ana Carolina Resende Gomes
e João Victor Vilas Boas Militani

O limite entre a realidade e a ficção divide tenuamente as obras do cinema documentário. No capítulo “Sob o risco do real”, do livro “Ver e Poder”, Comolli (2006) trabalha esta relação do audiovisual com o real ali retratado, tão marcado pelo ponto de vista do produtor do filme. O autor diz querer acreditar na verdade mostrada pela câmera, mas desconfia das insinuações do realizador da obra. “O que é o documentário?” é a pergunta que se destaca no meio do texto.

Partindo desta questão, é possível questionar até onde é possível se produzir uma ficção para que esta retrate a realidade. Usar de atores para arrancar do personagem real suas mais profundas convicções, mesmo que seja baseado na fantasia, pode ser considerado um tipo de documentário. Seria essa a questão a ser levantada sobre o filme “Ele está de volta” (Eristwieder da, Alemanha, 2015). Nesta comédia mista de realidade e ficção, o próprio Hitler acorda – como num passe de mágica – no ano de 2014, no exato lugar onde teria se suicidado 70 anos antes. Ninguém acredita que ele seja o verdadeiro Hitler e o tratam como um comediante, caricato, ressuscitando velhos ideais nazistas como se fossem piadas. O trunfo do longa, no entanto, não é o enredo roteirizado, com atuações e cenários, mas sim os personagens reais com quem Hitler contracena. A partir de seu discurso eugênico e racista, o personagem de Hitler (fictício) consegue arrancar discursos semelhantes dos entrevistados (reais) – mostrando como o preconceito ainda se mantém enraizado na população alemã do século XXI.

Comolli constata que os personagens reais, ao serem filmados, atraem o espectador exatamente pelo fato de serem reais – por existirem mesmo fora da tela do cinema, por não fazerem parte do projeto original do filme, mas por compô-lo de forma imponderável ao longo de sua produção. Segundo o autor, é somente depois do uso que se dá a este personagem gravado, favorável ou não aos seus depoimentos – ou seja, somente após a edição das imagens – é que eles se tornarão “seres do cinema”. E conclui dizendo que, para o produtor, não é possível “avacalhar” com a mise-en-scène do que é real – não-ensaiado (COMOLLI, 2006, p.175).

No entanto, como deve ser tratado um filme como “Ele está de volta”? O personagem real é inserido na ficção e, portanto, torna-se parte dela, ao mesmo tempo em que suas declarações são reais. A ficção foi roteirizada e concebida antes do que viria a ser a participação espontânea do entrevistado real e este, portanto, deve ser considerado fictício, por ter sua participação “modelada” pelo projeto do filme?

“O cinema nasceu documentário e dele extraiu seus primeiros poderes” (COMOLLI, 2006, p.174). Esta afirmação do próprio Comolli retrata este misto de identidade do audiovisual. Foi a partir da retratação do real, realizada nas primeiras imagens gravadas pelos irmãos Lumière, que se deu início à toda a mágica do cinema. Em poucos anos, os Lumière (1862-1948) cederiam espaço a Meliés (1861-1938), que transformaria a realidade em fantasia. Pouco mais tarde, Flatherty (1884-1951) editaria a realidade de Nanook (Nanookofthe North, EUA, 1922) e daria pinceladas de ficção na vida real do esquimó. Era o embrião do que viria a ser o neo-realismo citado por Comolli.

Ainda neste contexto, Comolli disserta sobre a própria relação entre documentário e ficção. Este momento de neo-realismo (nouvelle vague) ele enfatiza que essa renovação das técnicas de encenação foi estimulada pela área do fotojornalismo, reportagem de guerra, cine-jornal e até mesmo com o cinema amador. “Hoje, a retomada das roteirizações ficcionais – esgotadas pela estandardização da telenovela – se dá mais uma vez a partir da experiência do documentário” (COMOLLI, 2006, p.170). Neste contexto, no filme podemos averiguar trechos da ficção que se misturam à realidade retratada, já que toda a trajetória do protagonista segue pelo roteiro, do despertar de Hitler, passando pelo momento em que ele conhece um cinegrafista em busca do sucesso, até deslanchar sua carreira e aproveitar da fama para reerguer os ideais nazistas. Para buscar essa verdade, no entanto, o longa não conta com personagens ensaiados, mas coloca Hitler nas ruas, conversando com pessoas reais, arrancando dessas, através de sua atuação impecável, a verdade racista que ainda permeia e Alemanha atual.

O ditador ascende à pop star do momento, ganha um programa de TV e realiza declarações polêmicas sobre as minorias, a religião e até mesmo o governo representado por uma mulher (Angela Merkel), em cenas ensaiadas que rendem aplausos e ovações do público real.

Partindo desta relação, o autor também caracteriza uma sensação de crer e duvidar da realidade apresentada pelo cinema. Entretanto, Comolli ainda garante que esse fator mantém o interesse do telespectador . “Meu prazer, minha curiosidade, minha necessidade de conhecer, meu desejo de saber são recolocados em movimento por essa dialética da crença e da dúvida” (COMOLLI, 2006, p. 171).

No filme, esse momento é bem nítido para o telespectador, já que só depois de um tempo é que se percebe a presença da realidade inserida na ficção. E é a partir disso que se começa a duvidar das próximas cenas. Não sabemos qual o limite da interpretação do ator e nem da verdade por trás das respostas dos entrevistados nas ruas. Esta limitação pode estar, por fim, muito interligada ao que o telespectador quer acreditar que seja real ou não, de acordo com suas próprias crenças e convicções.

“Ele está de volta” é apenas um exemplo dessa visão do espectador, guiada pelo roteiro, mas sustentada por ele próprio. Outros filmes usam da mesma técnica para confundir quem os assiste, embrulhando num mesmo pacote a realidade e a ficção. São os casos da comédia anglo-americana “Borat!” (2006) ou o brasileiro “Mercado de Notícias” (2014), que fundem fatos com encenações e confundem o real com a ficção.

COMOLLI, Jean-Louis. Sob o risco do real. Ver e Poder – A inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário.Editora UFMG, Belo Horizonte, 2006.

Um gênio chamado Fiódor Dostoiésvki

Um pouco da vida e da obra do maior escritor russo de todos os tempos.

Presente no topo da maioria das listas de grandes escritores do mundo, Fiódor Dostoievski compôs sua literatura calcado na crença de que o indivíduo é composto de sofrimento, já que vive em um constante “conflito entre as idéias e o coração”: essa foi a definição que o próprio autor deu ao tema recorrente das suas principais obras. Uma crítica à ideologia socialista e ao niilismo que se alastravam pela Rússia da primeira metade do século XIX contrapostas aos valores e tradições ortodoxos que por muitos anos se assentavam entre o povo daquele país, principalmente entre as classes mais pobres. E era nessas classes, entre os mais desfavorecidos, que o autor buscava principal inspiração

A biografia de Dostoievski reflete esse pensamento e sua interpretação da sociedade o traduz em enredos nos quais esse conflito se mostra sempre aparente. Ao conhecer sua história de vida, é possível perceber muitas das influências que compuseram seus livros.

Nascido em 1821, o futuro escritor viria a perder a mãe aos 16 anos e o pai, médico e proprietário de terras, aos 18. Quando sua mãe faleceu, o jovem Fiódor foi enviado a São Petersburgo para estudar na Academia Militar de Engenharia e lá ainda estava quando recebeu a notícia da morte do pai. Responsável por si mesmo a partir de então, Dostoievski, que já havia estudado diversos autores europeus durante o curso de engenharia, viu-se obrigado a trabalhar em empregos que, apesar dos bons salários, pouco lhe apeteciam. Ingressou na carreira militar e conseguiu a patente de tenente no exército czarista. Entre um trabalho e outro no Ministério da Guerra em São Petersburgo, chegou a escrever duas peças de dramaturgia e a traduzir um livro de Balzac.

Aos 25 anos de idade, cansado do serviço público, desistiu de seu cargo e passou a se dedicar inteiramente à composição literária. Naquele mesmo ano, 1844, Fiódor Dostoievski publicou seu primeiro livro: Gente Pobre. Escrita em linguagem epistolar, a obra revelou-se um sucesso de crítica e, de forma arrebatadora, o autor deu o primeiro passo para alcançar seu futuro lugar no panteão dos escritores russos modernos. Tornara-se uma celebridade literária, mas tal passo grandioso mostrou-se logrado com a publicação de seus próximos três romances. Nenhum deles alcançou sucesso de crítica e de público e Dostoivski aparentava ter apenas sorte de principiante.

Sempre interessado nas classes baixas e frustrado com a carreira literária, o escritor passou a se envolver com socialistas utópicos e a participar de grupos que discutiam e pregavam a liberdade e a igualdade humanas. Diante do poder do czar e da tradicional sociedade dividida em castas da antiga Rússia, tal pensamento era considerado crime e combatido como tal. Ao ser denunciado, Dostoievski foi preso e enviado às prisões da Sibéria. Fora condenado a quatro anos de prisão e trabalhos forçados e mais um período indeterminado de serviço militar obrigatório.

Passou por duas prisões na Sibéria e mudou completamente seu pensamento sobre o povo ao perceber que, dentro das prisões, mesmo vivendo em um estado igualitário, as castas sociais continuavam divididas. Sonhou em liderar a classe servil, no entanto não foi aceito, sendo expulso da companhia dos servos. Passou a repudiá-los e nutriu por eles um rancor que o fazia desacreditar da sociedade. Porém, durante uma celebração religiosa de Páscoa, percebeu que aqueles homens, devastados pelo trabalho forçado e pela vida servil, também eram capazes de amar. O próprio Dostoievski definiu aquele momento como a sua conversão ideológica. Não se via mais como o líder do povo, tampouco os repudiava. Agora, via-os capazes de amar a agir por si próprios. Tinha esperanças novamente.

A reclusão durou quatro anos e por mais seis, ele se dedicou ao serviço militar, como cumprimento do restante de sua pena. Somente após dez anos de exílio, já com 38 anos de idade, Dostoievski voltou para casa.

São Petersburgo no final do século 19.

A experiência na Sibéria deu-lhe novo ânimo. A partir de seu retorno a São Petersburgo, em 1859, o escritor daria início à elaboração de seus grandes romances, as obras-primas de sua carreira – alguns de inspirações sociais, como Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov; outros quase auto-biográficos, como O Jogador, Memórias do Subsolo e Recordações da Casa dos Mortos. Além destes, Dostoievski ainda viria a publicar outros cinco livros, totalizando dez romances no período posterior à reclusão.

A análise psicológica de seus personagens, cujas mazelas o autor explorava profundamente, descrevendo eventos e sensações para lhes compor a alma com detalhes, tornou-se sua marca registrada, a principal qualidade de suas histórias. É possível em cada um destes livros (e também nos primeiros) adentrar intensamente no mais íntimo pensamento e sentimento de cada um dos personagens.

Recordações da Casa dos Mortos, publicado em 1862, narra as histórias de prisioneiros na Sibéria, com toques de auto-biografia. No romance, Dostoievski se dedica mais ao tema que a uma linha narrativa precisa, já que o livro não conta apenas uma histórias, mas vários fatos ligados às vidas dos prisioneiros. Foi essa a obra que o trouxe de volta aos holofotes da literatura russa e aos elogios dos críticos. Além de lhe render um elogio do colega – e igualmente importante escritor da época – Leon Tolstoi, que disse que Recordações… era o melhor livro de toda a literatura moderna.

Dois anos depois, em 1864, viria o curto Memórias do Subsolo, um romance com pouco mais de cem páginas. Apesar da brevidade, o texto narra com mestria a mente de um funcionário público aposentado. Em forma de memórias, descritas em primeira pessoa, o livro discorre sobre os rancores e amarguras de um homem sem nome. Seu próprio protagonista discursa para o leitor, tentando convencê-lo de que é um merecedor de admiração, mas tudo o que sabe é expor seu rancor com os amigos e com a sociedade. Maltrata por prazer seu empregado, penetra na reunião de colegas que não o querem por perto, sente inveja da colocação social de cada um deles e se envergonha ainda mais com os atos que comete para impressioná-los. E ainda desconta tudo em uma pobre prostituta, com quem passa a noite – não em busca de prazer físico, mas a procura de alguém que lhe pareça inferior, cuja companhia lhe faça parecer mais culto e importante. Tudo isso, no entanto, é oculto aos personagens com quem o protagonista convive – seus desgostos, escondidos no subsolo de sua mente, são narrados apenas ao leitor. Do fundo de sua mente, o personagem conclui que não fazer nada era a melhor opção em sua situação – um reflexo do movimento niilista que ganhava força naquela época. O homem do subsolo viria a inspirar Tolstói a criar seu próprio personagem subterrâneo, em 1877, em seu livro Ana Karenina.

Logo em seguida, Dostoievski publicaria seu mais famoso romance: Crime e Castigo. Um livro que trata exatamente do que diz no título: um homem, Raskólnikov, que comete um crime de assassinato premeditado logo nas primeiras páginas, e passa o restante do volume sendo punido por isso. Mas sua punição não vem da justiça do Estado ou da vingança de interessados. O castigo ao qual o título se refere é o desespero de ser pego, de descobrirem seu crime. A paranoia toma conta do personagem e Raskólnikov passa enxergar perigo em todos os cantos. O romance, no entanto, vai muito além das agruras psicológicas do protagonista. Ele retrata uma sociedade dividida entre pobreza e riqueza e volta aos temas abordados em Memórias do Subsolo. Raskólnikov, em seus atos, mostrava-se também um niilista e, através do absurdo de sua vida, Dostoiévski mostra sua crítica ao movimento, tão contrário à visão moral e psicológica daquele momento.

Nesse período, o autor viaja pela Europa e conhece os jogos de azar dos cassinos. Vicia-se nas apostas da roleta e passa a apostar com frequência durante suas viagens. O fato o influencia a escrever O Jogador: do diário de um jovem. Um livro que se aprofunda na mente de Alexei Ivanovitch, um jovem que aprende a apostar e aos poucos vai se viciando. O texto acompanha o desenvolvimento das supostas estratégias do protagonista, para ganhar em um jogo cujos cálculos pouco ou nada valem.

Entre 1869 e 1875, Dostoiévski publicaria mais quatro livros. Mas foi apenas em 1881, já bem próximo da morte, que ele trouxe a público aquela que seria considerada sua magum opus: Os Irmãos Karamázov. O enredo acompanha uma conturbada família, em uma cidade interiorana da Rússia: o patriarca Fiódor Pavlovitch Karamázov e seus três filhos – rebentos de dois casamentos distintos. O título do livro, sobrenome da família ali apresentada, viria da junção de duas palavras russas: “castigo” e “desacerto”. Dessa maneira, ele mantém sua linha temática do homem que erra para construir sua própria punição. Entre intrigas familiares e discussões políticas e literárias, o texto apresenta a querela entre pai e filho, motivados por questões financeiras e pelo interesse de ambos por uma mesma mulher. A contenda chamou a atenção de Sigmund Freud, que viu no livro de Dostoiévski o retrato perfeito daquilo que o psicanalista viria a chamar de Complexo de Édipo: o embate entre pai e filho. Freud ainda consideraria Karamázov como a maior obra da História.

Ao todo, Fiódor Dostoiévski publicou 14 romances, 18 novelas e duas obras de não-ficção. Viveu por 59 anos e faleceu em fevereiro de 1881. Sua obra influenciou a filosofia de Nietzsche, a psicanálise de Freud e deu origem a muitos dos movimentos que se seguiram, como o surrealismo, o expressionismo e existencialismo – principalmente este último. Por muitos especialistas, Dostoiévski ganhou o título de um dos maiores pensadores da História da humanidade, o escritor que melhor soube traduzir a psique para as páginas de um livro e um dos maiores autores de todos os tempos.

O testamento literário de Herman Hesse

Um romance utópico, de idéias grandiosas, que reúne em um único homem uma das principais motivações da humanidade: a busca pela compreensão do mundo. Se for possível resumir O Jogo das Contas de Vidro em uma única frase, essa deveria ser sua definição. Mas este livro de Herman Hesse vai muito além e se envereda por vieses e escopos de uma sociedade erudita que, ao mesmo tempo em que deveria ser o ideal da evolução social humana, também se mostra um caminho conturbado.

Toda a história se passa na província fictícia de Castália, em um país não identificado, num futuro distante – um lugar onde todos os habitantes são intelectuais e se dedicam ao estudo profundo de variadas disciplinas, principalmente a matemática e a música. O jogo citado no título do livro é o ápice da criação intelectual da raça humana e o único passatempo dos habitantes de Castália. Também chamado de Jogo de Avelórios, o entretenimento é um reflexo do meio em que foi criado, envolvendo em suas regras o uso de física, astrônoma, linguística, filosofia, matemática e música, as quais são manipuladas pelos jogadores em uma linguagem capaz de unificar a todas em um único e primordial conhecimento, através de divagações lógicas e racionais que conseguem misturar todos os tipos de conhecimento puro.

Mas essa atividade lúdica é apenas uma das partes do livro – o pano de fundo para a biografia de seu protagonista – Joseph Knecht (traduzido no Brasil como José Servo, já que a simplicidade de seu nome é primordial para interpretação da história) – e para sua busca pela compreensão e elevação espiritual.

A obra se divide em três partes distintas, mas que se complementam. A primeira delas trata do jogo, através de um curto histórico da atividade; a segunda e mais extensa se dedica à biografia do protagonista, como um livro dentro do livro; e, por fim, algumas obras póstumas atribuídas ao José Servo – poemas e contos – que enlaçam, de forma metafórica, todas as idéias trabalhadas ao longo do romance, abordando um contorno bem mais sucinto e objetivo dos temas explorados por ele.

O texto, ao longo da segunda parte, se envereda pela vida de Servo, desde sua infância. Sempre com o tom intimista de uma biografia, Hesse descreve a entrada do personagem no mundo acadêmico e seu envolvimento com o jogo. Seu deslumbramento com aquela que seria a obra máxima da intelectualidade intensifica seus estudos e – por mérito e reconhecimento – alcança o cargo de Magister Ludi (o Mestre do Jogo de Avelórios), a mais respeitável e admirável colocação dentro de Castália. O relato sobre a vida de Servo o acompanha em sua escalada espiritual, voltando-se para a descoberta e para o conhecimento, voltando sempre para o pensamento racional.

Apesar da linguagem carregada, o enredo é simples e deveras comum nas demais obras de Hesse: a rixa entre o erudito e a vulgaridade, entre a evolução do espírito através do conhecimento e a vida cotidiana. A província de Castália se dedica ao pensamento lógico sobre as disciplinas que compõem o jogo, mas desprezam a História por ser, talvez, uma ciência humana que foge ao adágio racional.

Em certo momento de sua vida, no entanto, José Servo, durante uma apresentação feita em um mosteiro, conhece um monge da Ordem Beneditina. As longas conversas com o monge giram em torno de uma disciplina que até então lhe era pouco quista e Servo começa a perceber que a História tinha-lhe muito a ensinar.

Contrariando todas as expectativas de seus concidadãos, Servo abandona a província e vai viver no mundo exterior, em meio à vida prática das pessoas comuns: abdica, portanto, do espírito e volta-se para o vulgar. Percebe, pois, através da História, que existem falhas nas atitudes de sua província e, sentindo-se responsável por ela, busca ele próprio algum tipo de solução. Num momento inesperado, no entanto, em um acidente repentino em um lago congelado, José Servo morre e sua biografia é encerrada abruptamente.

Daí em diante, as poucas páginas que sobram ao final do romance se dedicam à publicação da obra póstuma do protagonista.

O final, aparentemente desmotivador, coroa com mestria o romance de fortes tendências existencialistas: uma sociedade utópica fechada em si mesma, que possui como instituição máxima a mais avançada criação humana e que, no entanto, benefício algum traz à humanidade; um protagonista que se dedica toda a vida à evolução e, em determinado momento, percebe que esta pouco tinha de evoluída; uma morte abrupta que faz questionar a própria existência e a dedicação individual ao espírito e ao erudito; e, por fim, um legado póstumos deveras enfadonho, como último suspiro de uma vida perdida ao acaso.

Não apenas no enredo, mas também nos detalhes linguísticos, Hesse laureou os significados do que pretendia. Os nomes usados na obra não foram de graça. O título de sua terra utópica, Castália, é também o nome de uma ninfa da mitologia grega. A Castália grega foi transformada em nascente de água pelo deus Apolo e alocada próxima ao famoso oráculo de Delfos. As águas desta fonte inspiravam aqueles que dela bebiam e exaltavam seu espírito poético. Não muito diferente das intenções de Hesse com sua comunidade utópica e inspiradora: um lugar que acirrava o conhecimento e despertava o pensamento.

Em contrapartida, o ápice da criação dessa sociedade inspiradora, o Jogo das Contas de Vidro, ou Jogo de Avelórios, traz em seu nome um significado que se opõe àquilo que ali era pregado. Vidros não são jóias e possuem pouco ou nenhum valor. A própria palavra “avelório” – na versão portuguesa do livro – traz em si um significado dúbio: “conta de vidro” ou “algo de valor escasso”.

Não obstante, o Magister Ludi da atividade, protagonista da obra, carrega em seu nome não uma pomposa distinção, mas a alcunha de um simples servo. Não trazia, portanto, a soberba dos castálicos. Ao contrário, buscaria a evolução do espírito através do vulgar, do humilde, da servidão. E assim, como uma alusão ao sobrenome de José Servo, o protagonista termina seus dias nas últimas páginas de sua biografia: como o tutor do filho de um amigo, que ele conhece fora da província em que vivia.

Não à toa, as questões levantadas por Hesse ao longo d’O Jogo das Contas de Vidro renderam-lhe o Nobel de Literatura de 1946. O livro é considerado sua magnum opus, seu testamento literário, um legado para o pensamento sobre os reais valores da cultura humana.

Devido à grandeza e perfeição do Jogo de Avelórios, nada criado pelo homem poderia ocupar o lugar dessa atividade lúdica que é, ao mesmo tempo, a mais nobre e a mais inútil das criações humanas. E tal inutilidade talvez reflita a gratuita e efêmera existência, tão pomposa em sua erudição, mas ao mesmo tempo passageira, como bem atestado pela morte abnega de José Servo.

O autor parece ter guardado, para este romance, toda a influência que acumulou ao longo da vida – suas origens em uma família cristã, sua aproximação com a espiritualidade hindu, suas fortes ligações com a psicologia analítica de Carl Jung e sua vivência através de duas Guerras Mundiais. Tudo parece se unir para compor um pensamento complexo, não de uma sociedade futurista, mas atemporal – e que talvez fosse um reflexo existencialista da primeira metade do Século XX.

Em Busca do Reinado e de Uma Fantasia Imparcial

Imagine um mundo pós-apocalíptico e falido, vítima da 3ª Grande Guerra Mundial, onde a água potável é um bem escasso, caro e altamente cobiçado pelas pessoas. Agora mude completamente sua imaginação e pense em uma terra inóspita, repleta de florestas e campos verdejantes, montanhas e rios abundantes. Mesmo que contraditórios e tão contrastantes, estes são os ambientes por onde se passa a aventura do jovem Bruno, protagonista do épico juvenil Em Busca do Reinado: O Diamante Azul, escrito por Juliano Reinert e publicado este ano pela Editora Pistis.

Escrito ao longo da última década, o livro mistura fantasia medieval com a temática ecológica, unindo o estilo tradicional da fantasia europeia com um futuro distópico de nosso próprio país. Nessa mistura sensata, Reinert nos apresenta Bruno… apenas Bruno: um jovem órfão de guerra, sem sobrenome, sem um passado relevante para aqueles que o rodeiam, sem identidade em meio ao caos que se tornou a humanidade após uma batalha de proporções globais. Apesar das amizades e da personalidade cativante, o personagem é apenas mais um trabalhador que luta para ganhar a vida e manter abastecido seu pequeno e extremamente necessário estoque de água.

O cenário inicial é a cidade de Joinville, no Sul do Brasil, assolada pela seca e pela guerra. No entanto este ambiente catastrófico é apenas um grande epílogo para a aventura do protagonista. Por sorte ou por destino, Bruno é conduzido para um mundo paralelo, bem diferente da realidade em que vivia em nosso próprio planeta. No mundo fantástico de Tedawer Lorcb, o jovem órfão faz amizade com Osnegrion, um velho enigmático que vê no garoto a esperança de salvar seu reino.

Apesar de tão diferente de nosso próprio mundo, Tedawer Lorcb possui uma grande semelhança com o futuro criado por Reinert. Ali também, naquele ambiente mágico e medieval, está ocorrendo uma longa guerra, que há anos vem destruindo os povos da região. Um combate sem fim, que já dura gerações e que precisa ser encerrado antes que um mal ainda maior venha a acontecer.

O maior trunfo da história, no entanto, é sua imparcialidade.

Juliano Reinert em noite de lançamento do livro / foto: Eberson Theodoro

Talvez por ser jornalista, Juliano Reinert trouxe para Em Busca do Reinado uma visão acadêmica da imparcialidade de sua profissão. É fato que a imparcialidade não existe na imprensa ou no indivíduo, mas é o ideal do jornalista sempre abordar um tema por diferentes vieses, ouvindo e dando espaço para todas as versões do acontecimento.

Ao cair em um mundo desconhecido, em meio a uma guerra da qual não faz parte, Bruno se torna um personagem à parte de toda a situação. Pode, portanto, ver o fato pelo “lado de fora”. Dessa maneira, Reinert cria um conflito sem a dualidade maniqueísta do bem e do mal. Durante a aventura do protagonista, descobre-se aos poucos que os dois lados da guerra possuem motivos para se odiarem, possuem crenças para se acreditarem corretos e legítimos defensores da verdade.

O autor nos apresenta reinos cujos líderes e cidadãos estão convictos de que devem aniquilar o inimigo, enquanto nós, leitores, entendemos que ambos estão errados. Osnegrion guia Bruno pela razão, mas deixa que o jovem aprenda com a emoção, dando ao protagonista um arco dramático ao longo de toda a sua viagem pelo grande reino de Tedawer Lorcb.

Nada mais cabível para o atual cenário em que vivemos. Claro que não era a intenção de do autor fazer de sua obra uma analogia do atual cenário político do país, afinal, como já dito, o livro é uma conclusão de anos de trabalho. Mas é impossível não tirar dele uma lição importante: não se pode polarizar a verdade.

O Diamante Azul é a apenas a primeira parte desta grande fantasia. Juliano Reinert pretende publicar o final da história em breve. Resta saber qual será o destino de Em Busca do Reinado.

Ficha técnica:

Título: Em Busca do Reinado: O Diamante Azul
Autor: Juliano Reinert
País: Brasil
Publicação Original: 2018
Publicação Lida: Pistis, 2018
Páginas: 411

Um Brasil Milenar

O esqueleto de “Luzia”, como foi apelidado os restos mortais encontrados em Minas Gerais na década de 1970, foi datado com cerca de 12 mil anos de idade. É o mais antigo esqueleto do país e prova de que o ser humano já habitava por essas bandas há muito, mas muito tempo mesmo! Mais curioso ainda foi a descoberta feita pelos pesquisadores que analisaram o crânio de Luzia e constataram que ela era uma mulher negra – ou, pelo menos, tinha fortes características da estrutura óssea do povo africano.

Neste momento você deve estar se perguntando: será possível que tribos da África atravessaram o Atlântico em canoas e vieram às Américas antes mesmo dos atuais povos ameríndios, que chegaram por aqui vindos da Ásia? A resposta para essa pergunta pode ser encontrada em 1499 – O Brasil Antes de Cabral, escrito pelo jornalista da Folha de S. Paulo, Reinaldo José Lopes. O livro, publicado em 2017, parte do mistério de Luzia e se envereda por diversas outras curiosidades da arqueologia e paleontologia brasileiras, descrevendo várias descobertas sobre a pré-história sul-americana e desmistificando muito do que é popularmente conhecido pelos brasileiros.

Se na escola se aprende sobre índios preguiçosos e sociedades pacíficas habitando o continente de tal forma que pouco ou nenhum rastro causavam na natureza, em 1499 Lopes mostra uma outra visão, menos apática e muito mais instigante do que realmente eram estas terras antes da chegada dos portugueses e espanhóis.

Os habitantes nativos da América, principalmente da Amazônia, remodelaram muito da paisagem ao seu redor. Segundo o livro, as florestas encontradas por Cabral não eram tão naturais como os portugueses imaginaram, tendo muito de sua flora modificada pela ação humana ao longo de milhares de anos. E o mesmo pode ser dito do solo e, em alguns casos, até mesmo do relevo – canais e ilhas artificiais, solos cultivados e ricos em nutrientes, estradas e fortalezas, além de uma rica e colorida arte cerâmica, capaz de fazer inveja à porcelana chinesa.

A idéia de que os índios brasileiros não modificavam seu ambiente cai por terra após as recentes descobertas, que mostram vastas sociedades e uma longa rede de comércio entre diversas tribos ao longo de todo o “berço explêndido” onde viria a se deitar o Brasil.

Aproveitando os avanços da ciência, Lopes ainda pauta seu livro em pesquisas genéticas, linguísticas e antropológicas para traçar uma linha do tempo de diversas civilizações que habitavam as regiões que hoje compõem nosso atual país e seus vizinhos – e demonstra que sim, a vida por aqui era muito agitada antes do descobrimento; e não, os antigos inquilinos dessa pátria pouco tinham de pacíficos e nada de reticentes com a dominação européia de suas terras.

Ao longo do texto, Lopes conversa diretamente com o leitor, sempre com bom humor e simpatia, usando de trocadilhos e tiradas engenhosas para traduzir muitos dos termos técnicos usados na ciência. Mais que despertar a curiosidade, e mesmo que não seja a intenção do autor, a obra instiga um certo patriotismo ao expor a grandiosidade por trás deste gigantesco pedaço de continente que hoje nos cabe.

Se o Brasil não possui um mito fundador, como tantos outros países mundo afora, talvez, com 1499, seja possível ter um gostinho do que viria a ser este complemento histórico, dando ao país um passado extra e, ao povo, uma extensão da personalidade coletiva que nos une como nação.