Este Texto não é Livre – Como o Pensamento de Foucault Pode Explicar as Limitações do Jornalismo

O texto a seguir foi composto
para a avaliação da disciplina
Análise do Discurso e é postado aqui
apenas para registro e curiosidade dos leitores.

FoucaultA partir  do momento em que o jornalista detém para si  a fala do entrevistado, ele detém também o poder do discurso, a capacidade de moldar o discurso alheio de modo a se beneficiar dele em seu próprio discurso. Essa mesma relação de poder, porém, também se dá entre o jornalista e fatores que o impedem de enunciar os acontecimentos com total liberdade e originalidade.

Segundo Foucault, existem fatores Internos e Externos que limitam e conduzem o discurso. A relação de poder, partindo desta análise, foca-se nos sistemas Externos, ou seja, na relação do enunciador com a instituição na qual ele está inserido. Foucault enumera três fatores externos: a “Interdição”, a “Separação” e a “Vontade Verdade; cada qual uma formação complementar de relação do enunciador com o ambiente que o cerca.

A Interdição é o impedimento de se dizer o que quer à quem e/ou onde quiser. A Separação é a necessidade de aprovação do discurso por outrem. Enquanto a Vontade de Verdade diz respeito à relatividade dos valores, que poder ser verdadeiros ou falsos, dependendo do âmbito no qual estão inseridos.

Tendo por base o pensamento de Foucault, é fácil entender as relações de poder que limitam o discurso do jornalista, sendo que este encontra-se naturalmente inserido em instituições que conduzem e moldam seu texto. É fácil citar exemplos que cerceiam o discurso jornalístico, como a linha editorial do veículo, influências econômicas dos anunciantes, empecilhos políticos ou mesmo determinações legais.

Em um exemplo extremo, o jornalista jamais poderia publicar acusações ao veículo do qual faz parte ou aos funcionários que ali trabalham. Nem mesmo se voltar contra empresas que o patrocinam ou ir contra a legislação local.

É, portanto, compreensível que todo e qualquer discurso jornalístico seja limitado a regras implícitas – jogos de poder – que conduzem o jornalista na construção do seu texto e o impedem de expor livremente seu enunciado.

J. R. R. Tolkien: Fantasia e Genealogia

O texto abaixo, de minha própria autoria, foi originalmente publicado no blog do portal MyHeritage.com, o maior portal do genealogia do mundo. 

TolkienApesar de ser professor em Leeds por seis anos e ser eleito a uma cátedra na Universidade de Oxford em 1925, onde ministrava aulas de Inglês Antigo e Medieval, Filologia Germânica, Islandês, Galês e Saxão (entre outros), o escritor britânico J. R. R. Tolkien só se tornou conhecido em seu país e no mundo após as publicações de seus dois mais famosos livros: O Hobbit (1937) e sua obra prima, O Senhor dos Anéis (1954). Neste e em outros mais de 20 livros (a maioria publicado postumamente), Tolkien desenvolveu uma vasta mitologia, com raças variadas: “deuses” e “demônios”, elfos, humanos, anões, hobbits, orcs e animais fantásticos. Suas histórias se desenvolvem desde a gênese do universo até o final das “eras mágicas”, quando apenas os humanos passaram a dominar o mundo.

Mais que uma simples história de fantasia, porém, a mitologia tolkieniana é uma narrativa concisa de um passado remoto de nosso próprio mundo, quando seres míticos ainda habitavam a Terra e os “deuses” ainda agiam abertamente, influenciando os destinos de humanos, elfos e demais raças. Nestes épicos estão narradas grandes batalhas, aventuras perigosas, mistérios e grandes amores. Mais que arriscadas demandas, no entanto, estão presentes nestas histórias grandes exemplos de humildade e simplicidade, amizade e amor, perseverança, coragem e justiça, além de discursos políticos e familiares, bem como uma profunda filosofia, capaz de refletir com exatidão os tão complexos conflitos humanos de nosso tempo.

Mesmo com tantos elementos fantásticos, as narrativas deste filólogo conseguem passar ao leitor uma aura de realidade grande o suficiente para que seja possível acreditar na existência dos fatos, ocorridos naquele período imemorável de nosso passado distante. Metódico ao extremo, Tolkien compôs essa impressão de que suas obras eram “registros históricos” abusando dos detalhes, como mapas minuciosos, idiomas próprios e vivos (suas línguas evoluem no decorrer da história) e mesmo emaranhadas árvores genealógicas de seus personagens, cujas sagas das famílias se desenvolvem por séculos – às vezes milênios. A genealogia é, inclusive, um dos passatempos favoritos dos hobbits – a raça de hominídeos cujo alguns personagens protagonizam seus mais famosos livros. Alguns hobbits, como dito em O Senhor dos Anéis, tinham orgulho de expor suas composições genealógicas, listando seus antepassados, seus filhos, tios e primos de graus variados.

Imagem_1

Clique para ampliar

Bilbo Bolseiro, por exemplo – protagonista de O Hobbit – é descendente de duas das mais tradicionais famílias hobbits (os sensatos Bolseiros e os aventureiros Tûks). Bilbo era filho de Mungo, neto de Bungo e bisneto de Balbo. É também sobrinho-neto de Largo Bolseiro, que, por sua vez, é bisavô de Frodo – protagonista de O Senhor dos Anéis. [vide imagem 1] Mas a família Bolseiro é apenas uma dentre muitas das mais tradicionais, como os Bolger, os Foçadores, os Pés-Soberbos, os Tûks, os Buques e muitas outras. Tendo cada família seus próprios costumes e tradições, bem como diferentes posições sociais, a genealogia ficcional de Tolkien torna-se, portanto, não apenas mero enfeite para os mitos, mas também contexto para criar a personalidade de cada um dos personagens. É baseado nos laços familiares e nas características genéticas que se define (ou se desafia) o destino de cada um deles.

Entretanto, por mais extensas que sejam as árvores genealógicas deste pequeno povo, elas não chegam nem perto da grandiosidade das genealogias dos elfos e humanos. Tendo estas raças surgido no Início do Mundo (sendo as primeiras criações de Eru, o Deus Único), suas genealogias se estendem por milênios, desde os primórdios do Tempo até o desfecho dos mitos, onde as histórias de todos se convergem numa última luta contra o grande Mal que ainda habitava o mundo. Sendo elfos e humanos os senhores dos grandes reinos que dominam o mundo criado por Tolkien, suas respectivas genealogias têm o contexto não só de enriquecer os personagens como também de basear as relações políticas, militares e comerciais, algumas vezes influenciando diretamente até mesmo as decisões dos “deuses”.

Imagem_2b

Clique para ver a árvore completa

Como um bom inglês que era, Tolkien colocou presente em sua obra uma monarquia de valores nobres e sublimes, tendo o rei como pai do povo. Bons reis eram líderes que tratavam seus súditos com igualdade e justiça, enquanto maus reis condenavam seus reinos à destruição. Em O Senhor dos Anéis, por exemplo, o grande e decadente reino de Gondor é governado há anos por regentes, pois a família do rei, apesar de ainda aguardada com esperanças, havia se perdido em guerras há séculos. O fim da história trás de volta a prosperidade do reino ao ser anunciado o retorno do rei – Aragorn, Filho de Arathorn, cujos antepassados viveram no exílio por gerações. [vide imagem 2]

Imagem_3

Clique para ampliar

Milênios antes do rei retornar a Gondor, uma história de amor foi capaz de mudar o desígnios dos próprios “deuses”. O humano Beren e a elfa Lúthien, ao concretizarem seu amor e gerarem um filho misto, com sangue da raça mortal e da raça imortal correndo em suas veias, obrigaram os Poderes do Mundo a mudarem as leis divinas e até mesmo a geografia do planeta; e seus descendentes, por milênios a fio, foram os grandes líderes de ambas as raças – cujo Aragorn, citado acima, e sua esposa foram os últimos mencionados em toda a obra. [vide imagem 3]

Os exemplos aqui citados são apenas alguns dentre muitos. As árvores genealógicas são extensas e variadas e podem ir além das histórias contadas nas páginas dos livros. O professor e escritor J. R. R. Tolkien era um genealogista da ficção e, apesar de atribuir a seus personagens o gosto pela genealogia, era ele próprio um entusiasta desta arte.

Se vivo, Tolkien completaria 123 anos neste dia 3 de janeiro de 2014. Ele próprio se dizia um hobbit, um sujeito simples e interiorano, avesso às modernidades. Se fosse mesmo verdade, talvez ele estivesse compondo sua própria genealogia nas páginas de sua esplêndida fantasia.

Chapulin – O Maior Herói Latino

Caixa ChapulinCriado, em 1970, pelo dramaturgo e ator mexicano Roberto Gomez Bolaños – eternizado por seu personagem El Chavo – o super-herói Chapulin Colorado possui, de maneira bem humorada, um teor caricato e crítico, totalmente contrário ao estereótipo padrão dos super-heróis lendários da TV, do Cinema e dos Quadrinhos. Fora feito para ser cômico, porém carregava consigo um discreto teor político que refletia aquele momento histórico vivido pelos mexicanos e, de modo geral, por toda a América Latina.

O Polegar Vermelho, como foi traduzido no Brasil, perdia em beleza, força e astúcia, porém ganhava em carisma e humildade. Não possuía uma identidade secreta. Chapulin era Chapulin todo o tempo, com seu uniforme vermelho, estampado com o símbolo universal do amor: um singelo coração amarelo.

A escolha do uniforme vermelho para o personagem Chapulin não fora premeditada. A emissora possuía em seu almoxarifado apenas quatro cores de tecido: preta, branca, azul e vermelha. Para Bolaños, o preto era extremamente negativo e triste, enquanto para os técnicos, o uso de branco e azul eram inadmissíveis – com o equipamento precário, o branco estourava a luz e ofuscava a imagem, enquanto o azul tornava inviável o uso do chromakey. Restava então o vermelho. O inusitado super-herói até então se chamaria El Chapulín Justo (O Gafanhoto Justiceiro, em tradução livre), porém, com o uniforme escarlate, surge o título “Colorado”, que em espanhol significa literalmente “vermelho”.

gafanhoto vermelhoOs chapulíns (palavra de origem nahuatl, o idioma asteca) são insetos comuns no México, usados inclusive na alimentação e dão nome a alguns lugares, como a colina Chapultepec (Colina do Gafanhoto), na região central da Cidade do México. Como Bolaños queria que seu herói fosse estritamente nacional, escolheu o inseto mais famoso do México para caracterizá-lo.

Talvez como uma paródia ao S do Superman americano, Bolaños acrescentou ao uniforme a inicial do personagem, a letra “che”. Em espanhol e em vários idiomas nativo-americanos, CH é considerado uma única letra. A letra “che”, diga-se de passagem, é a inicial de todos os personagens criados por Bolaños (Chabo, Chapatin, Chanfle, Charrito, Chompiras, Chaparron etc), a mesma inicial de seu apelido, Chesperito, o pequeno Shakespeare.

Chapulín Colorado trazia em suas histórias uma forte crítica ao imperialismo norte-americano, fazia piada dos vizinhos ricos e, de maneira caricata, abordava com frequência as influências externas na política latino-americana. O humor parece ingênuo, mas suas esquetes possuem um quê político e uma identidade tal, que transformou o atrapalhado Gafanhoto Vermelho no grande herói de toda a América Latina.

Não à toa, Chapulin possui várias referências à cultura e à história norte-americana, tratando-a sempre de maneira caricata, como em seus episódios sobre o Velho Oeste, a Guerra Civil Americana ou fazendo referência a clássicos filmes de Hollywood.

Enquanto as grandes editoras norte-americanas de quadrinhos – a DC Comics e a Marvel – dão ao público que a ideia de que ser um herói é algo inatingível e extraordinário, Bolaños aponta para o outro lado. A história de Chapulin é diferente de histórias onde os personagens, às vezes, possuem poderes para destruir todo o planeta e uma inteligência descomunal capaz de criar armas e veículos incompreensíveis ao leitor, além de enfrentar inimigos igualmente grandiosos. O pequeno gafanhoto vermelho é mais humilde e pau pra toda obra. Ele surge não apenas para enfrentar vilões, mas também para solucionar problemas cotidianos, como dar conselhos ao garotinho mimado que mente para os pais, resolver a situação de um casal que pode ser despejado por não pagar o aluguel, proteger um hotel da possível invasão de um criminoso, entre outras situações tão comuns para quaisquer cidadãos.

Os episódios em que o personagem Super Sam (interpretado por Ramón Valdez) entra em cena são, com certeza, os que possuem as críticas mais explícitas. Super Sam é uma paródia do ícone estadunidense, o Tio Sam. O personagem usa a roupa do Superman e uma cartola com as cores norte-americanas; tem como arma dois sacos de dinheiro e seu bordão de vitória é chavão de Wall Street: “Time is Money, oh yeah!” A maior curiosidade, porém, é que ele aparece sem ser chamado. Os personagens em perigo esperam por Chapulin e se decepcionam ao ver Super Sam, que está pronto para resolver problemas à sua maneira, unilateralmente, numa explícita referência à política externa dos Estados Unidos.

Chapolin1Enquanto Superman, Capitão América, Homem-Aranha e alguns outros possuem as cores da Revolução Francesa e do Sonho Americano, Chapulin Colorado traz consigo o vermelho da revolução latino-americana, mesmo que seu uniforme tenha sido composto ao acaso da necessidade. Enquanto os heróis da Marvel e DC se distanciam dos reles mortais, tornando-se cada vez mais poderosos, Chapulin Colorado poderia ser qualquer um de nós: um homem comum, cujo maior poder é a honestidade e a boa vontade em ajudar.

A verdade é que o personagem criado por Bolaños foi o último grande herói do mundo. Depois dele, não houveram outros. Homem-Aranha, X-men, Homem de Ferro, Capitão América, Batman e Superman surgiram entre 1938 e 1963. Chapulin foi criado em 1970, possui apenas algumas poucas histórias, compostas há mais de 40 anos, que nunca foram renovadas e que ainda hoje fazem sucesso na TV de dezenas de países. O mundo realmente não contava com sua astúcia!

Leia também o “Adeus, Chespirito…“.

Da Infância à Meninice

manoel de barrosCoração de poeta é sofrido, embriagado, vive sempre marcado, mas aguenta todos os baques da vida. O coração de Manoel de Barros trazia em si toda a sua nostalgia e suportou por quase um século a saudade dos tempos de infância. No entanto não aguentou a ruína da idade e deixou de bater na manhã do dia 13 de novembro de 2014, deixando órfãos as palavras e os versos do poeta mato-grossense.

Durante os 97 anos em que viveu, Manoel nunca envelheceu de verdade. Em sua obra, ele sempre exaltava a infância, as brincadeiras de moleque, a simplicidade da roça… Eram memórias de tempos idos misturadas às fantasias do presente, a invencionice de criança que nunca o abandonou. “Tudo o que não invento é falso”, dizia ele, quebrando o sentido das palavras e contorcendo as mentes daqueles que não viviam em seu mundo particular de poesia. Aliás, brincar com palavras era seu maior prazer: “percebi que servia era pra aquilo, ter orgasmos com as palavras”.

Manoel de Barros, como ele mesmo disse em suas “Memórias Inventadas”, era um escultor de palavras. Aquelas que caiam em suas mãos eram talhadas e lapidadas e ganhavam em seus versos um novo significado, às vezes até mesmo novas letras ou fonemas diferentes.

Usava as palavras para compor um pouco de tudo, sempre de maneira inusitada. Seus versos não falavam de grandes amores ou feitos heroicos. Falavam de latas velhas, carrinho de pau, sapo de brejo, garça, pedra e rio. Se citava os tempos de criança, era como se ainda os vivesse. Se versava sobre a maturidade, era como se nela nunca tivesse chegado. Se fazia rimas na velhice, tratava-a como uma terceira infância.

Manoel-de-BarrosApesar de aparentar inocência ao tratar o mundo sempre sob olhos de garoto, de inocente ele nada tinha. Não temia as palavras proibidas nas casas de família, e falava de punheta como quem falasse de esconde-esconde: apenas mais uma saudosa brincadeira de criança. Sem tabu que o segurasse, sem medo de preconceitos e apelidos. Manoel de Barros se orgulhava em ser o bocó que catava caracóis na beira do rio; prezava os insetos mais que os aviões, prezava mais as tartarugas que os mísseis; era “aparelhado para gostar de passarinhos”.

Sua poesia ganhou prêmios variados. Trezes deles entre os mais importantes do país, incluindo dois Jabutis, por “O Guardador de Águas” e “O Fazedor de Amanhecer”. Entre 1937 e 2013, Manoel publicou 34 livros no Brasil, além de publicações em Portugal, França e Espanha.

Antes de se enveredar pelas palavras, fez parte da Juventude Comunista, seguiu os passos de Luis Carlos Prestes e derramou lágrimas ao vê-lo se dobrar na direção de Vargas. Formou-se em Direito no Rio Janeiro; morou em pensionato; revoltou-se com a poesia e Padre Antônio Vieira; se inspirou com a obra de Arthur Rimbaud. Viveu na Bolívia, Peru e Nova York; fez curso de cinema e pintura; se descobriu poeta ainda na adolescência.

A verdade é que Manoel de Barros nasceu no mato e nunca saiu de lá. Veio ao mundo em dezembro de 1916 e, apesar do sucesso como poeta, nunca se permitiu estar à frente de holofotes, sempre fora recluso, tímido e recatado. Escrevia seus versos na fazenda que herdou dos pais, em Corumbá, onde morava desde 1960. Ganhou a vida criando gado e usou da poesia para se procurar, sem nunca ter se achado – o que, em suas palavras, lhe foi a salvação.

“No meu morrer tem uma dor de árvore.”

Adeus, Chespirito…

ChespiritoQuando ele subiu ao palco pela primeira vez, muitos que hoje o idolatram sequer tinham nascido. E agora que ele se foi, muitos que ainda hão de nascer já chegarão ao mundo como órfãos do pequeno Shakespeare mexicano.

Roberto Gomez Bolaños era um latino-americano como cada um de nós. Estava na periferia do Ocidente, ao sul do Primeiro Mundo. Não havia em sua terra o mesmo poder que se estendia ao norte de suas fronteiras. Os personagens que criou como dramaturgo e escritor não poderiam ser diferentes dessa acepção, teriam de vir da mesma simplicidade, falar diretamente com o povo e mostrar que era possível ser feliz em meio ao pouco que possuíam.

E assim foi surgindo a ingênua, porém grandiosa trama de seus personagens, que aos poucos se emaranhou ao cotidiano daquele país, ultrapassou suas fronteiras e envolveu o mundo. Não eram produções de grande qualidade técnica e estavam muito longe do glamour hollywoodiano. Porém eram sinceras, comoventes, envolventes e divertidas: a linguagem certa para se identificar com o público latino.

El Chavo del Ocho era um garoto pobre que se escondia em um barril. Seus companheiros eram uma viúva pobre e orgulhosa e seu filho arrogante, um senhor desempregado e sua filha pentelha, uma solteirona velha e apaixonada, um professor desconsolado com sua turma, um carteiro preguiçoso e um generoso e gordo senhorio, dentre todos, o menos pobre. Existia ali, dentro do seriado que saiu do México e ganhou o mundo, uma lição que seria ensinada por gerações: dentre tantas brigas, dentre tanta frustração, em meio a tanta pobreza, há sempre um espaço para felicidade. El Chavo ensinou ao mundo que um sanduiche de presunto tem um valor inestimável, que a honestidade está acima do orgulho e que amizades estão acima de classes sociais.

chapoline201Apesar de ter El Chavo como seu personagem mais famoso, é com Chapulin Colorado que Bolaños mais mostrou sua genialidade. O ideal de Chapulin batia de frente com o imperialismo norte-americano e parodiava os “deuses” invencíveis das HQs ianques. Era um personagem tonto, desastrado e medroso, sem dinheiro e sem recursos. Mais atrapalhava do que ajudava. Mas sabia superar seus medos, sabia ter compaixão por seus inimigos e enfrentava seus problemas, mesmo que da maneira mais inusitada. Chapulin é a necessidade do povo latino-americano de ter um herói próprio, de mostrar que não precisa de ajuda externa e isso fica bem claro nos episódios em que Chapulin contracena com Super Sam – o herói claramente americano, à imagem do simbólico Uncle Sam: enquanto Chapulin só aparece quando é chamado, Super Sam está sempre por ali, pronto a ajudar mesmo quando ninguém o quer por perto. Se há aqui alguma semelhança com a política externa dos Estados Unidos, ela é totalmente intencional.

Há muito mais nas esquetes criadas por Bolaños do que simplesmente o humor infantil. Havia uma crítica social, uma inspiração política, um desdém àqueles que se propunham superiores. El Chespirito, o pequeno Shakespeare, provou que a humildade pode desbancar qualquer soberba; que existem ouvidos para a voz dos latinos; e que o mundo é pequeno para um garoto que oito anos, cujo lugar mais longe que visitou foram as praias de seu próprios país.

Os programas criados por Bolaños foram traduzidos para mais de 50 idiomas em todo o mundo e ainda hoje, 45 anos após sua estreia, é regularmente transmitido em mais de 20 países.

Sem querer querendo, Roberto Gomez Bolaños arrebatou os corações de centenas de milhões de pessoas, arrancou-lhes risos e lágrimas e deu-lhes esperança em um mundo melhor.

Se me permitem fugir à formalidade do texto, preciso dizer que cada letra aqui escrita foi regada a lagrimas do mais puro saudosismo. Desde minha infância, Bolaños foi o sujeito que mais quis conhecer na vida, apenas para um aperto de mão e um agradecimento. Ele arrancou risos dos meus avós, dos meus pais e de mim, e com certeza arrancará risos dos meus futuros filhos e netos, caso venha tê-los algum dia.

“Prometemos despedirmos
sem dizer adeus jamais,
pois haveremos de nos reunirmos
muitas, muitas vezes mais.”

Vai-te em paz, Chavinho. Dentre tantos risos, hoje finalmente você me arrancou lágrimas.

Leia também “Chapulin – O Maior Herói Latino

Você sabe o que é PODCASTING?

ArtigosHey, você! Sim, você mesmo! Já ouviu algum podcast? Não? Mas pelo menos tem ideia do que se trata, não é? Também não? Então vamos deixar de preguiça e entender melhor o que é esta nova maravilha midiática.

Podcasting é uma recente forma de publicação e distribuição de produtos midiáticos pela internet, que podem ser áudios, vídeos, textos, fotos etc. Diferente do Broadcasting (a radiodifusão – onde um programa é transmitido de uma única fonte para muitos ouvintes/expectadores em massa) o Podcasting é um sistema bem mais personalizável.

Você pode assinar gratuitamente o feed de algum site ou blog que mais goste e, daí então, receber todas as novidades deste site diretamente no seu celular, MP3 player, tablet ou computador, automaticamente, sem você nunca mais precisar acessar aquele site ou ficar buscando pelo tema no Google.

É você quem escolhe a programação que quer acompanhar e o horário em que quer ouvir/assistir/ler aquele conteúdo.

Dentre as mídias distribuídas em Podcasting, a que mais tem se destacado é o podcast, um programa de áudio onde uma ou mais pessoas apresentam e debatem os mais variados temas. De arte e cultura à política e esportes, passando por filosofia, saúde, ciência, História… qualquer conteúdo pode virar assunto dentro de um podcast.

E o melhor: é extremamente democrático!

PodcastVocê não precisa de grandes equipamentos e rios de dinheiro. Basta um computador com acesso à internet, um microfone, um software de edição e muita, mas muita criatividade e jogo de cintura para atrair seus ouvintes!

Mas só por que é acessível e democrático, não pense que é algo amadorístico. Alguns programas distribuídos em podcasting ganharam ares de indústria cultural e hoje são produzidos com qualidade ímpar, superior a muitas rádios. Algumas pessoas realmente ganham suas vidas fazendo podcast e distribuindo na internet. E você deve estar se perguntando: “se já se tornou algo profissional, como foi que eu nunca ouvi falar disso antes?” Pergunta difícil, porque podcasts existem aos montes (cerca de 350 em todo o país) e alguns têm média de 300 mil ouvintes por episódio.

Quem acompanha o Covil já deve ter visto algum post sobre participações minhas em podcasts diversos. Isso é porque há quase dois anos eu entrei neste universo e me tornei integrante fixo da equipe do Telhacast – um portal totalmente dedicado à mídia podcast e ao podcasting de um modo geral, com textos didáticos sobre o assunto e, claro, muitos programas para você baixar e ouvir. Até o momento já gravamos 81 episódios do Telhacast!

O programa publicado esta semana, que conta com participação minha, foi um vasto debate, com pouco mais de 1h de duração, sobre o Caso Varginha e a ufologia brasileira de um modo geral. Para ouvir o programa inteiro, basta clicar neste link ou na imagem abaixo.

Caso-Varginha

A idéia deste post, entretanto, não é apenas fazer um jabá descarado do Telhacast, mas principalmente apresentar esta tão democrática mídia ao leitor do Covil. Claro que eu recomendo e muito os episódios do Telhacast, afinal eu faço parte da trupe e me orgulho muito disto. Porém existem tantos outros podcasts fantásticos espalhados pela podosfera brasileira e alguns merecem muito ser conhecidos e ouvidos. Abaixo, portanto, segue uma lista de alguns dos meus favoritos – uns sérios, outros extremamente divertidos. Escolha o estilo que mais lhe agrade, procure um tema que lhe interessa e ouça! Ouça todos e seja bem-vindo à podosfera!

  • NerdCast – É o maior e mais famoso podcast do país. Foi criado pelos dois nerds mais xiitas da internet, que possuem uma bagagem de cultura pop infinita e um humor pra lá de escrachado. Os programas, por mais variados que sejam (e realmente são, pois tratam desde super-heróis até investimento na bolsa de valores), são permeados de referência à cultura nerd e pop e recheados de bom-humor.
  • GeekVox – O GV não é muito diferente do NerdCast. Seus integrantes são animados e divertidos e fazem um programa voltado para o público jovem, também permeado de citações a cultura geek (que não é muito diferente da nerd) e abordando temas leves como profissões, sonhos, bebidas, jogos etc.
  • Na Porteira Cast – Assim como os dois citados acima, o NPC também apresenta seus temas em forma de debate, contando sempre com três ou mais participantes em cada episódio. No entanto este podcast trás uma linguagem diferente ao abordar seus assuntos sob uma visão interiorana, contando sempre com convidados que moram longe das capitais.
  • Enquadrando e Andando – Diferente dos demais já apresentados, o Enquadrando foca em um único assunto: o cinema! Todos os episódios deste podcast apresentam debates (às vezes leves, às vezes profundos) sobre filmes novos e antigos, sempre com bom-humor, dinâmica e vasto conhecimento.
  • Escriba Café – O Escriba foge totalmente à regra dos demais já citados. Em vez de apresentar seu conteúdo em um debate descontraído, seu autor desenvolve e narra um texto sobre determinado assunto, discorrendo fatos da História humana de maneira crítica e aprofundada e aproveitando do background para criar todo um ambiente sonoro, imergindo o ouvinte em sua narrativa. É, talvez, o mais conciso e sério podcast dentre os aqui citados, porém não possui periodicidade e, às vezes, demora meses até que um novo seja publicado – o que é lamentável.
  • Papo Lendário – É exatamente como diz seu nome: um bate-papo sobre lendas e mitos do presente e da antiguidade. Neste podcast se discute toda e qualquer mitologia do mundo, abordando deuses, seres fantásticos, histórias mitológicas, religiões e a influência de tudo isso na nossa cultura e na do mundo.
  • Palavra Chave Podcast – Este é um programa diferente também. Bem mais curto (com cerca de 20 minutos apenas), aborda fatos do cotidiano sob um viés psicológico. O autor é psicólogo e apresenta sozinho o seu programa, firmando seu monólogo sobre teses de psicologia. Infelizmente possui apenas quatro episódios até o momento e espero que tenham mais.
  • Papo Filosófico – Da mesma forma que o Palavra Chave, o Papo Filosófico também está parado e já não publica um episódio novo há um bom tempo. Entretanto vale muito a pena ouvir os que já estão lá. Apresentado por um filósofo, o PF propõe uma visão filosófica sobre seus temas, apresentados em forma de debate com convidados variados. Já falaram ali sobre carnaval, o programa Mais Médicos do Governo Federal, a Televisão etc. Espero que voltem logo a publicar algo novo.
  • Telhacast – Mesmo já tendo citado o Telhacast várias vezes no início deste texto, preciso incluí-lo também aqui na lista de recomendações. O carro chefe do Telha é seu podcast homônimo, porém há muito que se tornou um portal totalmente dedicado a esta mídia. Além de agregar outros podcasts independentes (como o Enquadrando e Andando, o NossoCast e o PlayerCast), ele ainda possui outros dois programas (Os Comentadores, que fala sobre podcasts em si, e o Po(d)ema, dedicado a narrativas poéticas dos próprio integrantes e também dos ouvintes). Além de tudo isso, o Telhacast ainda tem colunas e mais colunas com tutoriais, opiniões e recomendações para quem se interessa pelo sistema podcasting.

Como disse antes, estes são apenas aqueles que mais gosto e ouço com mais frequência. Existem centenas de podcasts diferentes e uma lista completa de todos eles você pode encontrar no site YouTuner.

Agora que já sabe o que são podcasting e podcast, vá ouvir e divirta-se!

As Solidões de Oswaldo Montenegro

SolidõesOswaldo Montenegro é, acima de tudo, um poeta. Seus versos são poéticas, suas melodias são poéticas e suas apresentações musicais idem. Sendo assim, ao se aventurar pelo cinema, o resultado não poderia ser diferente: seus filmes são magistralmente poéticos.

Em seu primeiro longa, Léo e Bia (Brasil, 2010), Montenegro usou da linguagem teatral para narrar uma história de amizade, afeto, comunhão e fidelidade (com forte cunho político, é verdade). Agora, três anos depois, ao lançar sua segunda aventura cinematográfica, o diretor nos apresenta o lado contrário daquele primeiro cenário: a solidão.

Em Solidões (Brasil, 2013), que foi rodado com recursos próprios e co-produzido pelo Canal Brasil, Oswaldo Montenegro cria um emaranhado de histórias paralelas, passadas em lugares diversos do país, mas ligadas pelo sentimento que dá título ao filme. Cada “conto” nos apresenta um personagem distinto, em situações ora comuns, ora inusitadas: a moça que convenientemente perde a memória quando sua vida não mais a agradava; o homem que se encontra consigo mesmo em uma realidade paralela; a jovem apaixonada que aguarda o namorado no bar, ou o garçom cantor que a ampara no seu momento de abandono;  a mulher solitária que é tentada pelo diabo em pessoa – tão solitário quanto ela própria; ou ainda o músico do interior mineiro que vai para o Rio em busca da fama. Todas estas histórias têm como base um texto forte, satírico e, muitas vezes, metafórico, com diálogos significativos e inteligentes, voltados sempre para expor, de forma crua, a solidão diversa e, ao mesmo tempo, comum dos personagens.

Solidões3Contadas de forma fragmentada e unidas sob um mesmo tema, as narrativas formam um mosaico de fantasia, ficção e realidade. Aliás, é praticamente impossível discernir o que é real e o que não é neste longa de Montenegro. De forma apurada, o diretor mescla atuações com entrevistas e cria uma mistura de documentário e dramatização. Tudo isso intercalado com sequências abstratas em linguagem de videoclip, com bailarinos, manequins, performances de dança e tantas outras.

As interpretações não são excelentes, mas não deixam a desejar. Vanessa Giácomo é ao mesmo tempo personagem e narradora e se destaca no elenco, que conta ainda com Pedro Nercessian e os desconhecidos Renato Góes e Mayara Millane, além do próprio Montenegro e sua eterna parceira artística, Madalena Salles.

Solidões4Dentre tudo isso, o que mais pode incomodar o espectador comum, acostumado à narrativa linear e à técnica refinada do cinema blockbuster, pode ser a fotografia e a arte. A Direção de Arte de Solidões foge completamente dos padrões e cria cenários artificiais e minimalistas, com cores vibrantes, quentes. Em Léo e Bia, o cenário único de um galpão vazio reforçava a linguagem teatral do filme, mas em Solidões a composição parece não se encaixar. O que parecia agregar em Léo e Bia, em Solidões parece empobrecer. Por tratar-se de muitos cenários e, principalmente, por contrastar com sequências externas, a artificialidade acaba por causar um impacto deveras negativo. Apesar disso, é chocante em muitos momentos, principalmente ao compor metáforas através dos objetos de cena e maquiagens. A Direção de Fotografia, por sua vez, apesar de inteligente em seu arranjo, brincando com cenas em preto e branco e coloridas, peca em sua parte mais técnica, muitas vezes compondo cenas mal iluminadas ou mesmo granuladas. Mas são apenas incômodos que nada estragam o longa – e talvez até mesmo o enriqueça mais, já que em muitas vezes, principalmente na Direção de Arte, essas composições são claramente intencionais.

Solidões2O maior problema de Solidões, talvez realmente o único, é o áudio. A capitação, mixagem e edição de som chegam a ser amadorísticas. Os cortes do áudio são perceptíveis a todo o momento e, vez por outra, há mesmo uma interrupção brusca na sonorização do filme. As falas dos atores aparecem muitas vezes com o áudio rachado e estourado, a ponto de doer os ouvidos e dispersar o espectador do que está sendo dito. E, sendo Montenegro um músico, acostumado a gravações de áudio, fica difícil entender o motivo desta falha.

De um modo geral, Solidões não é melhor que Léo e Bia – e fica longe de ser tão bom quanto. Entretanto não deixa de ser um belo filme, inteligente, emocionante e, principalmente, envolvente. A poesia de Montenegro, seu roteiro inusitado e calcado na essência do ser humano e a montagem fragmentada fazem de Solidões uma obra única e marcante. “Faça uma lista de grandes amigos,/ quem você mais via há dez anos atrás./ Quantos você ainda vê todo dia?/ Quantos você já não encontra mais?”

Nota: Solidões, que estreou dia 1º de novembro deste ano em 6 capitais do Sul e Sudeste, rodará todo o país, sendo apresentado apenas um dia em cada cidade e contando com a presença do próprio Montenegro, que ministrará um debate após a apresentação. Maiores informações no site oficial do músico: http://www.oswaldomontenegro.com.br