Literatura, podcasts e sentimentos

Sentimentos à Flor da PeleNos antigos mitos das civilizações ancestrais, os deuses eram a personificação de sentimentos humanos ou de eventos da natureza, como o amor, a morte, a sexualidade, o ódio e tantos outros. Parece-nos natural humanizar as emoções, através das atitudes de personagens, para que possamos entendê-las melhor. Foi baseado nessa idéia que um grupo de podcasters brasileiros se uniu para criar a antologia Sentimentos à Flor da Pele, um pequeno livro com dez contos curtos, mas profundos em significados.

Os podcasts dedicados à literatura estão entre os mais populares da podosfera brasileira. Vários programas abordam a temática dos livros e seus participantes cativam ouvintes, incentivam a leitura e apontam dicas de boas histórias, muitas vezes desconhecidas. No entanto, esses podcasters, apaixonados pelo mundo das narrativas, tão acostumados a criar conteúdo em diferentes mídias da internet, tecendo críticas, elogios e resenhas a obras consagradas, foram desafiados não a falar sobre literatura, mas produz-la.

Seguindo a proposta dos organizadores Anna Schermak (ex-participante do LiterárioCast) e Vilto Reis (apresentador do 30:Min), cada um dos autores escolheu um sentimento como guia e, a partir dele, desenvolveu sua narrativa. Solidão, depressão, obsessão, apatia, raiva, ódio, nostalgia, medo, escapismo e poder se tornam protagonistas em seus respectivos contos.

As dez histórias presentes na antologia são narradas de forma ágil, sem floreios, contando situações que fogem à realidade, mas servem de contexto para o surgimento e desenvolvimento do sentimento-protagonista. Alguns dos autores não são escritores, no entanto a narrativa de todos é concisa e bem desenvolvida. É preciso que se diga que alguns dos contos fogem ligeiramente da proposta ou alguns personagens não representam bem o sentimento que lhes foi designado. Talvez pelo tamanho imposto a cada uma das histórias (apenas 8 páginas por autor) tenha faltado espaço para aprofundar as narrativas e desenvolver melhor cada um dos personagens.

Mesmo assim o livro possui uma qualidade indiscutível: a visão de diferentes pessoas sobre determinados sentimentos humanos. Afinal, sendo algo abstrato, cada qual possui sua própria interpretação de determinada emoção, mas, vista pelos olhos dos outros, o ódio pode ser mais próximo do amor que a obsessão. Ou a raiva pode se aproximar mais da apatia que a depressão. Conhecer como um autor representa suas aflições é um modo de entender melhor nossos próprios sentimentos.

Além dos organizadores, os outros oito autores são participantes dos programas CabulosoCast, LivroCast e O Drone Saltitante. A idéia do livro surgiu através da internet e sua publicação também usou da rede para se realizar. Os gastos de impressão foram pagos através de financiamento coletivo – crowdfunding – realizado através do site Catarse. Pessoas de todo o país, fãs dos podcasts literários, contribuíram com a produção do volume, num processo que transformou podcasters em escritores, com a ajuda de ouvintes que se tornaram leitores.

O sacrifício que nos deu a vida

Estrela“Somos poeira de estrelas”. A frase, dita por  Carl Sagan, é a constatação de um fato averiguado pela cosmologia moderna: todos os materiais que compõem nosso corpo foram produzidos há milhões de anos, no coração de estrelas agonizantes.

Desde que a física descobriu o funcionamento dos átomos, no início do século XX, nossa ligação com o universo vem se estreitando cada vez mais. Povos primitivos, desde a antiguidade, adoravam os pontos luminosos do céu, tratando-os como deuses e criadores de toda a vida na Terra. Mesmo que não soubessem, essas antigas religiões tinham um fundo de verdade: nossas vidas estão intimamente ligadas ao funcionamento das estrelas, próximas ou distantes, brilhantes ou já extintas.

Se não fossem essas grandes fornalhas, milhões ou bilhões de vezes maiores que nosso planeta, os elementos químicos que compõem as montanhas, os oceanos, o ar e nossos próprios corpos jamais poderiam existir. Todo o universo seria apenas uma gigantesca nuvem de hidrogênio e partículas subatômicas.

Mas, para entender como as estrelas nos deram a vida, é preciso saber como elas nascem e como funcionam.

Motor e combustível

As estrelas geram calor e luz durante bilhões de anos. Nosso sol, por exemplo, em apenas um dia, envia para a Terra 10 bilhões de vezes mais energia que a Usina de Itaipu em pleno funcionamento. E para conseguir isso, é preciso um motor de grande força e muito combustível.

Até o início do século XX, a fonte da energia das estrelas ainda era um mistério para a ciência. Não à toa, quem a descobriu é considerado um dos cientistas mais geniais de toda História da humanidade: Albert Einstein.

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Bomba atômica que dizimou Nagazaki, no Japão.

A Teoria da Relatividade, desenvolvida por Einstein na primeira década do século passado, expôs ao mundo o poder do átomo. Segundo o físico alemão, toda matéria é formada por energia condensada, armazenada dentro das partículas atômicas que compõem os elementos. A partir das teorias de Einstein, descobrimos que existem dois processos distintos capazes de liberar essa energia: destruindo o átomo completamente ou fundindo-os para formar um novo elemento.

A descoberta de Einstein não apenas nos fez entender o funcionamento das estrelas, mas também nos ensinou a acender pequenos sóis em nosso planeta: as bombas de fissão e de fusão – também conhecidas como bombas atômicas.

O funcionamento de uma bomba de hidrogênio é exatamente igual ao processo de fusão que ocorre constantemente no coração de uma estrela. O núcleo de uma estrela como o Sol gera o equivalente a um bilhão de bombas nucleares por segundo. E o motor de todo este processo é a força da gravidade.

A força gravitacional é o que mantém a estrela unida, mesmo com tanta energia sendo gerada em seu interior. A gravidade é diretamente ligada à massa de um objeto. Quanto maior o volume de sua massa, maior a curvatura espaço-temporal gerada por esse objeto, ou seja, maior é sua gravidade.

Apesar de serem tão grandes e tão brilhantes, as estrelas têm uma origem humilde: é necessário apenas uma gigantesca nuvem de poeira espacial e a ação da gravidade sobre as partículas soltas no espaço. Estas nuvens, chamadas de nebulosas, são formadas basicamente por átomos de hidrogênio. Em constante movimento pelo espaço, os átomos acabam por se chocar, unindo-se em pequenos aglomerados. Estes aglomerados se chocam entre si, aumentando de tamanho, até a gravidade ser grande o suficiente para, aos poucos, começar a sugar toda a nuvem ao seu redor, em um grande redemoinho cósmico. Quando toda a poeira é condensada em uma imensa esfera de gases, a força da gravidade se torna tão alta que começa a comprimir os átomos de hidrogênio, jogando-os uns contra os outros. Quando dois átomos de hidrogênio se chocam em alta velocidade, eles se fundem, formando um único átomo de hélio. Essa fusão, a mesma que ocorre em uma bomba nuclear, é o que libera a energia emanada pelo astro.

Da morte à vida

A cada segundo, nosso sol “queima” 600 toneladas de hidrogênio. Uma estrela maior pode queimar o dobro dessa quantidade ou mesmo 10 vezes mais. Durante bilhões de anos, a pressão gerada pela força da gravidade comprime os átomos de hidrogênio, fundindo-os e formando átomos de hélio. Mas chega o dia em que o estoque de combustível acaba e a força gravitacional começa a fundir os átomos de hélio, formando carbono.

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Processo de fusão dos átomos

Quando o átomo foi descrito pela primeira vez, ainda na Grécia Antiga, acreditava-se que ele era indivisível. Foi apenas no final do século XIX e início do XX que partículas ainda menores foram descobertas. Mais do que isso, descobriu-se que todos os átomos, de todos os elementos, são formados das mesmas três partículas, agrupadas em números diferentes: nêutrons, prótons e elétrons. Ou seja, a única diferença entre um átomo de ferro e um de ouro é que o primeiro possui 26 prótons, enquanto o segundo possui 79.

Portanto, para formar um novo elemento, basta somar à sua massa mais algumas partículas de prótons, nêutrons e elétrons. Sempre que um elemento é totalmente “queimado” na fornalha estelar, o elemento seguinte começa a se fundir para criar outro mais pesado. Porém, quanto mais pesada é a substância, mais calor é consumido em sua fusão. Até o momento em que a estrela começa a produzir o seu próprio veneno: ferro.

Quando o núcleo do astro começa a fundir átomos de manganês e gerar ferro, a estrela está fadada à morte. É o fim de seu combustível e de sua força de expansão. Sem a constante explosão atômica em seu interior, a força da gravidade a comprime cada vez mais, tão rapidamente, que uma explosão é gerada, destruindo completamente a estrela. Essa explosão, chamada Super Nova, espalha pelo universo toda a matéria produzida pelo núcleo da estrela.

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Restos de uma Supernova fotografada pelo telescópio Hubble

Na década de 1920, a Teoria do Big Bang explicou que o Universo e de tudo o que conhecemos dentro dele se iniciou a partir de uma grande explosão: o evento primordial que criou o tempo e o espaço e se expandiu por todo o cosmo, espalhando átomos e partículas. Acredita-se que, logo após a expansão, o espaço era um mar de hidrogênio. Uma gigantesca nuvem composta pelas moléculas do mais simples elemento da tabela periódica.

Se não fosse pelas estrelas, queimando o hidrogênio e o transformando em todos os materiais que hoje conhecemos, não haveriam planetas, nem luas. Não haveria água, oxigênio ou carbono. Os átomos que compõem tudo o que conhecemos, inclusive nós mesmos, só existem porque, em algum momento da história do Universo, uma estrela se formou, se consumiu e se sacrificou para espalhar pelo espaço a poeira que hoje dá forma a tudo o que existe.

 

Debutando no Na Porteira Cast

NaporteiracastFoi com imenso prazer que participei do NaPorteiraCast, um dos meus programas favoritos, talvez o melhor da podosfera nacional atualmente.

Neste episódio, debatemos sobre Imparcialidade – não só na mídia, mas na vida como um todo. Discutimos sobre técnicas jornalísticas, sobre a formação da opinião e debatemos a importância da internet neste novo cenário da comunicação, onde todos têm direito a se expressar.

Neste momento crítico da política nacional, este programa é um ótimo guia sobre como consumir a mídia.

Ouça o programa “NPC #71 – Imparcialidade” clicando neste link.

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A Segunda Renascença

 

TiposQuando Gutenberg criou a prensa de tipos móveis, em meados do século XV, o domínio da informação e do conhecimento era restrito à Igreja e à nobreza. Sua invenção, no entanto, facilitou a reprodução de textos e a publicação em massa de livros. Naquela época, ao “piratear” o conteúdo privado dos poderosos, esta simples máquina de madeira contribuiu não apenas para o fim da Idade Média e início do Renascimento da ciência, como também acabou com o monopólio católico ao abrir espaço para novas idéias Protestantes.

Aquela situação, distante mais de 550 anos no tempo, não é muito diferente da que vivemos hoje. A informação, que no século passado se industrializou, tornou-se, talvez, a mais poderosa das moedas e hoje é concentrada nas mãos de poucos poderosos ao redor do mundo. A mídia do século XX foi chamada de “Quarto Poder” e ganhou status suficiente para eleger ou derrubar líderes políticos e religiosos – ou mesmo se misturar a eles. Porém o crepúsculo do último milênio deixaria um legado para uma nova revolução, uma segunda prensa de Gutemberg: a internet

Foi na década de 1990 que a rede mundial de computadores começou a engatinhar com agilidade em direção às massas. Primeiro como suporte acadêmico, mas logo ganhando novas funcionalidades, até ser capaz de abalar as estruturas dos impérios midiáticos.

Online-x-offline-550x286Mesmo que tais impérios também tenham agregado territórios deste novo continente virtual, logo os fóruns de discussões, os blogs e, mais tarde, as redes sociais, iriam se tornar as mais democráticas nações de informação e disseminação de cultura, questionadores do conteúdo da mídia tradicional – ou mesmo suas fontes.

O blog foi, talvez, o mais popular destes meios. Criado por volta de 1997, a ferramenta facilitou o uso da internet de tal maneira, que, a partir dela, ficou muito mais simples publicar conteúdo na rede. Usado a princípio como simples diários, versões online dos cadernos adolescentes, logo o sistema ganhou ares jornalísticos e formato corporativo. Blogs noticiosos, opinativos e culturais se disseminaram pela internet e foram o embrião de diversos portais independentes, muitas vezes com mais credibilidade que a mídia tradicional.

Não apenas questionadores, os blogs também se mostraram uma alternativa que fugia à regra sensata dos conglomerados informativos. Na “blogosfera” havia espaço para assuntos que fugiam da agenda da imprensa: religiões diferentes, teorias conspiratórias, arte alternativa, aparições alienígenas etc.

/TARIFAS/PROTESTO/RJOs grandes veículos de imprensa viram nos blogs um forte concorrente e, a princípio, se afastaram deles, proibindo seus profissionais de manterem páginas pessoais, paralelas ao trabalho corporativo. Mas como no dito popular: se não pode com eles, junte-se a eles. Não foi preciso sequer uma década para que os grandes portais de notícia abrissem espaço e contratassem seus próprios “blogueiros”. Estadão, Veja, Cartal Capital, New York Times… esses e muitos outros veículos mantém um grande número de blogs em seus portais, fazendo as vezes das colunas opinativas dos jornais impressos.

Logo as redes sociais ganharam força e o disseminar de informações ficou ainda mais rápido e fácil. Os blogs foram incorporados por elas. Hoje, o Facebook nada mais é que um gigantesco mural com milhões de blogs interligados, bombardeando postagens infinitas diante dos olhos do usuário.

gutenberg50A deep web acobertou a Primavera Árabe; as redes sociais impulsionaram as manifestações brasileiras em 2013; blogueiros cubanos, chineses e norte-coreanos são caçados por seus respectivos governos e tratados como inimigos, apenas por emitirem suas opiniões. Espiões das grandes potências disseminam segredos de Estado para o público geral.

Isentos ou não, sensatos ou não, os blogs e as postagens nas redes sociais – a internet como um todo – estão levando o mundo a um novo período renascentista, abrindo as portas para um novo iluminismo, tirando o poder das mãos dos grandes impérios e distribuindo-o ao povo, tal qual o fez a prensa em sua época. Quando cairá a próxima Bastilha?

Debutando no Livrocast

LivrocastTecnicamente, esta não foi a primeira vez que participei de um dos programas do Livrocast. Desde o episódio #51 que eu já participava das gravações, porém fazia apenas as locuções introdutórias.

Desta vez, no entanto, sou um dos convidados do programa, onde debatemos o livro “A Revolução dos Bichos”, do escritor anglo-indiano George Orwell.

Não deixem de ouvir e dar boas risadas… além de aprender bastante sobre o livro e um pouco da história da Revolução Russa e da implementação do socialismo.

Só clicar neste link para acessar a página do LIVROCAST #53!!!

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A cultura esquecida dos Quilombos

Reportagem produzida originalmente para o jornal Ora-Pro-Nobis,
da Universidade Federal de São João del-Rei.
Por Aléxia Pinheiro, J. V. V. B. Militani (eu) e Viviane Basílio

Como vivem os descendentes de escravos nas comunidades quilombolas próximas a São João del-Rei

QuilomboQuando se fala em Minas Gerais, o imaginário popular evoca a busca pelo ouro e o fascínio das cidades históricas, onde até mesmo os sinos falam. Mas muitos desconhecem a existência de comunidades remanescentes de um povo que participou diretamente da memória cultural do Estado. Escondidos entre as alterosas, – a cerca de 50 km de São João del-Rei – os quilombos Jaguara e Palmital resistem há mais de um século em seus respectivos vilarejos, embora enfrentem uma crise de identidade ligada as suas tradições, que foram perdidas ao longo do tempo.

O reflexo deste esquecimento é a inexistência de manifestações culturais desenvolvidas pelos quilombolas contemporâneos. Somente no Dia da Consciência Negra, os nativos têm contato com os hábitos advindos de seus ancestrais. Nessas ocasiões, os moradores são os responsáveis pelo preparo de comidas típicas enquanto as apresentações afro-brasileiras são feitas por pessoas alheias ao convívio quilombola. “Nós ficamos o dia inteiro cozinhando. Todos comem à vontade. Nosso feijão é nota 10, se existisse nota 1000, era para a gente”, se orgulha uma das moradoras de Palmital. “Capoeira, dança e congado vem de fora”, explica o presidente da Associação de Moradores, João Rosa, sobre o legado africano não ser transmitido internamente em Jaguara.

Outro aspecto que se destaca é a ausência de religiões de matriz africana, como o candomblé. A influência da Igreja Católica na vida espiritual e cotidiana da comunidade é intensa, tanto que todos os entrevistados afirmam que suas terras pertencem à igreja.

Diante desta fragilidade, alianças estão sendo formadas para que esta manifestação cultural afro-brasileira seja valorizada na sociedade e reconstituída na própria mentalidade da população local. De acordo com o professor do curso de História da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), Manuel Jauará, seu primeiro contato com as comunidades foi muito aquém de suas expectativas. “Foi talvez a nossa maior decepção: a grande diferença entre o que a literatura diz sobre os quilombos e o que nos revela a realidade”, afirma.

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Palmital: moradores do vilarejo se reúnem ao ar livre, sob a árvore seca. (Foto: J. V. V. B. Militani)

Este episódio, de certa forma, o motivou a desenvolver projetos de extensão junto à universidade, visando a troca de conhecimento e o bem comum dos envolvidos. Em meio ao intercâmbio de experiências, os moradores foram orientados a respeito da importância de serem legitimados pelo Governo Federal e desde 2013 são legalmente reconhecidos como remanescentes de quilombolas pela Fundação Palmares.

Este órgão, vinculado ao Ministério da Cultura, por meio do Departamento de Proteção ao Patrimônio Afro-Brasileiro (DPA) e do Programa Brasil Quilombola, é responsável pelo conjunto de exercícios relacionados à proteção, preservação e promoção das culturas e religiões africanas. Segundo a assessoria de comunicação da entidade, “a proposta do departamento é assisti-los e acompanhar ações de regularização fundiária dos já certificados, propondo atividades que assegurem a sua assistência jurídica”.

Os habitantes ainda podem ser beneficiados com cestas-básicas, melhorias na saúde, educação, moradia, infraestrutura e saneamento. Entretanto, as lideranças da Associação de Moradores de Jaguara e Palmital, estariam desarticuladas e desinformadas, sendo assim, não encaminham solicitações com suas demandas para o DPA, ficando sem acesso a estes amparos sociais.

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Um dos moradores de Palmital. Ao fundo, a capela: catolicismo é a religião predominante no vilarejo. (Foto: Aléxia PInheiro)

Ainda assim, os quilombolas têm acesso ao programa Bolsa Família e à aposentadoria rural. Para complementar a renda familiar, a líder comunitária do Palmital, que preferiu não se identificar, conta que os moradores da comunidade buscam vender sua mão de obra apenas durante três meses por ano nas fazendas próximas. “A gente trabalha de ano em ano, nas colheitas de café e milho”, declara. Sobre a economia local, Jauará acredita que, por já se sentirem seguros com os programas governamentais, não se empenham para criar uma economia interna autossuficiente. “O governo reconhece a necessidade e a relevância da assistência familiar, mas nesse caso em particular, isso tem impactado no esforço da maioria, e tem feito um afrouxamento do laço de solidariedade e fraternidade que sempre uniu essas comunidades.”

O projeto socioeconômico desenvolvido pelo professor de Economia da UFSJ, Glauco dos Santos, tenta modificar esta situação e apresentar novas fontes de renda a estas comunidades quilombolas. A proposta principal é desenvolver a educação financeira, trabalhar a questão ambiental e desenvolver técnicas de economia. “Estamos tentando trabalhar com estratégias de desenvolvimento local, o que fazer para dar condições de progresso para estas populações vulneráveis, não só em termos de geração de emprego e renda, mas também consciência coletiva”, explica Santos.

Porém algumas destas iniciativas são mal interpretadas por alguns dos moradores, especialmente em Palmital. Dentre as reclamações, as principais se referem à demora em atingir resultados, o hiato entre os projetos e, aparentemente, a falta de continuidade de alguns deles.

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Jaguara: líder comunitário João Rosa (à direita) conta sobre a história do vilarejo. (Foto: J. V. V. B. Militani)

Questionado sobre esta declaração, Santos explica que a Extensão não pode atuar como uma medida assistencialista, pois cabe aos poderes públicos esta função. “A universidade dever prover as condições para que as comunidades, a partir delas mesmas, tenham uma trajetória de emancipação e desenvolvimento”, defende o professor. Já com relação ao tempo, ele admite a demora dos resultados: “Projeto de Extensão é algo que você não consegue mensurar resultados imediatos em termos de ensino e pesquisa.”

Entre estes entraves, está a baixa autoestima dos quilombolas que já se reflete na juventude.  “Elas brincam com pedra, não tem brinquedo e a única boneca que ficou foi a negra”, alude o professor Santos ao relembrar de quando distribuiu doações. Durante a reportagem, as crianças de Jaguara se entusiasmavam ao serem fotografadas. Já em Palmital, fugiam das lentes.

Porém a sensibilização das comunidades começa a surtir efeito de forma gradativa. “Tivemos um longo trabalho até mesmo para convencê-los de que eram descendentes de escravos”, conta Santos. E conclui: “Hoje eles têm mais orgulho e afirmam ‘somos um quilombo!’”.

História

Reproduzindo um antigo costume de se reunirem sob a sombra de um jatobá bicentenário, alguns moradores de Palmital, ao serem questionados, evitaram comentar suas origens.

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Com relutância, moradores de Palmital se reúnem para contar suas histórias. (Foto: J. V. V. B. Militani)

“Quem era o contador de casos, era o meu pai que morreu. Tem o pessoal mais velho que sabe, mas não quiseram vir até aqui e não vão contar”, explica uma das quilombolas que ainda ressalta a amnésia cultural por parte dos mais jovens: “Nem eu, nem os outros não sabemos de nada”.

Embora um pouco mais abertos em relação ao seu passado, os habitantes de Jaguara repetem o mesmo comportamento. “A gente sabe um pouco, os velhos que sabiam mais”, destaca João Rosa. Quando questionado sobre o motivo da tradição oral não ter sido repassada ao longo das gerações, Rosa revela a “falta interesse” por grande parte dos descendentes mais novos.

Apesar da aparente apatia em relação à sua história, esta é frequentemente negociada em troca de benefícios. “A gente está cansado de falar do quilombo e não receber nada em troca”, alega uma moradora que não quis ter a identificação divulgada. Por consequência, foram raros os que se dispuseram a fornecer algumas informações. Rosa foi um dos poucos que aceitou divulgar parte do que sabia, contando que “Jaguara tem esse nome em homenagem à cachorrinha das irmãs que doaram a terra para os escravos”.

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Jaguara: “os mais jovens desconhecem suas origens” (Foto: Aléxia Pinheiro)

Oficialmente, a história possui variações. Conforme registros do Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (IPHAN), no século XIX surge a fazenda Jaguara na cidade de Nazareno, conhecida anteriormente como Arraial Ribeiro Fundo. Com o falecimento do proprietário da fazenda, as terras ficaram para sua esposa e, posteriormente, metade da fazenda ficou para sua filha Mariana Isabel Cândida da Conceição. A outra foi arrendada ao capitão Antônio Leite Ribeiro, proprietário da fazenda Palmital. Treze anos antes da abolição da escravatura, Mariana concedeu aos seus escravos a liberdade e lhes deu o direito de usufruir da sua propriedade.  Os arquivos referentes à Palmital são escassos.

Infraestrutura

Apesar de culturalmente semelhantes, as duas comunidades são estruturalmente distintas.

Jaguara é marcada por características urbanas, apresenta asfaltamento, quadras esportivas, praças de convivência e pontos comerciais. Enquanto Palmital é predominantemente rural, com ruas de terra e casas esparças.  “Aqui precisa é de tudo, principalmente, calçamento. Eu queria que tivesse uma pracinha e uma quadra para os meninos jogarem bola”, confidencia uma das moradoras, que quis ter seu nome preservado.

Ambos quilombos ficam no município de Nazareno. Frente a estas diferenças, um dos vereadores da cidade, Jovino César Romão, analisa as possíveis causas destes contrastes. Segundo ele, Jaguara é privilegiada por estar próxima da rodovia, ter casas aglomeradas e ser vizinha de outro povoado. Enquanto Palmital é afastada geograficamente e possui o agravante de ser dividida entre os municípios de Nazareno e Conceição da Barra. Sobre este impasse, uma moradora desabafa. “Nós nascemos em Nazareno, batizamos em Nazareno, enterramos em Nazareno, o registro de Palmital está todo lá. Como nós somos de Conceição da Barra?”.

Ao saber das reclamações da comunidade, o vereador se posiciona sobre este problema. “A divisão gera um pouco de dificuldades para os investimentos serem feitos naquela localidade. Para que as melhorias aconteçam naquele povoado, precisa haver um consórcio entre as duas prefeituras”.

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Se quiser ler a versão digital do jornal Ora Pro Nobis, basta clicar aqui.

Tom Zé: excêntrico aos 80

Tom ZéPrestes a completar 80 anos de idade, Tom Zé carrega em sua alma as experiências de uma longa e produtiva vida, mas não abre mão da impulsividade da juventude. Sua obra musical, tão complexa e extravagante, atrai fãs leais e engajados na mesma complexidade, mas não o afasta das polêmicas.

Batizado como Antônio José de Santana Martins, Tom Zé assumiu o nome artístico ainda na Bahia, onde nasceu. Junto com Gilberto Gil e Caetano Veloso, Tom foi um dos pais da Tropicália, numa época em que o país vivia assombrado pela Ditadura Militar. A excentricidade dos músicos baianos acenderam o estopim do movimento que iria marcar a história da música popular brasileira, com canções e atitudes tão desafiadoras contra o regime que dominava o país, que renderia o exílio a alguns deles.

Se Caetano e Gil são hoje senhores respeitáveis, apenas sombras das loucuras do passado, o mesmo não pode se dizer de Tom Zé. O músico nunca abandonou a extravagância da juventude e ainda hoje age, se veste, canta e compõe com a mesma impulsividade dos tempos de juventude.

A mídia, no entanto, por muito tempo o esqueceu. Enquanto os demais tropicalistas sempre estiveram sob os holofotes, mesmo depois do auge da fama, Tom se perdeu em meio ao turbilhão de novos astros e bandas que surgiram após as eleições diretas. Talvez por ter sido o único deles a não ser exilado, Tom tenha perdido a força ao representar a resistência. Ou talvez porque suas músicas não são tão facilmente decifradas pelo público geral.

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Tom Zé em ensaio para a revista Bravo (2012)

Contam boatos de que, na última década, ele cortava grama para viver. Em 20 13, foi redescoberto, não pelo talento, mas pela polêmica involuntária. Ao participar de um comercial da Coca-cola, seus fiéis fãs o taxaram de vendido e repercutiram críticas nas redes sociais. Tom Zé voltou a ser assunto e acatou as reclamações. Dizem até que devolveu o dinheiro do cachê.

“Sempre procurei fazer música para essas pessoas que me seguem e sempre estive trabalhando como quem trabalha para elas. Eu sou um empregado que tem um patrão”, comentou o cantor, logo após a polêmica. Como resultado, lançou o álbum “Tribunal do Feicebuqui”, ainda em 2013, onde usa sua música para falar sobre o poder das redes virtuais para condenar ou absolver qualquer um que se transforme no réu da vez em suas discussões.

Tom Zé nunca teve medo de ser contestado, mas também nunca viveu do sensacionalismo. Sua carreira é marcada de polêmicas, mas não por querer aparecer através delas, mas sim por ter sua obra acima destas questões. Uma coisa é verdadeira na carreira deste baiano, que diz ter nascido ainda na Idade Média: as polêmicas não esgotam e nem sobrepõem seu talento. Elas são a parte genial de sua obra.