O Primeiro Ato – Análise de Daniel na Cova dos Leões

Citações de histórias bíblicas são usadas constantemente para ilustrar diversas filosofias ou diversos fatos do quotidiano. Mas seria possível intitular um ato homossexual citando uma passagem da Bíblia como referência, sem que isso se torne apelativo ou monstruoso para os crentes cristãos? “Essa [música] agora, é sobre uma coisa que é muito boa, mas que no momento está sendo meio difícil. É sobre sexo“, disse Renato Russo em 1988, no Maracanãzinho, se referindo à música que cantaria à seguir: “Daniel na Cova dos Leões”.

Com esta música, lançada no álbum “Dois” da Legião Urbana, Renato começava a expor em sua arte a sua própria homossexualidade, mesmo que de forma muito discreta. Tema que, mais tarde, ele abordaria novamente em várias outras canções, de maneira mais aberta, como em “Meninos e Meninas” (“[…]E eu gosto de meninos e meninas/Vai ver que assim mesmo e vai ser assim pra sempre”). Assim, aos poucos, mesmo que a letra não se referisse a si mesmo, Renato ia expondo ao mundo sua preferência sexual, seus tormentos perante o preconceito da sociedade, suas dificuldades e seus aprendizados nesta área que, para ele, era tão complicada.

Para ouvidos desatentos, a letra de “Daniel na Cova dos Leões” narra uma história de amor comum, um casal apaixonado. No entanto, se interpretada com um pouco mais de atenção e contexto, percebe-se que a letra descreve – prudentemente – um ato sexual entre dois homens – muito provavelmente o primeiro, quando ambos ainda estão na fase de descobertas, num processo de aceitação. Mas não só. A canção, de 3 estrofes apenas, pode ser tematicamente dividida no mesmo número. Primeiro o ato em si, depois o carinho e a cumplicidade e, por fim, o medo e as incertezas diante do novo e do desconhecido.

A única menção direta ao homossexualismo é feita no penúltimo verso da segunda estrofe: “Teu corpo é meu espelho e em ti navego”, deixando claro que o casal que protagoniza a canção pertence a um mesmo gênero, com corpos iguais, reflexos um do outro. E como saber se são dois homens ou duas mulheres? A resposta pode ser encontrada logo nos primeiros versos da música: “Aquele gosto amargo do teu corpo/Ficou na minha boca por mais tempo.” Uma alusão a conclusão do sexo oral entre dois homens.

Sim, a música se inicia com um orgasmo e tudo o que se segue após estes dois vesos são prazeres, dúvidas e aceitações.

“Aquele gosto amargo do teu corpo
Ficou na minha boca por mais tempo.
De amargo, então salgado ficou doce,
Assim que o teu cheiro forte e lento
Fez casa nos meus braços e ainda leve,
Forte, cego e tenso, fez saber
Que ainda era muito e muito pouco.”

A partir do terceiro verso, inicía-se uma pequena metáfora, entre o prazer e o desconforto – ou mesmo o nojo –  causado pelo orgasmo oral, que vai ganhando um sabor diferente, um deleite desconhecido, um amargo que vai aos poucos se adocicando. Se reorganizarmos a frase livremente, ela ficaria mais ou menos assim: “Assim que o teu cheiro fez casa nos meus braços, percebi que isto ainda era muito pouco. E o sabor, que era salgado, então ficou doce.” Perde-se toda a beleza, mas ganha-se mais clareza.

A patir da segunda estrofe, dá-se início ao tema seguinte, a cumplicidade pelos sentimentos mútuos: “Faço nosso o meu segredo mais sincero/E desafio o instinto dissonante.” A homossexualidade, que antes era o segredo maior de cada um em separado, passa a ser de ambos e, juntos, eles desafiam o instinto dissonante, o instinto que destoa, que foge do normal: a atração entre dois homens.

Segue-se então para os terceiro e quarto versos desta estrofe: “A insegurança não me ataca quando erro/E o teu momento passa a ser o meu instante”, quando passam à aceitação, e a insgurança não mais existe. O quarto verso, por sua vez, faz menção direta ao orgasmo. O “momento” e o “instante” são o ápce do prazer. E o gozo de um passa a ser o deleite do outro e vice-versa. Afinal todo o casal que se gosta de verdade, se importa um com o outro, seja em que momento for.

Já a última estrofe é uma das mais belas e mais complexas metáforas da música brasileira:

“Mas, tão certo quanto o erro de ser barco
A motor e insistir em usar os remos,
É o mal que a água faz quando se afoga
E o salva-vidas não está lá porque não vemos.”

A maneira mais correta para interpretá-la é inverter os dois primeiros com os dois últimos versos e entender que a sensação de afogamento é tão frustrante quanto à teimosia de usar remos quando se tem um motor à disposição: pode-se ir longe, mas o medo mantém a vida arcaica.

Apesar da insegurança transmitida pela música, Renato foi seguro o bastante ao entitulá-la, dando-lhe o nome de uma das mais famosas passagens do Antigo Testamento Bíblico: “Daniel na Cova dos Leões”, na qual o personagem-título, um temente a Deus e súdito fiel do rei Dário, é vítima de invejosos, enganado, condenado por traição ao rei e jogado na cova dos leões, onde as feras deveriam decidir seu destino – ou seja, comê-lo vivo. No entanto Deus enviou seus anjos para fecharem as bocas dos felinos esfomeados e o inocente Daniel passou a noite em paz, sem temer as garras ou as presas que o circundavam, até ser retirado dali no dia seguinte pelo próprio rei Dário.

Na palavras do próprio Renato, o título da música se refere à “situação da pessoa que está encurralada e tem que provar alguma coisa. É sobre ter que lidar com uma sexualidade que não é aceita. Tem aquelas imagens de ser barco a motor e usar remo […] A imagem é essa: Daniel é inocente e é colocado no meio dos leões, só que os leões não o comem. Ele acalma os leões¹.

Como disse Oscar Wilde em seu prefácio à Dorian Gray, “A Arte reflete o espectador e não a vida”. E não há como negar que a interpretação de qualquer obra de arte – seja ela um quadro, um filme, um livro, uma música etc. – é algo extremamente pessoal e única, ou seja, cada qual tem sua própria visão sobre uma obra artística, baseando-se na sua bagagem cultural, histórica e sentimental. Mesmo assim, o contexto do artista deve-se sempre ser levado em consideração: sua época e sua história. Que muitos interpretem algo à sua maneira, isso é comum e até mesmo correto, mas que as palavras do autor sejam sempre ouvidas: “isso não surgiu com Meninos e meninas. Daniel na Cova dos Leões, do segundo disco, já falava sobre sexo oral”, disse Renato, quando questionado sobre a relação de sua homossexualidade com as músicas da Legião².

Leia também as análises de:

“Índios”

Geração Coca-cola

1 – Letra, Música e Outras Conversas, de Evandro Geraldo Leoni, 1995.

2 – Renato Russo de A a Z, 2000.

*Abaixo se encontram, para maior entendimento do leitor, um clip da música e sua letra:

Daniel na Cova dos Leões

Aquele gosto amargo do teu corpo
Ficou na minha boca por mais tempo.
De amargo, então salgado ficou doce,
Assim que o teu cheiro forte e lento
Fez casa nos meus braços e ainda leve,
Forte, cego e tenso, fez saber
Que ainda era muito e muito pouco.

Faço nosso o meu segredo mais sincero
E desafio o instinto dissonante.
A insegurança não me ataca quando erro
E o teu momento passa a ser o meu instante.
E o teu medo de ter medo de ter medo
Não faz da minha força confusão.
Teu corpo é meu espelho e em ti navego
E eu sei que a tua correnteza não tem direção.

Mas, tão certo quanto o erro de ser barco
A motor e insistir em usar os remos,
É o mal que a água faz quando se afoga
E o salva-vidas não está lá porque não vemos

32 respostas em “O Primeiro Ato – Análise de Daniel na Cova dos Leões

  1. Perfeita interpretação, jovem orc. Este é mais um exemplo de como esse grande artista, imprimia seus sentimentos e dúvidas. A música era a válvula de escape onde ele podia expressar aquilo que não podia dizer em público. A dúvida, o medo, a culpa, o prazer… todo o vórtice de sentimentos que rugiam no coração dele, transcritos em três estrofes. Sinto falta de artistas assim… No fim, a canção torna-se atemporal, assexual, pura celebração de sentimentos, sem fazer apologia ou crítica a escolhas e opções. Uma verdadeira obra de arte.

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    • Pois é, a abordagem do tema, como eu disse acima, é discreta e prudente. Quando ele queria influenciar, fazia com toda a força (como nas letras de abordagem política, por exemplo), mas quando o assunto era delicado, ele apenas falava dos sentimentos, sem expressar opiniões ou ditar regras.
      Não só essa música, como você disse, mas toda a obra de Renato, é atemporal!
      Valew pelo comentário!

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    • :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::A Verdade da Musica :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::
      “”””””””””Daniel Na Cova Dos Leões””””””””””””””
      Nada a ver com com Sexo oral
      :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

      E a explicação para tais versos? Simples! “Aquele gosto amargo do teu corpo ficou na minha boca por mais tempo” refere-se à uma mágoa sentida pelo eu lírico (O rei da Babilônia, Dário) em relação à segunda personagem desta canção (Daniel).
      Para quem conhece a parábola bíblica tudo já vai ficando mais claro: quando Daniel, judeu convicto, desobedeceu as ordens de Dário de não cultuar nenhum homem ou Deus num período de trinta dias, este ficou bastante ofendido e triste por saber que Daniel, a quem pretendia eleger vice-rei, não o havia respeitado. Daniel deixou na boca de Dário um gosto amargo.
      E, tendo descumprido uma lei, Daniel teve sua punição: foi lançado à cova dos leões. E permaneceu lá durante uma noite inteira, enquanto Dário mal dormia, mal comia, mal respirava. No entanto, o Deus de Daniel o salvou e não permitiu que os leões sequer chegassem perto dele. Pela manhã, Dário foi até a cova dos leões e viu que Daniel permanecera intacto com a ajuda de seu Deus judeu. Então, o gosto amargo que Daniel havia deixado na boca de Dário foi, aos poucos melhorando: ficou salgado e, finalmente, doce, pois Dário sabia que, apesar de tê-lo desobedecido, Daniel estava certo quanto ao seu Deus.
      A mágoa que Dário sentira desapareceu assim que viu Daniel vivo (“De amargo, então salgado, ficou doce, assim que o teu cheiro forte e lento fez casa nos meus braços”).
      A partir de então, Dário sentiu confiança em Daniel. Adotou o judaísmo e declarou que todos do seu reino deveriam cultuar o Deus de Daniel, mesmo sabendo não ser isso o que os seus súditos conheciam como certo. Passou a confiar os seus segredos a este homem, como já era seu plano inicial de tornar Daniel vice-rei.
      E, mesmo tornando-se judeu, algo considerado para aquela sociedade, até certo ponto, como errado, Dário não se sentia inseguro, pois tinha presenciado o milagre daquele Deus. Entendia também a temência de Daniel, que orava, literalmente religiosamente, todos os dias, três vezes ao dia. E isso também não o deixava confuso.
      Até aqui, tudo bem. Mas outro ponto polêmico da canção diz: “teu corpo é o meu espelho e em ti navego. Eu sei que a tua correnteza não tem direção”.
      Outra vez, os adeptos da teoria de que Daniel na Cova dos Leões trata-se de um relacionamento homossexual, interferem na minha análise e interpretação desta letra. Diriam eles: o espelho reflete o corpo, um reflexo igual, idêntico. E homo quer dizer igual. Portanto, um relacionamento com uma pessoa do mesmo sexo. Mas esses mesmos versos, na minha visão, significam que Dário, a partir de então, se espelhará na imagem de Daniel, temente ao Deus vivo, mesmo sabendo que nunca poderá ter absoluta certeza, apesar de estar convicto, de todos os poderes de tal Deus, mesmo sabendo que não é um rumo certo, uma rota precisa.
      E então o Renato finaliza com os versos que mais gosto e admiro nessa música e que jamais se encaixaria em qualquer teoria homossexual que fosse. Ele canta: “Mas tão certo quanto o erro de ser barco à motor e insistir em usar os remos, é o mal que a água faz quando se afoga e o salva-vidas não está lá porque não vemos”.
      Passei horas, dias, semanas tentando entender esses versos. Versos de significados simplérrimos, onde a substituição de palavras é fundamental. Renato Russo com o seu brilhantismo queria dizer que, ainda que Dário não soubesse os rumos da religião, a seguiria, pois como é um erro que você tenha talento para vendas e insista em ser um artista plástico (“tão certo quanto o erro de ser barco a motor e insistir em usar os remos”), é também um grande erro e nos faz muito mal não acreditarmos em Deus, apenas por não o vermos (“é o mal que a água faz quando se afoga e o salva-vidas não está lá porque não vemos”).
      Enfim, é “apenas” isso. O verdadeiro significado da canção Daniel na Cova dos Leões é o mesmo da parábola homônima. No entanto, as pessoas têm o péssimo hábito de achar que todas as músicas do Renato Russo falam de drogas, depressão e da homossexualidade, apenas por ele ter esses elementos em sua imagem.

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      • É uma ótima interpretação. Só lembrando que eu citei afirmações do próprio Renato. Se o próprio compositor da letra diz que ela fala sobre sexo oral, quem sou eu para duvidar?!

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  2. Bela análise.
    Não curto Legião ou Renato Russo, mas algumas letras é obrigatório se tirar o chapéu. Esta é uma justamente pelo contexto, que como você disse, dá outro sentido à letra. Acho muito legal se abordar um tema tão sensível de uma maneira tão discreta.

    Quanto ao Fúria de Titãs eu até vou pra são paulo ver com vocês aí! E em 3D em! haha

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  3. Eu nunca tinha entendido a parte do “Teu corpo é meu espelho e em ti navego”, agora que entendi… mindf**k =O

    Não canto mais kkkkkk

    Gostei da tua analise, eu mesmo sou fã da Legião. As musicas do Renato foram um dos motivos de eu começar a tocar violão.

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  4. O que eu acho de mais interessante nas letras do Renato, é que elas mudam conforme o que você sente ou está passando naquele momento. A cada parte da sua vida, elas te dizem algo diferente!

    Parabéns pela análise, com toda certeza era isso mesmo o que o Renato quis dizer! Virei fan da página!!!

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  5. “Teu corpo é meu espelho e em ti navego”
    Por mais que tenha sido essa a intenção do Renato, não acho que isso seja uma necessária referência ao homossexualismo. Pode-se falar em um sentido espiritual que uma pessoa é o reflexo da outra quando elas se amam, daí que vem “alma gêmea” e tal. Evidentemente que num sentido meramente físico um homem vai ser reflexo de outro e nunca de uma mulher, mas as músicas do Renato são muito profundas, espiritualizadas, então acho realmente que esse verso comporta uma dupla interpretação (talvez tenha sido mesmo a intenção do Renato). Assim, ela se refere especificamente ao relacionamento dele, mas de forma geral a qualquer outro relacionamento entre pessoas que se amem, sejam homossexuais ou heterossexuais.

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    • É uma possibilidade, mas este não é o único verso da música que se remete a sexualidade. A primeira estrofe inteira fala sobre sexo oral. E isso são palavras do próprio Renato, segundo entrevista citada no último parágrafo do meu texto: “Daniel na Cova dos Leões, do segundo disco, já falava sobre sexo oral”. Isso são palavras do Renato.

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  6. Esta música é cheia de dilemas, e por este motivo sempre me intrigou. Apesar de ser minha favorita da Legião, nunca a entendi completamente, pois geralmente músicas assim, me enchem a cabeça de dúvidas sobre como interpretá-las e é quase impossível decifrar o real significado delas.
    Nem preciso dizer que adorei sua análise, me ajudou a entender muitas coisas, obrigado!

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    • O tema é este mesmo. Basta ver as citações do próprio Renato que eu dispus no decorrer do texto. Reproduzo todas abaixo para que você possa perceber melhor:

      “Essa [música] agora, é sobre uma coisa que é muito boa, mas que no momento está sendo meio difícil. É sobre sexo“, disse Renato Russo em 1988, no Maracanãzinho, se referindo à música que cantaria à seguir: “Daniel na Cova dos Leões”.

      “situação da pessoa que está encurralada e tem que provar alguma coisa. É sobre ter que lidar com uma sexualidade que não é aceita. Tem aquelas imagens de ser barco a motor e usar remo […] A imagem é essa: Daniel é inocente e é colocado no meio dos leões, só que os leões não o comem. Ele acalma os leões”

      “isso não surgiu com Meninos e meninas. Daniel na Cova dos Leões, do segundo disco, já falava sobre sexo oral”

      A origem das citações são os livros mencionados ao final do texto, nas notas 1 e 2 da referência.

      O tema é sim a sexualidade e homossexualidade, a música fala sim sobre sexo oral e orgasmo. Mas o restante da análise é interpretação minha, porém muito bem baseada em várias entrevistas do compositor e sua biografia.

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      • Bem, na verdade isso é o que circula e que faz sentido com todo o contexto… Entretanto em um show do Legião Urbana no ginásio do Ibirapuera, houve um início de briga no público, e a polícia interviu, irritando o Renato. Neste momento houve uma certa discussão entre ele e a polícia que utilizava a força para tentar manter a “ordem”… Nisso eu estava do lado dessas pessoas e fui incluído no balaio capturado pela polícia… Ficamos detidos um uma sala durante todo o show… Todos ali eram da paz, não entendíamos o porque de estarmos presos, e assim que terminou o Renato fez questão de ir lá ver como estávamos… ele nos chamou até seu camarim nos ofereceu bebida, pediu para a gente relaxar, e não se cansava de pedir desculpas pelo ocorrido… Eu com meus quase vinte anos de idade, assim como os demais, ficamos mudos observando, não acreditando que ali na nossa frente estava o maior poeta de nossa geração… Ele falava filosofando, uma simples conversa parecia mais uma canção sendo elaborada… O tempo foi passando e nós ali sem saber o que falar, o que perguntar…. alguns perguntando timidamente sobre a vida dele, sobre o sucesso, etc… e eu quieto, até por minha timidez…. Chegando um dado momento todos nós fomos saindo, e agradecendo… enfim, um episódio único em nossas vidas… e no momento que eu saia, era o último, ele me perguntou:- e você, não vai me dizer nada, me perguntar nada? Eu, fiquei mais mudo ainda, e como sou absurdamente fã das suas composições… perguntei a ele sobre duas das suas músicas… perguntei sobre “Andrea Doria” e “Daniel na Cova dos Leões”. Na época não havia essa riqueza de informação que temos hoje, não sabia nada sobre a origem dessas composições, entre várias da Legião… Ele virou pra mim, tirou um espelho do bolso, abriu um papelote de cocaína, despejou sobre o espelho e com um um canudo feito com uma cédula de dinheiro o inalou, posteriormente comprimindo o nariz na dobra de seu cotovelo, engoliu a saliva e me disse:-este é o significado de “Daniel na Cova dos Leões”! Ficou surpreso??… eu fiquei pasmo, sem voz, sem palavras… Em seguida me chamaram pedindo para me retirar, e eu nem lembrei de perguntar sobre “Andrea Doria”… Aquilo ficou martelando na minha cabeça e ainda vive durante todos esses anos… Um depoimento de um gênio, só poderia ter sido da forma inteligente que foi… Daí pra frente está música passou a ser a letra mais genial já produzida, e aí vai a minha análise…

        Daniel na Cova dos Leões (um refém do seu vício)

        Aquele gosto amargo do teu corpo (o gosto do primeiro trago da cocaína… super amargo)
        Ficou na minha boca por mais tempo (por várias horas fica permanente na sua boca)
        De amargo então salgado ficou doce, (após alguns outros tragos o sabor começa a ficar agradável)
        Assim que o teu cheiro forte e lento (uma inalada lenta e concentrada)
        Fez casa nos meus braços e ainda leve (após a inalação a pressão nasal feita na dobra do cotovelo)
        Forte, cego e tenso fez saber (a manifestação do efeito no corpo)
        Que ainda era muito e muito pouco. (a ânsia enlouquecida por mais e mais…)

        Faço nosso o meu segredo mais sincero (as verdades ditas no momento de loucura)
        E desafio o instinto dissonante. (a sensação de superioridade de desfiar o mundo no êxtase)
        A insegurança não me ataca quando erro (o uso sem qualquer remorso)
        E o teu momento passa a ser o meu instante. (o tempo de duração da loucura)
        E o teu medo de ter medo de ter medo (manifestações psíquicas afloradas)
        Não faz da minha força confusão (o não saber o que fazer com a força momentânea que se tem)
        Teu corpo é meu espelho e em ti navego (a inalação profunda sobre o espelho)
        E eu sei que a tua correnteza não tem direção. (a consciência do rumo que este caminho leva)

        Mas, tão certo quanto o erro de ser barco
        A motor e insistir em usar os remos, (o desperdício de um potencial )
        É o mal que a água faz quando se afoga
        E o salva-vidas não está lá porque
        Não vemos (a over dose)

        Enfim, sua interpretação está corretíssima pois, essas são as evidências que a música coloca.
        Porém, depois do que eu passei não tem como acreditar em outra versão…
        Só um gênio descreveria um tema desta maneira e o camuflaria com todos os elementos que ele coloca…
        Sensacional!

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      • Sua história é realmente fantástica, Ricardo. Fantástica no sentido literal da palavra, se é que me entende.

        Eu já conhecia essa interpretação, feita em um blog há muito abandonado, cujo dono se intitulava Lobo Carioca (ou algo do tipo). Li algo sobre há uns 10 anos, quando eu ainda começava a chafurdar na internet.

        Mas como eu disse e repito, sua história pra mim é apenas fantástica.

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  7. Suas interpretações são muito boas já li todas elas sobre as musicas da legião urbana. Você parece ate o próprio Renato explicando as musicas, estou gostando cada vez mais das musicas dele e é muito bom ter um lugar para refletir sobre elas. Seria bom se houvesse um cantor como o Renato nos dias de hoje. Estou ansioso para ler novas interpretações, e meus parabéns por elas.

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    • Longe de ser o próprio Renato. Mas agradeço muito por ter gostado, Eriki. Estou sem tempo para escrever e é por isso que o Covil está parado. Assim que possível, no entanto, volto a analisar músicas, filmes etc.

      Apareça mais vezes, Erik! E ajude a divulgar! Abraços!

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  8. Cairia bem eu cantar essa música pra minha parceira após o ato sexual? Nós dois amamos Legião, eu mais ainda, tenho 17 anos e conheço todas as músicas, além de ter todos os CDs aqui em casa, todos comprados por meu pai que também é fã, por isso meu nome é Renato.

    Meu objetivo é cantar apenas essa parte:

    “Aquele gosto amargo do teu corpo
    Ficou na minha boca por mais tempo.
    De amargo, então salgado ficou doce,
    Assim que o teu cheiro forte e lento
    Fez casa nos meus braços e ainda leve,
    Forte, cego e tenso, fez saber
    Que ainda era muito e muito pouco”

    Queria perguntar se a parte que você disse que seriam de 2 homens após o sexo oral, que é essa:

    “Aquele gosto amargo do teu corpo
    Ficou na minha boca por mais tempo.”

    Isso não cabe a um homem e uma mulher? No caso, eu cantando a ela. Obrigado.

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    • Olá, Renato!
      Fico feliz que tenha vindo tirar a dúvida comigo.
      Eu, particularmente, não escolheria essa música. Mas devo que essa é apenas a minha interpretação dela e as interpretações variam de um para outro, de acordo com a bagagem do ouvinte.
      Se a música te toca de alguma forma, se tem algum significado para vocês dois, não interessa como seria sua interpretação. Interessa é que vai tocar vocês de alguma forma boa.

      Mas se posso sugerir uma canção para cantar pra ela, sugiro “O Mundo Anda Tão Complicado”, também do Renato. Ou então “Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar”. Mas ainda prefiro a primeira! rs

      Boa sorte! Aposto que ela vai gostar de qualquer uma.

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  9. Obrigado pela atenção. Sim, conheço as duas. “O Mundo Anda Tão Complicado” é uma das que ela mais ouve. Nesse quesito também tem “Sete Cidades” ou “Quando Você Voltar”. Pensarei sobre isso, mas de qualquer forma, gostei da sua análise e da sua resposta. “Mudando” um pouco de assunto, é sempre bom debater Legião, embora eu conheça todas, devo admitir que me encantam demasiadamente as músicas críticas, irônicas ou líricas e por aí vai, vou citar as que muito me agradam: Há Tempos, Índios, Andrea Doria, Acrilic On Canvas, Eu Era Um Lobisomem Juvenil, O Teatro Dos Vampiros, Angra Dos Reis, A Fonte, O Livro Dos Dias, A Via Láctea, Baader-Meinhof Blues; acho que vou acabar listando todas! Mas se eu para pra pensar, acho que por algum momento já fui viciado em quase todas do repertório, ultimamente as que tenho ouvido com bastante frequência são: Há Tempos (Nunca enjoei, essa é minha preferida dentre todas, quanto mais eu ouço, mais vontade eu fico de ouvi-la), A Fonte, Fábrica, Daniel Na Cova Dos Leões, Soldados, Baader-Meinhof Blues, A Montanha Mágica, Mais Do Mesmo… Voltando ao assunto ali do meio, das que muito me agradam, claro que não deixando de lado as clássicas como: Pais E Filhos (Primeira música que escutei em minha vida, segundo meu pai), Eu Sei, Tempo Perdido, Ainda É Cedo, Será, Giz, Perfeição, Quase Sem Querer, Eduardo E Mônica… Por último lhe convido a entrar em grupo que tenho no Facebook intitulado por “Eu Amo Legião Urbana”, que já passa dos 62 mil membros, aqui está o link: https://www.facebook.com/groups/359783797446005/, creio que seja um pouco mais velho e talvez nem tenha, mas mesmo assim está feito o convite.

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    • Enviei uma solicitação pro grupo. E eu não sou tão velho assim. rsrs

      Quanto às músicas que você listou (muitas!), eu também gosto de todas. Eu não sei escolher qual a minha favorita, não sei qual eu ouço ou ouvi mais… Ouço todas, gosto de todas! Tudo depende do momento da vida. Cada uma serve pra um momento diferente, então cada uma é minha favorita num determinado dia!

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  10. Parabéns!
    A fluência da sua interpretação contribui significativamente para manter e renovar o nosso interesse pela obra de Renato Russo. Aos seus leitores, homens e/ou mulheres, sejam eles héteros, homos ou bi, eu diria que a motivação original para a criação da canção não impede de forma alguma que compartilhemos com o autor o delicado e importante tema das primeiras experiências sensoriais, no campo da sexualidade, e os processos emocionais aí implicados. Afinal de contas, o modo super elaborado, sensível, refinado e sofisticado com que Renato Russo trata o tema o distancia anos luz de um tratado didático sobre um ato sexual entre 2 homens. De um ponto de vista literário, trata-se aqui de um primoroso trabalho de ourivesaria poética. Quanto a homens poderem ou não cantar a canção aqui explicada e interpretada, eu diria que o modo muito sofisticado e cifrado como o tema é tratado permite apropriações por ambos os sexos, uma vez que os processos sensoriais e emocionais aqui expressos não são necessariamente privativos dos homossexuais. Sem essa de concluir que a única maneira de cantar e sentir a canção é pensando num interlocutor homem. Por fim, a canção também toca no dilema da barra social ainda existente enfrentada por homossexuais, sobretudo os homens. Então cantar ou não cantar a canção é uma discussão menor. Temos outros exemplos de canções geradoras de discussões semelhantes, embora em contextos bem diferentes, a exemplo de Leãozinho e Menino do Rio, ambas de Caetano Veloso. É necessário considerarmos informações-chave para entendermos o processo de criação dos artistas; porém, a canção é algo mágico; uma vez apropriada pelas pessoas, a canção ganha sentidos para além de seus sentidos originais.

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  11. Ótimos análises, mas se prestarmos atenção se refere a droga injetável também ¨Aquele gosto amargo, fez casa nos meus braços, e o mal que a água faz quando se afoga seria a over dose ou começo, salva vidas não esta lá porque não vemos ou seja ninguém para ajudar. Ass; Wagner Urbana Legio Omnia Vincit. Força Sempre.

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    • Todos falam que se trata de drogas e criar teorias malucas sobre isso. Eu gosto de lembrar que o meu texto não é puro achismo. Ele é baseado em entrevistas do Renato. Onde o próprio Renato diz se tratar de sexo, pura e simplesmente.

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    • A música não foi escrita por Renato Rocha. Os outros membros da Legião não participavam da composição da letra. Sempre que é dito que uma música foi composta por Renato e algum parceiro (seja Dado, Bonfá, Negrete, Venturini etc) entenda da seguinte forma: Renato compôs a letra e o parceiro a canção.
      A maior parte das músicas da Legião foram compostas assim: melodias de autoria de Dado, Bonfá e Negrete, e letra de autoria do Renato.

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