O Primeiro Ato – Análise de Daniel na Cova dos Leões

Citações de histórias bíblicas são usadas constantemente para ilustrar diversas filosofias ou diversos fatos do quotidiano. Mas seria possível intitular um ato homossexual citando uma passagem da Bíblia como referência, sem que isso se torne apelativo ou monstruoso para os crentes cristãos? “Essa [música] agora, é sobre uma coisa que é muito boa, mas que no momento está sendo meio difícil. É sobre sexo“, disse Renato Russo em 1988, no Maracanãzinho, se referindo à música que cantaria à seguir: “Daniel na Cova dos Leões”.

Com esta música, lançada no álbum “Dois” da Legião Urbana, Renato começava a expor em sua arte a sua própria homossexualidade, mesmo que de forma muito discreta. Tema que, mais tarde, ele abordaria novamente em várias outras canções, de maneira mais aberta, como em “Meninos e Meninas” (“[…]E eu gosto de meninos e meninas/Vai ver que assim mesmo e vai ser assim pra sempre”). Assim, aos poucos, mesmo que a letra não se referisse a si mesmo, Renato ia expondo ao mundo sua preferência sexual, seus tormentos perante o preconceito da sociedade, suas dificuldades e seus aprendizados nesta área que, para ele, era tão complicada.

Para ouvidos desatentos, a letra de “Daniel na Cova dos Leões” narra uma história de amor comum, um casal apaixonado. No entanto, se interpretada com um pouco mais de atenção e contexto, percebe-se que a letra descreve – prudentemente – um ato sexual entre dois homens – muito provavelmente o primeiro, quando ambos ainda estão na fase de descobertas, num processo de aceitação. Mas não só. A canção, de 3 estrofes apenas, pode ser tematicamente dividida no mesmo número. Primeiro o ato em si, depois o carinho e a cumplicidade e, por fim, o medo e as incertezas diante do novo e do desconhecido.

A única menção direta ao homossexualismo é feita no penúltimo verso da segunda estrofe: “Teu corpo é meu espelho e em ti navego”, deixando claro que o casal que protagoniza a canção pertence a um mesmo gênero, com corpos iguais, reflexos um do outro. E como saber se são dois homens ou duas mulheres? A resposta pode ser encontrada logo nos primeiros versos da música: “Aquele gosto amargo do teu corpo/Ficou na minha boca por mais tempo.” Uma alusão a conclusão do sexo oral entre dois homens.

Sim, a música se inicia com um orgasmo e tudo o que se segue após estes dois vesos são prazeres, dúvidas e aceitações.

“Aquele gosto amargo do teu corpo
Ficou na minha boca por mais tempo.
De amargo, então salgado ficou doce,
Assim que o teu cheiro forte e lento
Fez casa nos meus braços e ainda leve,
Forte, cego e tenso, fez saber
Que ainda era muito e muito pouco.”

A partir do terceiro verso, inicía-se uma pequena metáfora, entre o prazer e o desconforto – ou mesmo o nojo –  causado pelo orgasmo oral, que vai ganhando um sabor diferente, um deleite desconhecido, um amargo que vai aos poucos se adocicando. Se reorganizarmos a frase livremente, ela ficaria mais ou menos assim: “Assim que o teu cheiro fez casa nos meus braços, percebi que isto ainda era muito pouco. E o sabor, que era salgado, então ficou doce.” Perde-se toda a beleza, mas ganha-se mais clareza.

A patir da segunda estrofe, dá-se início ao tema seguinte, a cumplicidade pelos sentimentos mútuos: “Faço nosso o meu segredo mais sincero/E desafio o instinto dissonante.” A homossexualidade, que antes era o segredo maior de cada um em separado, passa a ser de ambos e, juntos, eles desafiam o instinto dissonante, o instinto que destoa, que foge do normal: a atração entre dois homens.

Segue-se então para os terceiro e quarto versos desta estrofe: “A insegurança não me ataca quando erro/E o teu momento passa a ser o meu instante”, quando passam à aceitação, e a insgurança não mais existe. O quarto verso, por sua vez, faz menção direta ao orgasmo. O “momento” e o “instante” são o ápce do prazer. E o gozo de um passa a ser o deleite do outro e vice-versa. Afinal todo o casal que se gosta de verdade, se importa um com o outro, seja em que momento for.

Já a última estrofe é uma das mais belas e mais complexas metáforas da música brasileira:

“Mas, tão certo quanto o erro de ser barco
A motor e insistir em usar os remos,
É o mal que a água faz quando se afoga
E o salva-vidas não está lá porque não vemos.”

A maneira mais correta para interpretá-la é inverter os dois primeiros com os dois últimos versos e entender que a sensação de afogamento é tão frustrante quanto à teimosia de usar remos quando se tem um motor à disposição: pode-se ir longe, mas o medo mantém a vida arcaica.

Apesar da insegurança transmitida pela música, Renato foi seguro o bastante ao entitulá-la, dando-lhe o nome de uma das mais famosas passagens do Antigo Testamento Bíblico: “Daniel na Cova dos Leões”, na qual o personagem-título, um temente a Deus e súdito fiel do rei Dário, é vítima de invejosos, enganado, condenado por traição ao rei e jogado na cova dos leões, onde as feras deveriam decidir seu destino – ou seja, comê-lo vivo. No entanto Deus enviou seus anjos para fecharem as bocas dos felinos esfomeados e o inocente Daniel passou a noite em paz, sem temer as garras ou as presas que o circundavam, até ser retirado dali no dia seguinte pelo próprio rei Dário.

Na palavras do próprio Renato, o título da música se refere à “situação da pessoa que está encurralada e tem que provar alguma coisa. É sobre ter que lidar com uma sexualidade que não é aceita. Tem aquelas imagens de ser barco a motor e usar remo […] A imagem é essa: Daniel é inocente e é colocado no meio dos leões, só que os leões não o comem. Ele acalma os leões¹.

Como disse Oscar Wilde em seu prefácio à Dorian Gray, “A Arte reflete o espectador e não a vida”. E não há como negar que a interpretação de qualquer obra de arte – seja ela um quadro, um filme, um livro, uma música etc. – é algo extremamente pessoal e única, ou seja, cada qual tem sua própria visão sobre uma obra artística, baseando-se na sua bagagem cultural, histórica e sentimental. Mesmo assim, o contexto do artista deve-se sempre ser levado em consideração: sua época e sua história. Que muitos interpretem algo à sua maneira, isso é comum e até mesmo correto, mas que as palavras do autor sejam sempre ouvidas: “isso não surgiu com Meninos e meninas. Daniel na Cova dos Leões, do segundo disco, já falava sobre sexo oral”, disse Renato, quando questionado sobre a relação de sua homossexualidade com as músicas da Legião².

Atualização: Em sua auto-biografia, Dado Villa-Lobos, eu falar desta canção, diz que Daniel na Cova dos Leões “é a música mais gay que ele conhece.”³, o que reforça tudo o que foi dito acima.

Leia também as análises de:

“Índios”

Geração Coca-cola

1 – Letra, Música e Outras Conversas, de Evandro Geraldo Leoni, 1995.

2 – Renato Russo de A a Z, 2000.

3 – Dado Villa-Lobos: Memórias de um Legionário, 2015

*Abaixo se encontram, para maior entendimento do leitor, um clip da música e sua letra:

Daniel na Cova dos Leões

Aquele gosto amargo do teu corpo
Ficou na minha boca por mais tempo.
De amargo, então salgado ficou doce,
Assim que o teu cheiro forte e lento
Fez casa nos meus braços e ainda leve,
Forte, cego e tenso, fez saber
Que ainda era muito e muito pouco.

Faço nosso o meu segredo mais sincero
E desafio o instinto dissonante.
A insegurança não me ataca quando erro
E o teu momento passa a ser o meu instante.
E o teu medo de ter medo de ter medo
Não faz da minha força confusão.
Teu corpo é meu espelho e em ti navego
E eu sei que a tua correnteza não tem direção.

Mas, tão certo quanto o erro de ser barco
A motor e insistir em usar os remos,
É o mal que a água faz quando se afoga
E o salva-vidas não está lá porque não vemos

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