Adeus, Chespirito…

ChespiritoQuando ele subiu ao palco pela primeira vez, muitos que hoje o idolatram sequer tinham nascido. E agora que ele se foi, muitos que ainda hão de nascer já chegarão ao mundo como órfãos do pequeno Shakespeare mexicano.

Roberto Gomez Bolaños era um latino-americano como cada um de nós. Estava na periferia do Ocidente, ao sul do Primeiro Mundo. Não havia em sua terra o mesmo poder que se estendia ao norte de suas fronteiras. Os personagens que criou como dramaturgo e escritor não poderiam ser diferentes dessa acepção, teriam de vir da mesma simplicidade, falar diretamente com o povo e mostrar que era possível ser feliz em meio ao pouco que possuíam.

E assim foi surgindo a ingênua, porém grandiosa trama de seus personagens, que aos poucos se emaranhou ao cotidiano daquele país, ultrapassou suas fronteiras e envolveu o mundo. Não eram produções de grande qualidade técnica e estavam muito longe do glamour hollywoodiano. Porém eram sinceras, comoventes, envolventes e divertidas: a linguagem certa para se identificar com o público latino.

El Chavo del Ocho era um garoto pobre que se escondia em um barril. Seus companheiros eram uma viúva pobre e orgulhosa e seu filho arrogante, um senhor desempregado e sua filha pentelha, uma solteirona velha e apaixonada, um professor desconsolado com sua turma, um carteiro preguiçoso e um generoso e gordo senhorio, dentre todos, o menos pobre. Existia ali, dentro do seriado que saiu do México e ganhou o mundo, uma lição que seria ensinada por gerações: dentre tantas brigas, dentre tanta frustração, em meio a tanta pobreza, há sempre um espaço para felicidade. El Chavo ensinou ao mundo que um sanduiche de presunto tem um valor inestimável, que a honestidade está acima do orgulho e que amizades estão acima de classes sociais.

chapoline201Apesar de ter El Chavo como seu personagem mais famoso, é com Chapulin Colorado que Bolaños mais mostrou sua genialidade. O ideal de Chapulin batia de frente com o imperialismo norte-americano e parodiava os “deuses” invencíveis das HQs ianques. Era um personagem tonto, desastrado e medroso, sem dinheiro e sem recursos. Mais atrapalhava do que ajudava. Mas sabia superar seus medos, sabia ter compaixão por seus inimigos e enfrentava seus problemas, mesmo que da maneira mais inusitada. Chapulin é a necessidade do povo latino-americano de ter um herói próprio, de mostrar que não precisa de ajuda externa e isso fica bem claro nos episódios em que Chapulin contracena com Super Sam – o herói claramente americano, à imagem do simbólico Uncle Sam: enquanto Chapulin só aparece quando é chamado, Super Sam está sempre por ali, pronto a ajudar mesmo quando ninguém o quer por perto. Se há aqui alguma semelhança com a política externa dos Estados Unidos, ela é totalmente intencional.

Há muito mais nas esquetes criadas por Bolaños do que simplesmente o humor infantil. Havia uma crítica social, uma inspiração política, um desdém àqueles que se propunham superiores. El Chespirito, o pequeno Shakespeare, provou que a humildade pode desbancar qualquer soberba; que existem ouvidos para a voz dos latinos; e que o mundo é pequeno para um garoto que oito anos, cujo lugar mais longe que visitou foram as praias de seu próprios país.

Os programas criados por Bolaños foram traduzidos para mais de 50 idiomas em todo o mundo e ainda hoje, 45 anos após sua estreia, é regularmente transmitido em mais de 20 países.

Sem querer querendo, Roberto Gomez Bolaños arrebatou os corações de centenas de milhões de pessoas, arrancou-lhes risos e lágrimas e deu-lhes esperança em um mundo melhor.

Se me permitem fugir à formalidade do texto, preciso dizer que cada letra aqui escrita foi regada a lagrimas do mais puro saudosismo. Desde minha infância, Bolaños foi o sujeito que mais quis conhecer na vida, apenas para um aperto de mão e um agradecimento. Ele arrancou risos dos meus avós, dos meus pais e de mim, e com certeza arrancará risos dos meus futuros filhos e netos, caso venha tê-los algum dia.

“Prometemos despedirmos
sem dizer adeus jamais,
pois haveremos de nos reunirmos
muitas, muitas vezes mais.”

Vai-te em paz, Chavinho. Dentre tantos risos, hoje finalmente você me arrancou lágrimas.

Leia também “Chapulin – O Maior Herói Latino

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5 respostas em “Adeus, Chespirito…

  1. Grande texto como sempre, a genialidade ingênua e simples dos personagens é atemporal. Para mim, Bolaños foi um dos maiores escritores de comédia do século passado. E parte da minha infância. Incrível como até hoje, ainda me divirto com os episódios, mesmo que cada segundo deles já esteja memorizado. Matéria dos grandes gênios, com certeza…

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  2. Cara, eu não poderia estar chorando hoje de novo. Ainda mais aqui no trabalho. O trecho da música ali me deu um nó na garganta. Seu texto está fenomenal. Eu não conseguiria escrever algo assim, tão completo e bem pensado, no estado que eu estava ontem. Você traduziu o que eu sinto.

    Muito bom, meu caro amigo. Parabéns! E felizes somos nós de viver em uma geração em que um dos companheiros de viagem nesse mundo ingrato foi Roberto Gomez Bolaños.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Prezado, num mundo onde predomina a arrogância, a prepotência, a desonestidade, a famosa “Lei de Gerson” (onde tem sempre alguém querendo tirar vantagem sobre alguém e/ou alguma situação), o legado que Roberto Gomez Bolanõs nos deixou através de seus personagens, jamais sairá de nossas mentes e corações. Parabéns pelo excelente texto !!!

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