O testamento literário de Herman Hesse

Um romance utópico, de idéias grandiosas, que reúne em um único homem uma das principais motivações da humanidade: a busca pela compreensão do mundo. Se for possível resumir O Jogo das Contas de Vidro em uma única frase, essa deveria ser sua definição. Mas este livro de Herman Hesse vai muito além e se envereda por vieses e escopos de uma sociedade erudita que, ao mesmo tempo em que deveria ser o ideal da evolução social humana, também se mostra um caminho conturbado.

Toda a história se passa na província fictícia de Castália, em um país não identificado, num futuro distante – um lugar onde todos os habitantes são intelectuais e se dedicam ao estudo profundo de variadas disciplinas, principalmente a matemática e a música. O jogo citado no título do livro é o ápice da criação intelectual da raça humana e o único passatempo dos habitantes de Castália. Também chamado de Jogo de Avelórios, o entretenimento é um reflexo do meio em que foi criado, envolvendo em suas regras o uso de física, astrônoma, linguística, filosofia, matemática e música, as quais são manipuladas pelos jogadores em uma linguagem capaz de unificar a todas em um único e primordial conhecimento, através de divagações lógicas e racionais que conseguem misturar todos os tipos de conhecimento puro.

Mas essa atividade lúdica é apenas uma das partes do livro – o pano de fundo para a biografia de seu protagonista – Joseph Knecht (traduzido no Brasil como José Servo, já que a simplicidade de seu nome é primordial para interpretação da história) – e para sua busca pela compreensão e elevação espiritual.

A obra se divide em três partes distintas, mas que se complementam. A primeira delas trata do jogo, através de um curto histórico da atividade; a segunda e mais extensa se dedica à biografia do protagonista, como um livro dentro do livro; e, por fim, algumas obras póstumas atribuídas ao José Servo – poemas e contos – que enlaçam, de forma metafórica, todas as idéias trabalhadas ao longo do romance, abordando um contorno bem mais sucinto e objetivo dos temas explorados por ele.

O texto, ao longo da segunda parte, se envereda pela vida de Servo, desde sua infância. Sempre com o tom intimista de uma biografia, Hesse descreve a entrada do personagem no mundo acadêmico e seu envolvimento com o jogo. Seu deslumbramento com aquela que seria a obra máxima da intelectualidade intensifica seus estudos e – por mérito e reconhecimento – alcança o cargo de Magister Ludi (o Mestre do Jogo de Avelórios), a mais respeitável e admirável colocação dentro de Castália. O relato sobre a vida de Servo o acompanha em sua escalada espiritual, voltando-se para a descoberta e para o conhecimento, voltando sempre para o pensamento racional.

Apesar da linguagem carregada, o enredo é simples e deveras comum nas demais obras de Hesse: a rixa entre o erudito e a vulgaridade, entre a evolução do espírito através do conhecimento e a vida cotidiana. A província de Castália se dedica ao pensamento lógico sobre as disciplinas que compõem o jogo, mas desprezam a História por ser, talvez, uma ciência humana que foge ao adágio racional.

Em certo momento de sua vida, no entanto, José Servo, durante uma apresentação feita em um mosteiro, conhece um monge da Ordem Beneditina. As longas conversas com o monge giram em torno de uma disciplina que até então lhe era pouco quista e Servo começa a perceber que a História tinha-lhe muito a ensinar.

Contrariando todas as expectativas de seus concidadãos, Servo abandona a província e vai viver no mundo exterior, em meio à vida prática das pessoas comuns: abdica, portanto, do espírito e volta-se para o vulgar. Percebe, pois, através da História, que existem falhas nas atitudes de sua província e, sentindo-se responsável por ela, busca ele próprio algum tipo de solução. Num momento inesperado, no entanto, em um acidente repentino em um lago congelado, José Servo morre e sua biografia é encerrada abruptamente.

Daí em diante, as poucas páginas que sobram ao final do romance se dedicam à publicação da obra póstuma do protagonista.

O final, aparentemente desmotivador, coroa com mestria o romance de fortes tendências existencialistas: uma sociedade utópica fechada em si mesma, que possui como instituição máxima a mais avançada criação humana e que, no entanto, benefício algum traz à humanidade; um protagonista que se dedica toda a vida à evolução e, em determinado momento, percebe que esta pouco tinha de evoluída; uma morte abrupta que faz questionar a própria existência e a dedicação individual ao espírito e ao erudito; e, por fim, um legado póstumos deveras enfadonho, como último suspiro de uma vida perdida ao acaso.

Não apenas no enredo, mas também nos detalhes linguísticos, Hesse laureou os significados do que pretendia. Os nomes usados na obra não foram de graça. O título de sua terra utópica, Castália, é também o nome de uma ninfa da mitologia grega. A Castália grega foi transformada em nascente de água pelo deus Apolo e alocada próxima ao famoso oráculo de Delfos. As águas desta fonte inspiravam aqueles que dela bebiam e exaltavam seu espírito poético. Não muito diferente das intenções de Hesse com sua comunidade utópica e inspiradora: um lugar que acirrava o conhecimento e despertava o pensamento.

Em contrapartida, o ápice da criação dessa sociedade inspiradora, o Jogo das Contas de Vidro, ou Jogo de Avelórios, traz em seu nome um significado que se opõe àquilo que ali era pregado. Vidros não são jóias e possuem pouco ou nenhum valor. A própria palavra “avelório” – na versão portuguesa do livro – traz em si um significado dúbio: “conta de vidro” ou “algo de valor escasso”.

Não obstante, o Magister Ludi da atividade, protagonista da obra, carrega em seu nome não uma pomposa distinção, mas a alcunha de um simples servo. Não trazia, portanto, a soberba dos castálicos. Ao contrário, buscaria a evolução do espírito através do vulgar, do humilde, da servidão. E assim, como uma alusão ao sobrenome de José Servo, o protagonista termina seus dias nas últimas páginas de sua biografia: como o tutor do filho de um amigo, que ele conhece fora da província em que vivia.

Não à toa, as questões levantadas por Hesse ao longo d’O Jogo das Contas de Vidro renderam-lhe o Nobel de Literatura de 1946. O livro é considerado sua magnum opus, seu testamento literário, um legado para o pensamento sobre os reais valores da cultura humana.

Devido à grandeza e perfeição do Jogo de Avelórios, nada criado pelo homem poderia ocupar o lugar dessa atividade lúdica que é, ao mesmo tempo, a mais nobre e a mais inútil das criações humanas. E tal inutilidade talvez reflita a gratuita e efêmera existência, tão pomposa em sua erudição, mas ao mesmo tempo passageira, como bem atestado pela morte abnega de José Servo.

O autor parece ter guardado, para este romance, toda a influência que acumulou ao longo da vida – suas origens em uma família cristã, sua aproximação com a espiritualidade hindu, suas fortes ligações com a psicologia analítica de Carl Jung e sua vivência através de duas Guerras Mundiais. Tudo parece se unir para compor um pensamento complexo, não de uma sociedade futurista, mas atemporal – e que talvez fosse um reflexo existencialista da primeira metade do Século XX.

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Em Busca do Reinado e de Uma Fantasia Imparcial

Imagine um mundo pós-apocalíptico e falido, vítima da 3ª Grande Guerra Mundial, onde a água potável é um bem escasso, caro e altamente cobiçado pelas pessoas. Agora mude completamente sua imaginação e pense em uma terra inóspita, repleta de florestas e campos verdejantes, montanhas e rios abundantes. Mesmo que contraditórios e tão contrastantes, estes são os ambientes por onde se passa a aventura do jovem Bruno, protagonista do épico juvenil Em Busca do Reinado: O Diamante Azul, escrito por Juliano Reinert e publicado este ano pela Editora Pistis.

Escrito ao longo da última década, o livro mistura fantasia medieval com a temática ecológica, unindo o estilo tradicional da fantasia europeia com um futuro distópico de nosso próprio país. Nessa mistura sensata, Reinert nos apresenta Bruno… apenas Bruno: um jovem órfão de guerra, sem sobrenome, sem um passado relevante para aqueles que o rodeiam, sem identidade em meio ao caos que se tornou a humanidade após uma batalha de proporções globais. Apesar das amizades e da personalidade cativante, o personagem é apenas mais um trabalhador que luta para ganhar a vida e manter abastecido seu pequeno e extremamente necessário estoque de água.

O cenário inicial é a cidade de Joinville, no Sul do Brasil, assolada pela seca e pela guerra. No entanto este ambiente catastrófico é apenas um grande epílogo para a aventura do protagonista. Por sorte ou por destino, Bruno é conduzido para um mundo paralelo, bem diferente da realidade em que vivia em nosso próprio planeta. No mundo fantástico de Tedawer Lorcb, o jovem órfão faz amizade com Osnegrion, um velho enigmático que vê no garoto a esperança de salvar seu reino.

Apesar de tão diferente de nosso próprio mundo, Tedawer Lorcb possui uma grande semelhança com o futuro criado por Reinert. Ali também, naquele ambiente mágico e medieval, está ocorrendo uma longa guerra, que há anos vem destruindo os povos da região. Um combate sem fim, que já dura gerações e que precisa ser encerrado antes que um mal ainda maior venha a acontecer.

O maior trunfo da história, no entanto, é sua imparcialidade.

Juliano Reinert em noite de lançamento do livro / foto: Eberson Theodoro

Talvez por ser jornalista, Juliano Reinert trouxe para Em Busca do Reinado uma visão acadêmica da imparcialidade de sua profissão. É fato que a imparcialidade não existe na imprensa ou no indivíduo, mas é o ideal do jornalista sempre abordar um tema por diferentes vieses, ouvindo e dando espaço para todas as versões do acontecimento.

Ao cair em um mundo desconhecido, em meio a uma guerra da qual não faz parte, Bruno se torna um personagem à parte de toda a situação. Pode, portanto, ver o fato pelo “lado de fora”. Dessa maneira, Reinert cria um conflito sem a dualidade maniqueísta do bem e do mal. Durante a aventura do protagonista, descobre-se aos poucos que os dois lados da guerra possuem motivos para se odiarem, possuem crenças para se acreditarem corretos e legítimos defensores da verdade.

O autor nos apresenta reinos cujos líderes e cidadãos estão convictos de que devem aniquilar o inimigo, enquanto nós, leitores, entendemos que ambos estão errados. Osnegrion guia Bruno pela razão, mas deixa que o jovem aprenda com a emoção, dando ao protagonista um arco dramático ao longo de toda a sua viagem pelo grande reino de Tedawer Lorcb.

Nada mais cabível para o atual cenário em que vivemos. Claro que não era a intenção de do autor fazer de sua obra uma analogia do atual cenário político do país, afinal, como já dito, o livro é uma conclusão de anos de trabalho. Mas é impossível não tirar dele uma lição importante: não se pode polarizar a verdade.

O Diamante Azul é a apenas a primeira parte desta grande fantasia. Juliano Reinert pretende publicar o final da história em breve. Resta saber qual será o destino de Em Busca do Reinado.

Ficha técnica:

Título: Em Busca do Reinado: O Diamante Azul
Autor: Juliano Reinert
País: Brasil
Publicação Original: 2018
Publicação Lida: Pistis, 2018
Páginas: 411

Um Brasil Milenar

O esqueleto de “Luzia”, como foi apelidado os restos mortais encontrados em Minas Gerais na década de 1970, foi datado com cerca de 12 mil anos de idade. É o mais antigo esqueleto do país e prova de que o ser humano já habitava por essas bandas há muito, mas muito tempo mesmo! Mais curioso ainda foi a descoberta feita pelos pesquisadores que analisaram o crânio de Luzia e constataram que ela era uma mulher negra – ou, pelo menos, tinha fortes características da estrutura óssea do povo africano.

Neste momento você deve estar se perguntando: será possível que tribos da África atravessaram o Atlântico em canoas e vieram às Américas antes mesmo dos atuais povos ameríndios, que chegaram por aqui vindos da Ásia? A resposta para essa pergunta pode ser encontrada em 1499 – O Brasil Antes de Cabral, escrito pelo jornalista da Folha de S. Paulo, Reinaldo José Lopes. O livro, publicado em 2017, parte do mistério de Luzia e se envereda por diversas outras curiosidades da arqueologia e paleontologia brasileiras, descrevendo várias descobertas sobre a pré-história sul-americana e desmistificando muito do que é popularmente conhecido pelos brasileiros.

Se na escola se aprende sobre índios preguiçosos e sociedades pacíficas habitando o continente de tal forma que pouco ou nenhum rastro causavam na natureza, em 1499 Lopes mostra uma outra visão, menos apática e muito mais instigante do que realmente eram estas terras antes da chegada dos portugueses e espanhóis.

Os habitantes nativos da América, principalmente da Amazônia, remodelaram muito da paisagem ao seu redor. Segundo o livro, as florestas encontradas por Cabral não eram tão naturais como os portugueses imaginaram, tendo muito de sua flora modificada pela ação humana ao longo de milhares de anos. E o mesmo pode ser dito do solo e, em alguns casos, até mesmo do relevo – canais e ilhas artificiais, solos cultivados e ricos em nutrientes, estradas e fortalezas, além de uma rica e colorida arte cerâmica, capaz de fazer inveja à porcelana chinesa.

A idéia de que os índios brasileiros não modificavam seu ambiente cai por terra após as recentes descobertas, que mostram vastas sociedades e uma longa rede de comércio entre diversas tribos ao longo de todo o “berço explêndido” onde viria a se deitar o Brasil.

Aproveitando os avanços da ciência, Lopes ainda pauta seu livro em pesquisas genéticas, linguísticas e antropológicas para traçar uma linha do tempo de diversas civilizações que habitavam as regiões que hoje compõem nosso atual país e seus vizinhos – e demonstra que sim, a vida por aqui era muito agitada antes do descobrimento; e não, os antigos inquilinos dessa pátria pouco tinham de pacíficos e nada de reticentes com a dominação européia de suas terras.

Ao longo do texto, Lopes conversa diretamente com o leitor, sempre com bom humor e simpatia, usando de trocadilhos e tiradas engenhosas para traduzir muitos dos termos técnicos usados na ciência. Mais que despertar a curiosidade, e mesmo que não seja a intenção do autor, a obra instiga um certo patriotismo ao expor a grandiosidade por trás deste gigantesco pedaço de continente que hoje nos cabe.

Se o Brasil não possui um mito fundador, como tantos outros países mundo afora, talvez, com 1499, seja possível ter um gostinho do que viria a ser este complemento histórico, dando ao país um passado extra e, ao povo, uma extensão da personalidade coletiva que nos une como nação.

A Metalinguagem de ‘Pássaro Livre’

A liberdade é uma dádiva conquistada com sacrifícios, mas para entendê-la em todo o seu significado, é preciso, antes, perdê-la por completo. É sob essa premissa que se desenvolve Pássaro Livre, o romance de estréia da jornalista Déborah Vieira, publicado de forma independente através do Clube de Autores.

Não se engane, porém, imaginando que o livro se trata da liberdade física, de personagens enclausurados por trás de barras de ferro. O conceito ali abordado vai muito além dessa concepção, trabalhando aquela liberdade de pensamentos e escolhas: uma clausura criada a partir das relações humanas.

Anne é uma jovem escritora, formada em letras e sem muitas perspectivas nesta área profissional. Há oito anos namorando com Daniel e recentemente morando juntos em São Paulo, ela vive de seus sonhos mais que de sua realidade. Apesar de amar o namorado, vê-se frustrada em uma relacionamento estagnado; com um diploma nas mãos, ainda mostra-se incapaz de conseguir um emprego; mesmo com o forte desejo de ser reconhecida como escritora, ainda se mostra reticente e desencorajada com seus textos: sua vida, portanto, é uma sequência de expectativas e projeções de um futuro promissor, barrado por um presente desfavorável.

Para fugir da frustrante realidade em que se encontra, Anne tece fantasias com o grande ídolo de sua vida, o homem que ela mais admira e deseja: Eric West, um astro do cinema Hollywoodiano. Os filmes de West são o passatempo e o remédio favoritos da protagonista, como uma meta inalcansável a qual ela nem sequer se dedicar a atingir.

No entanto a jovem desempregada, perdida na maior cidade do país e entristecida com o descaso do namorado, vê-se, de repente, no braços do grande ator do cinema. Tudo parece um sonho, mas Anne parece estar realmente lá, vivendo na Califórnia como uma escritora famosa, que terá seu primeiro best-seller adaptado para as telas de todo o mundo. O ator principal deste longa-metragem? Seu novo namorado: Eric West!

Com um texto leve e personagens cativantes, Déborah Vieira narra uma história complexa, com três diferentes pontos de vista. O mesmo enredo é alternado a cada capítulo, sendo, cada qual, descrito sob o ponto de vista de um personagem diferente. O que a princípio parece confuso, torna-se aos poucos uma maneira de identificar as intenções e se aprofundar na mente de cada um deles: o empresário amoroso, o ator interesseiro e a escritora sonhadora.

Através dessas visões, a autora trabalha a liberdade em seu conceito mais amplo. É através das escolhas da protagonista, Anne, que o livro apresenta seus valores de vida e felicidade, ponderando entre sucesso profissional e pessoal.

É possível ainda perceber uma metalinguagem na obra de Déborah, ligando a ficção à realidade da autora. Se aqui cabe uma especulação, é possível traçar paralelos: tanto autora quanto personagem são recém-formadas em cursos que guardam certas semelhanças entre si (jornalismo e Letras), ambas em busca do sonho do primeiro livro e na expectativa do sucesso. Não um romance auto-biográfico, mas o mundo literário servindo de tema para si próprio.

Como expõe Sérgio Sá em seu livro A Reinvenção do Escritor, há algum tempo a literatura latino-americana vem se dedicando cada vez mais a si mesma – afinal, em um mundo de imagens e sons, as dificuldades em se trabalhar com texto são tão grandes e a influência do cinema e da TV são tão fortes que acabam por se tornar o tema principal dos autores deste canto do mundo. Em Pássaro Livre, Déborah Vieira não fugiu à essa regra.

Literatura, podcasts e sentimentos

Sentimentos à Flor da PeleNos antigos mitos das civilizações ancestrais, os deuses eram a personificação de sentimentos humanos ou de eventos da natureza, como o amor, a morte, a sexualidade, o ódio e tantos outros. Parece-nos natural humanizar as emoções, através das atitudes de personagens, para que possamos entendê-las melhor. Foi baseado nessa idéia que um grupo de podcasters brasileiros se uniu para criar a antologia Sentimentos à Flor da Pele, um pequeno livro com dez contos curtos, mas profundos em significados.

Os podcasts dedicados à literatura estão entre os mais populares da podosfera brasileira. Vários programas abordam a temática dos livros e seus participantes cativam ouvintes, incentivam a leitura e apontam dicas de boas histórias, muitas vezes desconhecidas. No entanto, esses podcasters, apaixonados pelo mundo das narrativas, tão acostumados a criar conteúdo em diferentes mídias da internet, tecendo críticas, elogios e resenhas a obras consagradas, foram desafiados não a falar sobre literatura, mas produz-la.

Seguindo a proposta dos organizadores Anna Schermak (ex-participante do LiterárioCast) e Vilto Reis (apresentador do 30:Min), cada um dos autores escolheu um sentimento como guia e, a partir dele, desenvolveu sua narrativa. Solidão, depressão, obsessão, apatia, raiva, ódio, nostalgia, medo, escapismo e poder se tornam protagonistas em seus respectivos contos.

As dez histórias presentes na antologia são narradas de forma ágil, sem floreios, contando situações que fogem à realidade, mas servem de contexto para o surgimento e desenvolvimento do sentimento-protagonista. Alguns dos autores não são escritores, no entanto a narrativa de todos é concisa e bem desenvolvida. É preciso que se diga que alguns dos contos fogem ligeiramente da proposta ou alguns personagens não representam bem o sentimento que lhes foi designado. Talvez pelo tamanho imposto a cada uma das histórias (apenas 8 páginas por autor) tenha faltado espaço para aprofundar as narrativas e desenvolver melhor cada um dos personagens.

Mesmo assim o livro possui uma qualidade indiscutível: a visão de diferentes pessoas sobre determinados sentimentos humanos. Afinal, sendo algo abstrato, cada qual possui sua própria interpretação de determinada emoção, mas, vista pelos olhos dos outros, o ódio pode ser mais próximo do amor que a obsessão. Ou a raiva pode se aproximar mais da apatia que a depressão. Conhecer como um autor representa suas aflições é um modo de entender melhor nossos próprios sentimentos.

Além dos organizadores, os outros oito autores são participantes dos programas CabulosoCast, LivroCast e O Drone Saltitante. A idéia do livro surgiu através da internet e sua publicação também usou da rede para se realizar. Os gastos de impressão foram pagos através de financiamento coletivo – crowdfunding – realizado através do site Catarse. Pessoas de todo o país, fãs dos podcasts literários, contribuíram com a produção do volume, num processo que transformou podcasters em escritores, com a ajuda de ouvintes que se tornaram leitores.

J. R. R. Tolkien: Fantasia e Genealogia

O texto abaixo, de minha própria autoria, foi originalmente publicado no blog do portal MyHeritage.com, o maior portal do genealogia do mundo. 

TolkienApesar de ser professor em Leeds por seis anos e ser eleito a uma cátedra na Universidade de Oxford em 1925, onde ministrava aulas de Inglês Antigo e Medieval, Filologia Germânica, Islandês, Galês e Saxão (entre outros), o escritor britânico J. R. R. Tolkien só se tornou conhecido em seu país e no mundo após as publicações de seus dois mais famosos livros: O Hobbit (1937) e sua obra prima, O Senhor dos Anéis (1954). Neste e em outros mais de 20 livros (a maioria publicado postumamente), Tolkien desenvolveu uma vasta mitologia, com raças variadas: “deuses” e “demônios”, elfos, humanos, anões, hobbits, orcs e animais fantásticos. Suas histórias se desenvolvem desde a gênese do universo até o final das “eras mágicas”, quando apenas os humanos passaram a dominar o mundo.

Mais que uma simples história de fantasia, porém, a mitologia tolkieniana é uma narrativa concisa de um passado remoto de nosso próprio mundo, quando seres míticos ainda habitavam a Terra e os “deuses” ainda agiam abertamente, influenciando os destinos de humanos, elfos e demais raças. Nestes épicos estão narradas grandes batalhas, aventuras perigosas, mistérios e grandes amores. Mais que arriscadas demandas, no entanto, estão presentes nestas histórias grandes exemplos de humildade e simplicidade, amizade e amor, perseverança, coragem e justiça, além de discursos políticos e familiares, bem como uma profunda filosofia, capaz de refletir com exatidão os tão complexos conflitos humanos de nosso tempo.

Mesmo com tantos elementos fantásticos, as narrativas deste filólogo conseguem passar ao leitor uma aura de realidade grande o suficiente para que seja possível acreditar na existência dos fatos, ocorridos naquele período imemorável de nosso passado distante. Metódico ao extremo, Tolkien compôs essa impressão de que suas obras eram “registros históricos” abusando dos detalhes, como mapas minuciosos, idiomas próprios e vivos (suas línguas evoluem no decorrer da história) e mesmo emaranhadas árvores genealógicas de seus personagens, cujas sagas das famílias se desenvolvem por séculos – às vezes milênios. A genealogia é, inclusive, um dos passatempos favoritos dos hobbits – a raça de hominídeos cujo alguns personagens protagonizam seus mais famosos livros. Alguns hobbits, como dito em O Senhor dos Anéis, tinham orgulho de expor suas composições genealógicas, listando seus antepassados, seus filhos, tios e primos de graus variados.

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Bilbo Bolseiro, por exemplo – protagonista de O Hobbit – é descendente de duas das mais tradicionais famílias hobbits (os sensatos Bolseiros e os aventureiros Tûks). Bilbo era filho de Mungo, neto de Bungo e bisneto de Balbo. É também sobrinho-neto de Largo Bolseiro, que, por sua vez, é bisavô de Frodo – protagonista de O Senhor dos Anéis. [vide imagem 1] Mas a família Bolseiro é apenas uma dentre muitas das mais tradicionais, como os Bolger, os Foçadores, os Pés-Soberbos, os Tûks, os Buques e muitas outras. Tendo cada família seus próprios costumes e tradições, bem como diferentes posições sociais, a genealogia ficcional de Tolkien torna-se, portanto, não apenas mero enfeite para os mitos, mas também contexto para criar a personalidade de cada um dos personagens. É baseado nos laços familiares e nas características genéticas que se define (ou se desafia) o destino de cada um deles.

Entretanto, por mais extensas que sejam as árvores genealógicas deste pequeno povo, elas não chegam nem perto da grandiosidade das genealogias dos elfos e humanos. Tendo estas raças surgido no Início do Mundo (sendo as primeiras criações de Eru, o Deus Único), suas genealogias se estendem por milênios, desde os primórdios do Tempo até o desfecho dos mitos, onde as histórias de todos se convergem numa última luta contra o grande Mal que ainda habitava o mundo. Sendo elfos e humanos os senhores dos grandes reinos que dominam o mundo criado por Tolkien, suas respectivas genealogias têm o contexto não só de enriquecer os personagens como também de basear as relações políticas, militares e comerciais, algumas vezes influenciando diretamente até mesmo as decisões dos “deuses”.

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Como um bom inglês que era, Tolkien colocou presente em sua obra uma monarquia de valores nobres e sublimes, tendo o rei como pai do povo. Bons reis eram líderes que tratavam seus súditos com igualdade e justiça, enquanto maus reis condenavam seus reinos à destruição. Em O Senhor dos Anéis, por exemplo, o grande e decadente reino de Gondor é governado há anos por regentes, pois a família do rei, apesar de ainda aguardada com esperanças, havia se perdido em guerras há séculos. O fim da história trás de volta a prosperidade do reino ao ser anunciado o retorno do rei – Aragorn, Filho de Arathorn, cujos antepassados viveram no exílio por gerações. [vide imagem 2]

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Milênios antes do rei retornar a Gondor, uma história de amor foi capaz de mudar o desígnios dos próprios “deuses”. O humano Beren e a elfa Lúthien, ao concretizarem seu amor e gerarem um filho misto, com sangue da raça mortal e da raça imortal correndo em suas veias, obrigaram os Poderes do Mundo a mudarem as leis divinas e até mesmo a geografia do planeta; e seus descendentes, por milênios a fio, foram os grandes líderes de ambas as raças – cujo Aragorn, citado acima, e sua esposa foram os últimos mencionados em toda a obra. [vide imagem 3]

Os exemplos aqui citados são apenas alguns dentre muitos. As árvores genealógicas são extensas e variadas e podem ir além das histórias contadas nas páginas dos livros. O professor e escritor J. R. R. Tolkien era um genealogista da ficção e, apesar de atribuir a seus personagens o gosto pela genealogia, era ele próprio um entusiasta desta arte.

Se vivo, Tolkien completaria 123 anos neste dia 3 de janeiro de 2014. Ele próprio se dizia um hobbit, um sujeito simples e interiorano, avesso às modernidades. Se fosse mesmo verdade, talvez ele estivesse compondo sua própria genealogia nas páginas de sua esplêndida fantasia.

Da Infância à Meninice

manoel de barrosCoração de poeta é sofrido, embriagado, vive sempre marcado, mas aguenta todos os baques da vida. O coração de Manoel de Barros trazia em si toda a sua nostalgia e suportou por quase um século a saudade dos tempos de infância. No entanto não aguentou a ruína da idade e deixou de bater na manhã do dia 13 de novembro de 2014, deixando órfãos as palavras e os versos do poeta mato-grossense.

Durante os 97 anos em que viveu, Manoel nunca envelheceu de verdade. Em sua obra, ele sempre exaltava a infância, as brincadeiras de moleque, a simplicidade da roça… Eram memórias de tempos idos misturadas às fantasias do presente, a invencionice de criança que nunca o abandonou. “Tudo o que não invento é falso”, dizia ele, quebrando o sentido das palavras e contorcendo as mentes daqueles que não viviam em seu mundo particular de poesia. Aliás, brincar com palavras era seu maior prazer: “percebi que servia era pra aquilo, ter orgasmos com as palavras”.

Manoel de Barros, como ele mesmo disse em suas “Memórias Inventadas”, era um escultor de palavras. Aquelas que caiam em suas mãos eram talhadas e lapidadas e ganhavam em seus versos um novo significado, às vezes até mesmo novas letras ou fonemas diferentes.

Usava as palavras para compor um pouco de tudo, sempre de maneira inusitada. Seus versos não falavam de grandes amores ou feitos heroicos. Falavam de latas velhas, carrinho de pau, sapo de brejo, garça, pedra e rio. Se citava os tempos de criança, era como se ainda os vivesse. Se versava sobre a maturidade, era como se nela nunca tivesse chegado. Se fazia rimas na velhice, tratava-a como uma terceira infância.

Manoel-de-BarrosApesar de aparentar inocência ao tratar o mundo sempre sob olhos de garoto, de inocente ele nada tinha. Não temia as palavras proibidas nas casas de família, e falava de punheta como quem falasse de esconde-esconde: apenas mais uma saudosa brincadeira de criança. Sem tabu que o segurasse, sem medo de preconceitos e apelidos. Manoel de Barros se orgulhava em ser o bocó que catava caracóis na beira do rio; prezava os insetos mais que os aviões, prezava mais as tartarugas que os mísseis; era “aparelhado para gostar de passarinhos”.

Sua poesia ganhou prêmios variados. Trezes deles entre os mais importantes do país, incluindo dois Jabutis, por “O Guardador de Águas” e “O Fazedor de Amanhecer”. Entre 1937 e 2013, Manoel publicou 34 livros no Brasil, além de publicações em Portugal, França e Espanha.

Antes de se enveredar pelas palavras, fez parte da Juventude Comunista, seguiu os passos de Luis Carlos Prestes e derramou lágrimas ao vê-lo se dobrar na direção de Vargas. Formou-se em Direito no Rio Janeiro; morou em pensionato; revoltou-se com a poesia e Padre Antônio Vieira; se inspirou com a obra de Arthur Rimbaud. Viveu na Bolívia, Peru e Nova York; fez curso de cinema e pintura; se descobriu poeta ainda na adolescência.

A verdade é que Manoel de Barros nasceu no mato e nunca saiu de lá. Veio ao mundo em dezembro de 1916 e, apesar do sucesso como poeta, nunca se permitiu estar à frente de holofotes, sempre fora recluso, tímido e recatado. Escrevia seus versos na fazenda que herdou dos pais, em Corumbá, onde morava desde 1960. Ganhou a vida criando gado e usou da poesia para se procurar, sem nunca ter se achado – o que, em suas palavras, lhe foi a salvação.

“No meu morrer tem uma dor de árvore.”