O Orc agora faz parte do Telha

Depois de seis participações no Telhacast, no decorrer de todo este ano, fui convidado por Thiago Miro a ser integrante fixo de sua equipe de podcasters, completando o grupo de dez membros. Agora, caros leitores do Covil, todos poderão me ouvir com mais freqüência no Telha, incluindo o programa desta semana sobre “Filmes Amaldiçoados”.

Não deixem e ouvir os antigos também: a série especial sobre Tolkien e o cast sobre Drácula.

Boa diversão a todos!

Mais uma vez no Telhacast

Mais uma vez fui convidado a participar do Telhacast. Da primeira vez, fizemos uma série de 5 episódio sobre a vida e obra de J. R. R. Tolkien. Desta vez fizemos um especial sobre o atemporal Drácula, de Bram Stoker. Abordamos o livro, seus contextos e suas diversas adaptações para o cinema, além de um apanhado histórico sobre vampiros.

Para ouvir, basta visitar a página do Telhacast clicando aqui.

Ver, Ouvir e Sentir Raul Seixas

Cerca de 15 minutos antes da sessão e a sala começa a se encher. É um documentário, gênero pouco quisto pelo expectador brasileiro, e o filme já está em cartaz há uma semana; mesmo assim o público é grande e as fileiras ficam quase todas lotadas. “Por isso que eu gosto de maconha: um tapinha e a gente relaxa por umas três horas”, comenta alguém na fila de trás. “É sério, tem uma ladeira lá onde o carro sobe sozinho. Só soltar o freio de mão e ele vai subindo”, retruca um outro, referindo-se à cidade de São Tomé das Letras. São jovens e senhores, mas também crianças, muito provavelmente levadas pelos pais, burlando a classificação de 14 anos, para que assim conheçam o grande ídolo de suas juventudes.

Dá-se início à sessão e então são mais de duas horas de silêncio entre a plateia, entrecortado apenas pelos risos diante de depoimentos amalucados de Raul Seixas e das histórias igualmente insanas narradas vez ou outra pelos amigos entrevistados no decorrer do longa. E então vem a cena espantosa – não na tela, mas entre os espectadores: acaba-se o filme, sobem os créditos e ninguém se ergue de sua poltrona. Ficam todos sentados a ouvir Gita e a observar a infinidade de nomes que desfilam tela acima sobre um fundo negro. Os projetores são desligados, as luzes se acendem e um aplauso emocionado se inicia, com pessoas gritando o nome de Raul aqui e acolá, diante da tela apagada em uma mera sala comercial.

Raul não morreu. Não há outra maneira de se falar do pai do rock nacional se não plagiando os eternos fãs do rei do rock mundial: assim como Elvis, Raul Seixas não morreu. O baiano continua vivo em cada um de seus sósias, em cada um de seus fãs-seguidores, em suas músicas e agora mais ainda com este excelente filme do diretor Walter Carvalho: “Raul – o Início, o Fim e o Meio (Brasil, 2012).

Walter Carvalho durante entrevista com Caetano Veloso

No decorrer do longa, transitam pela tela vários amigos e familiares de Raul, jornalistas, fãs, estudiosos e as mulheres do músico – muitas mulheres. Estão presentes o escritor Paulo Coelho, os produtores Solano Ribeiro e Nelson Motta, o jornalista Pedro Bial, os músicos Tom Zé, Caetano Veloso e Júlio Medáglia, entre tantos outros famosos e anônimos que, de alguma forma, estiveram presentes na vida do roqueiro baiano.

Durante a produção (durou três anos) foram realizadas 94 entrevistas, das quais 54 estão no longa. Mais de 400 horas de gravações, as quais foram magistralmente editadas e montadas nas pouco mais de duas horas de duração do filme, mostrando não apenas a carreira, mas também a vida pessoal e amorosa de Raul Seixas, além do legado que ele deixou e que ainda hoje arrasta multidões de fãs – fãs, estes, que também estão presentes no documentário, entoando em coro algumas canções do ídolo.

Com O Início, o Fim e o Meio, Walter Carvalho não tenta endeusar Raul. Trata-o como mito, é verdade, e, como mito, também não tenta explicá-lo. Mas ao mesmo tempo, exibe um Raul homem, careta e maluco, amoroso e mulherengo, celebridade e decadente. Aborda as drogas de maneira seca, sem preconceitos, como parte do dia-a-dia do cantor: éter, álcool, cocaína e tantas outras; todas apresentadas pelo amigo Paulo Coelho, que em momento algum se mostrou arrependido por isso.

O que se vê na tela são pessoas entusiasmadas em falar sobre o roqueiro, deleitosas em contar alguma experiência que viveram com Raul. De todos os contatados por Walter Carvalho, a única que não quis ceder entrevista foi Edith, a primeira esposa do astro. Mesmo assim seu depoimento e sua recusa estão presentes no filme, em uma carta lida via Skype pela filha de Raul que mora nos Estados Unidos. As demais mulheres expõem um Raul conquistador e apaixonado. E nenhuma delas esconde o afeto e a saudade que ainda sentem por ele, mesmo quando contam sobre as traições e o fim do relacionamento. “Ele tinha um hálito doce”, comenta uma delas, saudosista. “Ele cheirava à flores”, suspira uma de suas amantes.

Entre materiais inéditos (como gravações de quando Raul tinha apenas 9 anos) e depoimentos emocionados, a sensação do espectador não é apenas de rever o ídolo e ouvi-lo cantar, mas também sentir… sentir o quão importante ele foi para o cenário musical da época e para a cultura do país. Toca Raul!!!

Livros de 2011 – parte 1

Como não escrevi sobre nenhum dos livros que li ano passado, deixo abaixo algumas opiniões sobre alguns deles.

O Espião que Saiu do Frio

John Le Carrè é o maior autor de espionagem da Guerra Fria. Foi agente da inteligência britânica e viu de perto toda a realidade do mundo dos agentes secretos, experiência tal que aproveitou em sua Obra (e ainda aproveita).

Com personagens profundos e complexos, contrário ao glamour das histórias de James Bond, em O Espião que Saiu do Frio, Le Carrè faz uma síntese de tudo o que havia de pior na vida dos espiões: as mentiras, as traições, as confusões com a própria identidade (chega-se um momento que nem mesmo o próprio agente consegue identificar de que lado está) e a total desvalorização da vida humana em prol da agência.

Alec Leamas, o protagonista, assiste, sem nada poder fazer, a sistemática destruição de sua rede de agentes, até ser obrigado a abandonar suas tarefas e, finalmente, sair do frio, ou seja, deixar o árduo ambiente polar de seu trabalho de inteligência. O que parecia sua aposentadoria, porém, torna-se apenas mais uma de suas missões. Não é a toa que Le Carrè é conhecido como o mais literário e filosófico autor de espionagem do século XX.

 Nota: o livro foi adaptado para o cinema em 1965, dirigido por Martin Ritt e tendo Richard Burton no papel principal.

O Dia do Chacal

Tendo como pano de fundo uma situação real da História recente da Europa, O Dia do Chacal é mais que um simples thriller: é a síntese de toda a situação francesa no período pós-guerra das décadas de 1950-60, transformada numa caçada dupla, maravilhosamente narrada por Frederick Forsyth.

De um lado, um assassino profissional com táticas impecáveis, contratado pelos opositores para matar o presidente Charles de Gaulle. Do outro, um detetive da polícia francesa, munido de toda a força do Estado, movendo céus de terras para encontrar o assassino antes que ele concretize seus planos.

O que pode parecer um enredo simples (e até mesmo clichê) é transformado numa história extremamente redonda e cheia de contextos, expondo a situação política da França e de suas colônias na África, explicando a relação entre governo e exército e dando voz até mesmo aos assassinos contrários ao presidente. No entanto, o melhor mesmo, é seguir passo a passo a elaboração e prática do complexo plano de morte arquitetado pelo frio e inteligentíssimo assassino de codinome Chacal.

Nota: o livro foi adaptado para o cinema em 1973, dirigido por Fred Zinnemann. Não chega nem perto da qualidade do livro (pois este é extremamente envolvente), mas ainda assim é um ótimo filme de ação.

Madame Bovary

Este foi o primeiro dos clássicos que li em 2011. Considerada a primeira obra realista, o livro do francês Gustave Flaubert conta a história de Charles e Emma Bovary, um casal de pequenos burgueses do interior da França.

Charles, um médico em início de carreira, casa-se com Emma, dando a moça o que ela mais queria: a chance de sair de casa e conhecer o mundo fora da fazenda de seu pai.  Charles, no entanto, é um homem pacato e simples, que se contenta com a vida interiorana e com os poucos clientes que ali possui, enclausurando sua esposa, mesmo sem perceber, no mundo doméstico de sonhos frustrados.

Emma, ainda muito jovem, voraz e bela, vê-se cada vez mais arrependida com os laços matrimoniais, pois o que parecia ser uma ascensão em sua vida, acabar por tornar-se nostálgico em relação a uma vida que ela viveu apenas em sonhos. Presa ao marido, tudo o que lhe resta são os estereotipados romances de Walter Scott e as notícias da alta classe parisiense que ela lê em jornais e revistas.

Em busca de uma vida mais agitada, afim de se desvencilhar daquela calmaria insossa que era sua vida conjugal, Emma cai na lábia e nos braços de um dos baronetes da região, tornando-se sua amante, deleitando-se em seus elogios e acreditando em suas doces palavras de amor… coisas que há muito o marido já não lhe dava

Mais que um romance realista, Madame Bovary é uma história real adaptada e incrementada por Flaubert. Tão, mas tão realista, que levou o autor aos tribunais para ser processado por ofensa à moral e à religião. Flaubert acabou absolvido pela Corte, mas os críticos nunca o perdoaram pelo tratamento cru que deu ao adultério. A História, porém, fez do livro um grande clássico e a vida de Emma Bovary acabou por se tornar atemporal: ainda hoje, um reflexo da prisão matrimonial de muitas mulheres e uma fotografia muito bem pintada da sociedade de meados do século XIX, tão atrasada e machista quanto a atual.

Nota: este livro recebeu várias adaptações para o cinema e a TV feitos em vários países. Os mais famosos são os longas franceses de 1991, de Claude Chabrol, e o de 1933, dirigido por Jean Renoir; além do americano de 1949, dirigido por Vincente Minnelli.

Dois Coelhos e Muitas Cajadadas

Sim, 2 Coelhos (Brasil, 2012) é extremamente influenciado pelos blockbusters americanos, cheio de explosões e efeitos visuais. Sim, o filme também tem o tradicional e calamitoso romance hollywoodiano. Sim, também é cheio de referências à cultura pop e, por muitas vezes, se vale totalmente dela. No entanto cenário e roteiro são extremamente brasileiros. E isso é o que conta! Só é uma pena que, mesmo assim, não seja um ótimo filme.

Dirigido pelo estreante Afonso Poyart (que também escreveu e montou o longa), 2 Coelhos é uma colcha de retalhos, um quebra-cabeças que vai aos poucos tomando forma, numa narração não-linear do amalucado plano de redenção e vingança de Edgar (Fernando Alves Pinto), o protagonista. Amalucado, pois de real não tem nada – o que não é defeito, afinal isso é cinema e não a janela da sua casa.

A lógica desta suposta redenção não fica muito clara, mas tudo é desculpa para muita ação, tiroteio e explosões! Apesar de apelar para o intercâmbio com o cinema americano, o que se vê em cena é bandidagem das ruas e corrupção do governo – um pano de fundo tipicamente brasileiro – e um protagonista pronto a colocar fim em ambos os males (não que a idéia seja realmente exterminá-los de todo, mas, pelo menos, ter seu momento de júbilo sobre eles).

Tecnicamente, o filme não deixa nada a desejar. A direção de fotografia feita por Carlos Zalasik é impecável, cheia de contraste muito bem feitos entre tenção e descontração e alguns planos de câmera bem inusitados. Os efeitos, à cargo de Sérgio Farjalla (que já fez Mercenários e Crepúsculo) são o carro chefe do longa. E até a trilha sonora (que conta com “Sou Foda”) também é bastante instigante.

O que se vê, portanto, é um filme de ação genuinamente brasileiro, algo realmente inédito em terras tupiniquins, com mote e humor (e que humor!) tipicamente nossos. No entanto Poyart parece subestimar o espectador e brinca demais com seu filme. E isso acaba por estragar parte da diversão.

A edição não-linear ajuda a criar um clima de expectativas e até mesmo certo suspense, mas colabora para deixar o roteiro confuso e, por muitas vezes, esconder fatos importantes – como se esconder as peças de um quebra-cabeça tornasse a brincadeira mais divertida para a criança que o monta.

Outro fator negativo é a apresentação caricata de certos personagens, principalmente o deputado, que ali representa toda a corrupção do país. É difícil acreditar na cena em que o congressista, cujo único trabalho é assinar papéis e ganhar dinheiro fácil, se submeta à participar de um tiroteio e uma perseguição em alta velocidade pelas ruas de São Paulo.

A constante narração em off também empobrece bastante a história, fazendo com que todo o roteiro se prenda a ela e deixe de valer por si só.

Para um orçamento de 4 milhões de reais, pode-se dizer que Poyart fez milagre, afinal esse montante é menos da metade dos gastos de Tikhomiroff com seu desastroso Besouro, de 2009. Mesmo assim, ainda falta um quê em 2 Coelhos, algo de redondo.

Eis aí o grande defeito do cinema brasileiro: quando se trata de um filme simples e orçamento baixo, as histórias são sempre singelas, tocantes e geniais; mas se a intenção é complicar e, assim, engrandecer, o cineasta sempre mete os pés pelas mãos e se perde em sua proposta. Uma única cajadada não foi suficiente para matar estes dois coelhos.