A cultura esquecida dos Quilombos

Reportagem produzida originalmente para o jornal Ora-Pro-Nobis,
da Universidade Federal de São João del-Rei.
Por Aléxia Pinheiro, J. V. V. B. Militani (eu) e Viviane Basílio

Como vivem os descendentes de escravos nas comunidades quilombolas próximas a São João del-Rei

QuilomboQuando se fala em Minas Gerais, o imaginário popular evoca a busca pelo ouro e o fascínio das cidades históricas, onde até mesmo os sinos falam. Mas muitos desconhecem a existência de comunidades remanescentes de um povo que participou diretamente da memória cultural do Estado. Escondidos entre as alterosas, – a cerca de 50 km de São João del-Rei – os quilombos Jaguara e Palmital resistem há mais de um século em seus respectivos vilarejos, embora enfrentem uma crise de identidade ligada as suas tradições, que foram perdidas ao longo do tempo.

O reflexo deste esquecimento é a inexistência de manifestações culturais desenvolvidas pelos quilombolas contemporâneos. Somente no Dia da Consciência Negra, os nativos têm contato com os hábitos advindos de seus ancestrais. Nessas ocasiões, os moradores são os responsáveis pelo preparo de comidas típicas enquanto as apresentações afro-brasileiras são feitas por pessoas alheias ao convívio quilombola. “Nós ficamos o dia inteiro cozinhando. Todos comem à vontade. Nosso feijão é nota 10, se existisse nota 1000, era para a gente”, se orgulha uma das moradoras de Palmital. “Capoeira, dança e congado vem de fora”, explica o presidente da Associação de Moradores, João Rosa, sobre o legado africano não ser transmitido internamente em Jaguara.

Outro aspecto que se destaca é a ausência de religiões de matriz africana, como o candomblé. A influência da Igreja Católica na vida espiritual e cotidiana da comunidade é intensa, tanto que todos os entrevistados afirmam que suas terras pertencem à igreja.

Diante desta fragilidade, alianças estão sendo formadas para que esta manifestação cultural afro-brasileira seja valorizada na sociedade e reconstituída na própria mentalidade da população local. De acordo com o professor do curso de História da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), Manuel Jauará, seu primeiro contato com as comunidades foi muito aquém de suas expectativas. “Foi talvez a nossa maior decepção: a grande diferença entre o que a literatura diz sobre os quilombos e o que nos revela a realidade”, afirma.

Quilombo Palmital- João Victor Militani

Palmital: moradores do vilarejo se reúnem ao ar livre, sob a árvore seca. (Foto: J. V. V. B. Militani)

Este episódio, de certa forma, o motivou a desenvolver projetos de extensão junto à universidade, visando a troca de conhecimento e o bem comum dos envolvidos. Em meio ao intercâmbio de experiências, os moradores foram orientados a respeito da importância de serem legitimados pelo Governo Federal e desde 2013 são legalmente reconhecidos como remanescentes de quilombolas pela Fundação Palmares.

Este órgão, vinculado ao Ministério da Cultura, por meio do Departamento de Proteção ao Patrimônio Afro-Brasileiro (DPA) e do Programa Brasil Quilombola, é responsável pelo conjunto de exercícios relacionados à proteção, preservação e promoção das culturas e religiões africanas. Segundo a assessoria de comunicação da entidade, “a proposta do departamento é assisti-los e acompanhar ações de regularização fundiária dos já certificados, propondo atividades que assegurem a sua assistência jurídica”.

Os habitantes ainda podem ser beneficiados com cestas-básicas, melhorias na saúde, educação, moradia, infraestrutura e saneamento. Entretanto, as lideranças da Associação de Moradores de Jaguara e Palmital, estariam desarticuladas e desinformadas, sendo assim, não encaminham solicitações com suas demandas para o DPA, ficando sem acesso a estes amparos sociais.

Quilombo Jaguara-Aléxia Pinheiro

Um dos moradores de Palmital. Ao fundo, a capela: catolicismo é a religião predominante no vilarejo. (Foto: Aléxia PInheiro)

Ainda assim, os quilombolas têm acesso ao programa Bolsa Família e à aposentadoria rural. Para complementar a renda familiar, a líder comunitária do Palmital, que preferiu não se identificar, conta que os moradores da comunidade buscam vender sua mão de obra apenas durante três meses por ano nas fazendas próximas. “A gente trabalha de ano em ano, nas colheitas de café e milho”, declara. Sobre a economia local, Jauará acredita que, por já se sentirem seguros com os programas governamentais, não se empenham para criar uma economia interna autossuficiente. “O governo reconhece a necessidade e a relevância da assistência familiar, mas nesse caso em particular, isso tem impactado no esforço da maioria, e tem feito um afrouxamento do laço de solidariedade e fraternidade que sempre uniu essas comunidades.”

O projeto socioeconômico desenvolvido pelo professor de Economia da UFSJ, Glauco dos Santos, tenta modificar esta situação e apresentar novas fontes de renda a estas comunidades quilombolas. A proposta principal é desenvolver a educação financeira, trabalhar a questão ambiental e desenvolver técnicas de economia. “Estamos tentando trabalhar com estratégias de desenvolvimento local, o que fazer para dar condições de progresso para estas populações vulneráveis, não só em termos de geração de emprego e renda, mas também consciência coletiva”, explica Santos.

Porém algumas destas iniciativas são mal interpretadas por alguns dos moradores, especialmente em Palmital. Dentre as reclamações, as principais se referem à demora em atingir resultados, o hiato entre os projetos e, aparentemente, a falta de continuidade de alguns deles.

Quilombo Jaguara- João Victor Militani

Jaguara: líder comunitário João Rosa (à direita) conta sobre a história do vilarejo. (Foto: J. V. V. B. Militani)

Questionado sobre esta declaração, Santos explica que a Extensão não pode atuar como uma medida assistencialista, pois cabe aos poderes públicos esta função. “A universidade dever prover as condições para que as comunidades, a partir delas mesmas, tenham uma trajetória de emancipação e desenvolvimento”, defende o professor. Já com relação ao tempo, ele admite a demora dos resultados: “Projeto de Extensão é algo que você não consegue mensurar resultados imediatos em termos de ensino e pesquisa.”

Entre estes entraves, está a baixa autoestima dos quilombolas que já se reflete na juventude.  “Elas brincam com pedra, não tem brinquedo e a única boneca que ficou foi a negra”, alude o professor Santos ao relembrar de quando distribuiu doações. Durante a reportagem, as crianças de Jaguara se entusiasmavam ao serem fotografadas. Já em Palmital, fugiam das lentes.

Porém a sensibilização das comunidades começa a surtir efeito de forma gradativa. “Tivemos um longo trabalho até mesmo para convencê-los de que eram descendentes de escravos”, conta Santos. E conclui: “Hoje eles têm mais orgulho e afirmam ‘somos um quilombo!’”.

História

Reproduzindo um antigo costume de se reunirem sob a sombra de um jatobá bicentenário, alguns moradores de Palmital, ao serem questionados, evitaram comentar suas origens.

Quilombo Palmital-João Victor Militani 2

Com relutância, moradores de Palmital se reúnem para contar suas histórias. (Foto: J. V. V. B. Militani)

“Quem era o contador de casos, era o meu pai que morreu. Tem o pessoal mais velho que sabe, mas não quiseram vir até aqui e não vão contar”, explica uma das quilombolas que ainda ressalta a amnésia cultural por parte dos mais jovens: “Nem eu, nem os outros não sabemos de nada”.

Embora um pouco mais abertos em relação ao seu passado, os habitantes de Jaguara repetem o mesmo comportamento. “A gente sabe um pouco, os velhos que sabiam mais”, destaca João Rosa. Quando questionado sobre o motivo da tradição oral não ter sido repassada ao longo das gerações, Rosa revela a “falta interesse” por grande parte dos descendentes mais novos.

Apesar da aparente apatia em relação à sua história, esta é frequentemente negociada em troca de benefícios. “A gente está cansado de falar do quilombo e não receber nada em troca”, alega uma moradora que não quis ter a identificação divulgada. Por consequência, foram raros os que se dispuseram a fornecer algumas informações. Rosa foi um dos poucos que aceitou divulgar parte do que sabia, contando que “Jaguara tem esse nome em homenagem à cachorrinha das irmãs que doaram a terra para os escravos”.

Quilombo Jaguara- Aléxia Pinheiro

Jaguara: “os mais jovens desconhecem suas origens” (Foto: Aléxia Pinheiro)

Oficialmente, a história possui variações. Conforme registros do Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (IPHAN), no século XIX surge a fazenda Jaguara na cidade de Nazareno, conhecida anteriormente como Arraial Ribeiro Fundo. Com o falecimento do proprietário da fazenda, as terras ficaram para sua esposa e, posteriormente, metade da fazenda ficou para sua filha Mariana Isabel Cândida da Conceição. A outra foi arrendada ao capitão Antônio Leite Ribeiro, proprietário da fazenda Palmital. Treze anos antes da abolição da escravatura, Mariana concedeu aos seus escravos a liberdade e lhes deu o direito de usufruir da sua propriedade.  Os arquivos referentes à Palmital são escassos.

Infraestrutura

Apesar de culturalmente semelhantes, as duas comunidades são estruturalmente distintas.

Jaguara é marcada por características urbanas, apresenta asfaltamento, quadras esportivas, praças de convivência e pontos comerciais. Enquanto Palmital é predominantemente rural, com ruas de terra e casas esparças.  “Aqui precisa é de tudo, principalmente, calçamento. Eu queria que tivesse uma pracinha e uma quadra para os meninos jogarem bola”, confidencia uma das moradoras, que quis ter seu nome preservado.

Ambos quilombos ficam no município de Nazareno. Frente a estas diferenças, um dos vereadores da cidade, Jovino César Romão, analisa as possíveis causas destes contrastes. Segundo ele, Jaguara é privilegiada por estar próxima da rodovia, ter casas aglomeradas e ser vizinha de outro povoado. Enquanto Palmital é afastada geograficamente e possui o agravante de ser dividida entre os municípios de Nazareno e Conceição da Barra. Sobre este impasse, uma moradora desabafa. “Nós nascemos em Nazareno, batizamos em Nazareno, enterramos em Nazareno, o registro de Palmital está todo lá. Como nós somos de Conceição da Barra?”.

Ao saber das reclamações da comunidade, o vereador se posiciona sobre este problema. “A divisão gera um pouco de dificuldades para os investimentos serem feitos naquela localidade. Para que as melhorias aconteçam naquele povoado, precisa haver um consórcio entre as duas prefeituras”.

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Gangnam Style, Latino e a Educação Brasileira

O mais novo hit da música mundial veio lá do outro lado do mundo, com língua quase impossível de se pronunciar e entender e é cantado por um rapper gordinho em um clipe aparentemente sem noção. Em contrapartida, aqui no Brasil, esta mesma canção foi copiada e deturpada pelo cantor pop/funkeiro Latino.

Na canção original, chamada Gangnam Style (estilo Gangnam), cantada pelo rapper Psy, busca-se “uma mulher elegante que saiba apreciar um convite para um café”, “uma mulher que é sexy, mesmo sem se mostrar muito” e que se interesse por “um cara que tem mais idéias do que músculos”.

A versão “latina”, porém, segue por outro viés. Aproveitando apenas do ritmo, o cantor brasileiro transformou Gangnam Style em Despedida de Solteiro. E os versos – com o perdão da palavra – na mais pura putaria. Deixa-se de lado a mulher ideal para poder aproveitar uma despedida de solteiro, “laçar, puxar, beijar”, ver “as minas todas nuas”, “de bumbum pra lua”.

Comparação das Letras (clique para ampliar)

Mas de onde mesmo é esse tal de Psy? Ah, é verdade, ele é da Coréia do Sul. É só um minúsculo país lá do outro lado do Pacífico, que tem uma irmã siamesa problemática. É só um país que já foi invadido pelos japoneses e ocupado por quatro anos. É só um país que foi espremido entre EUA e URSS, foi dividido em dois e reduzido a quase nada durante a Guerra da Coréia, na década de 1950. Mas é também o país que mais investiu em educação nos últimos 50 anos e que, devido a isso, deixou no passado toda a destruição que sofreu e é hoje uma potência tecnológica, com um dos mais altos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do mundo. Em 2006, no ranking do Programa Internacional de Avaliação dos Alunos, os sul-coreanos ficaram em primeiro lugar na resolução de problemas, terceiro lugar em matemática e décimo primeiro em ciência. O sistema educativo está tecnologicamente avançado e foi o primeiro país do mundo a equipar todas as suas escolas primárias e secundárias com Internet de banda larga. Com esta infraestrutura, a Coréia do Sul tem desenvolvido os primeiros livros didáticos digitais no mundo, que serão distribuídas de forma gratuita aos estudantes do ensino primário e secundário até 2013.

Opa, mas calma lá. Toda essa tempestade por causa de uma música? Não seria demasiado exagero? Não, não seria.

Psy e Latino têm um mesmo nicho de público – os jovens e os adolescentes. Ambos fazem músicas divertidas e agitadas, com coreografias animadas, que servem para embalar qualquer festa. Entretanto, enquanto o sul-coreano conversa com um público consciente e – porque não? – honrado, Latino precisa falar sobre a “realidade” brasileira, ou seja, “vou ser um vagabundo que anda pelas ruas em busca de sexo fácil e faço das mulheres o que eu bem entendo”… mais ou menos por aí

E tudo isso é reflexo da educação e do desenvolvimento cultural e social do público. Enquanto os coreanos aceitam com facilidade um rapper com responsabilidade social, os brasileiros insistem no funk da sacanagem. Uma sociedade bem educada presa por valores que vão além do “puxar, beijar, vou te pegar… eu quero sexo pra galopar”. Um jovem bem educado valoriza a si mesmo e sabe valorizar os demais à sua volta, sem tratar como objeto aqueles que o rodeiam, sem se prestar à orgia como um modo natural de diversão.

Outro fator importante é o comércio cultural. Com cultura desenvolvida e povo educado, não é necessário roubar um ritmo estrangeiro para se fazer sucesso. Quem sabe cria, não copia! Não pega carona no sucesso de outros para fazer sucesso também. Não plagia! E nesse comércio, o balanço brasileiro é sempre negativo, pois foram raros os momentos da História em que exportamos nossa cultura e nossa criatividade, enquanto a importação da cultura estrangeira nunca cessou em nosso país. Quantas paupérrimas  versões de músicas estrangeiras a Jovem Guarda não fez? E o sertanejo romântico, o pop, ou mesmo o rock? Até a MPB tem canções importadas. E o que da nossa cultura é empurrado para o mundo? A Bossa Nova, que nem sequer existe mais? Não, exportamos o “ai, se eu te pego”.

Recentemente, Cristovam Buarque, o político que mais luta pela educação deste país, disse que “o Brasil vive um apagão intelectual”, referindo-se ao resultado do Ideb deste ano, que não chegou aos 4 pontos entre as escolas públicas e não passou dos 6 entre as particulares. Ainda nas palavras dele, nós “avançamos ficando para trás. Coreia do Sul, Índia, China e Irlanda, que há trinta anos atrás estavam em situação pior que o Brasil, hoje estão melhor, pois fizeram o dever de casa.”

Se nossos músicos precisam importar canções estrangeiras para fazer sucesso por aqui, isso nada mais é que um reflexo do restante do país, cuja economia é baseada na reprodução de produtos criados lá fora, desenvolvidos por marcas estrangeiras.

E o nosso dever de casa, quando é que será feito?

O Contexto Social de Gangnam Style

O contexto de Gangnam Style, a história por detrás do clipe e o que diz os versos originais vão muito além de um ritmo divertido e uma sequência de imagens aparentemente aleatórias e coloridas. Gangnam  é um dos bairros mais ricos de Seul, a capital da Coréia do Sul. Porém, para um país baseado em valores de trabalho duro e honra, o bairro, devido à sua história rápida de formação e desenvolvido (pouco mais de 20 anos), é marginalizado pelo restante da cidade. Ali seus moradores enriqueceram da noite para o dia, mas não por seguir os valores tradicionais sul-coreanos de trabalho e sacrifício, mas sim devido à especulação imobiliária, que tornou a região extremamente valorizada, cuja média de preço de um apartamento é de US$ 716 mil e com escolas cerca de quatro vezes mais caras que no restante do país. Parece estranho para nós brasileiros, mas sim, são ricos excluídos do restante da sociedade.

De uma maneira divertida, Psy trabalha com essas questões culturais em seu clipe, que para nós passam totalmente despercebidas e parece que tudo é uma sequência de imagens sem nexo. O rapper, que vem de uma família rica da região de Gangnam, foge do pré-conceito existente sobre os moradores deste distrito. O personagem do videoclipe não frequenta as caras boates locais, nem as academias abarrotas de coreanas esculturais. Tampouco tem o corpo modelado por cirurgiões plásticos. Pelo contrário, ele dança em um ônibus lotado, cheio de velhinhos aposentados; faz seu discurso sentado em um vaso sanitário; é gordinho e nada bonito; frequenta saunas com gangsteres e lugares cheios de lixo. É um riquinho hipócrita querendo parecer pobre? Talvez. Mas mais que isso, é uma paródia – extremamente divertida – de si mesmo. Talvez nada muito digno de admiração, no entanto há ainda a letra da música a ser considerada. Na canção, busca-se a mulher ideal, que queira viver ao lado de “um cara que tem mais ideias do que músculos”. E só por isso já merecia um bocado de respeito.

Atualização de Última Hora

Qual não foi minha surpresa, enquanto pesquisava para escrever este post, descobrir que a canção Despedida de Solteiro de Latino, está sendo boicotada pelo público!

Uma campanha pela internet convoca os internautas a dar o maior número de deslikes (negativações) na música postada no canal oficial do cantor no YouTube. Até o momento já foram mais de 120 mil deslikes. Estou dando risada! Hahaha

Quem quiser aderir à campanha, basta clicar aqui e dar um voto negativo ao vídeo.

Com informações do G1, Terra, O Globo e Wikipédia.

Atualização 2

Acho que isso encerra o assunto! hahaha

A Dança do Quadrado e a Sociedade Pós Moderna

Mais um artigo enviado pelo caríssimo amigo Lucas Magalhães, o Magá.
Dessa vez ele discorre sobre o paradoxo do individualismo cultural,
ou a multicultura individual. Fala também da falta de valores 
comuns da atual sociedade, afinal “o poder de decidir
nunca esteve tão nas mãos de cada um de nós.”
Só para lembrar, o Magá agora tem um blog próprio, o
Vilarejo de Macondo.

O que é a verdade? O que é o bem? E o mal? É perturbador reconhecer que não temos respostas prontas para essas questões, no entanto é compreensível não tê-las. São reflexos de um tempo que pensadores como Frederich Nieztche, Martin Heidegger e Jean Paul Sartre batizaram de sociedade pós-moderna.

Entre outras características da época em que vivemos, está  a falta de exemplos, de líderes ideológicos. Hoje cada um pode ter sua própria ideologia, ou seguir muitas ideologias  e ser respeitado por isso. É o tempo das minorias. Por que a sociedade está fragmentada e por vezes sem rumo. Não cabe para os parâmetros de hoje valores absolutos, definições completas e certeiras do que seja a verdade, ou o bem, ou o mal. Não há pureza para esses conceitos. O homem, hoje, é o parâmetro si mesmo.

Líderes como Che Guevara, Karl Mark, Martin Luther King, Carlos Prestes, Renato Russo, Cazuza, Paulo Freire ficaram no que sobrou da modernidade. Atualmente no mesmo iPod, mp4 ou mp3 players convivem tranquilamente Bob Dylan e grupo Soweto. É tranqüilo de se admitir, atualmente, que um cidadão admire o Dalai Lama, comungue na missa de domingo e leia Deepak Choopra.

Não há caminho seguro, na pós-modernidade, o desafio é fazê-lo. Não há ninguém para dizer o que seja certo e errado. Como já profetizava Raul Seixas, “ói, olhe o mal, vem de braços e abraços com o bem num romance astral”. Os conceitos se fundem. E surge o que mais pode amedrontar um ser humano na pós-modernidade: o poder de decidir nunca esteve tão na mão de cada um de nós. Decidimos o que é o bem, decidimos o que é o mal. Estamos entregues à nossa própria responsabilidade e isso, é de fato, algo com que o homem nunca esteve acostumado a lidar. É a cultura do depende. Depende como fazemos, como entendemos, como vivemos cada uma das situações de nossas vidas que nos exigem tomar posições.  

Assim, as pessoas têm visto menos pontos em comum uns com os outros, têm se identificado menos com grupos, as tribos têm se esvaziado. Por que a cobrança de andar nesta ou naquela companhia deixou de ser uma condição para ser aceito. É admissível que uma mesma pessoa freqüente shows de rock, ande de terno, faça musculação e freqüente micaretas. Ninguém é de ninguém, são todos de todos e ao mesmo tempo, de ninguém. Assim, os relacionamentos cada vez mais superficiais, e ai de quem discorde que isso seja aceitável. Daí uma completa desorientação e descomprometimento de uma geração que não tem a menor idéia para onde vai. E que não obstante se fecha em guetos cada vez mais reduzidos.

Em outra palavras é a sociedade do ‘cada um no seu quadrado’ … e olhe lá quem ousar achar ruim do meu quadrado meio diferente!…

Lucas Magalhães é estudante de Jornalismo e estagiário no Diário Correio do Sul