Dois Coelhos e Muitas Cajadadas

Sim, 2 Coelhos (Brasil, 2012) é extremamente influenciado pelos blockbusters americanos, cheio de explosões e efeitos visuais. Sim, o filme também tem o tradicional e calamitoso romance hollywoodiano. Sim, também é cheio de referências à cultura pop e, por muitas vezes, se vale totalmente dela. No entanto cenário e roteiro são extremamente brasileiros. E isso é o que conta! Só é uma pena que, mesmo assim, não seja um ótimo filme.

Dirigido pelo estreante Afonso Poyart (que também escreveu e montou o longa), 2 Coelhos é uma colcha de retalhos, um quebra-cabeças que vai aos poucos tomando forma, numa narração não-linear do amalucado plano de redenção e vingança de Edgar (Fernando Alves Pinto), o protagonista. Amalucado, pois de real não tem nada – o que não é defeito, afinal isso é cinema e não a janela da sua casa.

A lógica desta suposta redenção não fica muito clara, mas tudo é desculpa para muita ação, tiroteio e explosões! Apesar de apelar para o intercâmbio com o cinema americano, o que se vê em cena é bandidagem das ruas e corrupção do governo – um pano de fundo tipicamente brasileiro – e um protagonista pronto a colocar fim em ambos os males (não que a idéia seja realmente exterminá-los de todo, mas, pelo menos, ter seu momento de júbilo sobre eles).

Tecnicamente, o filme não deixa nada a desejar. A direção de fotografia feita por Carlos Zalasik é impecável, cheia de contraste muito bem feitos entre tenção e descontração e alguns planos de câmera bem inusitados. Os efeitos, à cargo de Sérgio Farjalla (que já fez Mercenários e Crepúsculo) são o carro chefe do longa. E até a trilha sonora (que conta com “Sou Foda”) também é bastante instigante.

O que se vê, portanto, é um filme de ação genuinamente brasileiro, algo realmente inédito em terras tupiniquins, com mote e humor (e que humor!) tipicamente nossos. No entanto Poyart parece subestimar o espectador e brinca demais com seu filme. E isso acaba por estragar parte da diversão.

A edição não-linear ajuda a criar um clima de expectativas e até mesmo certo suspense, mas colabora para deixar o roteiro confuso e, por muitas vezes, esconder fatos importantes – como se esconder as peças de um quebra-cabeça tornasse a brincadeira mais divertida para a criança que o monta.

Outro fator negativo é a apresentação caricata de certos personagens, principalmente o deputado, que ali representa toda a corrupção do país. É difícil acreditar na cena em que o congressista, cujo único trabalho é assinar papéis e ganhar dinheiro fácil, se submeta à participar de um tiroteio e uma perseguição em alta velocidade pelas ruas de São Paulo.

A constante narração em off também empobrece bastante a história, fazendo com que todo o roteiro se prenda a ela e deixe de valer por si só.

Para um orçamento de 4 milhões de reais, pode-se dizer que Poyart fez milagre, afinal esse montante é menos da metade dos gastos de Tikhomiroff com seu desastroso Besouro, de 2009. Mesmo assim, ainda falta um quê em 2 Coelhos, algo de redondo.

Eis aí o grande defeito do cinema brasileiro: quando se trata de um filme simples e orçamento baixo, as histórias são sempre singelas, tocantes e geniais; mas se a intenção é complicar e, assim, engrandecer, o cineasta sempre mete os pés pelas mãos e se perde em sua proposta. Uma única cajadada não foi suficiente para matar estes dois coelhos.

Perde-se um Herói

BesouroCovilOs chineses são exímios cineastas quando os temas de seus longas são suas artes-marciais. Diferentes dos filmes de pancadaria hollywoodianos (os Van Daimes da vida), longas como O Tigre e o Dragão ou O Clã das Adagas Voadoras se bastam apenas por suas sequências de luta, tornando essa arte milenar algo belo de se ver, misturando-as à trama e ao drama dos personagens. Os roteiros podem até ser um pouco confusos, mas suas lutas contam uma história própria. Sem contar o design e a fotografia, que compõem quadros belíssimos em seu decorrer.

Ora, se o kung-fu dos chineses – considerado uma arte milenar – e as belezas naturais da China podem ser tema e cenários perfeitos para se contar belas histórias, porque a nossa capoeira (também muito antiga) e os paradisíacos cenários brasileiros não podem também servir de enredo para um clássico filme de ação, aventura e artes-marciais?

Pois bem, eles servem! Mas é preciso muito cacife e talento para saber usá-los! Qualidades, aliás, que João Daniel Tikhomiroff não teve em seu primeiro longa-metragem, Besouro (Brasil, 2009), que estreou no dia 30 de outubro em mais de 130 salas em todo o país.

Tikhomiroff

O Diretor João Daniel Tikhomiroff

Tikhomiroff é um dos publicitários mais premiados do mundo, com mais de 50 Leões de Ouro no Festival de Publicidade de Cannes. Para rodar Besouro, ele investiu pesado (mais de 10 milhões de reais que conseguiu de orçamento) em detalhes técnicos, fotografia e nas sequências de ação do filme. Sua intenção não era apenas contar a história real de um capoeirista baiano, mas também transformar a capoeira em um espetáculo cinematográfico, tal qual o kung-fu dos chineses ou o karatê dos japoneses, além de alavancar a presença do fantástico e do sobrenatural no cinema brasileiro. Não conseguiu, infelizmente.

Besouro, o personagem título do longa, é um capoeirista do sertão baiano que viveu no início do século XX. Era o melhor discípulo de seu mestre, porém um tremendo de um irresponsável. Escolhido como guarda-costas de seu mestre – jurado de morte devido aos seus ideais sociais – deixa-o sozinho para se divertir nas rodas de capoeira com os amigos. Resultado: seu mestre morre e Besouro, sentindo-se culpado, foge para o mato. A partir daí começa-se a labuta do filme para transformar Besouro em um herói – ato praticamente impossível devido ao roteiro aberto, sem clímax ou sequer um eixo central. Em momento algum o protagonista consegue convencer o espectador de que sua luta e seu caráter são dignos de admiração. Pelo contrário, é mais fácil ser seduzido pelos antagonistas. Besouro não cativa e ainda rouba a namorada do melhor amigo – ato falho de exclusividade do diretor, pois a personagem Dinorá, envolvida no triângulo amoroso, não existia na história real, foi criada para ser um clichê, pois, de acordo com o diretor, todo o herói deve possuir um grande amor.

Existem os lados ruins e bons dentro do longa de Tikhomiroff, entretanto, se colocados na balança, os contras pesam mais que os prós. Foi extremamente profissional e competente de sua parte ao contratar o chinês Huen Chiu Ku para coreografar as lutas (o mesmo responsável pelos combates nos filmes Kill Bill e O Tigre e o Dragão) e também fez uma grande façanha ao investir em fotografia e efeitos visuais e especiais, extremamente bons para os padrões brasileiros. Porém pecou por demais no roteiro, deixando a história confusa e sem sal: não existe (ou pelo menos não se consegue perceber) drama, humor, paixão…

BesouroExúOutras falhas gravíssimas foram a ambientação e o elenco. Nenhum dos protagonistas é ator, devido à isso as interpretações são todas amadorísticas. Cada personagem parece apenas estar recitando seu texto. E o tempo da história, passada na década de 1920, é outro problema que não se consegue resolver. A pronúncia dos atores, as palavras que eles usam, o jeito de falar, nada disso é capaz de convencer que se trata de um ambiente de época. As vezes nem mesmo a cenografia é capaz de persuadir quem assiste.

Besouro, concluindo, era uma grande promessa, mas acabou por ficar apenas nisso. É triste ver uma iniciativa tão original e inédita no cinema nacional terminar dessa maneira entediante. Porém que Besouro sirva como precedente para outras grandes produções nesse estilo e que a coragem de Tikhomiroff sirva como exemplo a outros cineastas, mostrando que o cinema brasileiro não precisa mostrar apenas a realidade da pobreza, as favelas, o crime e a corrupção, mas que também pode mostrar a fantasia que habita esse país, rico em lendas e mitologia! Perdemos um herói… mas ganharemos outros!

O Rei da Pilantragem

SimonalWilson Sideral, aquele compositor mineiro? Não, não, é Simonal! Wilson Si-mo-nal!

Pois é, é bem diferente, né? Eu também nunca tinha ouvido falar dele. Pelo menos até ontem. E o que houve ontem? Fui convidado a assistir uma sessão especial de pré-lançamento do filme “Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei” (Brasil, 2009), um documentário da Globo Filmes, dirigido por Micael Langer, Calvito Leal e o casseta Cláudio Manoel, e que estréia nesta sexta-feira, 15, nos cinemas de todo país.

Mesmo ali, na sala de cinema, antes do filme começar, não esperava muita coisa. Pensei que seria algo razoável e que Simonal seria apenas mais um artista que ficou perdido no tempo. No entanto minha surpresa diante do que vi só não foi maior que o talento do cantor!

Para aqueles que não o conhecem, e, muito provavelmente, qualquer um que tenha nascido após a década de 1970 realmente não o conhece, o Simona, como era chamado por alguns amigos, foi o rei dos palcos nos anos 1960 e 70. Ninguém era páreo para ele. E mesmo a Jovem Guarda, liderada por Roberto Carlos, ou a Tropicalha, de Caetano e Gil, foram suplantadas pela “Pilantragem” de Simonal.

Negro e de origem pobre, o cantor conhecia bem a discriminação da época. No entanto sua voz e seu carisma o tiraram da carreira militar, o levaram para os palcos das casas noturnas do Rio e, no auge do sucesso, para a tela da TV, onde teve seu próprio programa, o Show em Si …monal, na TV Record.

Porém tudo acabou repentinamente. Devido a um incidente com a polícia, um caso que nunca foi esclarecido, Simonal passou a ser acusado de informante do DOPS, o departamento do Governo Militar cujo o objetivo era reprimir quaisquer movimentos contrários ao Regime. Desde então Wilson Simonal passou a ser visto com outros olhos e falar em seu caso virou tabu entre os colegas do meio artístico. Até que foi totalmente esquecido, mesmo após o fim da Ditadura Militar. Ainda tentou voltar em meados da década de 1990, porém a lamentosa falta de memória do povo brasileiro já o havia olvidado completamente e Simonal morreu esquecido em 2000.

E é exatamente toda essa história que o documentário tenta resgatar, reconstruindo a carreira de Simonal desde o início e tentando anistiá-lo da acusação de direitista delator.

Simonal01 copyPara tal o filme conta com depoimentos de seus dois filhos, os músicos Wilson Simoninha e Max de Castro, e de ilustres amigos, como Chico Anysio, Castrinho, Pelé, Tony Tornado, entre outros. Além de pesquisadores e até mesmo inimigos de Simonal. Mas principalmente por imagens do próprio cantor, cedidas por emissoras de TV, as quais contam sozinha a história de Wilson Simonal e toda a grandiosidade de seu talento.

Simonal copyPara quem não esperava nada de um documentário brasileiro, eu saí do cinema emocionado e indignado. Emocionado com a voz incomparável e a capacidade ímpar de reger um coro de 30 mil vozes (ou 40, ou 50…). E indignado ao descobrir como um boato pode ser cruel a ponto de destruir um reinado inteiro.

Muito bem feito, “Ninguém Sabe o Duro que Dei” é um filme que merece ser visto por todo o povo brasileiro, pois contém em si um resgate não só de uma vida injustamente esquecida, mas de uma época em que a repressão calou todo um país, menos a voz de Wilson Simonal, o Rei da Pilantragem!

 

Para quem quiser saber mais sobre o filme, saber as salas de exibição ou mesmo assistir aos trailers, acesse os sites: www.moviemobz.com/simonal ou www.simonal.com