Imortais – Muita Cor e Pouca História

Existem duas maneiras de se assistir Imortais (Immortals, EUA, 2011), o novo longa mitológico dirigido pelo indiano Tarsem Singh (A Cela, 2000): 1) levando em consideração tudo o que você sabe sobre mitologia e odiando o filme; ou 2) chutando pra longe os mitos históricos e se divertindo (não mais que isso) com as cenas de ação. Pois sim, o filme se baseia apenas em seqüências de ação, violência e sangue. O resto são imagens bonitas e roteiro vazio.

A narrativa conta a história do herói Teseu (Henry Cavill), um jovem bastardo, filho de estupro, mas que é treinado na arte da guerra pelo próprio Zeus (que lhe aparece sob o disfarce de um ancião). Do outro lado está o rei Hyperion, um tirano que quer libertar os titãs para, assim, destronar os deuses e poder dominar toda a Grécia. Ajudado pelo Oráculo Virgem (Freida Pinto), Teseu tem de liderar seu povo para a grande batalha que salvará o mundo da destruição, mesmo que os deuses não estejam dispostos a ajudar.

No entanto da mitologia grega o filme só aproveita os nomes dos personagens, pois de resto, tudo é invencionice e tolice. A começar por Teseu, que nos velhos mitos é um príncipe e aqui um bastardo excluído pela sociedade em que vivia. Hyperion, que originalmente era um dos titãs, aqui torna-se um rei humano, em busca de vingança contra os deuses. Nem mesmo os temíveis titãs, que tanto trabalho deram a Zeus e sua trupe, são lá grande coisa neste filme: soldadinhos de pedra com expressões de loucos varridos e mestres do kung-fu. Mas o pior de tudo é a colocação dos divinos olimpianos: ouvir da boca de Zeus que nenhum deus deve interferir no destino dos homens, para que assim os humanos possam ter fé em si próprios… isso foi demais. Logo Zeus, um dos deuses que mais interferiu na história da humanidade, capaz de fazer vários filhos bastardos com mulheres humanas, seduzindo-as ou estuprando-as.

Singh até tenta fazer referências e buscar raízes nas lendas gregas quando, em dado momento, coloca seu protagonista para enfrentar o Minotauro dentro de um labirinto, assim como é contado na mitologia. Mas seu monstro, metade homem, metade touro, não passa de um arremedo daquilo que deveria ser, e seu labirinto é apenas uma tumba de corredores apertados, cuja entrada e saída o Teseu de Henry Cavill já conhecia muito bem.

Mas o filme de Singh peca não só por desvirtuar o mito grego, como também pelas rasas justificativas que cada personagem usa para dar motivos de ser ao roteiro.

O rei Hyperion, por exemplo, busca vingança e é capaz de mover céus e terras apenas porque os deuses não lhe atenderam em suas orações. E os diálogos são fraquíssimos (“O sêmen é a maior arma do ser humano”, diz o rei a um de seus vassalos), com falas que beiram o burlesco e discursos cheios de clichês.

No entanto o longa ganha pontos com os figurinos carnavalescos e os belos cenários feitos em computação gráfica. Dignos de estarem na Sapucaí ou num mangá de Cavaleiros do Zodíaco, as armaduras dos deuses do Olimpo dão um quê de original à toda a trama, mesmo com seu espalhafato. Ares com seu moicano de espadas ou Poseidon com suas conchas douradas na cabeça são de uma beleza abrangente quando em contraste com os também espalhafatoso figurinos do exército de Hyperion. E ver os deuses na flor da juventude é também de uma criatividade ímpar – afinal, se são imortais, porque representá-los como velhos barbudos e enrugados?

A arquitetura moderna e simples, completamente diferente das construções da Acrópole de Atenas, num primeiro momento também incomoda, mas parece se encaixar tão bem no filme, que logo se acredita tratar-se realmente de velhas construções gregas.

Feito nos mesmos moldes de 300 (2006), com cenários virtuais, cores vivas e corpos esculturais à mostra, Imortais tenta reproduzir o sucesso de seu antecessor, mas para isso baseia-se apenas na beleza plástica, deixando de lado toda a profundidade que o mito grego poderia realmente lhe proporcionar. Se se mantivesse fiel ao mito de Teseu, Tarsem Singh talvez tivesse muito mais a apresentar – Kurumada que o diga! Mas neste filme, Mitologia (ou um mínimo de historieta) não passa de mero pano de fundo para os belos efeitos visuais.

10 respostas em “Imortais – Muita Cor e Pouca História

  1. Péssimo. Queimei 11 reais com essa porcaria. Como eu sou chato e crítico de natureza, tudo no filme estava ruim para mim. Não é necessário nem comentar sobre o estupro do mito grego. Fora isso, sempre presto muita atenção na fotografia e figurino. Fotografia, hum…uma sacada boa de câmera ali mas uma cópia dos takes de 300 dali. Figurino e cenário: queima eles, Zeus. Eu juro que achava que o cenário de Chaves iria aparecer na tela a qualquer momento ou que alguém iria quebrar uma cadeira na cabeça de alguém e revelar que a mesma era feita de isopor. As roupas, gzuiz (com todo respeito!), Clodovil deu um pulo no Além quando viu aquilo. Deveria ter assistido Cavalo de Guerra. Enfim, filme de Sessão da Tarde.

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    • Eu gostei muito do figurino dos deuses e do exército do Hyperion. Claro que o material usado é artificial demais, parecem mesmo ser feitas de espuma. Mas são bonitas e bem diferentes. Foge daquele padrão de toga branca e coroinha de louros.

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  2. Não adianta cara, eu vou assistir esse filme igual vou assistir a sequência de Fúria de Titãs. Não posso fazer nada se esses trailers me enganam! Mas a julgar pela sua crítica, até que Imortais não vai ser uma experiência de todo ruim!

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  3. Bom… ainda vou escrever sobre essa porcaria. Odeio sangue gratuito, abuso de green screen e roteiro que não se justifica, cheio de clichê. Mas, para além das questões de achismo pessoal, algumas coisas são REALMENTE e IRRITANTEMENTE ruins neste filme.
    Três estrelas, pelos efeitos especiais e pela ousadia – ainda que seja uma ousadia negativa.

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  4. eu acho que filmes que falam de mitologia sempre vão deixar alguém insatisfeito! Afinal nenhuma mitologia sequer tem um desfecho. Elas se confundem entre si, os personagens sempre são conhecidos por no mínimo três ou quatro nomes… Portanto profundeza no roteiro é uma coisa que ninguém se habilita a fazer pois isso sequer existe. A unica lenda profunda e consistente até hoje é a de Jesus Cristo!

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    • Como assim não tem um desfecho?
      As lendas mitológicas são muito bem compostas, profundas, ricas, tanto em histórias quanto em personagens.
      É verdade que possuem várias versões e que detalhes mudam de região para região – muitas vezes de cidade para cidade. Uma coisa é seguir uma vertente… outra completamente diferente é modificar o mito ao seu bel prazer e desinformar o público com uma história rasa e deturpada – que é o caso deste filme e de outro recente: “Fúria de Titãs”.

      Não considero a história de Cristo uma lenda, pois eu próprio sou cristão, mas não é nisso que também discordo de você. Você diz que a história mitológica não é consistente e que a de Cristo sim. Mas a própria história de Cristo é tão cheia de versões quanto a de Perseu, por exemplo. São diversos Evangelhos, cada qual contando uma história diferente, um Cristo diferente, muitas vezes chamado por um nome diferente.

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  5. independente se o roteiro foi fraco ou não eu gostei do filme claro fugiu um pouco da historia mas me digam se for olhar so pelo lado da critica nao vamos asistir filme nenhum porque sempre iremos achar um erro ou uma falha … meu ponto de vista menhum filme e perfeito nem nos mesmo , o filme conseguiu me prender do começo ao fim gostei

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