Nem Medo, Nem Mistério

Plum IslandOdeio aqueles best-sellers momentâneos que, do nada, aparecem nas listas dos mais vendidos, para desaparecer na semana seguinte. Uma prova de como são superficiais: são os mais fáceis de se encontrar nos sebos. As pessoas os lêem e nem pensam em reler, passando-os adiante o quanto antes. Mesmo assim eu acabo por ler um ou outro que cai na minha mão. São ótimos passa-tempos, quando não se tem algum clássico por perto.

E foi um desses best-sellers que li rapidamente no final de semana: “Ilha do Medo”, do norte-americano Nelson DeMille, presente em um daqueles volumes condensados das Seleções de Livros do Reader’s Digest que caiu em minha mão num momento de tédio.

A começar pelo título do livro, este perdeu totalmente o sentido após a tradução, pois em momento algum DeMille nos conta uma história de terror. O que acontece na região de Long Island, na costa oeste dos EUA, é apenas um mistério policial, envolvendo dois assassinatos e um caso de segurança nacional. Algo como “O Mistério da Ilha de Plum” faria muito mais jus ao tema do thriller e ao título original: “Plum Island”.

Mas deixemos o título de lado e passemos à história.

John Corey é um detetive de Nova York que, ferido em serviço, tira licença e passa alguns meses de repouso numa casa de campo em Long Island. Ali, Corey passa os dias observando o mar e tomando suas Budweisers tranquilamente, até que é convidado a ajudar em um caso de duplo homicídio que acontece bem perto de onde ele estava morando. As vítimas, o casal Tom e Judy Gordon, eram cientistas do complexo da Ilha de Plum, onde trabalhavam para o governo em possíveis vacinas contra os mais devastadores vírus. Devido a isso, John logo se vê envolvido numa possível tramóia terrorista que pode disseminar a peste pelos EUA e pelo o mundo. Movido pelo instinto e por certo sentimento de vingança, afinal Corey era amigo das vítimas, o detetive, mesmo após ter sido dispensado pela polícia local, segue em suas investigações, se envolvendo cada vez mais com as pessoas e a história daquele lugar.

Ilha do Medo pode até ter um (ou dois, como se descobre mais adiante) tema interessante e DeMille pode conhecer bastante sobre a burocracia que envolve o departamento de homicídios, o FBI e a CIA, porém a história tem defeitos gravíssimos, da narração às descrições, passando pelo personagem principal.

O livro é narrado em primeira pessoa pelo próprio detetive John Corey, que se mostra sarcástico e irônico em todo o desenrolar da trama. Porém seu modo de agir e conversar o torna arrogante e prepotente, causando certa antipatia ao leitor. Até mesmo suas piadinhas passam despercebidas e se tornam sem graça, tamanha é sua arrogância. E, com certeza, o tipo de narração é o pior defeito do livro.

DeMille & Plum

DeMille e a Ilha de Plum

Por ser o próprio Corey quem narra sua história, o leitor vai descobrindo os fatos juntamente com o personagem. E se nem mesmo Corey consegue se lembrar do que lhe chamou a atenção durante uma conversa, dizendo apenas “pim, algo acionou meu sonar”, e escondendo todo o diálogo, resta ao leitor apenas esperar que o personagem descubra o mistério sozinho, tirando-nos aquela deliciosa sensação de estarmos envolvidos na trama, tentando solucionar o caso antes do fim.

Aliás, outra coisa que esses best-sellers momentâneos não conseguem fazer é manter o suspense até o fim. Parece que precisam de um pouco de ação antes de tudo acabar, como se um romance fosse um filme. Diferente de Agatha Christie – que mantinha o mistério até o último capítulo, deixando o leitor pasmado ao descobrir que estava tudo muito bem exposto, só não viu porque não quis – esses recentes romances de sucesso já se entregam logo no meio da história, deixando a segunda metade do livro apenas para correria da captura do antagonista. É o caso de Dan Brown, o atual rei dos thrillers e também do presente livro de DeMille.

Aproveitando a deixa da comparação, também é bom lembrar que Ilha do Medo tem outro grande defeito, também muito cometido por Brown: encheção de lingüiça! Com o passar das páginas, descobre-se que mais de um terço da história de Nelson DeMille é totalmente irrelevante e que diálogos inteiros e até mesmo personagens poderiam ter sido simplesmente deixados de lado na hora de organizar e montar o texto. E veja bem que a versão lida foi condensada.

A que conclusão pode-se chegar, se não dizer que o capitalismo também tomou conta da arte literária? Agora, até a literatura é descartável. Um minuto de silêncio, por favor. 

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