“Fortaleza Digital” não fede nem cheira!

Uma vez um amigo me disse que lendo um Dan Brown, se lê todos! E, de certa forma, até que ele estava certo. Independente da temática, as histórias contadas pelo senhro Brown são sempre iguais: um vilão X querendo modificar algo de alguma maneira catastrófica que mudaria a história do mundo; um mocinho que nada tem a ver com aquilo, mas que, por ser especialista em determinado assunto, é convocado às pressas para ser o grande herói; e claro, uma mocinha que nunca tem nada de indefesa, é sempre muito inteligente e acaba por se envolver com o mocinho de uma maneira mais emocional (nesses últimos dois papeis, os gêneros podem se inverter). Resumindo, é isso aí.

Vejam o exemplo de “Anjos e Demônios”, seu segundo livro, no qual o professor norte-americano Robert Langdon, especializado em simbologia e história da arte, é convocado às pressas para salvar o Vaticano da destruição total; ali conhece Vittoria Vetra, uma cientista de pulso forte e determinada a ajudar, mesmo sabendo que o Vaticano é contra tudo o que ela estava pesquisando; e o fim surpreendente (e mirabolante) onde o vilão se mostra ser o mais improvável dentre os personagens.

Ou mesmo o exemplo do seu mais famoso romance, “O Código Da Vinci”, no qual o mesmo Robert Langdon cai de pára-quedas no meio de uma conspiração que pode ruir com os dois mil anos de histórida da Igreja Católica, uma espécie de “Indiana Jonnes e a Última Cruzada” que, porém, se envereda por caminhos menos sacros. Dessa vez, apesar de ainda sonhar com Vetra, Langdon se envolve com Sophie Neveu, uma criptologista da Polícia Francesa. Apesar de bem menos empolgante que o primeiro, “O Código” é bem mais polêmico e seu vilão é, pra surpresa de todos (uau!), o mais improvável dos personagens (tenho a impressão de já ter dito isso).

O último que li foi “Fortaleza Digital”, o primeiro romance de Dan Brown, publicado em 1998. Segue por assuntos bem diferentes dos dois citados acima, algo mais tecnológico e menos histórico/artístico. E também os gêneros se invertem entre os personagens principais. Dessa vez a protagonista é uma mulher, Susan Fletcher, uma criptologista da NSA, a Agência de Segurança Nacional dos EUA. E seu noivo, David Beker, é somente um coadjuvante presente apenas para “encher linguiça” no decorrer do livro, pois sua presença ali se mostra totalmente inútil ao fim da história.

Até agora é o pior Dan Brown que li. Nesta conspiração, o autor cria um super-computador, o brinquedinho secreto da NSA chamado TRANSLTR, com 3 milhões de processadores capazes de desencripitar qualquer e-mail suspeito em apenas 6 minutos. Uma espécie de Big Brother da Internet. Apesar de secreto, várias pessoas e organizações desconfiam de sua existem e, pelo bem da privacidade na rede, lutam para que a NSA assuma sua existência e desative-o. O romance tenta mostrar, através dos diálogos, os benefícios que uma máquina dessas pode gerar em prol da paz mundial, porém não consegue feder nem cheirar, e o TRANSLTR não consegue convencer o leitor, seja para o bem o para o mal.

Entre os que são contra sua existência está Ensei Tankado, um japonês que ajudou na construção do super-computador e agora tenta obrigar a NSA a expô-lo ao mundo. Para isso, Tankado cria um padrão de encriptação que não pode ser quebrado, nem mesmo pelo TRANSLTR, e ameaça solta-lo na rede. Do outro lado, no departamente de Criptografia da NSA, estão o Comandante Strathmore e sua protegida, Susan, fazendo o máximo para impedir esse novo padrão criado por Tankado. No entanto Tankado morre misteriosamente e a chave secreta para desativar sua criação é perdida. Devido a isso, David Becker é enviado para Espanha e 50% do livro contam suas aventuras por lá: uma caça ao tesouro frustrada. Frustrada mesmo!!!

A conspiração gira toda em volta deste super-computador. Até mesmo os personagens ficam meio apagados e os sentimentos de cada um deles que movem boa parte das ações do livro acabam por ganhar pouco espaço, tirando, assim, suas capacidades de comover o leitor. Sem contar que a trama toda não é difícil de ser descoberta ainda no meio da história. O restante é pura correria. E os momentos finais, que caberiam facilmente em um única folha, se alogam por umas vinte!

Mas “Fortaleza Digital” tem um ponto positivo: os vilões (se é que podem ser chamados assim – afinal, quem leu O Código, sabe o que quer dizer “vilão”) não são totalmente vilões. São mais uns desastrados. A maior parte do mal presente no romance acontece devido às escolhas errados destes personagens. O próprio Tankado é um pacifista e queria apenas proteger a privacidade dos usuários da Internet. E essa é uma característica interessante, fugindo do rígido padrão “Bem contra o Mal”, o que torna os antagonistas (assim são melhor definidos) mais cativantes e desperta o raciocínio do leitor para que ele próprio escolha o certo e o errado do livro.

No fim das contas, “Fortaleza” é uma leitura simples e até mesmo agradável. Não tem tantas curiosidades quanto às aventura de Langdon, mas é bem mais dinâmico na maior parte do tempo. Quase um roteiro de cinema, de tão corrido. O mais interessante foi descobrir a origem da palavra “bug” (usada como erro/defeito de computador).

Mas uma coisa não se pode negar, Dan Brown, por mais pobres que sejam suas histórias, consegue prender o leitor do início ao fim. Seus livros misturam ficção com realidade, e nunca se sabe onde começa uma e termina a outra. E, apesar de não ser uma leitura de profundidade e seus livros não passarem nenhuma mensagem ou não conterem nenhuma alegoria capaz de expôr os defeitos e qualidades da raça humana, ou seja, apesar de não ter nada que um bom livro deveria ter, eles são cheios de curiosidades históricas, artísticas e tecnológicas que despertam o interesse para um mundo novo, muitas vezes desconhecido totalmente pelo leitor. Curiosidades que envolvem grandes personalidades da história, como Da Vinci, Rafael, Newton… e grandes movimentos e passagens históricas, como as Cruzadas, os Iluminati etc. Tal como curiosidades tecnológicas presentes em “Fortaleza Digital”.

Dan Brown não vai entrar pra história como um grande escritor, mas vai conseguir cativar um grande público por um bom tempo ainda. E despertar nestes, eu esperto, o interesse pela arte, ciência e tecnologia. Se assim o for, ele não será de todo mau!

Ficha Técnica

Título: Fortaleza Digital (Digital Fortress)
Autor: Dan Brown
País: EUA
Publicação Original: 1998
Publicação Lida: Editora Sextante, 2006

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17 respostas em ““Fortaleza Digital” não fede nem cheira!

  1. É… eu gosto de Dan Brown, mas mais pelo que tu citou: as curiosidades que há nos livros dele.

    Realmente, já dá pra saber no meio do livro quem é o “vilão”, principalmente se você já leu algum outro livro dele antes. =B

    E, sempre que não quero me estressar com leituras, leio Dan Brown. Por ser fácil e rápido, até engraçadinho… =B

    Falta tu ler Ponto de Impacto agora. Que não foje nem um pouco dos padrões do Brown.

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    • O pessoal só sabe criticar mais Dan Brown é um dos melhores escritores da atualidade, quem critica e pq tem inveja, o cara é bom e escreve livros como ninguem e vende no mundo todo, eh só best sellers.

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      • Literatura (e arte de um modo geral) se mede o valor pelo passar do tempo.
        Os livros de Dan Brown são polêmicos e, para uma primeira leitura, misteriosos. No entanto são quase totalmente esquecidos alguns anos após o lançamento. São livros datados, que seguem uma mesma receita e altamente previsíveis.

        Não estou dizendo que não gosto. É como a Izze disse: são ótimos para desestressar e se divertir, mas é mero passatempo.

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  2. Ahn, realmente as coisas que ele fala de conspirações e tudo o mais são bem interessantes, mas acredito em menos da metade delas: são apenas informações aleatórias e bem jogadas em um enredo previsível, né?

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  3. Bem dos livros do Dan Brown o único que eu li foi Anjos e Demonios…. Gostei bastante principalmente pelo fato da historia te prender do primeiro capitulo até o fim da historia…. Desde o começo eu tinha uma suspeita de quem estava por traz de tudo, porém Dan Brown consegue se sair muito bem de tudo com grandes reviravoltas… simplesmente eu adorei o livro e vou ler os outros dele também. Agora estou lendo Ponto de Impacto, e pelo jeito a historia vai me prender mais uma vez…

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  4. Essa matéria foi mal editada..
    fortaleza digital É sim previsivel..
    porém, a história apesar de enrolar, ela é muito
    boa, e nos prende do começo ao fim.
    a trama pode parecer frustrada, pode..
    mais duvido que não prendeu sua atenção.
    é muito bem bolado a história, cheia de detalhes, que precisam
    ser prestados atenção, assim como em todos os livros de Brown.
    o final é emocionante e surpreendente, não deixou a desejar..
    Assim como nenhuma parte do livro a história se esfriou !

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  5. Hehe, interessante seu ponto de vista. Concordo em parte, só não totalmente porque eu costumo avaliar o livro não só pelo enredo mas também pela capacidade de argumentação e de conquista do leitor.

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  6. Os livros de Dan Brown nao devem ser alanisados como prognosticos ou nem mesmo por pura aventura do leitor, por serem livros polêmicos e manipuladores.
    Mas sim deve ser lido por enteresse de aprender os grandes misterios que poder estar por tras de qualquer coisa, seja na politica, igreja, sistema, midia…etc, no entanto a uma opulencia em sabedoria do escritor de caracterizar seus personagens de uma forma bem descritiva em aspectos de sabedoria. é uma coisa encrivel como se ele podesse ser varios profissionais com suas caracteristicas intrisicas com um grau de realidade.
    recomendo o livro em busca de abrir os olhos para os grandes ou pequenos misterios que tenhamos de lidar todos os dias, E nos pergundando porque fazemos tais coisas e a que preço.

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    • Sei bem como se sente. Mas vou te dizer uma coisa, o seu ponto de vista é intriseco a ti. Vá lá, pegue, leia, só você mesmo pode definir se é bom ou não pra ti. O ponto de vista alheio é feito a partir de expectativas e diretrizes pessoais, não deixe isso cobrir a tua. ^^

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  7. Existem caracteristicas peculiares com relação a escrita, leitura e construção de ideias que você só passa a entender quando entra no outro lado da história. Quando se é leitor queremos muito, queremos ser tocados, queremos nos envolver e descobrir genialidade por meio de um mundo aleatório que ainda mantenha ou não envolvimento com o nosso, original. Mas quando agente passa a escrever, agente percebe o valor de uma “trama”, bem certo, Conheço Codigo Da Vinci e agora estou quase terminando Fortaleza. De uma coisa eu tenho certeza… Brown não é O grande escritor. Mas ele desperta algo que muitos GRANDES não conseguem… A crítica. Fazer a pessoas olharem para um mesmo lugar de pontos de vista diferentes é bem mais díficil do que criar universos, romances e grandes literaturas nem sempre são capazes de nos dar essa multideração. Compreendo tua opinião, e não tiro tua razão não. Cada pessoa tem o seu modo de interagir com as histórias e claro, cada um é movido e agradado por enredos e veredas diferentes. Mas apesar de nunca ter sido fãn de Brown, tiro o chapeu para ele. Não é todo escritor ou escritora que tem essa capacidade.

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    • Dan Brown desperta a crítica mais do que os grandes escritores? Onde isso que eu não consigo enxergar em lugar nenhum? Tudo o que Dan Brown não faz é despertar a crítica em seus leitores. Dan Brown é mero entretenimento. As informações contidas nos livros dele podem ser encontradas em outros livros, jornais e revistas.
      O único talento de Brown é o de despertar a curiosidade no leitor. E, claro, o suspense. Mas a técnica usada por ele para prender o leitor é uma receita facilmente aprendível em qualquer curso de literatura. Tanto é que todos os seus livros são iguais, pois ele usa a mesma receita em todos.
      Mas crítica não, por favor!

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  8. Não, Snaga, acho que tu não leu o que escrevi. Brown não desperta a critica mais do que grandes escritores consagrados, amigo. Não entenda errado. Eu disse que ele desperta uma curiosidade e por consequência, uma critica, se é que me entende, que “muitos grandes” não conseguem. Em nenhum momento eu generalizei, dizendo que são todos. Entendo sua forma de ver, e como já disse, não tiro tua razão. E mais uma vez, como eu disse na introdução lá em cima. Essa é a MINHA forma peculiar de ter enxergado, não necessariamente vai ser a tua ou dos demais leitores. É até engraçado, nem me cabe defender Brown, nunca fui fan dele, sempre fui a primeira pessoa a criticá-lo. Porém, em fim. Você entendeu o que eu disse, que eu sei. Abraços.

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  9. O arco do David é realmente inútil, mas ele, não, porque no capítulo 120, ele quem descobriu o quadrado perfeito.

    Sobre a resposta ser “3”, aí a Susan também descobriu, então mais uma vez ele realmente mostrou-se inútil, infelizmente.

    Concordo totalmente com a primeira fase do texto. Encaixa-se perfeitamente comigo. E apesar de gostar do Dan Brown, concordo que seus livros têm uma fórmula.

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