O Espião que Saiu do Frio

Livros de 2011 – parte 1

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Como não escrevi sobre nenhum dos livros que li ano passado, deixo abaixo algumas opiniões sobre alguns deles.

O Espião que Saiu do Frio

John Le Carrè é o maior autor de espionagem da Guerra Fria. Foi agente da inteligência britânica e viu de perto toda a realidade do mundo dos agentes secretos, experiência tal que aproveitou em sua Obra (e ainda aproveita).

Com personagens profundos e complexos, contrário ao glamour das histórias de James Bond, em O Espião que Saiu do Frio, Le Carrè faz uma síntese de tudo o que havia de pior na vida dos espiões: as mentiras, as traições, as confusões com a própria identidade (chega-se um momento que nem mesmo o próprio agente consegue identificar de que lado está) e a total desvalorização da vida humana em prol da agência.

Alec Leamas, o protagonista, assiste, sem nada poder fazer, a sistemática destruição de sua rede de agentes, até ser obrigado a abandonar suas tarefas e, finalmente, sair do frio, ou seja, deixar o árduo ambiente polar de seu trabalho de inteligência. O que parecia sua aposentadoria, porém, torna-se apenas mais uma de suas missões. Não é a toa que Le Carrè é conhecido como o mais literário e filosófico autor de espionagem do século XX.

 Nota: o livro foi adaptado para o cinema em 1965, dirigido por Martin Ritt e tendo Richard Burton no papel principal.

O Dia do Chacal

Tendo como pano de fundo uma situação real da História recente da Europa, O Dia do Chacal é mais que um simples thriller: é a síntese de toda a situação francesa no período pós-guerra das décadas de 1950-60, transformada numa caçada dupla, maravilhosamente narrada por Frederick Forsyth.

De um lado, um assassino profissional com táticas impecáveis, contratado pelos opositores para matar o presidente Charles de Gaulle. Do outro, um detetive da polícia francesa, munido de toda a força do Estado, movendo céus de terras para encontrar o assassino antes que ele concretize seus planos.

O que pode parecer um enredo simples (e até mesmo clichê) é transformado numa história extremamente redonda e cheia de contextos, expondo a situação política da França e de suas colônias na África, explicando a relação entre governo e exército e dando voz até mesmo aos assassinos contrários ao presidente. No entanto, o melhor mesmo, é seguir passo a passo a elaboração e prática do complexo plano de morte arquitetado pelo frio e inteligentíssimo assassino de codinome Chacal.

Nota: o livro foi adaptado para o cinema em 1973, dirigido por Fred Zinnemann. Não chega nem perto da qualidade do livro (pois este é extremamente envolvente), mas ainda assim é um ótimo filme de ação.

Madame Bovary

Este foi o primeiro dos clássicos que li em 2011. Considerada a primeira obra realista, o livro do francês Gustave Flaubert conta a história de Charles e Emma Bovary, um casal de pequenos burgueses do interior da França.

Charles, um médico em início de carreira, casa-se com Emma, dando a moça o que ela mais queria: a chance de sair de casa e conhecer o mundo fora da fazenda de seu pai.  Charles, no entanto, é um homem pacato e simples, que se contenta com a vida interiorana e com os poucos clientes que ali possui, enclausurando sua esposa, mesmo sem perceber, no mundo doméstico de sonhos frustrados.

Emma, ainda muito jovem, voraz e bela, vê-se cada vez mais arrependida com os laços matrimoniais, pois o que parecia ser uma ascensão em sua vida, acabar por tornar-se nostálgico em relação a uma vida que ela viveu apenas em sonhos. Presa ao marido, tudo o que lhe resta são os estereotipados romances de Walter Scott e as notícias da alta classe parisiense que ela lê em jornais e revistas.

Em busca de uma vida mais agitada, afim de se desvencilhar daquela calmaria insossa que era sua vida conjugal, Emma cai na lábia e nos braços de um dos baronetes da região, tornando-se sua amante, deleitando-se em seus elogios e acreditando em suas doces palavras de amor… coisas que há muito o marido já não lhe dava

Mais que um romance realista, Madame Bovary é uma história real adaptada e incrementada por Flaubert. Tão, mas tão realista, que levou o autor aos tribunais para ser processado por ofensa à moral e à religião. Flaubert acabou absolvido pela Corte, mas os críticos nunca o perdoaram pelo tratamento cru que deu ao adultério. A História, porém, fez do livro um grande clássico e a vida de Emma Bovary acabou por se tornar atemporal: ainda hoje, um reflexo da prisão matrimonial de muitas mulheres e uma fotografia muito bem pintada da sociedade de meados do século XIX, tão atrasada e machista quanto a atual.

Nota: este livro recebeu várias adaptações para o cinema e a TV feitos em vários países. Os mais famosos são os longas franceses de 1991, de Claude Chabrol, e o de 1933, dirigido por Jean Renoir; além do americano de 1949, dirigido por Vincente Minnelli.