livros

Todos os posts marcados livros

Entre os dias 9 e 19 deste mês ocorreu a 22ª Bienal do Livro de São Paulo. E lá fui eu, no último dia, marcar minha presença na feira, mesmo que apenas a passeio – a experiência adquirida em 2010 já me dizia que eu não compraria nenhum livro, afinal os preços são salgados, mesmo nas promoções de encerramento. No entanto, após horas caminhando em círculos pelo labirinto de estandes, acabei adentrando um cantinho escuro do pavilhão e, escondido lá no fundo, no último corredor, descobri algo que não esperava: o selo Vermelho Marinho, da editora Usina das Letras, e fiquei maravilhado.

Para quem não conhece (como eu não conhecia), este selo é dedicado à literatura brasileira popular contemporânea e vem lançando vários novos escritores – autores de fantasia, terror e ficção científica – tudo com a cara do Brasil. E para minha surpresa, além dos livros, ali também estavam vários escritores interagindo com os visitantes, vendendo o peixe para quem se interessava por suas obras.

Acabei conversando com um deles, que me apresentou seu livro de fantasia (uma aventura infanto-juvenil pelas ruas de São Paulo) e também de outros que estavam expostos por perto. Li algumas sinopses e achei muita coisa interessante. Mas ali os preços também eram altos e, por mais que seja eu apaixonado por fantasia, não estava disposto a ler histórias de adolescentes com superpoderes.

Saltei, portanto, para os estandes seguintes. Estes não eram de editoras, mas particulares: pequenas cabines individuais, onde autores independentes expunham suas desconhecidas obras. Passei por dois e, no terceiro, fui fisgado pelo carisma do professor Alberico Rodrigues, um senhor baiano, já com seus 60 anos. Não resisti e comprei dois de seus livros: “Zé Batalha – O Herói da Minha Infância” e “A Saga de um Baiano na Cidade de São Paulo”.  Este segundo ainda não li, porém o primeiro devorei em apenas algumas horas.

Zé Batalha não chega a ser um romance, mas um conto envolvente, quase uma fábula. Narrado em primeira pessoa pela voz do próprio autor, o livro é um misto de realidade e fantasia, tão bem misturadas que é impossível dizer onde uma termina, onde outra começa.

Alberico retorna à sua infância e se apresenta como protagonista da aventura, contando sobre a vida no sítio da Zona da Mata Baiana e sobre personagens que por ali passavam. A estrada diante de sua casa era seu circo, seu carrossel. Por ali os espetáculos da vida aconteciam, pessoas diferentes passavam e o mundo trazia notícias.

Dentre tantos, o que mais chamava atenção era o ex-escravo Zé Batalha, negro morador do mato, que vivia da natureza, amigo de todos os bichos e sempre acompanhado de seu cão Alegria. O personagem clássico de todas as cidades, todos os lugarejos destas terras tupiniquins. Afinal, qual cidade não tem sua figura folclórico, o velho mendigo bonachão cuja história poucos conhecem, mas que a muitos agrada com seu bom coração e inocência desmedida?

Zé Batalha é o mito vivo, cuja lenda diz que pode se transformar em vários animais. Tudo isso, porém, é ligeira introdução. A história em si se ocupa apenas de um único dia, iniciando-se na boca da noite para terminar no fim da manhã seguinte. Nada de grandioso, nada de complexo. Apenas uma história simples do interior brasileiro, mas para o jovem Albe, uma lembrança marcante de sua infância saudosa. E no fim, o negro é tornado herói.

A rápida leitura trouxe à memória os bons livros da Série Vagalume, que lia quando era criança. E Zé Batalha tem todos os elementos que colocariam Alberico Rodrigues lado a lado com Marcos Rey, Aristides Fraga Lima e Lúcia Machado de Almeida que tanto marcaram minha própria infância. Que venha agora a Saga de um Baiano na Cidade de São Paulo!

Alberico e o Orc – 22ª Bienal do Livro de São Paulo

Mais uma vez fui convidado a participar do Telhacast. Da primeira vez, fizemos uma série de 5 episódio sobre a vida e obra de J. R. R. Tolkien. Desta vez fizemos um especial sobre o atemporal Drácula, de Bram Stoker. Abordamos o livro, seus contextos e suas diversas adaptações para o cinema, além de um apanhado histórico sobre vampiros.

Para ouvir, basta visitar a página do Telhacast clicando aqui.

Os dois livros apresentados abaixam foram-me presenteados pelos próprios autores, com direito a dedicatória e autógrafo. O primeiro veio de longe, do outro lado do Atlântico, e foi escrito pelo meu amigo português Rodrigo McSilva. O segundo é um livro independente, impresso à custa do próprio autor, Lázaro Marback d’Oliveira.

Para ver a primeira parte deste post, clique aqui.

Escritos dos Ancestrais – Campos de Odelberon

E se todos os deuses de todos os povos realmente tivessem existido num passado remoto do mundo? Não apenas deuses, mas todos os seres fantásticos dos folclores das mais diversas culturas… E se fossem reais? É partindo dessa premissa que o escritor português Rodrigo McSilva desenvolveu o livro Escritos dos Ancestrais, o primeiro volume da saga Campos de Odelberon. Baseando-se nas mitologias grega, nórdica, celta e indo-europeia, o autor montou um compêndio de personagens e histórias que se desenrolam num mundo em comum, onde Zeus e Odin, entre outros, dividem um mesmo continente do mundo fantástico chamado Odelberon.

No princípio dos tempos, humanos, animais, deuses e seres mágicos habitavam juntos a Terra. Mas com o assassinato do deus Balder, que poderia dar início ao Ragnarock (o apocalipse da mitologia nórdica), o Ente Uno, decide dividir o Tempo, para assim salvar a realidade Terrena: “’Que a linha do tempo seja doravante como um punhal, mas com duas faces, esquerda e direita, que jamais se verão’. Assim os condenou a uma estéril dualidade. Os mortais habitariam o ‘Gume Terrestre’, desenvolvendo a ciência e a técnica, mas trabalhando na dúvida e na incerteza, enquanto os deuses e os que os haviam seguido habitariam o invisível ‘Gume de Odelberon’ numa eternidade imutável”.

Assim segue-se todo este primeiro volume, com a chegada dos seres fantásticos a Odelberon, a colonização do novo mundo, a divisão de suas regiões, as alianças entre deuses de várias mitologias e a associação de seus respectivos antagonistas. McSilva peca pelo excesso de personagens, nomes e lugares, além de inundar páginas com enormes narrativas da colonização de Odelberon, sendo tão minucioso a ponto de beirar o maçante. Mas sua extensa pesquisa – que durou 7 anos – vale por qualquer defeito que o livro venha a ter, enriquecendo a narrativa dos Escritos dos Ancestrais, mantendo viva as características dos míticos personagens e desenvolvendo seu enredo tendo por base a cultura de cada mitologia. De acordo com o próprio McSilva, porém, a partir do próximo livro a história se limita aos protagonistas que acompanharão a saga até seu fim. Que venham os próximos!

Nota: Campos de Odelberon ainda não foi publicado no Brasil, mas pode ser importado de Portugal. Para mais informações, acessem o link www.odelberon.com

Súmulas do Valor da Vida

Lázaro Marback d’Oliveira não tem a literatura por profissão. Dedicou-se à arte somente após sua aposentadoria e reuniu alguns de seus contos num volume de publicação independente, o qual chamou de Súmulas do Valor da Vida.

Baseado em histórias do dia-a-dia do autor, as Súmulas vagam entre espiritismo, umbanda e o cotidiano do Rio de Janeiro. D’Oliveira desenvolve muito bem seus contos e tem uma narrativa fluente e criativa, porém seus finais desagradam e para cada história parece faltar uma conclusão satisfatória. Para quem quiser conferir, um de seus contos, Clarisse Dançava, foi gentilmente cedido pelo autor e pode ser lido aqui mesmo no Covil. Basta clicar no link acima.

Nota: O livro de Marback pode ser adquirido diretamente com o autor e o custo é revertido para caridade. Entrem em contato com ele através do Facebook clicando aqui.

Espártaco era um escravo, filho de um escravo que era filho de outro escravo. Nascera na servidão e esta situação era a única vida que conhecia. Porém havia nele algo de diferente, tanto daqueles que o antecederam quanto daqueles que o rodeavam. Havia uma paixão em seus olhos, um fervor fraternal que o fez ser chamado de “Pai” tanto pelos mais novos quanto pelos mais velhos. Espártaco nascera escravo… mas era um líder!

Escrito por Howard Fast em 1951, o livro é baseado na história real do personagem título, que viveu por volta dos anos 120 a.C. a 70 a.C., no Império Romano. Maltratado pelo chicote de seus donos, cansado pelo trabalho ininterrupto, devastado pelo descaso e pela escravidão… assim era Espártaco, o escravo que passou a gladiador;o gladiador que se tornou líder de uma revolução; o homem que, por pouco, não derrubou o maior dos impérios com suas próprias mãos.

Muitíssimo bem escrito, capaz de prender o leitor do começo ao fim, a narrativa acompanha a dura vida de Espártaco através da escravidão, das lutas na arena e por sua fuga, dando início, finalmente, à Terceira Guerra Servil Romana, ocorrida por volta do ano de 73 a.C. Por onde passava este novo líder, homens e mulheres o seguiam e Espártaco chegou a reunir um exército com mais de 100 mil escravos, que aos poucos foram se organizando sob a bandeira da igualdade e da liberdade. Diferentes dos soldados romanos, que lutavam por ordem de seus superiores, o exército servil lutava por um ideal de justiça comum e, dessa forma, durante meses eles dizimaram as legiões do império.

Estátua de mármore de Espártaco, por Louis-Ernest Barrias, (1871)

Estátua de mármore de Espártaco, por Louis-Ernest Barrias, (1871)

Muito além da vida de escravos e das Guerras Servis, no entanto, o livro de Fast se aprofunda na podridão da sociedade romana, no fascínio dos cidadãos pela violência e a morte e no descaso pela vida dos escravos, considerados animais (os romanos realmente acreditavam nisso, chegando a se espantar quando ouviam seus servos pronunciarem palavras em latim – coisa que nenhum outro animal era capaz de fazer). Variando o foco narrativo e até mesmo o tempo em que a história se passa (ela é quase toda um flashback), o romance compara de maneira profunda os sofrimentos dos escravos e gladiadores com a futilidade dos cidadãos romanos, que chegam a achar normal a proposta de se fazer salsichas com a carne dos mortos em guerra.

Mais espantoso, porém, é perceber que a sociedade apodrecida do Império Romano, com seus senadores corruptos, sua política vendida, seu povo fútil e suas classes servis, nada mais é que a raiz de nossa própria e atual sociedade; que em nada evoluímos nestes últimos dois mil anos de História. Na dedicatória ao início do livro, Howard Fast diz que este “é o relato da vida de homens e mulheres corajosos, que existiram há muito e cujos nomes jamais foram esquecidos. Os heróis deste romance amavam a liberdade e a dignidade humanas e viveram bem e com nobreza.” E conclui: “Escrevi-o para que os que o lessem conseguissem obter forças para o nosso problemático futuro e assim poderem lutar contra a opressão e a injustiça [...] para que o sonho de Spartaco possa se realizar em nosso próprio tempo.” Mas será que entre nós ainda existe alguém digno de ser chamado de “Pai”?

Nota: O presente romance apresenta uma visão idealizada sobre a vida do herói, incorruptível e sem mácula. Existem outras versões da história de Espártaco, como no livro “The Gladiators” (de Arthur Koestler), em filmes como “Spartacus” (EUA, 1960 – dirigido por Kubrick) e a recente série de TV “Spartacus: Blood and Sand”, de 2010.

Como não escrevi sobre nenhum dos livros que li ano passado, deixo abaixo algumas opiniões sobre alguns deles.

O Espião que Saiu do Frio

John Le Carrè é o maior autor de espionagem da Guerra Fria. Foi agente da inteligência britânica e viu de perto toda a realidade do mundo dos agentes secretos, experiência tal que aproveitou em sua Obra (e ainda aproveita).

Com personagens profundos e complexos, contrário ao glamour das histórias de James Bond, em O Espião que Saiu do Frio, Le Carrè faz uma síntese de tudo o que havia de pior na vida dos espiões: as mentiras, as traições, as confusões com a própria identidade (chega-se um momento que nem mesmo o próprio agente consegue identificar de que lado está) e a total desvalorização da vida humana em prol da agência.

Alec Leamas, o protagonista, assiste, sem nada poder fazer, a sistemática destruição de sua rede de agentes, até ser obrigado a abandonar suas tarefas e, finalmente, sair do frio, ou seja, deixar o árduo ambiente polar de seu trabalho de inteligência. O que parecia sua aposentadoria, porém, torna-se apenas mais uma de suas missões. Não é a toa que Le Carrè é conhecido como o mais literário e filosófico autor de espionagem do século XX.

 Nota: o livro foi adaptado para o cinema em 1965, dirigido por Martin Ritt e tendo Richard Burton no papel principal.

O Dia do Chacal

Tendo como pano de fundo uma situação real da História recente da Europa, O Dia do Chacal é mais que um simples thriller: é a síntese de toda a situação francesa no período pós-guerra das décadas de 1950-60, transformada numa caçada dupla, maravilhosamente narrada por Frederick Forsyth.

De um lado, um assassino profissional com táticas impecáveis, contratado pelos opositores para matar o presidente Charles de Gaulle. Do outro, um detetive da polícia francesa, munido de toda a força do Estado, movendo céus de terras para encontrar o assassino antes que ele concretize seus planos.

O que pode parecer um enredo simples (e até mesmo clichê) é transformado numa história extremamente redonda e cheia de contextos, expondo a situação política da França e de suas colônias na África, explicando a relação entre governo e exército e dando voz até mesmo aos assassinos contrários ao presidente. No entanto, o melhor mesmo, é seguir passo a passo a elaboração e prática do complexo plano de morte arquitetado pelo frio e inteligentíssimo assassino de codinome Chacal.

Nota: o livro foi adaptado para o cinema em 1973, dirigido por Fred Zinnemann. Não chega nem perto da qualidade do livro (pois este é extremamente envolvente), mas ainda assim é um ótimo filme de ação.

Madame Bovary

Este foi o primeiro dos clássicos que li em 2011. Considerada a primeira obra realista, o livro do francês Gustave Flaubert conta a história de Charles e Emma Bovary, um casal de pequenos burgueses do interior da França.

Charles, um médico em início de carreira, casa-se com Emma, dando a moça o que ela mais queria: a chance de sair de casa e conhecer o mundo fora da fazenda de seu pai.  Charles, no entanto, é um homem pacato e simples, que se contenta com a vida interiorana e com os poucos clientes que ali possui, enclausurando sua esposa, mesmo sem perceber, no mundo doméstico de sonhos frustrados.

Emma, ainda muito jovem, voraz e bela, vê-se cada vez mais arrependida com os laços matrimoniais, pois o que parecia ser uma ascensão em sua vida, acabar por tornar-se nostálgico em relação a uma vida que ela viveu apenas em sonhos. Presa ao marido, tudo o que lhe resta são os estereotipados romances de Walter Scott e as notícias da alta classe parisiense que ela lê em jornais e revistas.

Em busca de uma vida mais agitada, afim de se desvencilhar daquela calmaria insossa que era sua vida conjugal, Emma cai na lábia e nos braços de um dos baronetes da região, tornando-se sua amante, deleitando-se em seus elogios e acreditando em suas doces palavras de amor… coisas que há muito o marido já não lhe dava

Mais que um romance realista, Madame Bovary é uma história real adaptada e incrementada por Flaubert. Tão, mas tão realista, que levou o autor aos tribunais para ser processado por ofensa à moral e à religião. Flaubert acabou absolvido pela Corte, mas os críticos nunca o perdoaram pelo tratamento cru que deu ao adultério. A História, porém, fez do livro um grande clássico e a vida de Emma Bovary acabou por se tornar atemporal: ainda hoje, um reflexo da prisão matrimonial de muitas mulheres e uma fotografia muito bem pintada da sociedade de meados do século XIX, tão atrasada e machista quanto a atual.

Nota: este livro recebeu várias adaptações para o cinema e a TV feitos em vários países. Os mais famosos são os longas franceses de 1991, de Claude Chabrol, e o de 1933, dirigido por Jean Renoir; além do americano de 1949, dirigido por Vincente Minnelli.