Filme

As Solidões de Oswaldo Montenegro

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SolidõesOswaldo Montenegro é, acima de tudo, um poeta. Seus versos são poéticas, suas melodias são poéticas e suas apresentações musicais idem. Sendo assim, ao se aventurar pelo cinema, o resultado não poderia ser diferente: seus filmes são magistralmente poéticos.

Em seu primeiro longa, Léo e Bia (Brasil, 2010), Montenegro usou da linguagem teatral para narrar uma história de amizade, afeto, comunhão e fidelidade (com forte cunho político, é verdade). Agora, três anos depois, ao lançar sua segunda aventura cinematográfica, o diretor nos apresenta o lado contrário daquele primeiro cenário: a solidão.

Em Solidões (Brasil, 2013), que foi rodado com recursos próprios e co-produzido pelo Canal Brasil, Oswaldo Montenegro cria um emaranhado de histórias paralelas, passadas em lugares diversos do país, mas ligadas pelo sentimento que dá título ao filme. Cada “conto” nos apresenta um personagem distinto, em situações ora comuns, ora inusitadas: a moça que convenientemente perde a memória quando sua vida não mais a agradava; o homem que se encontra consigo mesmo em uma realidade paralela; a jovem apaixonada que aguarda o namorado no bar, ou o garçom cantor que a ampara no seu momento de abandono;  a mulher solitária que é tentada pelo diabo em pessoa – tão solitário quanto ela própria; ou ainda o músico do interior mineiro que vai para o Rio em busca da fama. Todas estas histórias têm como base um texto forte, satírico e, muitas vezes, metafórico, com diálogos significativos e inteligentes, voltados sempre para expor, de forma crua, a solidão diversa e, ao mesmo tempo, comum dos personagens.

Solidões3Contadas de forma fragmentada e unidas sob um mesmo tema, as narrativas formam um mosaico de fantasia, ficção e realidade. Aliás, é praticamente impossível discernir o que é real e o que não é neste longa de Montenegro. De forma apurada, o diretor mescla atuações com entrevistas e cria uma mistura de documentário e dramatização. Tudo isso intercalado com sequências abstratas em linguagem de videoclip, com bailarinos, manequins, performances de dança e tantas outras.

As interpretações não são excelentes, mas não deixam a desejar. Vanessa Giácomo é ao mesmo tempo personagem e narradora e se destaca no elenco, que conta ainda com Pedro Nercessian e os desconhecidos Renato Góes e Mayara Millane, além do próprio Montenegro e sua eterna parceira artística, Madalena Salles.

Solidões4Dentre tudo isso, o que mais pode incomodar o espectador comum, acostumado à narrativa linear e à técnica refinada do cinema blockbuster, pode ser a fotografia e a arte. A Direção de Arte de Solidões foge completamente dos padrões e cria cenários artificiais e minimalistas, com cores vibrantes, quentes. Em Léo e Bia, o cenário único de um galpão vazio reforçava a linguagem teatral do filme, mas em Solidões a composição parece não se encaixar. O que parecia agregar em Léo e Bia, em Solidões parece empobrecer. Por tratar-se de muitos cenários e, principalmente, por contrastar com sequências externas, a artificialidade acaba por causar um impacto deveras negativo. Apesar disso, é chocante em muitos momentos, principalmente ao compor metáforas através dos objetos de cena e maquiagens. A Direção de Fotografia, por sua vez, apesar de inteligente em seu arranjo, brincando com cenas em preto e branco e coloridas, peca em sua parte mais técnica, muitas vezes compondo cenas mal iluminadas ou mesmo granuladas. Mas são apenas incômodos que nada estragam o longa – e talvez até mesmo o enriqueça mais, já que em muitas vezes, principalmente na Direção de Arte, essas composições são claramente intencionais.

Solidões2O maior problema de Solidões, talvez realmente o único, é o áudio. A capitação, mixagem e edição de som chegam a ser amadorísticas. Os cortes do áudio são perceptíveis a todo o momento e, vez por outra, há mesmo uma interrupção brusca na sonorização do filme. As falas dos atores aparecem muitas vezes com o áudio rachado e estourado, a ponto de doer os ouvidos e dispersar o espectador do que está sendo dito. E, sendo Montenegro um músico, acostumado a gravações de áudio, fica difícil entender o motivo desta falha.

De um modo geral, Solidões não é melhor que Léo e Bia – e fica longe de ser tão bom quanto. Entretanto não deixa de ser um belo filme, inteligente, emocionante e, principalmente, envolvente. A poesia de Montenegro, seu roteiro inusitado e calcado na essência do ser humano e a montagem fragmentada fazem de Solidões uma obra única e marcante. “Faça uma lista de grandes amigos,/ quem você mais via há dez anos atrás./ Quantos você ainda vê todo dia?/ Quantos você já não encontra mais?”

Nota: Solidões, que estreou dia 1º de novembro deste ano em 6 capitais do Sul e Sudeste, rodará todo o país, sendo apresentado apenas um dia em cada cidade e contando com a presença do próprio Montenegro, que ministrará um debate após a apresentação. Maiores informações no site oficial do músico: http://www.oswaldomontenegro.com.br

Somos Tão Jovens – A mitografia de Renato Russo

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Somos tão jovensÉ preciso entender que Somos Tão Jovens (Brasil, 2013) não é um filme biográfico, mas mitográfico. O roteiro de Marcos Bernstein não trata Renato Russo como pessoa, mas como ídolo, como mito. Está ali o cantor-herói, erudito e tão imerso em suas próprias composições. Estão ali também todas as lendárias histórias do rock brasiliense, os personagens marcantes e as famosas canções. Enfim, o filme do diretor Antônio Carlos Fontoura não trás nenhuma novidade e é tão leve quantos seus longas anteriores.

A história inicia-se com uma rápida passagem pela epifisiólise de Renato Russo, a doença que, aos 15 anos de idade, o deixou acamado por seis meses e outros doze com dificuldades para andar. E daí conta toda a trajetória do jovem, sua paixão por música, sua conversão ao punk, as influências, os amigos, a formação do Aborto Elétrico, até chegar à famosa Legião Urbana.

Mesmo que o roteiro seja morno, o filme é cheio de pontos fortes e tem muito para ser apreciado. A começar pela ótima escolha de Thiago Mendonça para o papel principal. Ao representar Renato Russo, o ator convence até o fã mais crítico, tanto com seus trejeitos quanto com sua voz ao cantar. A abertura do filme, aliás, chega a confundir o expectador: afinal de contas, quem está cantando? Renato ou Thiago?

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Outros atores também estão excelentes em seus papéis. Laila Zaid ajuda a conduzir o filme todo e é capaz de salvar muitas cenas, apenas por estar presente. Edu Moraes, apesar de parecer um pouco caricato, incorpora com maestria a personalidade do músico Hebert Viana e imita sua voz com perfeição. A família Manfredini também está impecável, com destaque para a lindíssima Bianca Comparato, que faz uma divertida interpretação de Carmem Teresa, a irmã de Renato. Mas o restante do elenco, apesar de muito bem caracterizados e fisicamente parecidos com seus originais, faz feio a maior parte do filme, com interpretações fracas e caricatas.

A caracterização, aliás, é uma das maiores qualidades de Somos Tão Jovens. É muito fácil reconhecer no elenco a identidade dos personagens reais, em parte pelo trabalho de maquiagem e figurino, em parte pelas tomadas muito bem escolhidas.

Alguns fortes contraste entre luz e sombra e a câmera em constante movimento compõem ótimas sequências de drama. De um modo geral, a Fotografia criada pelo estreante Alexandre Ermel ajuda a enriquecer o longa, situá-lo em sua época (o início da década de 1980) e compor sua história.

O único e maior problema do longa fica mesmo por conta do péssimo roteiro. O experiente Marcos Bernstein – roteirista de Chico Xavier, o tocante O outro Lado da Rua e o premiadíssimo Central do Brasil – erra mão ao manter nivelada a história de Somos Tão Jovens. Não há um ápice no roteiro, as pequenas tramas não se fecham em seu decorrer, não há curva dramática e sequer há um final. O filme termina em aberto, apenas com um letreiro na tela, discorrendo sobre o futuro da Legião Urbana.

Somos tão Jovens3Os diálogos criados por Bernstein não ficam naturais na boca dos personagens e, devido a isso, a vida de Renato Russo parece se tornar artificial. Apesar da brilhante atuação de Thiago Mendonça, aquele não é o Renato homem, mas o cantor mito, que dialoga através de versos, que usa de sua poesia para conversar no dia-a-dia e que se apresenta sempre (e sem dúvidas) como o grande astro que será no futuro – como se já fosse um rock-star desde a mais tenra infância.

Os dramas pessoais são quase totalmente deixados de lado e dão lugar à explicações ilógicas sobre a composição de suas músicas, tentando contextualizar cada um de seus versos mais famosos. Enquanto na cinebiografia de Cazuza, sua música era usada como complemento para o filme, em Somos Tão Jovens, o filme é usado como complemento para as canções.

A homossexualidade de Renato é apresentada de forma quase lúdica e muito pouco explorada. As drogas e o alcoolismo apenas pincelados. Renato Russo, o lendário rock-star, está ali presente, como sempre fora apresentado pela mídia, mas Renato Manfredini Júnior, o homem por detrás do mito, com sua mente conturbada, suas tendências depressivas e sua intimidade, não está presente neste longa. É mais fácil encontrá-lo em sua própria poesia.

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O Orc agora faz parte do Telha

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Depois de seis participações no Telhacast, no decorrer de todo este ano, fui convidado por Thiago Miro a ser integrante fixo de sua equipe de podcasters, completando o grupo de dez membros. Agora, caros leitores do Covil, todos poderão me ouvir com mais freqüência no Telha, incluindo o programa desta semana sobre “Filmes Amaldiçoados”.

Não deixem e ouvir os antigos também: a série especial sobre Tolkien e o cast sobre Drácula.

Boa diversão a todos!

Mais uma vez no Telhacast

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Mais uma vez fui convidado a participar do Telhacast. Da primeira vez, fizemos uma série de 5 episódio sobre a vida e obra de J. R. R. Tolkien. Desta vez fizemos um especial sobre o atemporal Drácula, de Bram Stoker. Abordamos o livro, seus contextos e suas diversas adaptações para o cinema, além de um apanhado histórico sobre vampiros.

Para ouvir, basta visitar a página do Telhacast clicando aqui.

Ver, Ouvir e Sentir Raul Seixas

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Cerca de 15 minutos antes da sessão e a sala começa a se encher. É um documentário, gênero pouco quisto pelo expectador brasileiro, e o filme já está em cartaz há uma semana; mesmo assim o público é grande e as fileiras ficam quase todas lotadas. “Por isso que eu gosto de maconha: um tapinha e a gente relaxa por umas três horas”, comenta alguém na fila de trás. “É sério, tem uma ladeira lá onde o carro sobe sozinho. Só soltar o freio de mão e ele vai subindo”, retruca um outro, referindo-se à cidade de São Tomé das Letras. São jovens e senhores, mas também crianças, muito provavelmente levadas pelos pais, burlando a classificação de 14 anos, para que assim conheçam o grande ídolo de suas juventudes.

Dá-se início à sessão e então são mais de duas horas de silêncio entre a plateia, entrecortado apenas pelos risos diante de depoimentos amalucados de Raul Seixas e das histórias igualmente insanas narradas vez ou outra pelos amigos entrevistados no decorrer do longa. E então vem a cena espantosa – não na tela, mas entre os espectadores: acaba-se o filme, sobem os créditos e ninguém se ergue de sua poltrona. Ficam todos sentados a ouvir Gita e a observar a infinidade de nomes que desfilam tela acima sobre um fundo negro. Os projetores são desligados, as luzes se acendem e um aplauso emocionado se inicia, com pessoas gritando o nome de Raul aqui e acolá, diante da tela apagada em uma mera sala comercial.

Raul não morreu. Não há outra maneira de se falar do pai do rock nacional se não plagiando os eternos fãs do rei do rock mundial: assim como Elvis, Raul Seixas não morreu. O baiano continua vivo em cada um de seus sósias, em cada um de seus fãs-seguidores, em suas músicas e agora mais ainda com este excelente filme do diretor Walter Carvalho: “Raul – o Início, o Fim e o Meio (Brasil, 2012).

Walter Carvalho durante entrevista com Caetano Veloso

No decorrer do longa, transitam pela tela vários amigos e familiares de Raul, jornalistas, fãs, estudiosos e as mulheres do músico – muitas mulheres. Estão presentes o escritor Paulo Coelho, os produtores Solano Ribeiro e Nelson Motta, o jornalista Pedro Bial, os músicos Tom Zé, Caetano Veloso e Júlio Medáglia, entre tantos outros famosos e anônimos que, de alguma forma, estiveram presentes na vida do roqueiro baiano.

Durante a produção (durou três anos) foram realizadas 94 entrevistas, das quais 54 estão no longa. Mais de 400 horas de gravações, as quais foram magistralmente editadas e montadas nas pouco mais de duas horas de duração do filme, mostrando não apenas a carreira, mas também a vida pessoal e amorosa de Raul Seixas, além do legado que ele deixou e que ainda hoje arrasta multidões de fãs – fãs, estes, que também estão presentes no documentário, entoando em coro algumas canções do ídolo.

Com O Início, o Fim e o Meio, Walter Carvalho não tenta endeusar Raul. Trata-o como mito, é verdade, e, como mito, também não tenta explicá-lo. Mas ao mesmo tempo, exibe um Raul homem, careta e maluco, amoroso e mulherengo, celebridade e decadente. Aborda as drogas de maneira seca, sem preconceitos, como parte do dia-a-dia do cantor: éter, álcool, cocaína e tantas outras; todas apresentadas pelo amigo Paulo Coelho, que em momento algum se mostrou arrependido por isso.

O que se vê na tela são pessoas entusiasmadas em falar sobre o roqueiro, deleitosas em contar alguma experiência que viveram com Raul. De todos os contatados por Walter Carvalho, a única que não quis ceder entrevista foi Edith, a primeira esposa do astro. Mesmo assim seu depoimento e sua recusa estão presentes no filme, em uma carta lida via Skype pela filha de Raul que mora nos Estados Unidos. As demais mulheres expõem um Raul conquistador e apaixonado. E nenhuma delas esconde o afeto e a saudade que ainda sentem por ele, mesmo quando contam sobre as traições e o fim do relacionamento. “Ele tinha um hálito doce”, comenta uma delas, saudosista. “Ele cheirava à flores”, suspira uma de suas amantes.

Entre materiais inéditos (como gravações de quando Raul tinha apenas 9 anos) e depoimentos emocionados, a sensação do espectador não é apenas de rever o ídolo e ouvi-lo cantar, mas também sentir… sentir o quão importante ele foi para o cenário musical da época e para a cultura do país. Toca Raul!!!

Livros de 2011 – parte 1

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Como não escrevi sobre nenhum dos livros que li ano passado, deixo abaixo algumas opiniões sobre alguns deles.

O Espião que Saiu do Frio

John Le Carrè é o maior autor de espionagem da Guerra Fria. Foi agente da inteligência britânica e viu de perto toda a realidade do mundo dos agentes secretos, experiência tal que aproveitou em sua Obra (e ainda aproveita).

Com personagens profundos e complexos, contrário ao glamour das histórias de James Bond, em O Espião que Saiu do Frio, Le Carrè faz uma síntese de tudo o que havia de pior na vida dos espiões: as mentiras, as traições, as confusões com a própria identidade (chega-se um momento que nem mesmo o próprio agente consegue identificar de que lado está) e a total desvalorização da vida humana em prol da agência.

Alec Leamas, o protagonista, assiste, sem nada poder fazer, a sistemática destruição de sua rede de agentes, até ser obrigado a abandonar suas tarefas e, finalmente, sair do frio, ou seja, deixar o árduo ambiente polar de seu trabalho de inteligência. O que parecia sua aposentadoria, porém, torna-se apenas mais uma de suas missões. Não é a toa que Le Carrè é conhecido como o mais literário e filosófico autor de espionagem do século XX.

 Nota: o livro foi adaptado para o cinema em 1965, dirigido por Martin Ritt e tendo Richard Burton no papel principal.

O Dia do Chacal

Tendo como pano de fundo uma situação real da História recente da Europa, O Dia do Chacal é mais que um simples thriller: é a síntese de toda a situação francesa no período pós-guerra das décadas de 1950-60, transformada numa caçada dupla, maravilhosamente narrada por Frederick Forsyth.

De um lado, um assassino profissional com táticas impecáveis, contratado pelos opositores para matar o presidente Charles de Gaulle. Do outro, um detetive da polícia francesa, munido de toda a força do Estado, movendo céus de terras para encontrar o assassino antes que ele concretize seus planos.

O que pode parecer um enredo simples (e até mesmo clichê) é transformado numa história extremamente redonda e cheia de contextos, expondo a situação política da França e de suas colônias na África, explicando a relação entre governo e exército e dando voz até mesmo aos assassinos contrários ao presidente. No entanto, o melhor mesmo, é seguir passo a passo a elaboração e prática do complexo plano de morte arquitetado pelo frio e inteligentíssimo assassino de codinome Chacal.

Nota: o livro foi adaptado para o cinema em 1973, dirigido por Fred Zinnemann. Não chega nem perto da qualidade do livro (pois este é extremamente envolvente), mas ainda assim é um ótimo filme de ação.

Madame Bovary

Este foi o primeiro dos clássicos que li em 2011. Considerada a primeira obra realista, o livro do francês Gustave Flaubert conta a história de Charles e Emma Bovary, um casal de pequenos burgueses do interior da França.

Charles, um médico em início de carreira, casa-se com Emma, dando a moça o que ela mais queria: a chance de sair de casa e conhecer o mundo fora da fazenda de seu pai.  Charles, no entanto, é um homem pacato e simples, que se contenta com a vida interiorana e com os poucos clientes que ali possui, enclausurando sua esposa, mesmo sem perceber, no mundo doméstico de sonhos frustrados.

Emma, ainda muito jovem, voraz e bela, vê-se cada vez mais arrependida com os laços matrimoniais, pois o que parecia ser uma ascensão em sua vida, acabar por tornar-se nostálgico em relação a uma vida que ela viveu apenas em sonhos. Presa ao marido, tudo o que lhe resta são os estereotipados romances de Walter Scott e as notícias da alta classe parisiense que ela lê em jornais e revistas.

Em busca de uma vida mais agitada, afim de se desvencilhar daquela calmaria insossa que era sua vida conjugal, Emma cai na lábia e nos braços de um dos baronetes da região, tornando-se sua amante, deleitando-se em seus elogios e acreditando em suas doces palavras de amor… coisas que há muito o marido já não lhe dava

Mais que um romance realista, Madame Bovary é uma história real adaptada e incrementada por Flaubert. Tão, mas tão realista, que levou o autor aos tribunais para ser processado por ofensa à moral e à religião. Flaubert acabou absolvido pela Corte, mas os críticos nunca o perdoaram pelo tratamento cru que deu ao adultério. A História, porém, fez do livro um grande clássico e a vida de Emma Bovary acabou por se tornar atemporal: ainda hoje, um reflexo da prisão matrimonial de muitas mulheres e uma fotografia muito bem pintada da sociedade de meados do século XIX, tão atrasada e machista quanto a atual.

Nota: este livro recebeu várias adaptações para o cinema e a TV feitos em vários países. Os mais famosos são os longas franceses de 1991, de Claude Chabrol, e o de 1933, dirigido por Jean Renoir; além do americano de 1949, dirigido por Vincente Minnelli.

Dois Coelhos e Muitas Cajadadas

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Sim, 2 Coelhos (Brasil, 2012) é extremamente influenciado pelos blockbusters americanos, cheio de explosões e efeitos visuais. Sim, o filme também tem o tradicional e calamitoso romance hollywoodiano. Sim, também é cheio de referências à cultura pop e, por muitas vezes, se vale totalmente dela. No entanto cenário e roteiro são extremamente brasileiros. E isso é o que conta! Só é uma pena que, mesmo assim, não seja um ótimo filme.

Dirigido pelo estreante Afonso Poyart (que também escreveu e montou o longa), 2 Coelhos é uma colcha de retalhos, um quebra-cabeças que vai aos poucos tomando forma, numa narração não-linear do amalucado plano de redenção e vingança de Edgar (Fernando Alves Pinto), o protagonista. Amalucado, pois de real não tem nada – o que não é defeito, afinal isso é cinema e não a janela da sua casa.

A lógica desta suposta redenção não fica muito clara, mas tudo é desculpa para muita ação, tiroteio e explosões! Apesar de apelar para o intercâmbio com o cinema americano, o que se vê em cena é bandidagem das ruas e corrupção do governo – um pano de fundo tipicamente brasileiro – e um protagonista pronto a colocar fim em ambos os males (não que a idéia seja realmente exterminá-los de todo, mas, pelo menos, ter seu momento de júbilo sobre eles).

Tecnicamente, o filme não deixa nada a desejar. A direção de fotografia feita por Carlos Zalasik é impecável, cheia de contraste muito bem feitos entre tenção e descontração e alguns planos de câmera bem inusitados. Os efeitos, à cargo de Sérgio Farjalla (que já fez Mercenários e Crepúsculo) são o carro chefe do longa. E até a trilha sonora (que conta com “Sou Foda”) também é bastante instigante.

O que se vê, portanto, é um filme de ação genuinamente brasileiro, algo realmente inédito em terras tupiniquins, com mote e humor (e que humor!) tipicamente nossos. No entanto Poyart parece subestimar o espectador e brinca demais com seu filme. E isso acaba por estragar parte da diversão.

A edição não-linear ajuda a criar um clima de expectativas e até mesmo certo suspense, mas colabora para deixar o roteiro confuso e, por muitas vezes, esconder fatos importantes – como se esconder as peças de um quebra-cabeça tornasse a brincadeira mais divertida para a criança que o monta.

Outro fator negativo é a apresentação caricata de certos personagens, principalmente o deputado, que ali representa toda a corrupção do país. É difícil acreditar na cena em que o congressista, cujo único trabalho é assinar papéis e ganhar dinheiro fácil, se submeta à participar de um tiroteio e uma perseguição em alta velocidade pelas ruas de São Paulo.

A constante narração em off também empobrece bastante a história, fazendo com que todo o roteiro se prenda a ela e deixe de valer por si só.

Para um orçamento de 4 milhões de reais, pode-se dizer que Poyart fez milagre, afinal esse montante é menos da metade dos gastos de Tikhomiroff com seu desastroso Besouro, de 2009. Mesmo assim, ainda falta um quê em 2 Coelhos, algo de redondo.

Eis aí o grande defeito do cinema brasileiro: quando se trata de um filme simples e orçamento baixo, as histórias são sempre singelas, tocantes e geniais; mas se a intenção é complicar e, assim, engrandecer, o cineasta sempre mete os pés pelas mãos e se perde em sua proposta. Uma única cajadada não foi suficiente para matar estes dois coelhos.