A crítica abaixo, escrita por mim,
foi publicada originalmente na revista
Minas de Cabo a Rabo, edição de novembro de 2009.

Quentin Tarantino tem um modo extremamente peculiar de realizar seus filmes. Não só abusa de elementos tirados de histórias em quadrinhos, como também surpreende nas cores, enquadramentos e na montagem final do filme. Sem contar claro, a violência extremada, o excesso de sangue e os roteiros absurdos, tremendamente sarcásticos. É sabendo de tudo isso e ainda dando a Tarantino certa (ou grande) “licença poética” para contar sua história, que o espectador deve entrar no cinema e se preparar para assistir ao último filme de Quentin, Bastardos Inglórios (Inglorious Bastards, EUA, 2009).
O novo longa, que estreou no Brasil no último dia 23, conta uma história ficcional de fundo histórico, que se desenrola na França ocupada, por volta de 1944. Nele, Brad Pitt é Aldo Rayne, um tenente ianque que agrupa uma milícia formada por judeus-americanos, cuja missão seria desembarcar atrás das linhas inimigas e atormentar os nazistas, usando de táticas de guerrilha, muita crueldade e nada de honra. Além destes, Bastardos ainda conta a história paralela de Shoshanna Dreyfus (a belíssima Mélanie Laurent), uma judia que, após testemunhar a morte da família, consegue escapar viva e, aproveitando de uma oportunidade única, planeja se vingar dos nazistas – matando não só o assassino de seus pais como também todos os membros de Terceiro Reich.
Tarantino cria aqui um universo paralelo e caricato, com personagens que beiram o burlesco. A começar por Aldo, o Apache, que é descendente de índios. Sim, Brad Pitt, loiro e de olhos azuis, descende de índios – e exige de cada um de seus soldados cem escalpos nazistas! Além disso, ainda temos a francesinha judia que arrebata o coração de um nazista; o herói de guerra alemão que vira estrela de cinema; a atriz alemã que trabalha como agente dupla para a Inglaterra; e, não poderia faltar, o próprio Hitler, que fala aos supetões e com gestos largos, sempre irado e gritando.
Como é comum nas obras de Tarantino, Bastardos Inglórios também é dividido em capítulos, contando histórias paralelas que, ao se cruzarem, culminam num destino inesperado. No entanto, diferente de seus filmes anteriores, essa divisão parece não causar confusão ao espectador. Talvez porque o longa tenha poucos personagens e pouquíssimos cenários. Ao todo são apenas três cenários principais – onde ocorrem as cenas fundamentais – e alguns poucos que servem para quebrar a constância das imagens sempre iguais.

Hans Landa (Christoph Waltz)
O “Capítulo 1” é, com certeza, o mais tenso. Só por ele já vale a pena assistir ao filme todo. É apenas um diálogo entre Hans Landa (Christoph Waltz) e um fazendeiro francês (interpretado por Denis Menochet), porém Tarantino consegue arrancar da cena toda a tensão que não só resume tudo o que virá a seguir, como também dá o tom das quase duas horas e meia de fita. Menochet consegue expressar muito com quase nada, uma curta, mas excelente atuação. Já Waltz é o terror em pessoa, mostrando toda a sua frieza e sagacidade que lhe daria o apelido de Caçador de Judeus.
Apesar de a crítica estrangeira cair pesadamente sobre a atuação de Pitt, ela nem está tão ruim. O ator faz bem o seu papel de ianque, o perfeito estereótipo do militar norte-americano, sisudo, convencido e dono de si. O problema maior para ele foi contracenar com Christoph Waltz, no papel do coronel nazista Hans Landa. Não importa o momento do filme ou com quem ele encena – seja nas horas de rigidez ou em seus instantes de ironia – Waltz sempre rouba o ato, chamando toda a atenção para si.

Aldo, o Apache - ele é índio!
Como já é habitual na filmografia de Tarantino, também neste filme acontece toda uma mistura de linguagens. Bastardos Inglórios tem muito de faroeste. Não só pela trilha sonora, com baladas de Ennio Morricone, mas também pelo fato de o personagem de Pitt descender de índios, escalpelar inimigos e ainda ser inspirado em atores como Aldo Ray (comparem os nomes) ou mesmo John Wayne. Outras características lembram muito os westerns americanos, como a divisão clara entre mocinho e bandido; a exaltação do bandido sobre o herói (Waltz tem muito mais destaque que Brad Pitt) e as cenas de duelo, com personagens se encarando sempre de frente.
Um destaque extra vai para os enquadramentos singulares do longa. E mesmo que tenham um dedo de Tarantino, o elogio aqui fica para Robert Richardson, o diretor de fotografia (vencedor do Oscar em 2005 pelo filme O Aviador). Os ângulos das tomadas são criativos e o cenário muito bem enquadrado. Um deleite a mais, que ajudou bastante a enriquecer o roteiro.
A conclusão é uma só: Bastardos Inglórios é um disparate do começo ao fim. Portanto se sua intenção ao ir assisti-lo é ver um filme sobre a Segunda Guerra, esqueça! A época e o local estão certos, porém aquela não é a Segunda Guerra, é apenas uma maluquice saída da mente perturbada de Tarantino. A coisa toda é tão absurda, que ao fim torna-se divertida e esse parece ser o principal intuito do longa: entreter. E nada mais. Nesse ponto, porém, Tarantino nunca erra.
Os chineses são exímios cineastas quando os temas de seus longas são suas artes-marciais. Diferentes dos filmes de pancadaria hollywoodianos (os Van Daimes da vida), longas como O Tigre e o Dragão ou O Clã das Adagas Voadoras se bastam apenas por suas sequências de luta, tornando essa arte milenar algo belo de se ver, misturando-as à trama e ao drama dos personagens. Os roteiros podem até ser um pouco confusos, mas suas lutas contam uma história própria. Sem contar o design e a fotografia, que compõem quadros belíssimos em seu decorrer.
Outras falhas gravíssimas foram a ambientação e o elenco. Nenhum dos protagonistas é ator, devido à isso as interpretações são todas amadorísticas. Cada personagem parece apenas estar recitando seu texto. E o tempo da história, passada na década de 1920, é outro problema que não se consegue resolver. A pronúncia dos atores, as palavras que eles usam, o jeito de falar, nada disso é capaz de convencer que se trata de um ambiente de época. As vezes nem mesmo a cenografia é capaz de persuadir quem assiste.
Baseado na obra homônima de Edgar Allan Poe, apresento abaixo “O Barril de Amontillado”, curta-metragem de 3 minutos produzido pela minha equipe da faculdade.
Foram usadas três tapadeiras confeccionadas especialmente para o projeto. Duas delas foram revestidas de papel marchê para, assim, assemelharem-se à textura de paredes de terra escavada (como um túnel). Estas, que foram usadas ao fundo do cenário, possuem 2×2m e 3,5×1,2m, sendo que na mais longa existe um lóculo, um buraco na parede onde os corpos eram depositados.
Como que alheio a todo aquele clima carnavalesco da nobreza, o figurino de Montresor, com cores neutras, deixa transparecer sobriedade e seriedade. Levando em conta o contraste de sua caracterização com o período festivo do filme, o figurino nos dá a sensação de frieza e metódica do personagem, que usa apenas um traje social típico daquele século e uma máscara de festa para ocultar sua face.
A máscara usada por ele esconde sua face, mas não sua personalidade e suas intenções. Dividida ao meio, mostrando dois sentimentos em uma mesma face, deixa transparecer as características do personagem: por um lado, introvertido, recessivo e tristonho, porém, por outro, oculto para momentos oportunos, debochado e sarcástico, vingativo e rancoroso.
Baseando-se em estudos de heráldica, chegou-se às duas cores do figurino (vermelho e amarelo), por melhor representarem a nobreza italiana, pois são as cores mais presentes em todos os brasões, armas e escudos das cidades e das famílias italianas. Além de o amarelo representar sua riqueza e o vermelho podendo representar seu poder.
Na Itália do séc. XIX, Montresor, um jovem burguês, já não suporta toda a humilhação que sofria por seu “amigo”, o nobre Fortunato, sempre superior e arrogante; esnobe mesmo em seus momentos mais ridículos.
Minha opinião? Modéstia à parte, a Direção de Arte é o carro chefe do filme. Ele é bonito, e só! Não digo isso por ter sido eu o Diretor de Arte, mas porque é a verdade. O roteiro possui grandes falhas (mesmo com o bom argumento que possuía originalmente), em parte pela má adaptação, em parte devido aos cortes obrigatórios para encaixarmos toda a história dentro dos 3 minutos exigidos pelo projeto acadêmico.











Snaga é um sonhador, alguém que criou seu próprio mundo e hoje vive boa parte do tempo nele e em função dele. É fanático por cinema, literatura e música de qualidade e, não à toa, faz faculdade de comunicação. Vive para criar e dar vida, afinal "criamos tal como fomos criados".

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