O Robin Hood da Colônia

29 07 2008

Cartaz do filme Ned Kelly (2003)

Assisti neste mês, pela segunda vez (a primeira eu assisti em VHS há muito tempo atrás), a co-produção anglo-franco-australiana, do diretor Gregor Jordan que conta de maneira fiel e indiscutivelmente bela a história de Ned Kelly, o Robin Hood da Austrália!

Todos já ouviram falar na famosa lenda de Robin Hood, o príncipe dos ladrões, o nobre que se tornou o mais procurado ladrão da inglaterra, roubando dos ricos para dar aos pobres. Realidade ou fantasia, sua história, que surgiu por volta do século XIII, ganhou várias versões em livros e filmes e o herói inglês ganhou fãs pelo mundo inteiro. Entretanto no grande reino inglês do séc. XIX, que se estendia por vários continentes mundo afora, existiu um outro ladrão menos conhecido e menos nobre, porém não menos heróico e injustiçado. Seu nome era Edward Kelly, ou, como ficou conhecido, Ned Kelly!

Ned Kelly

O filme já começa com Ned sendo acusado e condenado injustamente por roubo de cavalos e logo salta para momento em que ele está saindo da prisão, após 3 anos de confinamento. E daí em diante discorre por toda vida do herói, sua família e seu bando, entremeado por belíssimas cenas da paisagem australiana. Sem contar a excelente atuação do já saudoso Heath Ledger, que parece não ter sido escolhido apenas pelo talento, mas também por ser bem parecido fisicamente com Ned.

Para quem não conhece a história, Ned nasceu na Austrália, então uma grande colônia penal inglesa, em meados da década de 1850. Descendente de irlandeses e filho de um fora-da-lei, desde pequeno foi perseguido pela polícia local, que queria apenas encontrar um culpado para qualquer delito que acontecesse. Não importava o delito ou o local, sempre que as autoridades coloniais precisavam acusar alguém, eram os irlandeses ou seus descendentes os escolhidos como culpados.

Ledger e Orlando Bloom

Robin Hood era um nobre inglês. Ned Kelly era apenas um camponês colonial. No entanto ambos foram injustamente acusados e perseguidos pelas autoridades e se tornaram grandes foras-da-lei, formaram um grande bando e passaram a ser temidos pelos poderosos e adorados pelos pobres! Assim como Hood, Ned passou a viver escondido com seu bando em florestas e cometendo assaltos aqui e ali.

Porém não é necessário conhecer sua história para se comover com o filme. O roteiro consegue fazer com que o espectador creia nos atos do personagem e em suas convicções e ideais. É possível se importar e temer pela vida do protragonista tão bem interpretado, principalmente nos momentos mais dramáticos.

Heath Ledger como Ned Kelly

Um ponto forte do longa é que ele foge daquele padrão hollywoodiano no qual deve sempre haver uma historinha de amor. Em momento algum o filme é um romance. Está sempre focado nas artimanhas de Ned e seu bando e na falta de excrúpulos da polícia colinial vitoriana.

Um filme que vale a pena ser visto e revisto e uma história que merece ser conhecida e difundida mundo afora, tal qual a Robin Hood.

Curiosidade: a lenda de Ned Kelly rendeu pelo menos 6 longa metragens. O mais famoso deles, de 1970, tinha o cantor Mick Jagger no papel principa.

Ficha Tecnica:

Direção: Gregor Jordan
Elenco: Heath Ledger, Naomi Watts, Orlando Bloom
País: Inglaterra, França, Austrália
Ano: 2003





Hitchcock

15 05 2008

O que se encontra abaixo é um trecho de um trabalho acadêmico feito pelo meu grupo da faculdade no decorrer do segundo período, em 2007. O capítulo aqui publicado foi o que coube a mim elaborar. O trabalho completo possui 34 páginas, 10 capítulos e 17 referências. Muito provavelmente, se tudo der certo, será apresentado e publicado no Congresso Científico Metodista 2008.

Senhoras e senhores, eu vos apresento a “Infância e Carreira de Alfred Hitchcock”, o mestre do Suspense:

 

Terceiro filho dos verdureiros William e Emma Hitchcock do East End londrino, Alfred Joseph Hitchcock nasceu em 13 de agosto de 1899. Mesmo não sendo filho único, Hitchcock, como era chamado, foi um garoto mimado até seus 15 anos, quando seu pai adoece e vem a falecer, fazendo-o apegar-se muito a mãe, que o incentivou freqüentar e se educar em rígidos colégios católicos.

No educandário St. Ignatius College, os bondosos padres jesuítas tinham o costume de contemplar os autores de pequenas indisciplinas com alentados castigos corporais. Mas o pior não era a palmatória, mas a faculdade concedida aos faltosos de escolherem o horário em que seriam punidos. Naturalmente, todos os meninos procuravam adiar o máximo possível o castigo: sutil maneira encontrada pelos discípulos de santo Inácio de agravar psicologicamente a condenação prometida.

Além do colégio, a educação familiar também era rigorosa. Quando menino de cinco ou seis anos, “após cometer um pequeno deslize, o pai ordenou-lhe que levasse uma carta a um delegado amigo seu. Após ler o conteúdo, o policial trancafiou Hitchcock numa cela, libertando-o alguns minutos depois, não sem antes explicar convenientemente: “Veja o que te pode acontecer se não for um bom menino.”. (ARAÚJO, 1984. p.11)

Hitchcock não era o que se poderia chamar de um homem esbelto; com relação às moças, sentia-se muito tímido, e, embora pudesse ser considerado inteligente, não era rápido de raciocínio. Estas características o tornavam-no alvo constante de piadas e brincadeiras. Como fuga para a educação severa e para a timidez, tornou-se, ainda na adolescência, um leitor fervoroso e freqüentador assíduo de teatros. Já crescido, passou a freqüentar os cinemas, cujo público, naquela época, era formado por jovens como ele.

Entre 1913 e 1920, época da primeira grande guerra, Hitchcock, que deixara os estudos aos 14 anos, tentou vários tipos de trabalho, até encontrar sua verdadeira vocação. Integrar-se, fazer de algum modo parte do mundo: pode-se dizer que esse foi um dos problemas do jovem Hitchcock, e o cinema mostrava ser nesse sentido o mediador ideal. Dessa forma, aos vinte anos, conseguiu seu primeiro emprego na filial britânica da produtora cinematográfica norte-americana Famous Players Lask. Ali encontrou um pouco dos métodos e da seriedade profissional que tanto admirava nos filmes de Hollywood, características que não encontrava no cinema inglês. No início, exercia várias funções: escrevia títulos e subtítulos, trabalhava como requisitador, projetava cenários, escrevia roteiros, selecionava atores e era assistente administrativo.

Foi numa filmagem que Hitchcock conheceu Alma Lucy Reville, que já trabalhava na indústria cinematográfica quando Alfred começou. Alma era considerada brilhante montadora e redatora, e todos esperavam que fizessem uma bela carreira como diretora. No entanto, Alfred e Alma se casaram, e ela passou a trabalhar apenas com o marido. Mais tarde, quando seu nome de solteira passou a aparecer nos créditos de filmes, ficou patente a importância do seu trabalho para Hitchcock. Em 1928 nasceu sua única filha, Patrícia Hitchcock, que teve sua carreira de atriz lançada pelo pai, chegando a participar de pequenos papeis em alguns de seus filmes e entre eles, Psicose.

Alfred passou por um período de aprendizado em Berlim, numa co-produção anglo-germânica, e seus dois primeiros filmes foram encenados parcialmente em Munique. O cinema alemão dos anos 1920 era um dos mais aclamados em todo o mundo. Uma lição que veio a aprender nos estúdios de Neuebabelsberg foi: quanto maior o domínio técnico do diretor sobre o filme, tanto maior o domínio que exerce sobre a fantasia. Enquanto trabalhava como assistente de Graham Cutts na produção de “The Blackguard”, ele conheceu F. W. Murnau que filmava, no set ao lado, nada menos que “A Última Gargalhada”. Já fascinado com a eficácia dos técnicos alemães, Alfred observou como Murnau distorcia absurdamente os cenários e ao final obtinha um resultado perfeitamente realista. “O que se vê no set não importa”, disse Murnau. “A única verdade que conta é o que aparece na tela”.

“Number Thirtheen” (1922), o primeiro filme produzido e dirigido por Hitchcock, não chegou a ser terminado. “Always Tell Your Wife” (1922) foi concluído pelo ator Seymour Hicks e por Hitchcock, porque o diretor original adoeceu. Por isso, é dito que o primeiro filme realmente dirigido por Alfred foi “The Pleasure Garden” (1925), onde ele usou a falsa perspectiva de Murnau, recurso que voltaria a servir-se muitas vezes no futuro. “The Pleasure Garden” não foi, a opinião é unânime, um filme brilhante. Mas dele Hitchcock pôde retirar preciosas lições, tal como o orçamento modesto, a carga de dirigir uma estrela hollywoodiana e contornar drásticas coincidências, como apreensões da alfândega italiana e um assalto.

Mais tarde, em 1927, Hitchcock produz “The Lodger”, o primeiro filme de suspense da história, inventando, assim, este que é talvez o único gênero essencialmente cinematográfico, dando início ao que seria na verdade o seu estilo de filmar.

O Fato de Alfred conhecer seu ofício a fundo e investigar cada minúcia da nova arte contribuiu para que ele se transformasse em um dos mais perfeitos técnicos do cinema. A passagem do cinema mudo para o falado, que determinou o fim da carreira de muita gente, foi enfrentada por ele sem dificuldades. Em pouco tempo já não era mais conhecido apenas na Inglaterra, e começavam a aparecer propostas de Hollywood. Finalmente Hitchcock resolveu aceitar uma dessas propostas e transformou-se num diretor de categoria internacional. E em 1955 naturalizou-se norte-americano.

Seus filmes respiravam sexo e violência, elementos sempre apresentados com elegância e refinamento. Poucos cineastas conseguiram dominar as técnicas do seu ofício para produzir os efeitos desejados na platéia como Hitchcock o fez durante toda a sua carreira. A atração entre seres do mesmo sexo o interessava, e isso pode ser visto em seus filmes. Surpreendentemente, seus personagens masculinos externam, amiúde, medo dos femininos. Quando tratam da relação entre gerações, sempre aparece uma mãe exercendo um poder central sobre o filho adulto. Com seus filmes, Hitchcock construiu um mundo único, e, apesar disso, não recebeu um Oscar – o maior prêmio de Hollywood – por nenhum deles. No final da carreira, em 1967, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood concedeu-lhe o Prêmio Irving Thalberg – um Oscar honorário – pelo conjunto de sua obra.

Mesmo depois de velho e respeitado por todos à sua volta, Hitchcock não se relacionava muito bem com as pessoas. Era um solitário cercado por uma equipe de trabalho confiável. Seus filmes eram a criação de um homem e pertenciam a um gênero único: o gênero Hitchcock.

Amor, morte, culpa humor, terror e, logicamente, suspense foram o “cardápio” que o Mestre servia de maneira genial, mesmo nos piores momentos da sua obra e da sua vida. Muitos tentaram copiá-lo, mas poucos conseguiram chegar perto da sua sutileza e genialidade. O mundo mudou e, logicamente, sua obra sofreu com as mudanças, em particular nos últimos 20 anos da sua vida. Mas, fazendo uma espécie de resumo, a “ferrugem do tempo” não conseguiu destruir uma das obras mais geniais da cultura do século XX.

Em 54 anos de atividade, Hitchcock fez 53 longas-metragens. Em maio de 1979 a produção de “The Short Night” foi interrompida e Hitchcock, pouco tempo depois, fechou seu escritório na Universal Pictures. Em 29 de abril de 1980, Sir Alfred Hitchcock morreu.

Algum tempo antes de sua morte propôs o epitáfio que gostaria de ver inscrito em seu túmulo: “Veja o que te pode acontecer, se você não for um bom menino.”