A resenha a seguir foi feita às pressas
para cumprimento de uma das matérias da faculdade.
Trate-se de apenas 1/4 do livro
de Schafer e a publico aqui apenas a título de curiosidade.

Resultado dos estudos do pedagogo e compositor canadense R. Murray Schafer, A Afinação do Mundo é um livro que trata da relação entre o homem e o ambiente sonoro que o envolve, cujo o próprio autor denominou “Paisagem Sonora”. A resenha que é aqui apresentada refere-se à segunda parte do livro, a qual contém um exame detalhado da paisagem sonora pós-industrial, a revolução elétrica e um ensaio sobre a relação da música com o ambiente sonoro do compositor.
No primeiro capítulo desta parte, o destaque vai para a Revolução Industrial e todo o montante de novos sons que se originaram dela, inundando os grandes centros urbanos com o que, mais tarde, foi chamado de poluição sonora. Schafer nos mostra como a nova gama de materiais (como o ferro fundido) e de fontes de energia (como o carvão e o vapor) mudaram amplamente a paisagem sonora das cidades, substituindo os sons das ferramentas manuais e veículos de madeira, da música operária e do canto dos pássaros pelos sons pesados do martelar contínuo das indústrias, pelo resfolegar e o silvo agudo das locomotivas, ou, mais tarde, pelo ronco forte dos motores a combustão e as buzinas dos trânsitos das grandes cidades. Começa-se aqui uma das críticas mais relevantes de Schafer: a relação do som com a qualidade de vida, pois, é dito no livro, que ainda na primeira fase da Revolução Industrial, muitos dos operários fabris passaram a sofrer de surdez.
Já no capítulo seguinte, referente à Revolução Elétrica, a crítica do autor se torna mais subjetiva, relacionando as capacidades tecnológicas de gravação e transmissão de sons a longas distâncias como algo depredatório. Dá-se a entender (pois nos são apresentados apenas esses tipos de exemplos) que o rádio, invadindo sem permissão nossa privacidade doméstica, com sua programação contínua, desprovida de silêncio, se tornou um vilão para os apreciadores dos sons e ruídos, naturais ou artificiais do ambiente. Ou mesmo um vilão para a própria música. Seria essa a esquizofonia cunhada pelo autor: o “empacotamento e estocagem do som e o afastamento dos sons de seus contextos originais.” Algo difícil de ser concebido hoje, 40 anos após a publicação do estudo, numa sociedade cada vez mais dependente e vivente dessas tecnologias.
Há ainda neste capítulo, uma seção inteiramente dedicada à Moozak, com citação, até mesmo, a um documento produzido pela UNESCO, em 1969, e que se diz contra esse suposto mau uso da música. Moozak, de acordo com o livro, é a redução da música a ruído de fundo, som ambiental, ou, simplesmente, a música para não ser ouvida. São as discretas músicas de elevadores e supermercados. O documento da UNESCO dizia que tais músicas eram uma “invasão à liberdade individual” e pede ao Comitê e às autoridades competentes, “medidas capazes de pôr fim a esse abuso”. Uma petição altamente conservadora e difícil de entender hoje em dia, afinal a tal Moozak ainda existe e, quando não relaxante, simplesmente nos passa despercebida e sem incômodos ao ouvinte, seja no elevador, no restaurante ou no mercadinho da esquina.
O terceiro e último capítulo desta segunda parte d’A Afinação do Mundo refere-se a essa mudança de percepção da música. Para os apreciadores de tal arte, este talvez seja o melhor capítulo do livro, afinal não só trata de canções e melodias, como também da história da música em si, citando nomes como os de Beethoven, Wagner, Weber etc, além de suas respectivas composições. Aqui o autor discorre da relação do músico com a atmosfera na qual este vivia, sugerindo em vários momentos quais seriam as inspirações de alguns deles, como os motivos para Haendel e Haydn descreverem tão bem a natureza em suas obras, enquanto Beethoven usava de elementos industriais em suas composições. Pena Schafer expor aqui suas idéias de uma maneira tão restritiva, o que dificulta bastante o entendimento de um leigo. Ao meu próprio exemplo, a única de suas considerações que compreendi se referia ao uso dos pássaros como um contraponto à brutalidade na ópera do Anel dos Nebelungos, de Wagner, a única das citadas que conheço com certa profundidade. Devido a isso, capítulo acaba por deixar certo grau de frustração no leitor desavisado.
Aliás, essa parece ser a conclusão de todo o livro, ou pelo menos desta segunda parte, pós-industrial, aqui referida: a frustração diante de um monólogo altamente restritivo. Sem contar muitas conclusões e acusações do autor, por vezes infelizes ou deliberadas. Como o fato de dizer que, “se o canhão não fizesse barulho, não seria usado na guerra”, como se apenas o som fosse capaz de intimidar. Ou o momento em que compara um carro a um ânus e ainda cita Freud, em contexto deslocado, como para dar mais importância à amalucada comparação. Ou ainda sua irritação ao contar que uma aeromoça interrompeu uma obra de Wagner para anunciar que os banheiros do avião estavam entupidos.
Apesar de parecer enfadonho e às vezes desequilibrado, o livro de R. Murray Schafer tem seu quê de pragmático, tentando resgatar o paraíso auditivo inicial do homem e propondo um programa sistemático de treinamento dos ouvidos para escutarem de maneira mais distinta os sons, em especial os do ambiente. E ainda expõe, mesmo que de maneira não muito clara, alternativas para que o homem contemporâneo – imerso em um mundo de sons e ruídos que muitas vezes passam despercebidos – não ensurdeça perante a parafernália sonora que ele mesmo criou.


Snaga é um sonhador, alguém que criou seu próprio mundo e hoje vive boa parte do tempo nele e em função dele. É fanático por cinema, literatura e música de qualidade; formado em Comunicação e trabalha com TV e Cinema. Vive para criar e dar vida, afinal "criamos tal como fomos criados".






























esse da paisagem sonora é uma treta
apague essa merda
Gostaria de saber se há algo em DVD ou Cd para que eu possa fazer um bom trabalho com os alunos
Desconheço, Nilse.
Sou musico e tambem educador, caro colega quero dizer que gostei da sua resenha mas devo salientar que foi equivocado em sua analise do capitulo final do livro, se voçê soubesse como é complexo o que esse autor prepoe, ficaria espantado, tanto é que vou levar parte do trabalho dele para meu doutorado, só para se ter uma ideia de como interpretar Murray Schafer, é preciso ter conhecimento em psicologia, fisia-quantica, teologia, psicoacustica, matematica e principalmente ser um excelente musico compositor, tanto é que tiver que apresentar textos ao qual meu orientador deveria ler antes de fazer juizo do meu trabalho.
Colega não é uma critica, considere como um acrescimo.
Crítica ou acréscimo, é sempre bem-vindo!
Bom, não sou especialista em nada disso que você disse, mas ainda insisto em dizer que Schafer é muito cricri com certos assuntos – alguns, aliás, extremamente ultrapassados. Mas foi apenas a opinião que tive ao ler o capítulo. Fora isso, desconheço o restante do trabalho do autor.
Seu doutorado é sobre o que? Tendo algum material (coisa simples), gostaria de ver.
Abraços e volte sempre!
SEXO DEMAIS