Operação Valquíria: a outra Face da Alemanha Nazista

17 09 2009

Capa Operação ValquíriaNa escola, quando o assunto é Segunda Grande Guerra, aprendemos como Hitler fez a cabeça de todos os alemães, reergueu o país e dominou metade da Europa, se aproveitando do trabalho escravo dos judeus. Nos cinemas, através dos olhos da vitória, vemos sempre os judeus sofredores, os alemães tiranos, o exército sem escrúpulos. Um país de bárbaros que acreditava que a raça ariana era superiora às demais e que, devido a isso, poderia conquistar o mundo e execrar o restante da humanidade.

Estamos acostumados a ver sempre o nosso lado da Segunda Grande Guerra. Seja nas matérias da escola, seja no cinema ou em romances, observamos os fatos sempre sob a mesma perspectiva: a dos Aliados, a vitoriosa. E se, ao ler um único livro, você descobrisse que a coisa toda não é bem assim? Que a História como a conhecemos é falha e extremamente parcial? Que o exército alemão era formado de homens honrados, aplaudidos e respeitados até pelos inimigos; leais única e exclusivamente ao país e não ao Führer?

Pois é o que se descobre ao conhecer a narrativa em primeira pessoa do alemão Philipp Freiherr von Boeselager, o último conspirador que sobreviveu à retaliação contra o complô que pretendia matar Hitler, denominado por eles próprio de Operação Valquíria.

Seguindo sua memória, Philipp, que morreu em 2008, narra parte da sua infância, da criação liberal que recebeu de seus pais e da educação rígida e cheia de princípios morais nos colégios cristãos. Nesse íntere, mostra como era a Alemanha após sua derrota na Primeira Grande Guerra, e como o país partiu da depressão imposta pela Tríplice Entende à emersão do Partido Nazista e o retorno à categoria de Potência. Até chegar, finalmente, ao cenário da Segunda Guerra Mundial.

Philipp Boeselager1945

Philipp em 1945

Através do testemunho de Phiplipp, conhecemos um outro lado do exército alemão, honrado, leal, justo com seus inimigos, e com homens que se tratavam como uma grande família. Além da fraternidade entre os próprios germanos, existia também a compaixão para com os inimigos, como no dia em que Georg, irmão de Philipp, tomou um vilarejo inteiro se bastando apenas da diplomacia e, ao fim, ainda promoveu uma grande ceia onde alemães e ingleses comeram juntos e amigavelmente.

Partindo do front oeste para o leste, já na campanha contra a Rússia, existe também no livro o precioso relato do jovem Karl von Wendt, um precioso cronista da companhia de Georg: “O povo russo recusa cada vez mais esta guerra à medida que progredimos, e chega a tratar o próprio exército russo de ‘bolcheviques’[...] Prisioneiros apresentam medalhas religiosas como prova de sua boa-fé quando lhes perguntamos se são bolcheviques. Na população civil, não se passa quase um dia sem que pessoas, em geral de uma certa idade, nos digam que comunistas continuam escondidos na floresta. [...] Creio que a população civil está 70% do nosso lado – sobretudo depois de conviverem alguns dias com soldados alemães e poderem observar que não somos assassinos nem ladrões como os vermelhos [...].”

O que dá-se a entender no desenrolar da narrativa, é que o exército pouco sabia das barbáries nazistas. Histórias sobre os campos de concentração e a dizimação de judeus e ciganos chegavam ao front apenas como boatos. Os homens sabiam que algo acontecia, mas não tinham certeza. E chega a conclusão de que as atrocidades e o terrorismo racista eram cometidos única e exclusivamente pelos SS, a organização paramilitar ligada ao Partido Nazista.

Finalmente, quando já não se podia mais negar o Holocausto e, principalmente, quando parte do exército viu-se massacrada sem piedade numa guerra que já estava perdida, grandes nomes surgem na narrativa de Philipp e, no mais absoluto sigilo, dá-se início ao complô contra do Führer. Liderado pela mente afiada do general Tresckow, a Operação Valquíria agiu às escondidas, se preparando para o atentado que daria fim à vida de Hitler e ao seu regime de terror.

Mais do que um simples grupo de conspiradores, a Operação Valquíria estava pronta para dar um golpe de estado, tendo sob seu comando uma companhia inteira de cavalaria, com cerca de mil homens.

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Philipp em 2004

Infelizmente, como é do conhecimento de todos, nenhum dos atentados, por mais que tenham sido minuciosamente planejados, surtiu efeito algum e Hitler continuou no poder até o final da Guerra. E num tempo de luto, como o próprio título do capitulo final já sugere, todos os envolvidos foram caçados e mortos pelo regime. Com exceção de um único que, não acreditando no acaso, sabe que sobreviveu para testemunhar ao mundo que existia, sim, honra e justiça bem no coração da Alemanha Nazista.

Curiosidade: Existem 3 livros com o título de “Operação Valquíria”, publicados recentemente no Brasil. O livro de Philipp, que realmente vivenciou os fatos, e outros dois escritos por historiadores. O recente filme de Hollywood, entretanto, não foi baseado diretamente em nenhum dos três livros.

Ficha Técnica:
Título:
Operação Valquíria (Wir Wollten Hitler Töten)
Autor: Philipp Freiherr von Boeselager
País: Alemanha
Publicação Original:
Publicação Lida:
Editora Record, 2009





O Círculo da Jogatina

8 09 2009

O Jogador1Dostoievski, considerado o maior gênio da literatura mundial, é um autor difícil. E quando digo “difícil”, não me refiro à arcaiquicidade de seus textos, nem seu rico vocabulário ou mesmo aos 130 anos que nos separam. Até porque tais abordagens não são problemas, afinal seu texto é corrente, seu vocabulário não é tão difícil e a época em que a história se passa poderia muito bem ser a nossa própria. Logo a dificuldade recai sobre o ideário de sua obra, sobre os fatos que nela sucedem ou sobre o significado escondido por trás de cada palavra, presentes ali por um propósito não explicado na narrativa e que deve ser entendido pelo discernimento do leitor. É esse o caso da narrativa feita por Alexis Ivanovitch, protagonista do livro “O Jogador”, onde, por muitas vezes, a loucura e o vício do personagem nos passariam despercebidos, não fosse o bom senso do leitor para discerni-los – publicada em forma de diário, possui apenas o ponto de vista do narrador, o que faz com que sua corrupção seja mostrada de maneira natural, sem críticas ou ressalvas.

De maneira peculiar e até mesmo com certo mistério, o diário nos conta um pequeno intervalo de tempo na vida de uma tradicional e falida família russa (apenas algumas semanas de uma longa viagem pela Europa). Durante a viagem, o general, chefe da família, conhece e se apaixona por mademoiselle Blanche, uma francesa 30 anos mais jovem que ele e com passado duvidoso. Apesar de ainda manter a pose, apostar alto na roleta e se hospedar com toda a pompa num dos mais caros hotéis de Ruletenburg, o general está falido. Sem dinheiro e com seus bens todos penhorados.

O Jogador2Enquanto Alexis se perde de paixões pela enteada do general, Paulina Alexandrovna, e se humilha diante dela para provar todo o seu amor, o general, desesperado, espera apenas a notícia da morte da avozinha, uma magnata russa dada como caquética e moribunda, para que, com sua herança, ele possa finalmente desposar a interesseira Blanche. É nesse intere que, vendo-se sem dinheiro, Paulina obriga Alexis a jogar por ela na roleta, oferecendo em troca metade dos ganhos.

Eis que, para a surpresa de todos, Antônia Vassilievna, a avó, cuja morte todos esperavam com ansiedade, surge no hotel, viva, extravagante, exagerada e sem papas na língua! Curiosa com os cassinos e a tão famosa roleta, a velha perde todo o seu dinheiro, ficando apenas com as propriedades que lhe restavam na Rússia. Uma história complicada, cheia de altos e baixos e reviravoltas. Uma ironia do começo ao fim, pode-se dizer.

Entretanto Dostoievski nos conta neste livro nada mais do que parte de sua própria história. Pois ele mesmo, após um período conturbado de sua vida, se torna um viajante da Europa, jogador compulsivo e viciado na roleta de Blanc. “O Jogador” é, portanto, uma história quase autobiográfica, uma sedução a mais do livro, pois não é apenas uma invenção ou criação espontânea e sim um sentimento e uma experiência tirados do mais íntimo recanto da vida do autor.

 

O Jogador3 

Fiódor Dostoiévski

Através da visão de Alexis Ivanovitch, o leitor conhece a mente doentia de um jogador compulsivo, fazendo contas complexas e ilógicas (e crendo nelas) para acertar o próximo número ou seqüência onde a bolinha irá cair na roleta. Fica nítida a cada página a maneira como a aposta se torna um círculo vicioso na vida do jogador, fazendo-o ganhar e perder e ganhar outra vez para repor o que perdeu, só para, na rodada seguinte, perder tudo novamente.

Claro que, seguindo sua fama, Dostoievski às vezes demora a cativar o leitor, que precisa de paciência para realmente perceber a corrupção do personagem. Entrar na mente de Ivanovitch, conhecer sua paixão avassaladora, tentar descobrir juntamente com ele o mistério que envolve mademoiselle Blanche e deixar-se envolver pela jogatina é algo que só se consegue após um longo e penoso caminhar, página após página. Porém vale a pena chegar ao final e se surpreender ao descobrir que não existe redenção, apenas o círculo que se fecha e recomeça.

Ficha Técnica:

Título: O Jogador – Do diário de um Jovem
Autor: Fiódor Dostoievski
País: Rússia
Publicação Original: 1866
Publicação Lida: L&PM Pocket, 1998 (Assim como no Drácula, essa publicação também possui vários erros de digitação.)