Minas é a Mãe. Bença, Mãe!

21 02 2009

Há muitos anos encontrei, enquanto navegava pela internet,
um texto muito bonito sobre a peculiar maneira de ser mineiro.
Li e reli esse texto várias vezes no decorrer do tempo,
me emocionando ao me indentificar com cada uma
das características nele citadas.
Só recentemente descobri quem é o autor do texto:
ninguém menos que Herbert de Souza, o Betinho.
E agora, tão longe de casa,
nada melhor do que relembrar Minas
em palavras e ainda compartilhar com vocês
esse genial tributo à Pátria Mãe de Betinho,
minha e de tantos mineiros:

 minas-gerais

betinhoO jeito mineiro de ser é o quê? E por quê? O ser mineiro é um modo particular de ser que se pode descrever mas que é difícil de se entender. É mais para calado que falante. Quem fala muito dá bom dia a cavalo, dizia a minha mãe para conter o meu ímpeto falatório. Quem fala se expõe, se arrisca, pode parecer bobo, meio idiota, exibido, ridículo. Mineiro morre de medo do ridículo, de ser gozado, criticado. Quer matar um mineiro? Ria dele! Por isso todo mineiro toma a iniciativa da gozação. Chega, fica num canto e arranja logo alguém pra gozar. É capaz de tomar a iniciativa de gozar a si próprio para não ser gozado por outrem. Falar mal de alguém é um modo de se proteger da fala do outro. Mas falar mal pode ate ser um modo de falar bem, porque o pior é não ser falado. Cair no ouvido.

Fica calado e fica quieto, gesticular também não dá, pode parecer espalhafato, teatro, representação. Quem se mexe desperta atenção, instiga a caça, fica vulnerável, na mira do ataque. Ficar quieto, fingir de morto, no silêncio, na tocaia de si próprio, protegido do outro. Mineiro que veio do mato sabe de caça e de caçador. Milton já cantou o “Caçador de Mim”.

Mineiro não abre a guarda, não mostra a casa, não exibe a riqueza, não grita da janela, não sai correndo de jeito nenhum. Chega devagar, fica devagar, e sai mais devagar ainda. Tem que se proteger de algo.

Mineiro olha por cima, mas não de cima. Mineiro falante veio de fora. Mineiro direto, aberto, agressivo, é desvio de rota, não é caminho normal. Mineiro é ético, não se arrisca no roubo, no assalto, na aventura. O erro pode não dar certo. Mineiro é mais da ordem, do caminho percorrido, conhecido, estabelecido. É mais status quo que mudança de status. É mais terno que manga curta, mais sapato que tênis, mais automóvel que carro esporte. Mais casamento que caso fora de casa. Mais café preto que chás variados.

Já a mineira é tudo isso que o mineiro e muito mais. Se pede com o olhar, se esconde na recusa. É mãe mesmo quando não tem filhos. Até os 20 é um pecado, depois é muito mais. Transpira todos os pecados numa virtude só. Surpreende depois te esquece. Te ama com paixão depois te deixa sem dó nem piedade. Basta por os óculos escuros ou mesmo ray-ban que vira outra pessoa, sem remorso. Porque a mineira não se reduz ao mineiro, foi muito além. Mineira é ótima, diferente dos demais seres humanos, vem de um fundo que ninguém sabe, de um interior que não tem mapa, fronteiras desconhecidas.

E tudo isso pode ser visto e sentido, não explicado. Pode ser descrito mas não fundamentado. É porque veio do interior ou nunca saiu de lá. É porque sempre foi camponês e se escondeu detrás das serras e dos montes. É porque foi judeu novo, migrante corrido, foragido desconfiado do que chega atrás de suas origens. É porque teme a Deus e conversa com o diabo. É porque não tem certeza do certo e duvida até do duvidado. Gosta do reverso e começa tudo pelo contrário torcendo para dar certo. É porque se ri do moderno é porque sabe que tudo no fundo é mesmo muito antigo, sempre renovado.

Mas porque tudo isso, de onde veio e para onde vai? Ninguém vai saber por que não se fala, se olha e se ri como se tudo já tivesse sido dito. O sabido do ignorado.

ouro_pretoSe um dia o Brasil acabar, Minas continua. Tem horizonte para tal, tem substância. Para durar, tem ainda muitos casos para contar, distancia a percorrer, pecados a espiar, contas para fazer, saudades a matar.

Minas vive em dívida consigo mesma, fazendo promessas para pagar. É sua forma de ser eterna nesse trivial do cotidiano. Vive sangrando minério, exportando seu ser para o mundo, em silenciosos trens que não param de ir sem nunca mais voltar. Levando Itabirito, Itabira, Conselheiro Lafaiete. Montanhas. Minas é o único lugar do mundo que exporta montanhas e não fica rica.

Por tudo isso é que quando tenho vontade de rever o Brasil vou a Minas Gerais. (…) E volto cheio de mim, carregado de coisas, como se tivesse mergulhado no tempo e me perdido no espaço, virado de repente um ser planetário vivendo no interior do mundo.

Minas para mim tem várias cidades e poucos endereços: é Bocaiúva, Neves e Belo Horizonte. É rua Ouro Preto e Ceará. A primeira mudou de nome, na segunda sumiram com minha casa. Minas na verdade hoje é mil amigos que não vejo e minha mãe. Bença mãe!

Herbert de Souza, o Betinho





Novos Heróis

15 02 2009

jmgHá algumas semanas, por mero acaso, meu irmão recebeu por MSN uma música de uma dupla da qual nunca ouvi falar. Pelo nome, pensei a princípio que fosse mais um desses pseudo-sertanejos, chamados de universitários. Mal sabia que estava prestes a me tornar um fã.

Logo que ouvi a música fiquei maravilhado. Não é todo dia que se vê músicos com coragem e audácia para gravar canções desse tipo, indo na contra-mão das atuais modinhas e ainda criticando-as, ou mesmo exaltando seu bom gosto, sem vergonha de mostrar que ainda é possível compôr com qualidade sem espantar o público.

Enfim, a dupla a qual me refiro é formada por Julinho Marassi e Gutemberg, dois músicos do Rio de Janeiro, considerados a dupla nº 1 do Sul Fluminense, ou simplesmente “A Dupla”. E a música é a chamada ”Aos Meus Heróis”, composta, de acordo com Julinho, “por saudade da MPB e de escutar todos esses artistas maravilhosos” que fizeram parte de sua juventude.

Abaixo estão um vídeo do YouTube com a música referida (não reparem nas imagens, elas distorcem um bocado a música) e também a letra completa. Porém é possível, no site da dupla, ouvir todas as músicas de seus 2 CDs e ainda baixá-las gratuitamente.

“Ao Meus Heróis”
Composição: Júlio César Marassi

Faz muito tempo que eu não escrevo nada,
Acho que foi porque a TV ficou ligada
Me esqueci que devo achar uma saída
E usar palavras pra mudar a sua vida.

Quero fazer uma canção mais delicada,
Sem criticar, sem agredir, sem dar pancada,
Mas não consigo concordar com esse sistema
E quero abrir sua cabeça pro meu tema

Que fique claro, a juventude não tem culpa.
É o eletronic fundindo a sua cuca.
Eu também gosto de dançar o pancadão,
Mas é saudável te dar outra opção.

Os meus heróis estão calados nessa hora,
Pois já fizeram e escreveram a sua história.
Devagarinho vou achando meu espaço
E não me esqueço das riquezas do passado.

Eu quero “a benção” de Vinícius de Morais,
O Belchior cantando “como nossos pais”,
E “se eu quiser falar com…” Gil sobre o Flamengo,
“O que será” que o nosso Chico tá escrevendo.

Aquelas “rosas” já “não falam” de Cartola
E do Cazuza “te pegando na escola”.
To com saudades de Jobim com seu piano,
Do Fábio Jr. Com seus “20 e poucos anos”.

Se o Renato teve seu “tempo perdido”,
O Rei Roberto “outra vez” o mais querido.
A “agonia” do Oswaldo Montenegro
Ao ver que a porta já não tem mais nem segredos.

Ter tido a “sorte” de escutar o Taiguara
E “Madalena” de Ivan Lins, beleza rara.
Ver a “morena tropicana” do Alceu,
Marisa Monte me dizendo “beija eu”
Beija eu, Beija eu Deixa que eu seja eu
Beija eu, beija eu deixa qe eu seja eu

O Zé Rodrix em sua “casa no campo”
Levou Geraldo pra cantar no “dia branco”.
No “chão de giz” do Zé Ramalho eu escrevi
Eu vi Lulu, Benjor, Tim Maia e Rita Lee.

Pedir ao Beto um novo “sol de primavera”,
Ver o Toquinho retocando a “aquarela”,
Ouvir o Milton “lá no clube da esquina”
Cantando ao lado da rainha Elis Regina.

Quero “sem lenço e documento” o Caetano
O Djavan mostrando a cor do “oceano”.
Vou “caminhando e cantando” com o Vandré
E a outra vida, Gonzaguinha, “o que é?”

Atenção DJ faça a sua parte,
Não copie os outros, seja mais “smart”.
Na rádio ou na pista mude a seqüência,
Mexa com as pessoas e com a consciência.

Se você não toca letra inteligente
Fica dominada, limitada a mente.
Faça refletir DJ, não se esqueça,
Mexa o popozão, mas também a cabeça.

Para conhecerem melhor a dupla, acessem: www.adupla.com





Breve Intensidade

12 02 2009

Absorvido por sua leitura de “Furacão Regina”
e pela recente mini-série da Globo “Maysa”,
Magá compõe mais um artigo,
desta vez falando sobre como a vida intensa de certas
celebridades acaba por matá-las,
na maior parte das vezes, cedo demais.
Enfim… abaixo está postado mais um belo texto do Magalhães.

elis-regina-e-maysa

Enquanto todo o país assistia os devaneios da cantora Maysa, na minissérie da TV, eu me pego absorvido na leitura da biografia de Elis Regina em Furacão Elis da jornalista Regina Echeverria. Se as semelhanças entre as duas é grande, a distância entre elas também é expressiva, no entanto, uma coisa chama a atenção em ambas: a breve intensidade de suas vidas.

Parece que as pessoas que vivem intensamente, como elas e como outros nomes da música, da literatura e da política são muito mais dos outros do que deles mesmos. Parece que a intensidade com que experimentam as coisas, as consomem, as expõem. Viver assim pode até ser bonito, mas também é doloroso. Leva rápido gente que admiramos, e só admiramos, por que são assim. São acima de tudo personagens interessantíssimas, um pouco perdidas, e sempre com uma pergunta à frente de suas vidas.

A resposta? Difícil de dizer, nem todo o sexo, nem todo o dinheiro e fama puderam lhes dar a paz que buscavam. Assim, acontece também conosco, meros mortais de um circo de fantasias chamado mundo. As pessoas intensas, são sobre tudo pessoas marcadas pela falta. Seres faltosos, isso, somos todos nós, mas alguns estão mais submetidos a elas. Desta forma, não raro, são essas intensas-faltosas-breves existências que têm as grande sacadas sobre o mundo. A grande dúvida de Cazuza no final de sua vida foi exatamente essa, será que se ele tivesse uma existência mais simples seria feliz? De novo, difícil responder, penso que se não fosse intenso e complexo não seria Cazuza, seria outra pessoa.

Enfim, a intensidade com que vivemos certas experiências são acompanhadas dos buracos que nossa vida apresenta. Quem se entrega aos excessos, está na verdade tentando se encontrar, e se encontrar é o grande desafio de nossas vidas. É o que tenta nos dizer Jacques Lacan, com seu côncavo e convexo. O lado convexo avança, a intensidade nos leva a experimentar coisas novas e fortes, andamos pra frente, aprendemos, muito. O lado convexo, o buraco, é que empurra nossas vidas para novas buscas para preencher o vazio dessa realidade côncova.

Elis e Maysa, uma história de intensidade que poderia ter durado mais tempo. E nós quanto tempo vamos durar nessa luta? Alguém arrisca pular fora?





Borboletas e Tufões

5 02 2009

efeito-borboletaExistem escolhas certas? É possível saber, já no primeiro passo, qual o melhor caminho a ser tomado? A estrada de mão única do Tempo não nos permite perceber quais escolhas são certas ou quais são erradas. Mas e se fosse possível testar os caminhos antes de tomá-los definitivamente? Andar um pouco e voltar novamente ao início… Será que a vida seria melhor se pudéssemos manipular as ações tomadas no decorrer do tempo? Diz a Teoria do Caos (que explica o funcionamento de alguns sistemas físicos e matemáticos) que “algo tão pequeno como o rufar das asas de uma borboleta pode causar um tufão do outro lado do mundo”. É o fenômeno chamado “efeito borboleta”. Assustador, não? Mas em outras palavras, quer dizer que uma pequena ação hoje pode ter conseqüências gigantescas no futuro. Então será que realmente vale a pena testar esses caminhos?

Pergunte tudo isso a um físico ou um filósofo, talvez eles saibam responder. Ou então assista a Efeito Borboleta (The Butterfly Effect, EUA, 2004), que trata exatamente sobre esse tema: as conseqüências de pequenos atos tomados no decorrer da vida. Claro que o filme não resolve esse problema, porém ilustra bem o que nos poderia acontecer se pudéssemos manipular o Tempo.

Tudo começa com Evan (Ashton Kutcher) invadindo uma sala, se trancando lá dentro e escrevendo uma carta derradeira onde diz ser aquela sua última chance. Caso algo desse errado ele então estaria morto. Daí o filme salta 13 anos no passado, quando Evan tinha 7 anos de idade, e discorre por alguns momentos de sua infância e adolescência, até chegar novamente à juventude e voltar a Kutcher.

Apesar de ter Ashton Kutcher no papel principal, o que acende alguns preconceitos, afinal Kutcher é figurinha carimbada em comédias de segunda classe e besteiróis americanos, Efeito Borboleta é um filme sério, com um roteiro criativo e bem fechado.

borboleta4Até onde o filme nos mostra, Evan é um bom garoto, preocupado com os amigos e com a mãe, porém carente do pai, Jason (Callum Keith Rennie), que está internado em um manicômio. À parte essas questões, Evan tem um problema sério: lapsos de memória, o mesmo problema que enlouqueceu seu pai. A qualquer momento, independente da situação, a memória do garoto apaga, deixando uma lacuna de alguns minutos em suas lembranças. Recomendado por um médico, Evan começa a escrever diários para treinar sua memória. E só mais tarde, já na faculdade, estudando Psicologia, por acidente, o maduro Evan descobre poder acessar, através dos diários, suas antigas memórias perdidas. E não só, consegue também voltar sua consciência no passado e até mesmo modificar antigos fatos de sua vida. Em outras palavras, Evan descobre ser capaz de voltar no tempo!

A partir daí ele resolve consertar todos os erros do passado e fazer o máximo para melhorar a vida de seu grande amor, a vizinha Kayleigh (Amy Smart), que ele não via desde a infância. Entretanto, para sua surpresa, para cada pequeno ato que mudava em seu passado, um turbilhão de modificações acontecia em sua vida presente. A velha história do efeito efeitoborboletaborboleta citado acima. E a maior parte dessas mudanças não era nada boa.

Indo e vindo através de sua consciência, Evan nos ensina que o destino não existe. O sucesso ou a derrota estão nas mãos de cada um de nós e depende apenas de nossas próprias escolhas. É o Livre Arbítrio de cada ser. Além disso, Efeito Borboleta nos dá uma grande lição sobre o arrependimento: o que fizemos é conseqüência de nós mesmo, não pode ser mudado, mas pode ser vencido.

Repetindo a primeira pergunta deste texto: existem mesmo escolhas certas? Evan, ao fim de tudo, descobre que sim: a escolha certa é não interferir e deixar que o tempo conserte os erros passados de cada um.