Qualquer Coisa Universitária

30 07 2008

O artigo a seguir foi escrito por um grande amigo meu, Lucas Magalhães, estudante de jornalismo em Varginha, e expõe bem o momento de modismo vulgar (como todo modismo) pelo qual passamos: uma difusão da “contra-cultura universitária”, com suas músicas baratas, seu consumismo desordenado e sua filosofia do “beber, cair, levantar”.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apenas 5% da população do país chega às carteiras do ensino superior. O que parece pouco, na verdade é irrisório se comparadas aos números de países desenvolvidos. No entanto de olho num público de aproximadamente 8,3 milhões de pessoas o mercado de consumo lançou a ‘moda universitária’ especialmente na indústria do entretenimento. Desta forma tudo virou universitário, os pagodes, os churrascos, o axé, o sertanejo, as quintas, as sextas, os sábados. Só para exemplificar, nada difere o axé de Daniela Mercury e Chiclete com Banana, muito bom por sinal, do inicio da década de 90 e o que se toca agora nas micaretas que surgiram pelo país, mas o que percebo é que se coloca na propaganda qualquer coisa universitária o caixa registra mais dinheiro na entrada. 

Em Varginha os comerciantes aguardam com ansiedade o dia quatro de agosto, data de volta às aulas nas instituições de ensino superior da cidade. Tudo por que a movimentação financeira é significativa entre estes estudantes. Tudo por conta do status que se vinculou ao fato de se estar estudando no terceiro grau. Ser universitário, agora é a onda da vez, é alvo do mercado de consumo.

E o escasso dinheiro da maioria desses estudantes que dependem da ajuda da família para continuarem seus estudos se esvai, aproveitando o fato da empolgação de se estar fora de casa, e do pouco senso de controle financeiro que temos. Aliás, os universitários estão em disputa. Como somos considerados bons consumidores de álcool ficamos no meio da queda de braços entre governo e mercado. De um lado a lei seca 11 705 que restringe o uso de bebidas alcoólicas e direção, aliada a tentativa da proibição da propaganda de cervejas e outras bebidas alcoólicas, por outro, a consolidação da cultura do ‘beber, cair e levantar’. O mais interessante é que numa dessas apenas cumprimos o beber e o cair, o levantar fica por conta, na melhor das hipóteses, dos colegas de balada. E na pior delas, pelo corpo de bombeiros. É um paradoxo, conceitos conflitantes, tendo como cenário o interesse financeiro. E claro nos tornamos marionetes movidas à diversão na mão dos empresários, dos donos de cervejarias, das bancas de CDs piratas, das casas noturnas que cobram absurdos para colocar luzes piscando e música eletrônica. Ao passo que estas casas se enchem, o que não é bem um problema, nossas cabeças se esvaziam de conhecimento, ficamos cada período menos preocupados com a qualidade de ensino que se oferece nas universidades da cidade. Por isso deveriam criar a moda do ‘ensino universitário’, pelo menos quem sabe conseguiríamos aprender um pouco mais.  Opá!  Mas isso já existe! Ou não?

Lucas Magalhães é estudante de Jornalismo na UNIS e estagiário do Jornal Correio do Sul, em Varginha – MG

Texto publicado Originalmente no Diário Correio do Sul em 28 de julho de 2008





O Robin Hood da Colônia

29 07 2008

Cartaz do filme Ned Kelly (2003)

Assisti neste mês, pela segunda vez (a primeira eu assisti em VHS há muito tempo atrás), a co-produção anglo-franco-australiana, do diretor Gregor Jordan que conta de maneira fiel e indiscutivelmente bela a história de Ned Kelly, o Robin Hood da Austrália!

Todos já ouviram falar na famosa lenda de Robin Hood, o príncipe dos ladrões, o nobre que se tornou o mais procurado ladrão da inglaterra, roubando dos ricos para dar aos pobres. Realidade ou fantasia, sua história, que surgiu por volta do século XIII, ganhou várias versões em livros e filmes e o herói inglês ganhou fãs pelo mundo inteiro. Entretanto no grande reino inglês do séc. XIX, que se estendia por vários continentes mundo afora, existiu um outro ladrão menos conhecido e menos nobre, porém não menos heróico e injustiçado. Seu nome era Edward Kelly, ou, como ficou conhecido, Ned Kelly!

Ned Kelly

O filme já começa com Ned sendo acusado e condenado injustamente por roubo de cavalos e logo salta para momento em que ele está saindo da prisão, após 3 anos de confinamento. E daí em diante discorre por toda vida do herói, sua família e seu bando, entremeado por belíssimas cenas da paisagem australiana. Sem contar a excelente atuação do já saudoso Heath Ledger, que parece não ter sido escolhido apenas pelo talento, mas também por ser bem parecido fisicamente com Ned.

Para quem não conhece a história, Ned nasceu na Austrália, então uma grande colônia penal inglesa, em meados da década de 1850. Descendente de irlandeses e filho de um fora-da-lei, desde pequeno foi perseguido pela polícia local, que queria apenas encontrar um culpado para qualquer delito que acontecesse. Não importava o delito ou o local, sempre que as autoridades coloniais precisavam acusar alguém, eram os irlandeses ou seus descendentes os escolhidos como culpados.

Ledger e Orlando Bloom

Robin Hood era um nobre inglês. Ned Kelly era apenas um camponês colonial. No entanto ambos foram injustamente acusados e perseguidos pelas autoridades e se tornaram grandes foras-da-lei, formaram um grande bando e passaram a ser temidos pelos poderosos e adorados pelos pobres! Assim como Hood, Ned passou a viver escondido com seu bando em florestas e cometendo assaltos aqui e ali.

Porém não é necessário conhecer sua história para se comover com o filme. O roteiro consegue fazer com que o espectador creia nos atos do personagem e em suas convicções e ideais. É possível se importar e temer pela vida do protragonista tão bem interpretado, principalmente nos momentos mais dramáticos.

Heath Ledger como Ned Kelly

Um ponto forte do longa é que ele foge daquele padrão hollywoodiano no qual deve sempre haver uma historinha de amor. Em momento algum o filme é um romance. Está sempre focado nas artimanhas de Ned e seu bando e na falta de excrúpulos da polícia colinial vitoriana.

Um filme que vale a pena ser visto e revisto e uma história que merece ser conhecida e difundida mundo afora, tal qual a Robin Hood.

Curiosidade: a lenda de Ned Kelly rendeu pelo menos 6 longa metragens. O mais famoso deles, de 1970, tinha o cantor Mick Jagger no papel principa.

Ficha Tecnica:

Direção: Gregor Jordan
Elenco: Heath Ledger, Naomi Watts, Orlando Bloom
País: Inglaterra, França, Austrália
Ano: 2003





Conhecendo a “Lei Seca”

4 07 2008

O jornal Zero Hora, de Porto Alegre, apresentou em sua edição de segunda-feira (23) um interessante serviço público. Em meio a três páginas de cobertura sobre a nova lei que proíbe que pessoas que beberam álcool dirijam – e com destaque às 45 prisões ocorridas no RS durante o fim-de-semana – vêm 12 perguntas formuladas por integrantes da equipe do jornal e por leitores – e respondidas por especialistas.

Uma das questões é  proposta por apaixonado leitor,  que lamenta que “nunca mais poderei sair com minha esposa para um jantar romântico regado a uma taça de vinho” e logo pergunta “por que neste país sempre os bons pagam pelos mal educados?”.

Outra questão: comer sobremesa de sagu – que é feito de vinho – pode afetar o comportamento do motorista?

A matéria contém também uma informação objetiva: acaba a história de apresentar a negativa de fazer o teste do bafômetro, arguindo o direito de não fazer prova contra si próprio. Tal porque a nova legislação é explícita quanto às penalidades para quem se negar a isso. O entendimento é que a regra não vale para o trânsito.

Dirigir não seria um direito, mas uma permissão do poder público, concedida apenas a quem se habilita e segue determinadas regras.

Abaixo estão as questões formuladas pela redação do jornal e em seguida aquelas enviadas pelos leitores:

Questões elaboradas pela redação do Jornal ZH:

Pergunta – Quanto de álcool posso beber antes de dirigir?
Resposta - A lei assume tolerância zero com o álcool. Antes, um motorista podia ter até 0,6 grama de álcool por litro de sangue (dois copos de cerveja). Agora, mais do que zero de álcool é infração gravíssima, com multa de R$ 955 e suspensão do direito de dirigir por um ano. No princípio, enquanto se aguardam regulamentações, haverá tolerância até 0,2 grama de álcool.

Pergunta – Outros países têm o mesmo rigor em relação ao consumo de álcool por motoristas
Resposta - Há uma série de países que aplicam o mesmo rigor.
Pergunta – Como o índice de álcool vai ser verificado?
Resposta - Fiscais de trânsito e agentes das polícias rodoviárias poderão submeter os motoristas a testes com o bafômetro. A autoridade de trânsito também poderá levar o motorista suspeito para um exame clínico, se não houver um bafômetro.
Pergunta – O teste com o bafômetro é obrigatório?
Resposta - O motorista pode ser recusar, mas, nesse caso, sofrerá a mesma penalidade destinada à pessoa comprovadamente alcoolizada: infração gravíssima, multa de R$ 955 e suspensão do direito de dirigir por um ano. Essa punição também será aplicada se o condutor se negar a outros exames para atestar a embriaguez.
Pergunta – O que acontecerá se eu me recusar a fazer o exame e depois entrar com um recurso, alegando que não estava bêbado?
Resposta - Prevendo que motoristas embriagados possam recorrer a essa artimanha para escapar da punição, a lei prevê que o testemunho do agente de trânsito ou policial rodoviário tenha força de prova diante do juiz.
Pergunta – Posso me recusar a fazer o teste com o bafômetro sob a justificativa de que, pela legislação brasileira, ninguém é obrigado a produzir prova contra si mesmo?
Resposta - Esse entendimento amparava, até aqui, os motoristas que não queriam fazer o exame com o bafômetro. Mas a nova legislação é explícita quanto às penalidades para quem se negar a isso. O entendimento é que a regra não vale para o trânsito. Dirigir não seria um direito, mas uma permissão do poder público, concedida apenas a quem se habilita e segue determinadas regras.

Questões enviadas pelos leitores:

Pergunta – Se tomar uma ou duas taças de vinho no almoço de domingo, quando poderei dirigir? Quantas horas são necessárias para eliminar por completo o álcool? (Hamilton Kleinowski, Porto Alegre).
Resposta - O tempo de permanência do álcool no organismo varia de uma pessoa para outra, conforme idade, peso e condições de saúde. O certo é que não basta esperar algum tempo depois da bebida para pegar a estrada. Mesmo que você beba dois copos de chope, o álcool pode ser detectável durante um período que vai de três a seis horas. No caso de uma bebedeira, pode estar sem condições mesmo na manhã seguinte, porque a presença do álcool se mantém por períodos prolongados.

Pergunta – Nunca mais poderei sair com minha esposa para um jantar romântico regado a uma taça de vinho. Por que neste país sempre os bons pagam pelos mal educados? (Roberto Kraemer Derosa, Porto Alegre).
Resposta - A alternativa é tomar um táxi ou o transporte coletivo na hora de voltar para casa ou então entregar a direção a quem não bebeu. O entendimento da lei é que, não importa a quantidade de álcool consumida, o motorista vai colocar a si e a outras pessoas em risco caso tome o volante. Mesmo quando são consumidas quantidades pequenas e não há sinais exteriores de embriaguez, as chances de a pessoa se envolver em um acidente aumentam.

Pergunta – Tenho o costume de beber no almoço uma taça de vinho tinto seco. Se logo após necessitar dirigir meu automóvel, for barrado por autoridade de trânsito e ficar comprovado que ingeri essa pequena quantidade de álcool, posso sofrer punição? (Hugo Ernesto Dienstbach, Dois Irmãos – RS).
Resposta - Sim. Você vai receber uma multa de R$ 955 e perde o direito de dirigir por um ano, porque a lei proíbe dirigir com qualquer quantidade de álcool no organismo. Quando uma pessoa tem álcool no sangue, mesmo que não apresente sinais de embriaguez, ela está mais sujeita a sofrer acidentes. Uma taça de vinho significa de 0,2 a 0,3 grama de álcool por litro de sangue, o que configura infração mesmo com a margem de tolerância que vai valer nos primeiros tempos da lei.
Pergunta – O que será penalizado é a conseqüência, ou seja, bebeu, bateu e estava alcoolizado, vai se complicar. Tomou duas taças de vinho e está dirigindo tranqüilamente, a autoridade aborda e pede documento, será liberado. É Lei Seca apenas para quem já cometeu o ilícito? (Ary Martini, Marau).
Resposta - Não é esse o espírito da lei. Não há necessidade de cometer outra infração ou delito para receber punições, porque dirigir com álcool no organismo já é uma infração, e gravíssima.
Perguntas – Caso uma pessoa coma uma sobremesa que contenha vinho, como sagu, ou tenha tomado algum tipo de medicamento com álcool, poderá ser constatada alguma dosagem de álcool nos exames de bafômetro? Se der positivo, essa pessoa poderá ser presa? (Rafael Martins Duarte Duarte, Pelotas).
Respostas - Qualquer alimento ou medicamento que contenha álcool poderá ser identificado pelo bafômetro. Por causa disso, a nova legislação determina a necessidade de disciplinar margens de tolerância para esses casos específicos. Isso ainda vai ser feito. Para o período de indefinição, vale um decreto que permite aos motoristas, por enquanto, apresentar até 0,2 g de álcool por litro de sangue. Isso é o equivalente a um cálice de vinho para uma pessoa de 80 quilos.
Pergunta – O que diz o texto da lei para o consumo de bebidas na zona urbana? (Rogério Costa de Souza, Porto Alegre).
Resposta - Com a nova medida, os estabelecimentos comerciais localizados nos trechos urbanos das rodovias federais voltaram a ter permissão para vender bebidas alcóolicas. Mas, caso o motorista seja flagrado com álcool no organismo, não escapará do rigor da lei.
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