Hitchcock

15 05 2008

O que se encontra abaixo é um trecho de um trabalho acadêmico feito pelo meu grupo da faculdade no decorrer do segundo período, em 2007. O capítulo aqui publicado foi o que coube a mim elaborar. O trabalho completo possui 34 páginas, 10 capítulos e 17 referências. Muito provavelmente, se tudo der certo, será apresentado e publicado no Congresso Científico Metodista 2008.

Senhoras e senhores, eu vos apresento a “Infância e Carreira de Alfred Hitchcock”, o mestre do Suspense:

 

Terceiro filho dos verdureiros William e Emma Hitchcock do East End londrino, Alfred Joseph Hitchcock nasceu em 13 de agosto de 1899. Mesmo não sendo filho único, Hitchcock, como era chamado, foi um garoto mimado até seus 15 anos, quando seu pai adoece e vem a falecer, fazendo-o apegar-se muito a mãe, que o incentivou freqüentar e se educar em rígidos colégios católicos.

No educandário St. Ignatius College, os bondosos padres jesuítas tinham o costume de contemplar os autores de pequenas indisciplinas com alentados castigos corporais. Mas o pior não era a palmatória, mas a faculdade concedida aos faltosos de escolherem o horário em que seriam punidos. Naturalmente, todos os meninos procuravam adiar o máximo possível o castigo: sutil maneira encontrada pelos discípulos de santo Inácio de agravar psicologicamente a condenação prometida.

Além do colégio, a educação familiar também era rigorosa. Quando menino de cinco ou seis anos, “após cometer um pequeno deslize, o pai ordenou-lhe que levasse uma carta a um delegado amigo seu. Após ler o conteúdo, o policial trancafiou Hitchcock numa cela, libertando-o alguns minutos depois, não sem antes explicar convenientemente: “Veja o que te pode acontecer se não for um bom menino.”. (ARAÚJO, 1984. p.11)

Hitchcock não era o que se poderia chamar de um homem esbelto; com relação às moças, sentia-se muito tímido, e, embora pudesse ser considerado inteligente, não era rápido de raciocínio. Estas características o tornavam-no alvo constante de piadas e brincadeiras. Como fuga para a educação severa e para a timidez, tornou-se, ainda na adolescência, um leitor fervoroso e freqüentador assíduo de teatros. Já crescido, passou a freqüentar os cinemas, cujo público, naquela época, era formado por jovens como ele.

Entre 1913 e 1920, época da primeira grande guerra, Hitchcock, que deixara os estudos aos 14 anos, tentou vários tipos de trabalho, até encontrar sua verdadeira vocação. Integrar-se, fazer de algum modo parte do mundo: pode-se dizer que esse foi um dos problemas do jovem Hitchcock, e o cinema mostrava ser nesse sentido o mediador ideal. Dessa forma, aos vinte anos, conseguiu seu primeiro emprego na filial britânica da produtora cinematográfica norte-americana Famous Players Lask. Ali encontrou um pouco dos métodos e da seriedade profissional que tanto admirava nos filmes de Hollywood, características que não encontrava no cinema inglês. No início, exercia várias funções: escrevia títulos e subtítulos, trabalhava como requisitador, projetava cenários, escrevia roteiros, selecionava atores e era assistente administrativo.

Foi numa filmagem que Hitchcock conheceu Alma Lucy Reville, que já trabalhava na indústria cinematográfica quando Alfred começou. Alma era considerada brilhante montadora e redatora, e todos esperavam que fizessem uma bela carreira como diretora. No entanto, Alfred e Alma se casaram, e ela passou a trabalhar apenas com o marido. Mais tarde, quando seu nome de solteira passou a aparecer nos créditos de filmes, ficou patente a importância do seu trabalho para Hitchcock. Em 1928 nasceu sua única filha, Patrícia Hitchcock, que teve sua carreira de atriz lançada pelo pai, chegando a participar de pequenos papeis em alguns de seus filmes e entre eles, Psicose.

Alfred passou por um período de aprendizado em Berlim, numa co-produção anglo-germânica, e seus dois primeiros filmes foram encenados parcialmente em Munique. O cinema alemão dos anos 1920 era um dos mais aclamados em todo o mundo. Uma lição que veio a aprender nos estúdios de Neuebabelsberg foi: quanto maior o domínio técnico do diretor sobre o filme, tanto maior o domínio que exerce sobre a fantasia. Enquanto trabalhava como assistente de Graham Cutts na produção de “The Blackguard”, ele conheceu F. W. Murnau que filmava, no set ao lado, nada menos que “A Última Gargalhada”. Já fascinado com a eficácia dos técnicos alemães, Alfred observou como Murnau distorcia absurdamente os cenários e ao final obtinha um resultado perfeitamente realista. “O que se vê no set não importa”, disse Murnau. “A única verdade que conta é o que aparece na tela”.

“Number Thirtheen” (1922), o primeiro filme produzido e dirigido por Hitchcock, não chegou a ser terminado. “Always Tell Your Wife” (1922) foi concluído pelo ator Seymour Hicks e por Hitchcock, porque o diretor original adoeceu. Por isso, é dito que o primeiro filme realmente dirigido por Alfred foi “The Pleasure Garden” (1925), onde ele usou a falsa perspectiva de Murnau, recurso que voltaria a servir-se muitas vezes no futuro. “The Pleasure Garden” não foi, a opinião é unânime, um filme brilhante. Mas dele Hitchcock pôde retirar preciosas lições, tal como o orçamento modesto, a carga de dirigir uma estrela hollywoodiana e contornar drásticas coincidências, como apreensões da alfândega italiana e um assalto.

Mais tarde, em 1927, Hitchcock produz “The Lodger”, o primeiro filme de suspense da história, inventando, assim, este que é talvez o único gênero essencialmente cinematográfico, dando início ao que seria na verdade o seu estilo de filmar.

O Fato de Alfred conhecer seu ofício a fundo e investigar cada minúcia da nova arte contribuiu para que ele se transformasse em um dos mais perfeitos técnicos do cinema. A passagem do cinema mudo para o falado, que determinou o fim da carreira de muita gente, foi enfrentada por ele sem dificuldades. Em pouco tempo já não era mais conhecido apenas na Inglaterra, e começavam a aparecer propostas de Hollywood. Finalmente Hitchcock resolveu aceitar uma dessas propostas e transformou-se num diretor de categoria internacional. E em 1955 naturalizou-se norte-americano.

Seus filmes respiravam sexo e violência, elementos sempre apresentados com elegância e refinamento. Poucos cineastas conseguiram dominar as técnicas do seu ofício para produzir os efeitos desejados na platéia como Hitchcock o fez durante toda a sua carreira. A atração entre seres do mesmo sexo o interessava, e isso pode ser visto em seus filmes. Surpreendentemente, seus personagens masculinos externam, amiúde, medo dos femininos. Quando tratam da relação entre gerações, sempre aparece uma mãe exercendo um poder central sobre o filho adulto. Com seus filmes, Hitchcock construiu um mundo único, e, apesar disso, não recebeu um Oscar – o maior prêmio de Hollywood – por nenhum deles. No final da carreira, em 1967, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood concedeu-lhe o Prêmio Irving Thalberg – um Oscar honorário – pelo conjunto de sua obra.

Mesmo depois de velho e respeitado por todos à sua volta, Hitchcock não se relacionava muito bem com as pessoas. Era um solitário cercado por uma equipe de trabalho confiável. Seus filmes eram a criação de um homem e pertenciam a um gênero único: o gênero Hitchcock.

Amor, morte, culpa humor, terror e, logicamente, suspense foram o “cardápio” que o Mestre servia de maneira genial, mesmo nos piores momentos da sua obra e da sua vida. Muitos tentaram copiá-lo, mas poucos conseguiram chegar perto da sua sutileza e genialidade. O mundo mudou e, logicamente, sua obra sofreu com as mudanças, em particular nos últimos 20 anos da sua vida. Mas, fazendo uma espécie de resumo, a “ferrugem do tempo” não conseguiu destruir uma das obras mais geniais da cultura do século XX.

Em 54 anos de atividade, Hitchcock fez 53 longas-metragens. Em maio de 1979 a produção de “The Short Night” foi interrompida e Hitchcock, pouco tempo depois, fechou seu escritório na Universal Pictures. Em 29 de abril de 1980, Sir Alfred Hitchcock morreu.

Algum tempo antes de sua morte propôs o epitáfio que gostaria de ver inscrito em seu túmulo: “Veja o que te pode acontecer, se você não for um bom menino.”





A Volta ao Mundo em 1 Segundo

13 05 2008

Já pensou em tomar café da manhã em Paris, pegar um bronzeado no Saara e, mais tarde, sair pra passear pelas ruas de Londres?! Tirar uma sonequinha em alguma ilha deserta do Pacífico, tomar um bom vinho em Buenos Aires e terminar o dia cantando algumas gatinhas em Los Angeles?! Divertido, mas impossível, não é?! Não para David Rice, protagonista de Jumper (ídem, 2008). 

Dirigido por Doug Liman, de Identidade de Bourne e Sr. e Sra. Smith, o filme mostra a história de David Rice (Hayden Christensen[...]), que nasceu com o superpoder de se teletransportar para qualquer canto do planeta que a mente dele desejar. Em fração de segundos, ele pode atravessar paredes, dar a volta ao mundo e retornar para onde estava no início. Consegue até mesmo entrar em cofres de segurança máxima recheados de dólares sem ser notado pelo sistema de segurança.
[...]
David descobre que é um Jumper na adolescência, quando, durante um acidente em um lago congelado, se teletransporta para uma biblioteca pública . Depois disso, não pára mais.  

[Omelete.com]

Como todo filme hollywoodiano, tudo gira em torno de um romancezinho barato, porém o casal principal não tem aquela química necessária para impulssionar o filme e Millie Harris (Rachel Bilson) deveria ser usada apenas para fazer a ligação entre o passado frustrado de David e sua vida sem limites, sempre tentando compensar o que havia perdido na adolescência. Todavia, este nao deveria ser o fio condutor do filme, que teria muito mais a oferecer que uma simples historinha de amor.

A idéia do longa é interessante e pouco explorada pelo cinema (com excessão do Noturno, de X-man, nunca vi outro personagem que se teletransportasse). No entanto muito mal trabalhada. O roteiro foca demais em David e Millie, e se esquece de outros personagens chave, como Griffin (Jamie Bell) e o Paladino Roland (Samuel L. Jackson, com vistosos cabelos brancos), muito mais importantes que a mocinha indefesa.

Algo muito interessante e pouco explorada foi a origem dos Paladinos, apenas citada por Roland em uma única frase em todo o filme. Simplesmente dizer que eles existiam desde a antiguidade e pra isso citar a Inquisição e a Caça às Bruxas foi de uma infantilidade tremenda. A vida de Griffin também poderia ter sido melhor abordada, afinal ele é o único elo de David com a origem dos Jumpers.

E o drama que melhor poderia definir o filme foi totalmente deixado de lado: a misteriosa mãe de David que sumiu quando ele ainda tinha 5 anos. Esta trama sim deveria ter sido o fio condutor de todo o longa, que bateria de frente com a voracidade implacável do antagonista e daria um belo substituto para o insosso romance do filme.

A salvação de Jumper é que, dizem os boatos, este é somente o primeiro, apenas a apresentação dos personagens. O desenrolar da trama virá nas continuações. E outro ponto forte são os efeitos especiais que, na minha opinião, ficaram muito bons.

Pelo menos tem potencial pra cair nas graças da Sessão da Tarde!





A Outra Face do Homem

9 05 2008

Robert L. StevensonComo já disse o poeta norte-americano Mark Twain: “Todo homem é como a Lua, tem uma face escura que não revela a ninguém.” E, de maneira bem mais apurada e detalhada, é exatamente isso que o leitor descobre ao ler o estranho caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde, uma história de suspense e terror escrita no século XIX pelo escocês Robert Louis Stevenson e conhecida no Brasil como “O Médico e o Monstro”.

Como cenário da narrativa, estão as fascinantes noites da Londres Vitoriana, com suas luzes bruxuleantes, suas densas neblinas e seus imponentes casarões, num período em que a Inglaterra vivia uma grande desigualdade social entre as industrias e os miseráveis. E é nesse ambiente que vive o respeitável Dr. Jekyll, um médico criado sob regras morais e religiosas, rodeado de amigos e acima de qualquer suspeita. Por outro lado, contrário a essas virtudes, existia Hyde, um ser desregrado, corruptível, imoral, imune a todas as normas da sociedade.

Os próprios nomes dos personagens revelam a genialidade do livro: Jekyll contém as palavras “I kill” (“eu mato”, em inglês) e Hyde viria da palavra “hidden” (“oculto”, em inglês). E batendo de frente essas duas personalidades, dá-se início a uma discussão intrincada e profunda: a ambigüidade humana, o lado bom e mau da alma de cada homem.

Até a metade do texto, poucas informações são dadas sobre a identidade de Hyde. Apenas algumas de suas histórias vêem à tona por meio de testemunhos de outros personagens. Dessa forma tudo fica um pouco entediante, confuso e, não fossem alguns intrigantes momentos do decorrer da trama, o leitor acabaria por se perguntar o motivo de estar lendo aquilo. No entanto tudo converge para o ápice nos dois últimos capítulos, quando Stvenson mostra a que veio, resolvendo o mistério e apresentando o verdadeiro intuito daquela narrativa.

As últimas páginas contêm o testemunho do próprio Dr. Jekyll que conta sua história de maneira clara e decisiva e apresenta ali todo o seu tormento. A partir daí o livro se torna pra lá de interessante, exercendo um fascínio perante a dualidade humana, mostrando que somos bons e maus ao mesmo tempo e que nossa vida nada mais é do que uma seqüência de escolhas entre os dois lados. É de impressionar como Jekyll se vicia em seu lado mau, porém, ao mesmo tempo, sente remorso com os atos dessa outra face, enquanto Hyde pouco se importa com seu lado bom.

Cena do filme 'O Médico e o Monstro'“O Médico e o Monstro” é uma obra-prima exatamente por revelar tão bem a alma humana, dividida entre o lado comumente conhecido e aquele outro sombrio, que naturalmente escondemos – ou não. Ao fim o livro deixa uma grande lição: devemos domar a sombra que nos habita, no entanto jamais podemos mantê-la presa. O bem e o mal de cada um de nós devem-se manter em equilíbrio, pois, se um tomar a frente, o outro pode explodir em fúria!

E me desculpem caso o texto tenha ficado confuso. Eu fiz o máximo para esconder aqui os pontos essenciais da história que pudessem destruir as surpresas do novo leitor. É difícil falar sobre O Médico e o Monstro sem revelar seus pontos principais e ainda mais difícil escondê-los em um texto coeso. No entanto, acredito, quem já leu a obra de Stevenson, entendeu muito bem o que aqui foi tratado.

Ficha Técnica:

Título: O Médico e o Monstro (The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde)
Autor: Robert Louis Stevenson
País: Inglaterra
Publicação Original: 1886
Publicação Lida: Martin Claret Editora, 2002 (a melhor coleção pocket do mercado)





Somos Monstros

6 05 2008

Frankenstein

Mary Shelley (1797-1851)Tudo começou com um desafio feito a Mary Shelley (1797-1851), então uma jovem de 21 anos, por Lord Byron. Na época, 1918, Byron propôs a Mary e seu marido que escrevessem um conto de terror, uma maneira de passar o tempo, já que suas férias estavam sendo consumidas intediantemente pelo mau tempo. Mary foi a última a dar início ao seu conto, que acabou baseado em um pesadelo que teve numa daquelas noites de chuva. E, dentre todos, o conto de Shelley foi o que mais surpreendeu e arrepiou. Insentivada a continuar, Mary Shelley desenvolveu ainda mais sua história e transformou-a em um dos mais conhecidos e celebrados livros da História: Frankenstein.

Victor Frankenstein era um jovem curioso, com sede de conhecimento, apaixonado pela ciência, intrigado com os segredos da vida e louco para deixar sua marca no mundo. Havia aprendido sozinho em casa sobre as fantasias da Alquimia, no entanto apenas na universidade ele foi descobrir que toda sua bagagem de conhecimento estava ultrapassada há muito. Acabou se tornando um aluno exemplar, dedicado à química e à biologia. Foi assim que, sozinho em seu laboratório em Ingolstadt, Victor deu início à sua criação, misturando seus conhecimentos teóricos de fisiologia e filosofia natural com princípios de mecânica, decido a descobrir se o princípio que mantinha animado o corpo poderia pernecer mesmo após a morte. Como Victor fez isso, todos já sabemos: deu vida a uma criatura formada por partes de cadáveres, de tamanho descomunal (cerca de 2,5m de altura) e aparência horripilante. E é aqui que dá-se início ao grande trunfo da história!

Ao despertar da Criatura, Frankenstein acaba por cair na realidade vendo como era realmente feia sua criação, com seus membros desproporcionais, seu olhos aquosos e amarelos, incompleta a ponto de seus tecidos nem sequer cobrirem todo o corpo, deixando à mostra músculos e ossos. Desesperado e com medo, arrependido de sua audácia, Victor abandona sua Criatura, decaindo num súbito acesso de náusea e lucidez.

Frankenstein por Robert De NiroPobre Criatura, um ser vazio de conhecimentos, ignorante em relação ao convívio social, solto num mundo de pessoas preconceituosas e indiferentes. A personificação perfeita da famosa teoria de Rousseau, a do “bom selvagem”, que diz que todo o homem nasce “puro” e é corrompido pela sociedade violenta, viciosa e materialista. Quem lê a história de Frankenstein espera encontrar terror, suspense e aventura, onde um monstro estaria a solta para destruir e matar. No entanto descobre um mundo onde nós humanos somos totalmente repugnantes e no qual o único ser que realmente tem algum valor é o monstro excluído por todos. Poucos livros retratam tão bem a indiferença humana e a nossa mania de dar mais valor às aparências do que aos sentimentos, carater e virtudes.

Mary Shelley escreveu uma autêntica obra-prima da literatura universal, um romance capaz de despertar no leitor a pena e a compaixão por um monstro e a repugnância de nossa própria raça. Uma lição que ainda não foi aprendida, mesmo depois de quase 200 anos. 

Ficha Técnica

Título: Frankestein (Frankenstein; or the Modern Prometheus)
Autor: Mary Shalley
País: Inglaterra
Publicação Original: 1818
Publicação Lida: Martin Claret Editora, 2001