O Barril de Amontillado (Brasil, 2009)

6 07 2009

Banner BarrilBaseado na obra homônima de Edgar Allan Poe, apresento abaixo “O Barril de Amontillado”, curta-metragem de 3 minutos produzido pela minha equipe da faculdade.


Para assistir em “tela cheia/inteira” clique no penúltibo botão da janela do vídeo.

Detalhes técnicos:

Foram cerca de duas semanas de pré produção.
Mais de dois meses de produção.
Porta volta de 16 horas de gravações (em um único dia).
E outras duas semanas de pós produção.
Gravado em half HD (aqui no Covil tem apenas metade da qualidade do DVD).
Formato 16:9 (widescreen).
A catacumba foi construída no estúdio da faculdade.
Para o salão de festa foi usado como locação o hall do Salão Nobre da UMESP.

Ficha técnica: Se encontra nos créditos finais do filme. Portanto assiste e leia!

 

Links relacionados:

Pasta de Direção de Arte
Meu Primeiro Filme! Não Percam!!!





Pequeno Diário de Produção e Apresentação

6 07 2009

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EliteSub

Equipe EliteSub

Eram 5 contos. Três crônicas do Veríssimo e dois contos de terror de Edgar Allan Poe. E desde que essa notícia foi dada em sala, passei a torcer por um dos contos de Poe. Não estava nem um pouco afim de fazer comédia, assim como o resto do pessoal do meu grupo, a EliteSub Produções. E pra nossa sorte, fomos agraciados no sorteio com “O Barril de Amontillado”, um dos mais famosos contos de Poe, situado na Itália, no período do carnaval.

Porém, juntamente com a vontade de fazer terror, veio a grande questão: adaptar a história para um período contemporâneo, ou mantê-la fiel à original, no século XIX e seguindo a temática do carnaval italiano? Fugir das dificuldades em produzir algo de época ou fugir da facilidade de fazer mesmice?

Não precisamos discutir muito. Se há uma qualidade na EliteSub, essa é gostar de desafios. Antes mesmo de começar a adaptar o roteiro, as meninas já haviam decidido que ele permaneceria na época original do conto. E daí pra frente seguiram-se as pesquisas e a fase de pré-produção.

Tendo em vista o roteiro em preparação, as pesquisas da catacumba adiantadas e alguns rascunhos já elaborados, fomos apresentar o projeto à disciplina de Direção de Arte. Para a nossa surpresa, fomos desacreditados e, praticamente, vetados, sob as palavras “estão no 5º semestre e já pensam que são profissionais. Jamais irão conseguir montar isso tudo” e daí mandados de volta para a disciplina de roteiro, para que readaptar a obra. Uma decepção e tanto.

Porém não queríamos fazer diferente. Queríamos a Itália! Queríamos uma catacumba! Queríamos 200 anos no passado!

Não desafiamos os professores abertamente. Continuamos nosso projeto às escondidas até onde deu. Fiz toda a Arte do filme sem auxílio ou orientação. E, quando fomos descobertos, o projeto já estava tão desenvolvido e tão bem feito que só restaram a eles admitir que conseguiríamos!

Com relação às outras disciplinas, conseguimos o apoio todas desde o início.

Houveram discussões internas também. Idéias discordantes, com relação aos atores e principalmente com os roteiros mal escritos… Muito bate-boca. Mas o projeto caminhava a passos largos.

Pelo menos chegamos com tudo pronto no dia das filmagens. Das 7h às 23h, com apenas uma hora de descanso durante todo o dia. Atrasos à parte, o filme foi feito! Cena por cena, tomada por tomada. Quando terminamos, a Universidade já estava fechada e éramos os únicos lá dentro.

Só que a noite não acabou aí. Tínhamos uma grua para devolver. Eu cheguei em casa cedo (moro do lado, oras), mas, bem longe dali, o Cristiano ainda bateu o carro.

Um dia de cão… e de muita diversão! Se existe um stress de vale a pena, é o de um ambiente de gravações. Pelo menos pra mim!

Depois disso foi edição, dublagem, sonorização… Mais duas semanas de trabalho corrido pra entregar tudo no prazo.

Se o roteiro já era ruim, os cortes para encaixá-lo nos 3 minutos exigidos o piorou ainda mais. Mas o trabalho foi finalizado e entregue. Agora restava apenas a ânsia em saber a opinião dos professores.

 

DIA DE APRESENTAÇÃO

 

OgAAAFL3SD6wugpoIX-GuNXOO87c7V2nzWJoSLrJ7oWsFPAK0NG6PkfV6KHcpBtQ_wKXYXVSVLaxTcOJXtCHhStH0oQAm1T1UGp9utLC8HUl6hujBWmSi7qVwnRZEu esperava o pior. Orgulhava-me do que havia feito, daquilo que aparecia na tela e do trabalho que todos tivemos. Mas ainda tinha medo, pois eu mesmo já criticava (e critico) o filme por demais. Quem diria os professores!

Para a grande surpresa, no dia da apresentação, recebemos o comentário em público de um dos professores: “é o melhor que vi até agora!”

O melhor… bom… quem sou eu para dizer? Mas o mais comentado foi!

O Andrews (diretor) apresentou o filme e logo em seguida seguiu-se as perguntas, os elogios, as dúvidas com relação à produção vindas de toda a platéia, alunos ou mestres.

Foi a minha vez de subir ao palco dar meu parecer. Falei por mim e pelo Will (Diretor de Fotografia) que não estava presente. Expliquei sobre suas inspirações buscadas na obra de Caravaggio e em filmes como Lavoura Arcaica. Falei das minhas pesquisas sobre as catacumbas e as inspirações que busquei no livro de Benjamin Scott.

Aplausos!!! Ah, aplausos!

Aliás, alguém chegou a ver alguma nota abaixo de 9? Na EliteSub eu acho que não!





Pasta de Direção de Arte

5 07 2009

Há alguns dias anunciei aqui o lançamento do meu filme, um curta metragem de 3 minutos realizado no decorrer do 5º período da faculdade. Além do trabalho prático - a produção em si - ainda é exigido pelos professores um trabalho teórico: as “Pastas”, como as chamamos. Cada disciplina pede uma pasta, ou seja, o Diretor de Arte (eu) entrega uma pasta de Arte; o de Fotografia, uma pasta de Fotografia; os roteirias, uma pasta de roteiro e o editor e sonorizador, uma pasta de edição e sonorização.

Sendo assim, apresento abaixo partes (e de maneira resumida) daquela que coube a mim fazer, a Pasta de Direção de Arte. Nela está detalhado todo o trabalho realizado na comcepção dos cenários e figurinos. Boa leitura!

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INTRODUÇÃO À DIREÇÃO DE ARTE

Catacumba

Tumba de S. Pedro - inspiração p/ o cenário

A pesquisa para a Arte começou a ser desenvolvida ainda em cima do conto original. Seguindo as descrições e a narrativa em primeira pessoa do personagem principal, Montresor, chegou-se  às temáticas essenciais da história e que, com certeza, seriam abordadas no roteiro e mostradas no filme, como o período em que a história se desenrola, as catacumbas (que também são uma adega) e o carnaval italiano.

Com essa certeza em mente, foram escolhidos livros que descreviam e ilustravam os cenários e as temáticas que precisaríamos, como “As Catacumbas de Roma”, de Benjamim Scott e “La Tumba de San Pietro y las Catacumbas Romanas”, de Engelberto Kirschbaum; além de pesquisas na web, em sites especializados, sobre o Carnaval de Veneza, suas fantasias e máscaras.

Os projetos cenográfico e de figurino só tiveram início depois, após a formulação do roteiro e do argumento do filme. Só então o cenário começou a ser esquematizado, através de desenhos e plantas baixas. Em paralelo ao cenário, aconteceu a idealização do figurino e a escolha de suas cores.

Finalmente, baseando-se na interpretação inicial do conto e no roteiro final, foi decidido que o filme se passaria na Itália do século XIX, no período do carnaval, durante uma única noite.

PROJETO

O filme conta com três (3) cenas, sendo uma delas em flashback. Para isso, usamos dois (2) cenários diferentes: uma catacumba romana (cenas 1 e 3) e o hall de entrada de um salão de festas da nobreza italiana (cena 2).

Cenário Catacumba Cenas 1 e 3):

Por se tratar de uma cena de terror e suspense em lugar subterrâneo, optou-se por um ambiente de baixa luz e cores escuras, como as das paredes que variam entre preto, cinza e marrom escuro, causando assim uma perda no contraste e nas nuances.

Apesar das cores escuras, a ação dos personagens ganha uma tonalidade mais quente devido à iluminação amarela do lampião e das velas.

Cenário Salão de Festa  (cena 2)

Em contraste com as cenas escuras das catacumbas, esta mostra um ambiente bem mais iluminado, principalmente por tratar-se de uma festa da nobreza, e possui cores quentes e vivas, destacando amarelo e vermelho de um dos figurinos, além de tons mais sóbrios como o vinho e o branco das cortinas, tapeçarias e o mármore do chão.

Estética

“O Barril de Amontillado” se passa em meados do séc. XIX, tratando-se, assim, de um filme de época. Predominam-se as cores quentes. Por se passar em um única noite, os ambientes são escuros ou nitidamente iluminados com luz artificial.

Como o filme ressalta os contrastes entre os dois personagens, os cenários e os figurinos buscam sempre essa oposição: uma cena clara, outra escura; um figurino sóbrio, outro espalhafatoso.

CENOGRAFIA

Catacumba Italiana

DSC_0017Foram usadas três tapadeiras confeccionadas especialmente para o projeto. Duas delas foram revestidas de papel marchê para, assim, assemelharem-se à textura de paredes de terra escavada (como um túnel). Estas, que foram usadas ao fundo do cenário, possuem 2×2m e 3,5×1,2m, sendo que na mais longa existe um lóculo, um buraco na parede onde os corpos eram depositados.

A terceira tapadeira da catacumba foi encaixada de maneira transversal às demais, encoberta por blocos de espuma floral pintados de marrom e contornados com a mesma massa de papel marchê, para assim se assemelhar a uma parede de alvenaria, sendo que as espumas serias os tijolos e o papel marchê seria a massa de rejunte.

Uma quarta estrutura, também confeccionada por nós, e que também recebeu o tratamento com papel marchê, foi encaixada sobre o cenário, formando um teto curvo.

Para fixar toda essa estrutura de paredes e teto, foram usadas duas tapadeiras do estúdio, apenas como apoio para as demais já citadas.

Para o chão foi usado uma mistura de húmus de minhoca e terra vegetal.

Este ambiente, apesar de ser uma catacumba, é usado pelo personagem como um adega. Por este motivo aparecem, além de ossos, caixas, engradados e garrafas de vinho.

Ainda foi cogitado, no decorrer do projeto, o uso de goteiras e umidade, entretanto levou-se em consideração o aspecto destoante entre a umidade e a poeira. Ou seja, ou o ambiente seria úmido, ou seria empoeirado, sendo que este último foi a opção final.

Tratamento cenográfico:

Todos os objetos que aparecem em cena passaram por tratamento para ganharem aspecto envelhecido.

- Caixotes de vinho foram lixados e sujos com carvão, terra e tinta.

- O lampião foi revestido por uma camada de tinta marrom, assemelhando-se a ferrugem.

- Sobre todos os objetos de cena foi peneirado uma mistura de pó de carvão e gesso, simulando poeira.

- As velas foram queimadas com antecedência, para que a cera derretida escorresse pelas garrafas (usadas como castiçais).

- Todas as garrafas foram cheias com uma mistura de água e corante roxo (com exceção da garrafa erguida pelo personagem, que continha suco de uva).

Outras Observações:

- Para o revestimento das tapadeiras, foram gastos cerca de 670 rolos de papel higiênico (rolos de 30 m), além de 10 litros de cola branca, 10 quilos de gesso e cerca de 2 litros de corantes marrom e preto.

- O esqueleto humano foi confeccionado a partir de gravetos e massa de Durepox.

Salão de Festa

Usamos como locação o hall de entrada do Salão Nobre da UMESP, decorando-o com tecidos, tapeçarias e candelabros, encobrindo, dessa forma, detalhes modernos da locação, como o corrimão de metal e as paredes de vidro, dando ao cenário uma aparência mais luxuosa e nobre.

FIGURINOS

Montresor

Figurino MontresorComo que alheio a todo aquele clima carnavalesco da nobreza, o figurino de Montresor, com cores neutras, deixa transparecer sobriedade e seriedade. Levando em conta o contraste de sua caracterização com o período festivo do filme, o figurino nos dá a sensação de frieza e metódica do personagem, que usa apenas um traje social típico daquele século e uma máscara de festa para ocultar sua face.

O traje é composto de uma camisa branca, um colete acastanhado, fraque preto, uma gravata estilo dândis preta, roquelaire preto, cartola, calças sociais e um par de sapatos, os três últimos também pretos.

Máscara

Máscara MontresorA máscara usada por ele esconde sua face, mas não sua personalidade e suas intenções. Dividida ao meio, mostrando dois sentimentos em uma mesma face, deixa transparecer as características do personagem: por um lado, introvertido, recessivo e tristonho, porém, por outro, oculto para momentos oportunos, debochado e sarcástico, vingativo e rancoroso.

Fortunato

Fortunato usa uma fantasia completa de Arlequim (truão, bobo da corte) e uma máscara do mesmo personagem.

Ao contrário de Montresor, Fortunato possui em seu figurino cores mais quentes e vivas, passando-nos um pouco de seu espalhafato. Além disso, sua fantasia nos conta um pouco da situação dos nobres daquela época: em decadência.

PierrôBaseando-se em estudos de heráldica, chegou-se às duas cores do figurino (vermelho e amarelo), por melhor representarem a nobreza italiana, pois são as cores mais presentes em todos os brasões, armas e escudos das cidades e das famílias italianas. Além de o amarelo representar sua riqueza e o vermelho podendo representar seu poder.

Máscara

A máscara de Fortunato foi inspirada no Pierrô, típico personagem do carnaval italiano, semelhante ao Arlequim, porém de feições mais tristes. 





Nem Medo, Nem Mistério

1 07 2009

Plum IslandOdeio aqueles best-sellers momentâneos que, do nada, aparecem nas listas dos mais vendidos, para desaparecer na semana seguinte. Uma prova de como são superficiais: são os mais fáceis de se encontrar nos sebos. As pessoas os lêem e nem pensam em reler, passando-os adiante o quanto antes. Mesmo assim eu acabo por ler um ou outro que cai na minha mão. São ótimos passa-tempos, quando não se tem algum clássico por perto.

E foi um desses best-sellers que li rapidamente no final de semana: “Ilha do Medo”, do norte-americano Nelson DeMille, presente em um daqueles volumes condensados das Seleções de Livros do Reader’s Digest que caiu em minha mão num momento de tédio.

A começar pelo título do livro, este perdeu totalmente o sentido após a tradução, pois em momento algum DeMille nos conta uma história de terror. O que acontece na região de Long Island, na costa oeste dos EUA, é apenas um mistério policial, envolvendo dois assassinatos e um caso de segurança nacional. Algo como “O Mistério da Ilha de Plum” faria muito mais jus ao tema do thriller e ao título original: “Plum Island”.

Mas deixemos o título de lado e passemos à história.

John Corey é um detetive de Nova York que, ferido em serviço, tira licença e passa alguns meses de repouso numa casa de campo em Long Island. Ali, Corey passa os dias observando o mar e tomando suas Budweisers tranquilamente, até que é convidado a ajudar em um caso de duplo homicídio que acontece bem perto de onde ele estava morando. As vítimas, o casal Tom e Judy Gordon, eram cientistas do complexo da Ilha de Plum, onde trabalhavam para o governo em possíveis vacinas contra os mais devastadores vírus. Devido a isso, John logo se vê envolvido numa possível tramóia terrorista que pode disseminar a peste pelos EUA e pelo o mundo. Movido pelo instinto e por certo sentimento de vingança, afinal Corey era amigo das vítimas, o detetive, mesmo após ter sido dispensado pela polícia local, segue em suas investigações, se envolvendo cada vez mais com as pessoas e a história daquele lugar.

Ilha do Medo pode até ter um (ou dois, como se descobre mais adiante) tema interessante e DeMille pode conhecer bastante sobre a burocracia que envolve o departamento de homicídios, o FBI e a CIA, porém a história tem defeitos gravíssimos, da narração às descrições, passando pelo personagem principal.

O livro é narrado em primeira pessoa pelo próprio detetive John Corey, que se mostra sarcástico e irônico em todo o desenrolar da trama. Porém seu modo de agir e conversar o torna arrogante e prepotente, causando certa antipatia ao leitor. Até mesmo suas piadinhas passam despercebidas e se tornam sem graça, tamanha é sua arrogância. E, com certeza, o tipo de narração é o pior defeito do livro.

DeMille & Plum

DeMille e a Ilha de Plum

Por ser o próprio Corey quem narra sua história, o leitor vai descobrindo os fatos juntamente com o personagem. E se nem mesmo Corey consegue se lembrar do que lhe chamou a atenção durante uma conversa, dizendo apenas “pim, algo acionou meu sonar”, e escondendo todo o diálogo, resta ao leitor apenas esperar que o personagem descubra o mistério sozinho, tirando-nos aquela deliciosa sensação de estarmos envolvidos na trama, tentando solucionar o caso antes do fim.

Aliás, outra coisa que esses best-sellers momentâneos não conseguem fazer é manter o suspense até o fim. Parece que precisam de um pouco de ação antes de tudo acabar, como se um romance fosse um filme. Diferente de Agatha Christie – que mantinha o mistério até o último capítulo, deixando o leitor pasmado ao descobrir que estava tudo muito bem exposto, só não viu porque não quis – esses recentes romances de sucesso já se entregam logo no meio da história, deixando a segunda metade do livro apenas para correria da captura do antagonista. É o caso de Dan Brown, o atual rei dos thrillers e também do presente livro de DeMille.

Aproveitando a deixa da comparação, também é bom lembrar que Ilha do Medo tem outro grande defeito, também muito cometido por Brown: encheção de lingüiça! Com o passar das páginas, descobre-se que mais de um terço da história de Nelson DeMille é totalmente irrelevante e que diálogos inteiros e até mesmo personagens poderiam ter sido simplesmente deixados de lado na hora de organizar e montar o texto. E veja bem que a versão lida foi condensada.

A que conclusão pode-se chegar, se não dizer que o capitalismo também tomou conta da arte literária? Agora, até a literatura é descartável. Um minuto de silêncio, por favor. 





Não, Obrigado. Obrigatoriedade!!!

22 06 2009

Por 8 votos a 1, o STF decidiu que agora
não é mais necessário ter diploma de jornalista
para exercer a profissão.
E a polêmica tomou conta do país!
E o Magá, como estudante de jornalismo,
não poderia deixar de dar sua opinião, expressa abaixo:

Jornalismo

Por Lucas Magalhães

JornalismolateralA noite da última quarta-feira, 17 de junho parecia terminar como muitas outras, jogo de futebol, jornal, sono. Mas, como eu, muitos estudantes de jornalismo, por pouco não perderam o prazer do descanso, quando o noticiário deu a nota que abria aquela edição, “STF derruba a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista”.
A frase caiu como um punhal. Frustração. Medo. Revolta e indignação não faltaram naquele momento.

Por 8 votos a 1, o Supremo Tribunal Federal derruba uma lei que vigorou quarenta anos no país. Foi um ato legal, mas insano. Talvez comparado à muitas insanidades legitimadas pelo direito brasileiro.

Uma decisão do judiciário que coaduna com o senado proporcionalmente mais oneroso do que o de países maiores e mais desenvolvidos, como os EUA. Com um legislativo que usa o dinheiro público para viagens particulares de amigos, esposas e namoradas. Enfim, uma última revolta sobre esse prisma, cabe dizer aqui, que foi uma decisão própria para um Supremo Tribunal Federal em que seus participantes trocam ofensas do tipo, “Vá às ruas, Ministro Gilmar Mendes” já dizia a voz do Ministro Joaquim Barbosa. “Vá às ruas…” Lembro ainda, na voz do mesmo Barbosa, “vossa excelência está desmolarizando a justiça neste país”, bradava o magistrado. Acusações ocas? Sem frutos? Mas que neste momento comprovam sua fundamentação. Vá pra rua Ministro Gilmar! Vá pra rua! Assim pudéssemos parafrasear, todos nós, estudantes de jornalismo do país.

Bem, foi um golpe duro e injusto. Uma das teorias estudas no curso de jornalismo nos ajuda a analisar um dos principais argumentos para derrubada da obrigatoriedade do diploma. Facilitando o entendimento, segue, segundo a Análise do Discurso, existe um dizer implícito nos atos e falas de quem enuncia. Exemplificando, ao vetar a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo esse atual STF está mostrando ao que se convencionou chamar de “quarto poder” quem realmente manda neste país.

O ministro Gilmar foi acusado, por seu colega Barbosa de não estar nas ruas, ou seja, perto da realidade do povo, sentindo os desejos e necessidades daqueles para quais as leis são feitas. Barbosa disparou na ocasião, “vossa excelência está na mídia!”. Como excelentíssimo está na mídia, para que ter jornalistas com formação histórica, crítica, política, comunicativa e filosófica na cobertura de seu exercício?
Segundo Nilson Lage (1999), informação é utilidade pública, nada melhor para a formação crítica da sociedade do que jornalistas, portanto operários da informação, com senso e formação específica, mas parece que o primeiro poder teme tais profissionais.

Segundo o STF, “a obrigatoriedade do diploma cerceia a liberdade de expressão”. Além de insignificante dizer isso, em uma época de abundantes formas de expressão, a frase que serviu de principal argumento sobre a votação do diploma para o Supremo Tribunal, tem muito a dizer e está sufocada de vozes enrustidas. Em outras palavras o discurso permite interpretar que o Judiciário Brasileiro está bradando: não estudem comunicação, não vale a pena. Claro que não disseram isso explicitamente, o que seria um erro, mas com uma sutileza apenas perceptível a quem está acostumado a analisar certos discursos, percebemos que o veneno foi lançado. Não, não aboliram o curso de jornalismo, fizeram pior, desestimularam a pesquisa e busca pela formação. Deram um golpe também na educação do país.

Bem, tempestade a parte, existem coisas a serem analisadas aqui. Para quem esperava que um papel nos desse a alcunha de jornalista o golpe foi ainda mais mortífero. A escolha pela profissão agora passa a ser uma decisão de foro íntimo e intransferível. O STF fez um favor, tirou a máscara que encobria a profissão de um status ilusório, de um estrelismo ufanista não condizente com a realidade da profissão no Brasil. Não, não temos que pedir bênção ao STF, Congresso e Câmara dos Deputados para nos sentirmos e considerarmos jornalistas, o somos por escolha e esta escolha envolve formação acadêmica e compromisso com a democracia.
Agora, mais do que nunca, os jornalistas com formação acadêmica estão diante do desafio de comprovar por que escolheram estudar esta disciplina, qual é de fato nosso diferencial.
O tempo e outras variáveis vão trazer ainda, muitas respostas, ou contradizer as presentes.