Covil do Orc

Das Raízes da Terra ao Topo da Montanha

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Dois Coelhos e Muitas Cajadadas

Posted by Snaga on janeiro 22, 2012
Publicado em: - ÚLTIMOS POSTS. Marcado: 2 Coelhos, Afonso Poyart, Alessandra Negrini, Caco Ciocler, Cinema, Cinema Brasileiro, Cinema Nacional, Coelhos, Corrupção, Fernando Alves Pinto, Filme, Filmes, Poyart. 1 comentário

Sim, 2 Coelhos (Brasil, 2012) é extremamente influenciado pelos blockbusters americanos, cheio de explosões e efeitos visuais. Sim, o filme também tem o tradicional e calamitoso romance hollywoodiano. Sim, também é cheio de referências à cultura pop e, por muitas vezes, se vale totalmente dela. No entanto cenário e roteiro são extremamente brasileiros. E isso é o que conta! Só é uma pena que, mesmo assim, não seja um ótimo filme.

Dirigido pelo estreante Afonso Poyart (que também escreveu e montou o longa), 2 Coelhos é uma colcha de retalhos, um quebra-cabeças que vai aos poucos tomando forma, numa narração não-linear do amalucado plano de redenção e vingança de Edgar (Fernando Alves Pinto), o protagonista. Amalucado, pois de real não tem nada – o que não é defeito, afinal isso é cinema e não a janela da sua casa.

A lógica desta suposta redenção não fica muito clara, mas tudo é desculpa para muita ação, tiroteio e explosões! Apesar de apelar para o intercâmbio com o cinema americano, o que se vê em cena é bandidagem das ruas e corrupção do governo – um pano de fundo tipicamente brasileiro – e um protagonista pronto a colocar fim em ambos os males (não que a idéia seja realmente exterminá-los de todo, mas, pelo menos, ter seu momento de júbilo sobre eles).

Tecnicamente, o filme não deixa nada a desejar. A direção de fotografia feita por Carlos Zalasik é impecável, cheia de contraste muito bem feitos entre tenção e descontração e alguns planos de câmera bem inusitados. Os efeitos, à cargo de Sérgio Farjalla (que já fez Mercenários e Crepúsculo) são o carro chefe do longa. E até a trilha sonora (que conta com “Sou Foda”) também é bastante instigante.

O que se vê, portanto, é um filme de ação genuinamente brasileiro, algo realmente inédito em terras tupiniquins, com mote e humor (e que humor!) tipicamente nossos. No entanto Poyart parece subestimar o espectador e brinca demais com seu filme. E isso acaba por estragar parte da diversão.

A edição não-linear ajuda a criar um clima de expectativas e até mesmo certo suspense, mas colabora para deixar o roteiro confuso e, por muitas vezes, esconder fatos importantes – como se esconder as peças de um quebra-cabeça tornasse a brincadeira mais divertida para a criança que o monta.

Outro fator negativo é a apresentação caricata de certos personagens, principalmente o deputado, que ali representa toda a corrupção do país. É difícil acreditar na cena em que o congressista, cujo único trabalho é assinar papéis e ganhar dinheiro fácil, se submeta à participar de um tiroteio e uma perseguição em alta velocidade pelas ruas de São Paulo.

A constante narração em off também empobrece bastante a história, fazendo com que todo o roteiro se prenda a ela e deixe de valer por si só.

Para um orçamento de 4 milhões de reais, pode-se dizer que Poyart fez milagre, afinal esse montante é menos da metade dos gastos de Tikhomiroff com seu desastroso Besouro, de 2009. Mesmo assim, ainda falta um quê em 2 Coelhos, algo de redondo.

Eis aí o grande defeito do cinema brasileiro: quando se trata de um filme simples e orçamento baixo, as histórias são sempre singelas, tocantes e geniais; mas se a intenção é complicar e, assim, engrandecer, o cineasta sempre mete os pés pelas mãos e se perde em sua proposta. Uma única cajadada não foi suficiente para matar estes dois coelhos.

Um Novo Covil – 4 Anos de História!

Posted by Snaga on janeiro 21, 2012
Publicado em: - ÚLTIMOS POSTS. Marcado: 4 anos, Aniversário, Balanço, Editoriais, Editorial, Layout, Novidades, Reforma. 3 comentários

É isso mesmo: o Covil está há 4 anos no ar! Claro que não foram 4 anos de super-atividade e, além do mais, 2011 nem foi muito produtivo para este blog, que contou com poucas atualizações. Mesmo assim as visitações e os comentários nunca pararam e, para minha surpresa, apenas aumentaram, fechando o ano com quase 3 mil visitas a mais que no ano anterior, ou seja, cerca de 22.000 acessos! Com uma média de 59 visitantes por dia, 7 a mais que em 2010.

O post mais visitado continua sendo sobre o Drácula, de Bram Stoker, seguido de longe pela interpretação da música “Índios”, da Legião, e pela resenha do livro brasileiro sobre Mitologia Nórdica (o qual, já há dois anos, vem gerando grande discussão nos comentários, inclusive com a ilustre presença do autor do livro, A. S. Franchini).

Neste ano, o Covil ultrapassou a marca de 68 mil visitas e a página de Contos já está à beira dos 2 MILHÕES de visualizações, com dezenas de comentários de alunos dos Ensinos Fundamental e Médio, que têm na área de Contos do Covil, uma ferramenta para realizar e aprimorar seus trabalhos escolares. Além, claro, de diversos apaixonados por literatura que por lá passeiam para se deliciarem com os mais variados contos da Literatura Universal.

E para comemorar tudo isso, este orc que vos escreve preparou uma grande reforma em todos os salões. O conteúdo continua o mesmo, mas as paredes foram pintadas e alguns cômodos redecorados. Tudo para uma melhor apreciação de todos aqueles que por aqui passeiam.

E agora temos uma página no Facebook. Basta clicar em curtir, na caixinha aí do lado, para receber em seu perfil todas as atualizações que aqui forem feitas!

Espero que gostam do novo visual!

Imortais – Muita Cor e Pouca História

Posted by Snaga on janeiro 4, 2012
Publicado em: - ÚLTIMOS POSTS. Marcado: Cinema, Crítica, deuses, Filme, Filmes, Grécia, Immortals, Imortais, Minotauro, Mitologia, Mitologia Grega, Singh, Tarsem Singh, Teseu, Zeus. 7 comentários

Existem duas maneiras de se assistir Imortais (Immortals, EUA, 2011), o novo longa mitológico dirigido pelo indiano Tarsem Singh (A Cela, 2000): 1) levando em consideração tudo o que você sabe sobre mitologia e odiando o filme; ou 2) chutando pra longe os mitos históricos e se divertindo (não mais que isso) com as cenas de ação. Pois sim, o filme se baseia apenas em seqüências de ação, violência e sangue. O resto são imagens bonitas e roteiro vazio.

A narrativa conta a história do herói Teseu (Henry Cavill), um jovem bastardo, filho de estupro, mas que é treinado na arte da guerra pelo próprio Zeus (que lhe aparece sob o disfarce de um ancião). Do outro lado está o rei Hyperion, um tirano que quer libertar os titãs para, assim, destronar os deuses e poder dominar toda a Grécia. Ajudado pelo Oráculo Virgem (Freida Pinto), Teseu tem de liderar seu povo para a grande batalha que salvará o mundo da destruição, mesmo que os deuses não estejam dispostos a ajudar.

No entanto da mitologia grega o filme só aproveita os nomes dos personagens, pois de resto, tudo é invencionice e tolice. A começar por Teseu, que nos velhos mitos é um príncipe e aqui um bastardo excluído pela sociedade em que vivia. Hyperion, que originalmente era um dos titãs, aqui torna-se um rei humano, em busca de vingança contra os deuses. Nem mesmo os temíveis titãs, que tanto trabalho deram a Zeus e sua trupe, são lá grande coisa neste filme: soldadinhos de pedra com expressões de loucos varridos e mestres do kung-fu. Mas o pior de tudo é a colocação dos divinos olimpianos: ouvir da boca de Zeus que nenhum deus deve interferir no destino dos homens, para que assim os humanos possam ter fé em si próprios… isso foi demais. Logo Zeus, um dos deuses que mais interferiu na história da humanidade, capaz de fazer vários filhos bastardos com mulheres humanas, seduzindo-as ou estuprando-as.

Singh até tenta fazer referências e buscar raízes nas lendas gregas quando, em dado momento, coloca seu protagonista para enfrentar o Minotauro dentro de um labirinto, assim como é contado na mitologia. Mas seu monstro, metade homem, metade touro, não passa de um arremedo daquilo que deveria ser, e seu labirinto é apenas uma tumba de corredores apertados, cuja entrada e saída o Teseu de Henry Cavill já conhecia muito bem.

Mas o filme de Singh peca não só por desvirtuar o mito grego, como também pelas rasas justificativas que cada personagem usa para dar motivos de ser ao roteiro.

O rei Hyperion, por exemplo, busca vingança e é capaz de mover céus e terras apenas porque os deuses não lhe atenderam em suas orações. E os diálogos são fraquíssimos (“O sêmen é a maior arma do ser humano”, diz o rei a um de seus vassalos), com falas que beiram o burlesco e discursos cheios de clichês.

No entanto o longa ganha pontos com os figurinos carnavalescos e os belos cenários feitos em computação gráfica. Dignos de estarem na Sapucaí ou num mangá de Cavaleiros do Zodíaco, as armaduras dos deuses do Olimpo dão um quê de original à toda a trama, mesmo com seu espalhafato. Ares com seu moicano de espadas ou Poseidon com suas conchas douradas na cabeça são de uma beleza abrangente quando em contraste com os também espalhafatoso figurinos do exército de Hyperion. E ver os deuses na flor da juventude é também de uma criatividade ímpar – afinal, se são imortais, porque representá-los como velhos barbudos e enrugados?

A arquitetura moderna e simples, completamente diferente das construções da Acrópole de Atenas, num primeiro momento também incomoda, mas parece se encaixar tão bem no filme, que logo se acredita tratar-se realmente de velhas construções gregas.

Feito nos mesmos moldes de 300 (2006), com cenários virtuais, cores vivas e corpos esculturais à mostra, Imortais tenta reproduzir o sucesso de seu antecessor, mas para isso baseia-se apenas na beleza plástica, deixando de lado toda a profundidade que o mito grego poderia realmente lhe proporcionar. Se se mantivesse fiel ao mito de Teseu, Tarsem Singh talvez tivesse muito mais a apresentar – Kurumada que o diga! Mas neste filme, Mitologia (ou um mínimo de historieta) não passa de mero pano de fundo para os belos efeitos visuais.

Uma Jornada que há Muito Esperava

Posted by Snaga on dezembro 21, 2011
Publicado em: - ÚLTIMOS POSTS. Marcado: Bilbo, Bilbo Bolseiro, Cinema, Hobbit, J. R. R. Tolkien, Literatura, O Hobbit, O Senhor dos Anéis, SdA, Tolkien, Trailer. 15 comentários

Na madrugada do dia de hoje, 21 de dezembro de 2012, eu voltei exatos dez anos no passado. Repeti em meu íntimo uma longa jornada que fiz àquela época; uma jornada que mudou para sempre a minha vida. Uma aventura de letras e palavras, que mais tarde se tornaram sons e imagens, e que me fizeram descobrir um mundo totalmente novo.

E tudo isso voltou de repente, para uma nova – e ao mesmo tempo antiga – aventura. Uma jornada que eu há muito esperava. “Ah, as Montanhas Gandalf! Preciso ver as montanhas novamente!” E cá estou eu, cinto afivelado, mochila às costas e um cajado na mão, pronto para enfrentar trolls e orcs, aranhas e um magnífico dragão. “A Estrada em frente vai seguindo/Deixando a porta onde começa./Agora longe já vai indo,/Devo seguir, nada me impeça[...]”.

Sim, Bilbo, eu o seguirei. Serei o 15º membro de sua companhia, assim como fui o 10º membro da velha Comitiva, através de muitas sendas, mesmo sem saber o que vem pela frente!

Para os alienados do assunto, que ignoram tudo o que estou dizendo, eu explico: Peter Jackson e toda a New Line Cinema compartilharam hoje pela internet, a 1h da manhã, o primeiro teaser de O Hobbit – Uma Jornada Inesperada, a primeira parte do filme que adaptará o primeiro livro de J. R. R. Tolkien, muito anterior à Trilogia de O Senhor dos Anéis.

E todo este drama por causa de um filme? Ah, para aqueles que isso se perguntam, deixo apenas a minha mais sincera pena. Pena por não sentirem o mais incondicional amor pela mais singela das aventuras; pena por não saberem o que é viajar para um mundo à parte, mas descobrir que este é nosso próprio mundo. Pena por não conhecerem Bilbo e Gandalf, Thorin e Beorn, Gwaihir e o magnífico Smaug. Que me chamem de alienado aqueles que se intitulam sábios. Que me chamem de sonhadores aqueles que vivem nesta realidade insossa… Não me importo, pois o único chamado que ouço agora, é o do velho mago Cinzento convocando-me para mais uma – ou seria a primeira? – aventura!

E vendo e revendo o trailer, não há defeito a se colocar, não há reclamações a serem feitas. Está tudo aí: Bolsão e Valfenda, as Montanhas e tudo o mais. A mesma atmosfera dos filmes anteriores, a mesma Terra-média de sempre, com velhos e novos amigos, prontos para uma velha nova aventura. Rumo, meus caros, à Montanha Solitária!

 

O Primeiro Ato – Análise de Daniel na Cova dos Leões

Posted by Snaga on dezembro 8, 2011
Publicado em: - ÚLTIMOS POSTS. Marcado: Análise, Análises, Canção, Canções, Daniel na Cova dos Leões, Legião, Legião Urbana, Letra, letras, Música, Músicas, Renato, Renato Russo. 4 comentários

Citações de histórias bíblicas são usadas constantemente para ilustrar diversas filosofias ou diversos fatos do quotidiano. Mas seria possível intitular um ato homossexual citando uma passagem da Bíblia como referência, sem que isso se torne apelativo ou monstruoso para os crentes cristãos? “Essa [música] agora, é sobre uma coisa que é muito boa, mas que no momento está sendo meio difícil. É sobre sexo“, disse Renato Russo em 1988, no Maracanãzinho, se referindo à música que cantaria à seguir: “Daniel na Cova dos Leões”.

Com esta música, lançada no álbum “Dois” da Legião Urbana, Renato começava a expor em sua arte a sua própria homossexualidade, mesmo que de forma muito discreta. Tema que, mais tarde, ele abordaria novamente em várias outras canções, de maneira mais aberta, como em “Meninos e Meninas” (“[...]E eu gosto de meninos e meninas/Vai ver que assim mesmo e vai ser assim pra sempre”). Assim, aos poucos, mesmo que a letra não se referisse a si mesmo, Renato ia expondo ao mundo sua preferência sexual, seus tormentos perante o preconceito da sociedade, suas dificuldades e seus aprendizados nesta área que, para ele, era tão complicada.

Para ouvidos desatentos, a letra de “Daniel na Cova dos Leões” narra uma história de amor comum, um casal apaixonado. No entanto, se interpretada com um pouco mais de atenção e contexto, percebe-se que a letra descreve – prudentemente – um ato sexual entre dois homens – muito provavelmente o primeiro, quando ambos ainda estão na fase de descobertas, num processo de aceitação. Mas não só. A canção, de 3 estrofes apenas, pode ser tematicamente dividida no mesmo número. Primeiro o ato em si, depois o carinho e a cumplicidade e, por fim, o medo e as incertezas diante do novo e do desconhecido.

A única menção direta ao homossexualismo é feita no penúltimo verso da segunda estrofe: “Teu corpo é meu espelho e em ti navego”, deixando claro que o casal que protagoniza a canção pertence a um mesmo gênero, com corpos iguais, reflexos um do outro. E como saber se são dois homens ou duas mulheres? A resposta pode ser encontrada logo nos primeiros versos da música: “Aquele gosto amargo do teu corpo/Ficou na minha boca por mais tempo.” Uma alusão a conclusão do sexo oral entre dois homens.

Sim, a música se inicia com um orgasmo e tudo o que se segue após estes dois vesos são prazeres, dúvidas e aceitações.

“Aquele gosto amargo do teu corpo
Ficou na minha boca por mais tempo.
De amargo, então salgado ficou doce,
Assim que o teu cheiro forte e lento
Fez casa nos meus braços e ainda leve,
Forte, cego e tenso, fez saber
Que ainda era muito e muito pouco.”

A partir do terceiro verso, inicía-se uma pequena metáfora, entre o prazer e o desconforto – ou mesmo o nojo –  causado pelo orgasmo oral, que vai ganhando um sabor diferente, um deleite desconhecido, um amargo que vai aos poucos se adocicando. Se reorganizarmos a frase livremente, ela ficaria mais ou menos assim: “Assim que o teu cheiro fez casa nos meus braços, percebi que isto ainda era muito pouco. E o sabor, que era salgado, então ficou doce.” Perde-se toda a beleza, mas ganha-se mais clareza.

A patir da segunda estrofe, dá-se início ao tema seguinte, a cumplicidade pelos sentimentos mútuos: “Faço nosso o meu segredo mais sincero/E desafio o instinto dissonante.” A homossexualidade, que antes era o segredo maior de cada um em separado, passa a ser de ambos e, juntos, eles desafiam o instinto dissonante, o instinto que destoa, que foge do normal: a atração entre dois homens.

Segue-se então para os terceiro e quarto versos desta estrofe: “A insegurança não me ataca quando erro/E o teu momento passa a ser o meu instante”, quando passam à aceitação, e a insgurança não mais existe. O quarto verso, por sua vez, faz menção direta ao orgasmo. O “momento” e o “instante” são o ápce do prazer. E o gozo de um passa a ser o deleite do outro e vice-versa. Afinal todo o casal que se gosta de verdade, se importa um com o outro, seja em que momento for.

Já a última estrofe é uma das mais belas e mais complexas metáforas da música brasileira:

“Mas, tão certo quanto o erro de ser barco
A motor e insistir em usar os remos,
É o mal que a água faz quando se afoga
E o salva-vidas não está lá porque não vemos.”

A maneira mais correta para interpretá-la é inverter os dois primeiros com os dois últimos versos e entender que a sensação de afogamento é tão frustrante quanto à teimosia de usar remos quando se tem um motor à disposição: pode-se ir longe, mas o medo mantém a vida arcaica.

Apesar da insegurança transmitida pela música, Renato foi seguro o bastante ao entitulá-la, dando-lhe o nome de uma das mais famosas passagens do Antigo Testamento Bíblico: “Daniel na Cova dos Leões”, na qual o personagem-título, um temente a Deus e súdito fiel do rei Dário, é vítima de invejosos, enganado, condenado por traição ao rei e jogado na cova dos leões, onde as feras deveriam decidir seu destino – ou seja, comê-lo vivo. No entanto Deus enviou seus anjos para fecharem as bocas dos felinos esfomeados e o inocente Daniel passou a noite em paz, sem temer as garras ou as presas que o circundavam, até ser retirado dali no dia seguinte pelo próprio rei Dário.

Na palavras do próprio Renato, o título da música se refere à “situação da pessoa que está encurralada e tem que provar alguma coisa. É sobre ter que lidar com uma sexualidade que não é aceita. Tem aquelas imagens de ser barco a motor e usar remo [...] A imagem é essa: Daniel é inocente e é colocado no meio dos leões, só que os leões não o comem. Ele acalma os leões”¹.

Como disse Oscar Wilde em seu prefácio à Dorian Gray, “A Arte reflete o espectador e não a vida”. E não há como negar que a interpretação de qualquer obra de arte – seja ela um quadro, um filme, um livro, uma música etc. – é algo extremamente pessoal e única, ou seja, cada qual tem sua própria visão sobre uma obra artística, baseando-se na sua bagagem cultural, histórica e sentimental. Mesmo assim, o contexto do artista deve-se sempre ser levado em consideração: sua época e sua história. Que muitos interpretem algo à sua maneira, isso é comum e até mesmo correto, mas que as palavras do autor sejam sempre ouvidas: “isso não surgiu com Meninos e meninas. Daniel na Cova dos Leões, do segundo disco, já falava sobre sexo oral”, disse Renato, quando questionado sobre a relação de sua homossexualidade com as músicas da Legião².

Leia também a análise da música “Índios”, do Renato Russo.

1 – Letra, Música e Outras Conversas, de Evandro Geraldo Leoni, 1995.

2 – Renato Russo de A a Z, 2000.

*Abaixo se encontram, para maior entendimento do leitor, um clip da música e sua letra:

Daniel na Cova dos Leões

Aquele gosto amargo do teu corpo
Ficou na minha boca por mais tempo.
De amargo, então salgado ficou doce,
Assim que o teu cheiro forte e lento
Fez casa nos meus braços e ainda leve,
Forte, cego e tenso, fez saber
Que ainda era muito e muito pouco.

Faço nosso o meu segredo mais sincero
E desafio o instinto dissonante.
A insegurança não me ataca quando erro
E o teu momento passa a ser o meu instante.
E o teu medo de ter medo de ter medo
Não faz da minha força confusão.
Teu corpo é meu espelho e em ti navego
E eu sei que a tua correnteza não tem direção.

Mas, tão certo quanto o erro de ser barco
A motor e insistir em usar os remos,
É o mal que a água faz quando se afoga
E o salva-vidas não está lá porque não vemos

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    quem-sou-menu-lateralSnaga é um sonhador, alguém que criou seu próprio mundo e hoje vive boa parte do tempo nele e em função dele. É fanático por cinema, literatura e música de qualidade; formado em Comunicação e trabalha com TV e Cinema. Vive para criar e dar vida, afinal "criamos tal como fomos criados".

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