Somos tão jovensÉ preciso entender que Somos Tão Jovens (Brasil, 2013) não é um filme biográfico, mas mitográfico. O roteiro de Marcos Bernstein não trata Renato Russo como pessoa, mas como ídolo, como mito. Está ali o cantor-herói, erudito e tão imerso em suas próprias composições. Estão ali também todas as lendárias histórias do rock brasiliense, os personagens marcantes e as famosas canções. Enfim, o filme do diretor Antônio Carlos Fontoura não trás nenhuma novidade e é tão leve quantos seus longas anteriores.

A história inicia-se com uma rápida passagem pela epifisiólise de Renato Russo, a doença que, aos 15 anos de idade, o deixou acamado por seis meses e outros doze com dificuldades para andar. E daí conta toda a trajetória do jovem, sua paixão por música, sua conversão ao punk, as influências, os amigos, a formação do Aborto Elétrico, até chegar à famosa Legião Urbana.

Mesmo que o roteiro seja morno, o filme é cheio de pontos fortes e tem muito para ser apreciado. A começar pela ótima escolha de Thiago Mendonça para o papel principal. Ao representar Renato Russo, o ator convence até o fã mais crítico, tanto com seus trejeitos quanto com sua voz ao cantar. A abertura do filme, aliás, chega a confundir o expectador: afinal de contas, quem está cantando? Renato ou Thiago?

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Outros atores também estão excelentes em seus papéis. Laila Zaid ajuda a conduzir o filme todo e é capaz de salvar muitas cenas, apenas por estar presente. Edu Moraes, apesar de parecer um pouco caricato, incorpora com maestria a personalidade do músico Hebert Viana e imita sua voz com perfeição. A família Manfredini também está impecável, com destaque para a lindíssima Bianca Comparato, que faz uma divertida interpretação de Carmem Teresa, a irmã de Renato. Mas o restante do elenco, apesar de muito bem caracterizados e fisicamente parecidos com seus originais, faz feio a maior parte do filme, com interpretações fracas e caricatas.

A caracterização, aliás, é uma das maiores qualidades de Somos Tão Jovens. É muito fácil reconhecer no elenco a identidade dos personagens reais, em parte pelo trabalho de maquiagem e figurino, em parte pelas tomadas muito bem escolhidas.

Alguns fortes contraste entre luz e sombra e a câmera em constante movimento compõem ótimas sequências de drama. De um modo geral, a Fotografia criada pelo estreante Alexandre Ermel ajuda a enriquecer o longa, situá-lo em sua época (o início da década de 1980) e compor sua história.

O único e maior problema do longa fica mesmo por conta do péssimo roteiro. O experiente Marcos Bernstein – roteirista de Chico Xavier, o tocante O outro Lado da Rua e o premiadíssimo Central do Brasil – erra mão ao manter nivelada a história de Somos Tão Jovens. Não há um ápice no roteiro, as pequenas tramas não se fecham em seu decorrer, não há curva dramática e sequer há um final. O filme termina em aberto, apenas com um letreiro na tela, discorrendo sobre o futuro da Legião Urbana.

Somos tão Jovens3Os diálogos criados por Bernstein não ficam naturais na boca dos personagens e, devido a isso, a vida de Renato Russo parece se tornar artificial. Apesar da brilhante atuação de Thiago Mendonça, aquele não é o Renato homem, mas o cantor mito, que dialoga através de versos, que usa de sua poesia para conversar no dia-a-dia e que se apresenta sempre (e sem dúvidas) como o grande astro que será no futuro – como se já fosse um rock-star desde a mais tenra infância.

Os dramas pessoais são quase totalmente deixados de lado e dão lugar à explicações ilógicas sobre a composição de suas músicas, tentando contextualizar cada um de seus versos mais famosos. Enquanto na cinebiografia de Cazuza, sua música era usada como complemento para o filme, em Somos Tão Jovens, o filme é usado como complemento para as canções.

A homossexualidade de Renato é apresentada de forma quase lúdica e muito pouco explorada. As drogas e o alcoolismo apenas pincelados. Renato Russo, o lendário rock-star, está ali presente, como sempre fora apresentado pela mídia, mas Renato Manfredini Júnior, o homem por detrás do mito, com sua mente conturbada, suas tendências depressivas e sua intimidade, não está presente neste longa. É mais fácil encontrá-lo em sua própria poesia.

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O mais novo hit da música mundial veio lá do outro lado do mundo, com língua quase impossível de se pronunciar e entender e é cantado por um rapper gordinho em um clipe aparentemente sem noção. Em contrapartida, aqui no Brasil, esta mesma canção foi copiada e deturpada pelo cantor pop/funkeiro Latino.

Na canção original, chamada Gangnam Style (estilo Gangnam), cantada pelo rapper Psy, busca-se “uma mulher elegante que saiba apreciar um convite para um café”, “uma mulher que é sexy, mesmo sem se mostrar muito” e que se interesse por “um cara que tem mais idéias do que músculos”.

A versão “latina”, porém, segue por outro viés. Aproveitando apenas do ritmo, o cantor brasileiro transformou Gangnam Style em Despedida de Solteiro. E os versos – com o perdão da palavra – na mais pura putaria. Deixa-se de lado a mulher ideal para poder aproveitar uma despedida de solteiro, “laçar, puxar, beijar”, ver “as minas todas nuas”, “de bumbum pra lua”.

Comparação das Letras (clique para ampliar)

Mas de onde mesmo é esse tal de Psy? Ah, é verdade, ele é da Coréia do Sul. É só um minúsculo país lá do outro lado do Pacífico, que tem uma irmã siamesa problemática. É só um país que já foi invadido pelos japoneses e ocupado por quatro anos. É só um país que foi espremido entre EUA e URSS, foi dividido em dois e reduzido a quase nada durante a Guerra da Coréia, na década de 1950. Mas é também o país que mais investiu em educação nos últimos 50 anos e que, devido a isso, deixou no passado toda a destruição que sofreu e é hoje uma potência tecnológica, com um dos mais altos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do mundo. Em 2006, no ranking do Programa Internacional de Avaliação dos Alunos, os sul-coreanos ficaram em primeiro lugar na resolução de problemas, terceiro lugar em matemática e décimo primeiro em ciência. O sistema educativo está tecnologicamente avançado e foi o primeiro país do mundo a equipar todas as suas escolas primárias e secundárias com Internet de banda larga. Com esta infraestrutura, a Coréia do Sul tem desenvolvido os primeiros livros didáticos digitais no mundo, que serão distribuídas de forma gratuita aos estudantes do ensino primário e secundário até 2013.

Opa, mas calma lá. Toda essa tempestade por causa de uma música? Não seria demasiado exagero? Não, não seria.

Psy e Latino têm um mesmo nicho de público – os jovens e os adolescentes. Ambos fazem músicas divertidas e agitadas, com coreografias animadas, que servem para embalar qualquer festa. Entretanto, enquanto o sul-coreano conversa com um público consciente e – porque não? – honrado, Latino precisa falar sobre a “realidade” brasileira, ou seja, “vou ser um vagabundo que anda pelas ruas em busca de sexo fácil e faço das mulheres o que eu bem entendo”… mais ou menos por aí

E tudo isso é reflexo da educação e do desenvolvimento cultural e social do público. Enquanto os coreanos aceitam com facilidade um rapper com responsabilidade social, os brasileiros insistem no funk da sacanagem. Uma sociedade bem educada presa por valores que vão além do “puxar, beijar, vou te pegar… eu quero sexo pra galopar”. Um jovem bem educado valora a si mesmo e sabe valorar os demais à sua volta, sem tratar como objeto aqueles que o rodeiam, sem se prestar à orgia como um modo natural de diversão.

Outro fator importante é o comércio cultural. Com cultura desenvolvida e povo educado, não é necessário roubar um ritmo estrangeiro para se fazer sucesso. Quem sabe cria, não copia! Não pega carona no sucesso de outros para fazer sucesso também. Não plagia! E nesse comércio, o balanço brasileiro é sempre negativo, pois foram raros os momentos da História em que exportamos nossa cultura e nossa criatividade, enquanto a importação da cultura estrangeira nunca cessou em nosso país. Quantas paupérrimas  versões de músicas estrangeiras a Jovem Guarda não fez? E o sertanejo romântico, o pop, ou mesmo o rock? Até a MPB tem canções importadas. E o que da nossa cultura é empurrado para o mundo? A Bossa Nova, que nem sequer existe mais? Não, exportamos o “ai, se eu te pego”.

Recentemente, Cristovam Buarque, o político que mais luta pela educação deste país, disse que “o Brasil vive um apagão intelectual”, referindo-se ao resultado do Ideb deste ano, que não chegou aos 4 pontos entre as escolas públicas e não passou dos 6 entre as particulares. Ainda nas palavras dele, nós “avançamos ficando para trás. Coreia do Sul, Índia, China e Irlanda, que há trinta anos atrás estavam em situação pior que o Brasil, hoje estão melhor, pois fizeram o dever de casa.”

Se nossos músicos precisam importar canções estrangeiras para fazer sucesso por aqui, isso nada mais é que um reflexo do restante do país, cuja economia é baseada na reprodução de produtos criados lá fora, desenvolvidos por marcas estrangeiras.

E o nosso dever de casa, quando é que será feito?

O Contexto Social de Gangnam Style

O contexto de Gangnam Style, a história por detrás do clipe e o que diz os versos originais vão muito além de um ritmo divertido e uma sequência de imagens aparentemente aleatórias e coloridas. Gangnam  é um dos bairros mais ricos de Seul, a capital da Coréia do Sul. Porém, para um país baseado em valores de trabalho duro e honra, o bairro, devido à sua história rápida de formação e desenvolvido (pouco mais de 20 anos), é marginalizado pelo restante da cidade. Ali seus moradores enriqueceram da noite para o dia, mas não por seguir os valores tradicionais sul-coreanos de trabalho e sacrifício, mas sim devido à especulação imobiliária, que tornou a região extremamente valorizada, cuja média de preço de um apartamento é de US$ 716 mil e com escolas cerca de quatro vezes mais caras que no restante do país. Parece estranho para nós brasileiros, mas sim, são ricos excluídos do restante da sociedade.

De uma maneira divertida, Psy trabalha com essas questões culturais em seu clipe, que para nós passam totalmente despercebidas e parece que tudo é uma sequência de imagens sem nexo. O rapper, que vem de uma família rica da região de Gangnam, foge do pré-conceito existente sobre os moradores deste distrito. O personagem do videoclipe não frequenta as caras boates locais, nem as academias abarrotas de coreanas esculturais. Tampouco tem o corpo modelado por cirurgiões plásticos. Pelo contrário, ele dança em um ônibus lotado, cheio de velhinhos aposentados; faz seu discurso sentado em um vaso sanitário; é gordinho e nada bonito; frequenta saunas com gangsteres e lugares cheios de lixo. É um riquinho hipócrita querendo parecer pobre? Talvez. Mas mais que isso, é uma paródia – extremamente divertida – de si mesmo. Talvez nada muito digno de admiração, no entanto há ainda a letra da música a ser considerada. Na canção, busca-se a mulher ideal, que queira viver ao lado de “um cara que tem mais ideias do que músculos”. E só por isso já merecia um bocado de respeito.

Atualização de Última Hora

Qual não foi minha surpresa, enquanto pesquisava para escrever este post, descobrir que a canção Despedida de Solteiro de Latino, está sendo boicotada pelo público!

Uma campanha pela internet convoca os internautas a dar o maior número de deslikes (negativações) na música postada no canal oficial do cantor no YouTube. Até o momento já foram mais de 120 mil deslikes. Estou dando risada! Hahaha

Quem quiser aderir à campanha, basta clicar aqui e dar um voto negativo ao vídeo.

Com informações do G1, Terra, O Globo e Wikipédia.

Atualização 2

Acho que isso encerra o assunto! hahaha

Entre os dias 9 e 19 deste mês ocorreu a 22ª Bienal do Livro de São Paulo. E lá fui eu, no último dia, marcar minha presença na feira, mesmo que apenas a passeio – a experiência adquirida em 2010 já me dizia que eu não compraria nenhum livro, afinal os preços são salgados, mesmo nas promoções de encerramento. No entanto, após horas caminhando em círculos pelo labirinto de estandes, acabei adentrando um cantinho escuro do pavilhão e, escondido lá no fundo, no último corredor, descobri algo que não esperava: o selo Vermelho Marinho, da editora Usina das Letras, e fiquei maravilhado.

Para quem não conhece (como eu não conhecia), este selo é dedicado à literatura brasileira popular contemporânea e vem lançando vários novos escritores – autores de fantasia, terror e ficção científica – tudo com a cara do Brasil. E para minha surpresa, além dos livros, ali também estavam vários escritores interagindo com os visitantes, vendendo o peixe para quem se interessava por suas obras.

Acabei conversando com um deles, que me apresentou seu livro de fantasia (uma aventura infanto-juvenil pelas ruas de São Paulo) e também de outros que estavam expostos por perto. Li algumas sinopses e achei muita coisa interessante. Mas ali os preços também eram altos e, por mais que seja eu apaixonado por fantasia, não estava disposto a ler histórias de adolescentes com superpoderes.

Saltei, portanto, para os estandes seguintes. Estes não eram de editoras, mas particulares: pequenas cabines individuais, onde autores independentes expunham suas desconhecidas obras. Passei por dois e, no terceiro, fui fisgado pelo carisma do professor Alberico Rodrigues, um senhor baiano, já com seus 60 anos. Não resisti e comprei dois de seus livros: “Zé Batalha – O Herói da Minha Infância” e “A Saga de um Baiano na Cidade de São Paulo”.  Este segundo ainda não li, porém o primeiro devorei em apenas algumas horas.

Zé Batalha não chega a ser um romance, mas um conto envolvente, quase uma fábula. Narrado em primeira pessoa pela voz do próprio autor, o livro é um misto de realidade e fantasia, tão bem misturadas que é impossível dizer onde uma termina, onde outra começa.

Alberico retorna à sua infância e se apresenta como protagonista da aventura, contando sobre a vida no sítio da Zona da Mata Baiana e sobre personagens que por ali passavam. A estrada diante de sua casa era seu circo, seu carrossel. Por ali os espetáculos da vida aconteciam, pessoas diferentes passavam e o mundo trazia notícias.

Dentre tantos, o que mais chamava atenção era o ex-escravo Zé Batalha, negro morador do mato, que vivia da natureza, amigo de todos os bichos e sempre acompanhado de seu cão Alegria. O personagem clássico de todas as cidades, todos os lugarejos destas terras tupiniquins. Afinal, qual cidade não tem sua figura folclórico, o velho mendigo bonachão cuja história poucos conhecem, mas que a muitos agrada com seu bom coração e inocência desmedida?

Zé Batalha é o mito vivo, cuja lenda diz que pode se transformar em vários animais. Tudo isso, porém, é ligeira introdução. A história em si se ocupa apenas de um único dia, iniciando-se na boca da noite para terminar no fim da manhã seguinte. Nada de grandioso, nada de complexo. Apenas uma história simples do interior brasileiro, mas para o jovem Albe, uma lembrança marcante de sua infância saudosa. E no fim, o negro é tornado herói.

A rápida leitura trouxe à memória os bons livros da Série Vagalume, que lia quando era criança. E Zé Batalha tem todos os elementos que colocariam Alberico Rodrigues lado a lado com Marcos Rey, Aristides Fraga Lima e Lúcia Machado de Almeida que tanto marcaram minha própria infância. Que venha agora a Saga de um Baiano na Cidade de São Paulo!

Alberico e o Orc – 22ª Bienal do Livro de São Paulo

Depois de seis participações no Telhacast, no decorrer de todo este ano, fui convidado por Thiago Miro a ser integrante fixo de sua equipe de podcasters, completando o grupo de dez membros. Agora, caros leitores do Covil, todos poderão me ouvir com mais freqüência no Telha, incluindo o programa desta semana sobre “Filmes Amaldiçoados”.

Não deixem e ouvir os antigos também: a série especial sobre Tolkien e o cast sobre Drácula.

Boa diversão a todos!

“Geração Coca-cola” deveria ser proibida e jamais tocada novamente por qualquer banda! Uma das mais desafiadoras canções de Renato Russo marcou uma geração, mas perdeu seu contexto, ficou desatualizada, deixou de fazer sentido. Ouvi-la e cantá-la hoje em dia é pura hipocrisia!

Composta por volta de 1978-9, “Geração Coca-cola” é destinada a um público em específico: jovens que nasceram na ditadura militar, viram a repressão, sentiram a estagnação e lutaram – em segredo ou não – para pôr fim ao governo tirânico dos generais. Era uma época completamente diferente da atual. O restante do mundo se dividia em dois, em uma guerra não declarada, às portas de uma possível aniquilação da vida sob o inverno nuclear. As pessoas tinham motivos para lutar e transgredir. Havia um “inimigo” em comum a ser combatido, a rebeldia adolescente não era sem causa e o povo não apenas clamava por mudanças… eles agiam!

“Quando nascemos fomos programados a receber o que vocês nos empurraram com os enlatados dos U.S.A, de nove as seis.”

Após a Segunda Guerra Mundial, a influência norte-americana sobre os países capitalistas crescia cada vez mais. A cultura pop estadunidense e sua indústria eram literalmente impostas aos países amigos. A marca Coca-cola, que intitula a canção, já estava presente no Brasil desde 1942, mas só ganhou força nacional no início da década de 1970, tornando-se o ícone máximo do imperialismo norte-americano.

Legra original de Geração Coca-cola

No Brasil, a programação televisiva era dominada pelos seriados americanos. Mesmo o horário citado na letra da canção não foi escolhido aleatoriamente. Os períodos da manhã e da tarde tinham baixa audiência (como têm ainda hoje) e, portanto, era bem mais barato para as emissoras de TV brasileiras retransmitirem programação estrangeira que produzir algo original. O “horário nobre” começava (e ainda começa) às 6h da tarde, quando finalmente uma programação nacional entrava no ar, com telejornais, novelas, musicais e programas de variedades. Das 9h às 18h, no entanto, o que mais se via eram os chamados “enlatados americanos”, em referência aos produtos industrializados importados.

“Desde pequenos nós comemos lixo comercial e industrial, mas agora chegou nossa vez, vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês”.

A economia ia bem, porém quase nada era originalmente brasileiro. Indústria e comércio automotivos e alimentícios eram filiais de empresas estrangeiras, que chegavam ao país apenas com a promessa de empregos, pois levavam para fora todo o lucro e seus royaltys. Impulsionados pela publicidade da TV, os jovens consumiam tudo o que era produzido ou importado e assim, levando adiante a máxima latina panem et circensis, o governo tentava acalmar e manejar as massas.

Show do Aborto Elétrico na UnB (1978)

Entretanto era chegada a hora de revidar e aqui começa a coragem de Renato Russo e companhia ao propor, lá em Brasília, debaixo dos bigodes dos generais, “cuspir de volta o lixo em cima” dos repressores. E, dessa maneira, ele intitula sua própria geração como “filhos da revolução”, “burgueses sem religião”, “futuro da nação”… e o título que marcaria para sempre os jovens setentistas e oitentistas: “Geração Coca-cola”.

“Depois de 20 anos na escola não é difícil aprender todas as manhas do seu jogo sujo. Não é assim que tem que ser?”

Era o momento de mudar, de deixar de ser o “país do futuro” para assumir sua posição no presente. Os jovens começavam a se manifestar abertamente. O próprio movimento das Diretas Já aconteceria dali a 3 anos apenas. Os 20 anos de escola, citados na música, podem fazer referência tanto aos estudos em si, quanto ao tempo de ditadura, que já governava por quase duas décadas. E engana-se quem pensa que o verso final desta estrofe é uma negativa: é uma ofensiva indagação.

O “dever de casa” citado logo a frente faz exata referência a essas mudanças, a esse novo modo de pensar, à experiência adquirida com o tempo.

“Vamos fazer nosso dever de casa e aí então vocês vão ver suas crianças derrubando reis, fazer comédia no cinema com as suas leis.”

As crianças criadas pela ditadura militar haviam crescido, iriam se voltar contra seus criadores e debochar das leis que eles criaram. Iriam fazer comédia no cinema com tudo aquilo que estava prestes a acabar.

Primeiro álbum da Legião (1985)

Eles – toda a juventude da época – eram os filhos da revolução. Eram a Geração Coca-cola. Mudaram o país, venceram seu inimigo, derrubaram o mal que os dominava. E prometeram um país melhor daí por diante.

Mas a Geração Coca-cola morreu.

Se renderam ao tempo, ao sistema, ao modo de vida que antes abominavam.

As pessoas que na época ouviam Aborto Elétrico estão hoje com seus 45 ou 50 anos, muito bem vivos, casados, pais de família, ativos no mercado de trabalho. No entanto diferentes, talvez céticos e endurecidos demais para terminar o que começaram há 30 anos atrás.

Os velhos “inimigos” tornaram-se sombras de um passado remoto e os novos parecem se misturar à multidão de tal maneira, que passam totalmente despercebidos. Tão, mas tão despercebidos que, muito provavelmente, você mesmo que agora lê este texto, pode ser um destes novos repressores… só não percebeu isto ainda.

E diante de tanta estagnação, a geração do século XXI parece ter se acomodado. Diz, mas não faz; reclama, mas não luta; clama, mas não busca. Deixe como estar, que talvez um dia alguém conserte! É assim que todos parecem pensar.

E tudo isto justifica a proposta de se proibir a execução da velha música de Renato Russo. Apesar de parecer atual, ela é apenas uma lembrança. Lembrança de tempos duros e tiranos. Mas apenas uma lembrança. E hipócritas são todos aqueles que hoje a ouvem, vibram e se emocionam.

Curiosidade: Geração Coca-cola foi a canção que abriu as portas das gravadoras para a Legião Urbana, quase 3 anos após o fim do Aborto Elétrico. A música foi apresentada à EMI em uma fita demo, pelos integrantes dos Paralamas do Sucesso e, originalmente, possuía um ritmo bem mais suave. Foi somente a pedido da gravadora que Geração Coca-cola ganhou seu arranjo mais pesado. Relembrando este passado, a Legião tocou a versão original da canção no lendário show do Metropolitan, no Rio de Janeiro, em 1994, que deu origem ao álbum “Como é que se diz eu te amo”.

Apesar de composta para o Aborto Elétrico, Geração Coca-cola só veio a ser gravada oficialmente 1985, no primeiro álbum da Legião Urbana.

Leia também as análises de:

“Índios”

Daniel na Cova dos Leões

*ABAIXO SE ENCONTRAM, PARA MAIOR ENTENDIMENTO DO LEITOR, UM CLIP DA MÚSICA E SUA LETRA:

Quando nascemos fomos programados
A receber o que vocês
Nos empurraram com os enlatados
Dos U.S.A., de nove as seis.

Desde pequenos nós comemos lixo
Comercial e industrial
Mas agora chegou nossa vez
Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês

Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola

Depois de 20 anos na escola
Não é difícil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
Não é assim que tem que ser

Vamos fazer nosso dever de casa
E aí então vocês vão ver
Suas crianças derrubando reis
Fazer comédia no cinema com as suas leis

Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola
Geração Coca-Cola
Geração Coca-Cola
Geração Coca-Cola

Depois de 20 anos na escola
Não é dificil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
Não é assim que tem que ser

Vamos fazer nosso dever de casa
E aí então vocês vão ver
Suas crianças derrubando reis
Fazer comédia no cinema com as suas leis

Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-cola
Geração Coca-cola
Geração Coca-cola
Geração Coca-cola

Mais uma vez fui convidado a participar do Telhacast. Da primeira vez, fizemos uma série de 5 episódio sobre a vida e obra de J. R. R. Tolkien. Desta vez fizemos um especial sobre o atemporal Drácula, de Bram Stoker. Abordamos o livro, seus contextos e suas diversas adaptações para o cinema, além de um apanhado histórico sobre vampiros.

Para ouvir, basta visitar a página do Telhacast clicando aqui.

Cerca de 15 minutos antes da sessão e a sala começa a se encher. É um documentário, gênero pouco quisto pelo expectador brasileiro, e o filme já está em cartaz há uma semana; mesmo assim o público é grande e as fileiras ficam quase todas lotadas. “Por isso que eu gosto de maconha: um tapinha e a gente relaxa por umas três horas”, comenta alguém na fila de trás. “É sério, tem uma ladeira lá onde o carro sobe sozinho. Só soltar o freio de mão e ele vai subindo”, retruca um outro, referindo-se à cidade de São Tomé das Letras. São jovens e senhores, mas também crianças, muito provavelmente levadas pelos pais, burlando a classificação de 14 anos, para que assim conheçam o grande ídolo de suas juventudes.

Dá-se início à sessão e então são mais de duas horas de silêncio entre a plateia, entrecortado apenas pelos risos diante de depoimentos amalucados de Raul Seixas e das histórias igualmente insanas narradas vez ou outra pelos amigos entrevistados no decorrer do longa. E então vem a cena espantosa – não na tela, mas entre os espectadores: acaba-se o filme, sobem os créditos e ninguém se ergue de sua poltrona. Ficam todos sentados a ouvir Gita e a observar a infinidade de nomes que desfilam tela acima sobre um fundo negro. Os projetores são desligados, as luzes se acendem e um aplauso emocionado se inicia, com pessoas gritando o nome de Raul aqui e acolá, diante da tela apagada em uma mera sala comercial.

Raul não morreu. Não há outra maneira de se falar do pai do rock nacional se não plagiando os eternos fãs do rei do rock mundial: assim como Elvis, Raul Seixas não morreu. O baiano continua vivo em cada um de seus sósias, em cada um de seus fãs-seguidores, em suas músicas e agora mais ainda com este excelente filme do diretor Walter Carvalho: “Raul – o Início, o Fim e o Meio (Brasil, 2012).

Walter Carvalho durante entrevista com Caetano Veloso

No decorrer do longa, transitam pela tela vários amigos e familiares de Raul, jornalistas, fãs, estudiosos e as mulheres do músico – muitas mulheres. Estão presentes o escritor Paulo Coelho, os produtores Solano Ribeiro e Nelson Motta, o jornalista Pedro Bial, os músicos Tom Zé, Caetano Veloso e Júlio Medáglia, entre tantos outros famosos e anônimos que, de alguma forma, estiveram presentes na vida do roqueiro baiano.

Durante a produção (durou três anos) foram realizadas 94 entrevistas, das quais 54 estão no longa. Mais de 400 horas de gravações, as quais foram magistralmente editadas e montadas nas pouco mais de duas horas de duração do filme, mostrando não apenas a carreira, mas também a vida pessoal e amorosa de Raul Seixas, além do legado que ele deixou e que ainda hoje arrasta multidões de fãs – fãs, estes, que também estão presentes no documentário, entoando em coro algumas canções do ídolo.

Com O Início, o Fim e o Meio, Walter Carvalho não tenta endeusar Raul. Trata-o como mito, é verdade, e, como mito, também não tenta explicá-lo. Mas ao mesmo tempo, exibe um Raul homem, careta e maluco, amoroso e mulherengo, celebridade e decadente. Aborda as drogas de maneira seca, sem preconceitos, como parte do dia-a-dia do cantor: éter, álcool, cocaína e tantas outras; todas apresentadas pelo amigo Paulo Coelho, que em momento algum se mostrou arrependido por isso.

O que se vê na tela são pessoas entusiasmadas em falar sobre o roqueiro, deleitosas em contar alguma experiência que viveram com Raul. De todos os contatados por Walter Carvalho, a única que não quis ceder entrevista foi Edith, a primeira esposa do astro. Mesmo assim seu depoimento e sua recusa estão presentes no filme, em uma carta lida via Skype pela filha de Raul que mora nos Estados Unidos. As demais mulheres expõem um Raul conquistador e apaixonado. E nenhuma delas esconde o afeto e a saudade que ainda sentem por ele, mesmo quando contam sobre as traições e o fim do relacionamento. “Ele tinha um hálito doce”, comenta uma delas, saudosista. “Ele cheirava à flores”, suspira uma de suas amantes.

Entre materiais inéditos (como gravações de quando Raul tinha apenas 9 anos) e depoimentos emocionados, a sensação do espectador não é apenas de rever o ídolo e ouvi-lo cantar, mas também sentir… sentir o quão importante ele foi para o cenário musical da época e para a cultura do país. Toca Raul!!!